Muitos filmes exploram a temática
da dependência química: Vício que mata (The pace that kills,
1928), de William A. O'Connor e Norton S. Parker; A porta da loucura (Tell
your children/Reefer madness, 1936), de Louis J.
Gasnier; Farrapo humano (The lost weekend, 1945), de Billy
Wilder; Vício maldito (Days of wine and roses, 1962), de
Blake Edwards; Os viciados (The panic in needle park, 1971), de
Jerry Schatzberg; Drugstore cowboy (Drugstore cowboy, 1989), de Gus van
Sant; Trainspotting: sem limites (Trainspotting, 1996), de
Danny Boyle; e, entre outros tantos, Réquiem para um sonho (Requiem
for a dream, 2000), de Darren Aronofsky. Fazem parte de um subgênero
cujas raízes podem ser encontradas nos pioneiros curtas de David Wark Griffith
para a Biograph Company, particularmente em For his son (1912) — por
sua vez tributário do mais primitivo Les victimes de l’alcoolisme (1902),
de Ferdinand Zecca. Aborda o vício em cocaína e a alienação provocada pelo acúmulo
de riqueza segundo a particularíssima visão de mundo do diretor. É um conto
moral. Problematiza a relação entre pai e filho além de fornecer munição aos
inimigos de refrigerantes como a Coca-Cola. Formalmente, é uma produção
convencional diante dos avanços obtidos pelo cineasta no período. Não obstante,
se convenientemente apreciada do ponto de vista histórico ainda se revela impactante
e assustadora. Segue apreciação escrita em 2001.
For his son
Direção:
David Wark Griffith
Produção:
Biograph Company
EUA — 1912
Elenco:
Charles Hill Mailes, Alfred Paget,
Blanche Sweet, Charles West, Dorothy Bernard e os não creditados William
Bechtel, Christy Cabanne, Edward Dillon, Edna Foster, Robert Harron, Dell
Henderson, Grace Henderson, Harry Hyde, J. Jiquel Lanoe, Gus Pixley, W.C.
Robinson, Ynez Seabury, Kate Toncray.
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O diretor David Wark Griffith (à direita) com Douglas Fairbanks, Mary Pickford e Charles Chaplin Foto de 5 de fevereiro de 1919, quando da fundação da United Artists |
David Wark
Griffith dirigiu 72 curtas para a Biograph Company em 1912. Dentre os que conheço,
destacam-se The massacre; The New York hat; O
dilema do assaltante (The burglar's dilemma); The
musketeers of Pig Alley; The painted lady; So
near, yet so far; Two daughters of Eve; Um
Inimigo Invisível (An unseen enemy); The
narrow road; The sunbeam e A sister's love. Percebem-se
nessas realizações, da parte do cineasta, a vontade de se emancipar das
limitações impostas pela empresa produtora e conferir maior dinamismo à câmera,
inclusive ultrapassar as restrições espaciais dos cenários invariavelmente
estáticos e captados de um único ponto de vista. O quinto curta do período, For
his son, está entre os mais convencionais se comparado aos avanços de Griffith
na consolidação de uma expressão própria para a narrativa cinematográfica.
For his son é mais um conto
moral tão caro ao diretor. As intenções se manifestam logo na cartela de
abertura. Durante aproximados 15 minutos o espectador é apresentado ao “Terrível
resultado do egoísmo criminoso”. Decerto é tributário das influências de
Ferdinand Zecca em Les victimes de l’alcoolisme (1902). Especificamente, For
his son trata da dependência das drogas de forma direta e pouco sutil. Talvez
sequer houvesse tempo para uma abordagem menos aguda e intensa do problema.
Afinal, narra uma história complexa com pretensões à verossimilhança em exíguos
quinze minutos. A deflagração do drama do vício encenado pelo título decorre da
excessiva permissividade paterna na educação filial e da ambição desmedida que percebe
as pessoas pela ótica do mais vil e imediato cálculo instrumental.
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Charles Hill Mailes como o médico |
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A cocaína surge como resposta imediata aos problemas financeiros |
For his son é pioneiro do
subgênero “cinema de advertência”. Na sua esteira vieram Vício que mata (The
pace that kills, 1928), de William A. O'Connor e Norton S. Parker; Narcotic
(1933), de Dwain Esper e Vival Sodar't; The pace that kills ou Cocaine
fiends (1935), de William A. O'Connor; A porta da loucura (Tell
your children/Reefer madness, 1936), de Louis J.
Gasnier; Farrapo humano (The lost weekend, 1945), de Billy
Wilder; Na voragem do vício (Something to live for, 1952), de
George Stevens; Vício maldito (Days of wine and roses, 1962), de
Blake Edwards; Os viciados (The panic in needle park, 1971), de
Jerry Schatzberg; e, entre outros, os mais recentes Drugstore cowboy (Drugstore
cowboy, 1989), de Gus van Sant; Vício frenético (Bad lieutenant,
1992), de Abel Ferrara; Trainspotting: sem limites (Trainspotting,
1996), de Danny Boyle; e Réquiem para um sonho (Requiem
for a dream, 2000), de Darren Aronofsky.
Apesar de figurar
entre as realizações formalmente mais pobres da griffithiana, For his son apresenta muitas frentes
narrativas levando-se em conta o momento da realização. Há o consultório médico,
a casa da noiva (Blanche Sweet), a antessala, o laboratório, a botica, o pátio
da transportadora, o escritório, a rua e a residência da secretária (Dorothy
Bernard). Ao espectador contemporâneo, principalmente o mais impressionável, o
roteiro de Thomas McWilliams parte do aterrador pressuposto que ainda oferece
munição aos inimigos dos refrigerantes, principalmente da Coca-Cola: muitos acreditam
na adição de cocaína à composição dessa bebida. Não adiantam os muitos
desmentidos da The Coca-Cola Company e de instituições governamentais voltadas
ao controle de drogas e alimentos. Porém, não era bem assim quando Griffith realizou
For
his son. Inclusive, a cocaína era comercializada sem maiores entraves
nas farmácias e drogarias.
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O médico (Charles Hill Mailes) eufórico com a solução dos problemas financeiros |
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O refrigerante Dopokoke é sucesso de vendas, inclusive entre crianças |
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A cocaína, elemento básico do Dopokoke |
Por meio da
montagem paralela e de alguns enfáticos primeiros planos reveladores, For
his son apresenta a relação temerária, de consequências devastadoras,
entre um médico (Charles Hill Mailes) e o filho jovem, improdutivo e
irresponsável (Charles West). O pai é um profissional remediado. Direciona os
parcos ganhos às necessidades do exigente herdeiro. Para solucionar o problema
da falta de dinheiro, resolve, após algumas hesitações morais, misturar pequenas
doses de cocaína terapêutica a um xarope medicinal. O resultado é uma bebida
atraente e estimulante denominada Dopokoke. Produzida em larga escala, torna-se
sucesso de vendas. O agora milionário médico pode arcar folgadamente com as despesas
do filho. Porém, conforme o esperado, a ambição fala mais alto. Logo se impõe a
vontade de enriquecer mais, como se isso fosse um estupefaciente. Os negócios são
expandidos. Exigem o apoio de contabilidade e secretaria. Por descuido, o
segredo da bebida é revelado. O filho, curioso e volúvel, logo é alcançado pelo
vício. A secretária se faz dependente por obra do contador (Alfred Paget). Cenas
da crescente procura ao refrigerante por populares, inclusive crianças, são
alternadas com a progressiva decomposição física e moral dos viciados. A
relação afetiva do herdeiro é interrompida quando a noiva, horrorizada, toma
conhecimento da situação. Ele já apela para injeções. Abandonado, busca consolo
com a secretária. Unidos na miséria, brigam pela posse de agulhas. Quando o pai
adquire ciência do problema é demasiado tarde.
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A noiva (Blanche Sweet) horrorizada com a dependência do noivo (Charles West) |
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A secretária (Dorothy Bernard) e o jovem filho do patrão (Charles West) degradados pelo vício |
Griffith explicita
o excesso de indulgência paterna na educação do filho. Paralelamente, expõe a
cegueira provocada pelo acúmulo de riqueza. O rápido momento no qual o
vitorioso médico avança de punhos cerrados em direção à câmera, sorrindo e
fumando euforicamente, revela como se alienou à dependência do dinheiro. Nada
mais interessa. Até ser cruelmente devolvido à terrível realidade em virtude dos
próprios atos impensados. Os letreiros de encerramento alertam: “Ele não se
importava com quem vitimava, até encontrar o resultado da própria desonra em
sua porta”.
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É demasiado tarde para o pai (Charles Hill Mailes) e o filho (Charles West) |
Apesar da
simplicidade da exposição, Griffith demonstra domínio da narrativa. Isso se
percebe sobretudo na gestão do tempo de duração dos planos que conferem
vigor à montagem alternada, principalmente quando expõem o crescente consumo de
Dopokoke em concomitância à decrepitude das vítimas. Também merecem menção, em
função da história e da época da realização, os impactantes primeiríssimos
planos que revelam o frasco de cocaína marcado como “veneno” e os dedos em
contato com a substância.
Roteiro: Emmett C. Hall (não creditado).
Direção de fotografia (preto-e-branco) e
operador de câmera: G. W. Bitzer. Tempo
de exibição: 15 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 2001)
en este tierra mundial , entre Chile - Cataluña, te quiero felicitar por tu blog, un trabajo muy grande y bello el compartir fotografías y material de películas. obrigado por mostrar la historia del cine..
ResponderExcluirEs importante lo que realizas y nos muestra de estas películas antiguas. Lo más importante es que creí que te había perdido a desaparecer Google. Me alegro de haberte encontrado. Un abrazo.
ResponderExcluirQuerido amigo Eugenio, es un honor para mi volver a encontrarte en mi blog, siempre tan amable y considerado con lo que escribo.
ResponderExcluirDurante más de un año me he visto en la necesidad personal de dejar a un lado mis actividades en Internet, ya que comenzaron a ser agotadoras para mi salud mental y física, por lo que lamento muchísimo no poder haberte agradecido anteriormente todas tus muestras de compañerismo y cariño. De ahí, que ahora sea mi prioridad visitar tu fantástico blog para darte las gracias y confirmarte que nunca me he olvidado de ti.
Respecto aeste genio del cine: David Wark Griffith y la película "Lo mejor para mi hijo" en español (For his son, me ha resultado bastante interesante tu reseña, con una gran documentación cinematográfica y esos matices tuyos para ir relatando el guión con apreciaciones personales acerca del problema de la drogadicción, que por cierto también afectó mucho al propio director, cuya vida también estuvo unida al automovilismo y al éxito con las mujeres.
Griffith llevaba todas sus ideas en la cabeza y no sabía expresarlas más que con sus películas; solía filmar sin guiones, realizando cada día lo que se le había ocurrido el anterior, a través del complicado plan de un film gigantesco. Griffith no fue un teórico, no escribió apenas sobre su arte, sino anécdotas, y para saber su pensamiento y el alcance de su obra hay que ver sus films.
Se le ha reconocido el mérito de ser el padre del cine moderno.
Besos y abrazos igualmente para ti.