Em 1975 estava pressionado pelas noites mal dormidas
decorrentes das pressões do Serviço Militar e exigências do Colégio
Universitário da Universidade Federal de Viçosa (Coluni/UFV). O vestibular se
aproximava com uma porção de novas exigências e perspectivas. Nesse contexto de
intranquilidade, encontrei tempo para prestigiar a exibição de André,
a cara a e coragem (1971), segundo longa metragem de Xavier de
Oliveira. O primeiro, estrondoso sucesso de público Marcelo Zona Sul (1970),
deixou excelente impressão. Ambos contam com o protagonismo do então muito
jovem e promissor Stepan Nercessian. Hoje, passados quase 50 anos, gostaria de
saber como esses títulos resistiram à passagem do tempo de tantas e tão
inclementes mudanças. Ainda guardo bem as imagens de André, a cara e a coragem.
É praticamente impossível não se identificar com o personagem do título: André
Souza da Silva de apenas 17 anos, mineiro de Carangola que resolveu tentar a
vida no Rio de Janeiro. Luta bravamente, no desespero da solidão e falta de
perspectivas, para não ser engolfado pela fria, cruel e distante metrópole — ainda
capital do estado da Guanabara. Deixei o cinema fascinado com a exposição
direta, objetiva e precisa. André, a cara e a coragem é exemplo
de cinema narrativo que faltava à produção brasileira naquele período. O
diretor, talentoso contador de histórias, também é acurado construtor de
personagens. André pulsa na interpretação sentida, tensa e, apesar de tudo, contida
de Nercessian. O personagem comunica dramas, histórias, anseios e frustrações
sem a necessidade dos artifícios fáceis e apelativos. Percorre literalmente as
sendas de uma cidade pouco “Maravilhosa”. Raras vezes a metrópole carioca se
mostrou tão despida de ilusões — ponto para a direção de fotografia do também
operador de câmera Edison Batista. Senti André, a cara e a coragem como
exemplo bem acabado de cinema verdade. Deixei a sala de exibição aproximando-o
de clássicos da melhor Música Popular Brasileira: Felicidade, de Tom Jobim
e Vinícius de Moraes, e Pedro Pedreiro, de Chico Buarque de
Hollanda. Segue apreciação escrita em 1975.
André, a Cara e a
Coragem
Direção:
Xavier de Oliveira
Produção:
Lestepe Produções Cinematográficas
Brasil — 1971
Elenco:
Stepan Nercessian, Angela Valério,
Ecchio Reis, Antônio Pattino, Cirene Tostes, Pichim Plá, Maria Regina, Edil
Magliari, Maria Rita, Antônio Augusto, José de Freitas, Ilva Nino, Alvim
Barbosa, Nelson Mariani, Manoel Santana, Divaldo Souza, Emiliano Ribeiro,
Edilson Oliveira, Cid Fayão, Eugenio Santos, Dilberto da Silva, José Guilherme,
Elcy Andrade, Alcídia Tavares, João Gerônimo, Maria Luiza Splendore, José Lube.
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O diretor Xavier de Oliveira orienta Ângela Valério e Stepan Nercessian, intérpretes de Marly e André |
O diretor Xavier
de Oliveira — também produtor e roteirista — abriu a filmografia com o
documentário curto Rio, uma visão de futuro, de 1966. Quatro anos depois, com a metrópole
carioca novamente diante dos olhos, voltou a atenção à juventude de classe
média mal entrada na adolescência. Entregou uma ficção em longa metragem,
praticamente uma crônica sobre os caminhos e descaminhos do processo de descoberta
para a vida: Marcelo Zona Sul, um estrondoso sucesso de público que se
irradiou do eixo Rio-São Paulo para os quatro cantos do país. Além dos ganhos
de bilheteria, fez jus ao prêmio especial concedido pelo governo do estado da
Guanabara: um adicional em dinheiro em virtude da renda alcançada. Nada mal
para uma produção de baixo orçamento, amortizada somente com a venda de
ingressos na praça de realização.
Diante do sucesso
de Marcelo
Zona Sul, Xavier partiu com vigor renovado para o segundo longa.
Permaneceu no cenário carioca e apresentou outra crônica, marcada por
intimismo, melancolia, esperança e desesperança. O resultado é um dos melhores
filmes nacionais dos últimos anos, eficaz na comunicação do drama e discreto na
exposição: André, a cara e a coragem, protagonizado por Stepan Nercessian
lançado no filme de 1970. O ator, de 17 anos, tem a mesma idade do personagem
do título. Perambula literalmente por uma metrópole de aparência pouco
convidativa e magnificamente captada pela direção de fotografia de Edison
Batista. O Rio solar e convidativo das praias e bairros de classe média do
trabalho anterior cedeu a vez à urbe da indiferença e do atropelo, lugar frio e
distante transformado em cruel arena para a encenação da luta pela vida — situação
complicada para um indivíduo anônimo, solitário e forasteiro como o
protagonista.
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Stepan Nercessian no papel de André |
O Rio de Janeiro
parece desabar sobre André, quase outro Marcelo entregue à condição de mão de
obra não qualificada e pronto a encarar qualquer oportunidade em nome da
sobrevivência imediata. A proximidade da prestação do Serviço Militar
Obrigatório é sério entrave para conseguir algo melhor e durável. A produção,
orçada em aproximados 250 mil cruzeiros, mira um personagem ciente de única
certeza: não pode ficar parado. É obrigado a caminhar, procurar e se perder pelo
tumultuado e impessoal centro financeiro-comercial da cidade maravilhosa.
Também é visto nas áreas marginalizadas, empobrecidas e abandonadas pelo poder
público: Santo Cristo, Gamboa, Engenho de Dentro, Cidade Nova, Benfica e ramificações
da Avenida Brasil. Esporadicamente é encontrado na região portuária e,
extraordinariamente, na Zona Sul que mais se parece a estranho outro mundo.
André veio da
mineira Carangola. Entre tentativas, acidentes, incidentes e surpresas, procura,
com sofreguidão, se encaixar em algum lugar que lhe sirva de começo. Acomoda-se
mal numa pensão mixuruca cuja proprietária (Pichim Plá) demonstra preocupação
com os aluguéis atrasados. Os demais moradores, pequenos marginais, o
azucrinam. Apelidaram-no cruel e apropriadamente de Pé na Cova. Busca ajuda e
indicações com conterrâneos relativamente melhor posicionados profissionalmente.
Emprega-se como auxiliar de cozinha da Fundação João XXIII. De pronto conquista
a antipatia gratuita de um colega (Nelson Mariani) e termina no olho da rua. A
próxima função, de agenciador imobiliário, logo se revela ilegal e é
interrompida pela polícia. Segue-se a difícil e antipática vida de cobrador na
qual dura pouco: é enganado e roubado por novos e falsos amigos (José de
Freitas, Maria Rita, Ilva Niño) em raro instante de descontração. Por pouco,
graças ao acidente provocado por Dona Antonieta (Cirene Tostes), não é
transformado em bibelô sexual para senhoras carentes e solitárias da Zona Sul. É
alvo dos interesses afetivos do gerente de banco Guimarães (Antônio Patiño) e do
novo colega de quarto (Edil Magliari), que o deixam em situação desconfortável.
Para aplacar a solidão e o desejo, recorre às frustrantes e instrumentalizadas
relações com prostitutas como a interpretada por Maria Regina. Felizmente, apesar
da alegria de pobre que dura pouco, a desestabilização converge para melhor
situação quando conhece a jovem e meiga Marly (Valério) no novo e prometedor trabalho
de entregador de um complexo tintureiro. Apaixonam-se, sinceramente.
Entretanto, os descuidos provocados pela circunstância logo geram a demissão de
ambos. Assoberbado pelos compromissos que virão com a gravidez da companheira, André
vaga pela cidade tomada pelas expectativas das festas de fim de ano. Avança
indiferente em meio aos transeuntes alegres e à chuva de papel picado. Procura.
Pensa em Marly e no filho que virá. Certamente, Carangola e a família também
estão na cabeça. Sabe que não pode voltar atrás, derrotado. O jeito é continuar.
Que surpresas estão reservadas para o próximo ano?
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A dona da pensão (Pichim Plá) e André (Stepan Nercessian) |
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André (Stepan Nercessian) na zona boêmia com a prostituta interpretada por Maria Regina |
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André (Stepan Necessian) e Marly (Ângela Valério) |
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André (Stepan Nercessian) e Guimarães (Antônio Patiño) |
Objetivo, direto,
conciso e bem interpretado — inclusive por atores conhecidos apenas em bairros
e periferias — André, a cara e a coragem é marcante. Leva o espectador a
pensar nas razões de encontrar poucos filmes parecidos na agenda da produção
nacional, à revelia da pornochanchada e da herança deixada pelo Cinema Novo. A
realização mira o cotidiano de muitos brasileiros, cidadãos incompletos
deixados ao deus dará da falta de atenção e visibilidade. Buscam um lugar ao
sol em época marcada por desilusão e insegurança. A narrativa revela um diretor
com pleno domínio do metieur. Xavier tem
carinho pelos personagens. Recusa-se a estereotipá-los. Todos, inclusive os relegados
a papéis menores, são personalíssimos e dotados de aura específica. Além do
mais, o cineasta soube, como poucos, contar uma história sem a preocupação de
cometer arroubos estilísticos ou de se perder em experimentações renovadoras da
linguagem. Não que isso seja pouco importante. No entanto, vale acima de tudo a
pretensão de deixar aberto um canal para o simples e bom cinema narrativo como André,
a cara e coragem. É realização que procura comunicação com o grande
público deixado quase sempre em estado de orfandade. Faz isso sem recorrer ao
banal, muitas vezes resultado da irresistível vontade de fazer concessões
fáceis e apelativas. Nada disso há no triste, amargo, reflexivo, realista e arrojado
André,
a cara e a coragem. O esforço valeu à produção, merecidamente, os
prêmios Governador Estado de São Paulo para Melhor Direção e Melhor Atriz
(Ângela Valério).
Também é bom ver
que André não é um indivíduo qualquer localizado sem mais nem menos e de forma
imediata no centro de uma narrativa em desenvolvimento. É um ser completo. Tem história
e fortes vínculos com a vida passada junto à família na mineira Carangola. O
núcleo de origem está sempre presente em lembranças e conversas que o
reposicionam existencialmente. Provavelmente, tais imagens e recordações podem
ser apenas idealizações originadas da vontade de possuir alguma estabilidade, principalmente
emocional. Mas são sinceras e suficientes para revelar alguém em seus genéricos
anseios para a vida, apesar da dureza da realidade envolvente, tão competitiva
e com poucas propensões para oferecer algo concreto e durável a alguém como
ele.
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Marly (Ângela Valério) e André (Stepan Necessian): raro instante de felicidade que custará caro |
O filme começa
com a apresentação dos créditos comentados por composição melodiosa, semelhante
a um ângelus, de autoria dos inspirados Denoy de Oliveira (irmão do diretor) e
Maria Aparecida. Seguem-se fotos desbotadas da família, lembranças de folguedos
e da escola, a imagem da carteira profissional tida como sinônimo de
responsabilidade e respeitabilidade. A seguir, vê-se André — André Souza da
Silva, como tantos —, solitário, galgando literalmente as ladeiras e escadarias
da vida na interminável procura que é a tônica dominante e dinâmica de todo o
filme.
Há instantes
sublimes. Um deles é o longo e descompromissado bate-papo de André com Marujo
(Ecchio Reis) no quarto da pensão. Enquanto o garoto pode apenas expor as
lembranças da estreita vida que levou em família e as vicissitudes da busca por
trabalho no Rio de Janeiro, o companheiro correu o mundo em navios e conhece gentes
variadas em lugares os mais diversos. Conta casos e histórias que deixam o interlocutor
maravilhado. O solidário Marujo, que tanto contribui para a recomposição da
humanidade de André, logo estará de partida para passar muito tempo fora. O
outro momento é a suave exposição do primeiro relacionamento sexual de
André com Marly. Acontece em cômodo de uma casa abandonada e em ruínas do
bairro de Benfica.
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Acima e abaixo: Ângela Valério, intérprete de Marly |
Há muito em comum
entre André, a cara e a coragem com recentes clássicos do cancioneiro
popular brasileiro, principalmente A felicidade, de Tom Jobim e
Vinícius de Moraes, e Pedro Pedreiro, de Chico Buarque de
Hollanda.
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Stepan Nercessian como André Souza da Silva |
História, roteiro e diálogos: Xavier de Oliveira. Assistente de direção: Nino Ottoni. Direção de fotografia (Eastmancolor) e operador de câmera: Edison
Batista. Cenografia e costumes:
Armênia Xavier de Oliveira. Música:
Denoy de Oliveira, Maria Aparecida. Montagem:
Manoel Oliveira. Som: José Tavares. Gerente de produção: Denoy de Oliveira.
Produção executiva: Eduardo Osório. Assistência de produção: Divaldo Souza.
Continuidade: Chico Borges. Assistência de câmera: Jaime Macedo. Fotografia de cena: Herberto Tavares,
Dinand. Eletricistas: Gelson Antônio,
Lídio Rocha. Maquinista: José
Pequeno. Sonoplastia: Geraldo José,
A. César. Tempo de projeção: 91
minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1975)