Em geral, inclusive da parte de abalizados conhecedores de
cinema, o francês Abel Gance é considerado apenas um realizador do período
silencioso. Oficialmente, iniciou a carreira em 1911 com o curta La
digue e atingiu o ápice em 1927, nos albores do filme sonoro, com o
arrojado e mudo épico Napoleão (Napoléon vu par Abel Gance).
Realizara, até então, 26 títulos. Merecem destaque, ao menos como curiosidades
e pelo meu conhecimento, Les gaz mortels (1916), Mater
dolorosa (1917), La zone de la mort (1917), A
décima sinfonia (La dixième symphonie, 1918), Eu
acuso! (J’accuse, 1919) e A roda (La roue, 1923). Gance era
movido pela vontade de desafiar e levar adiante as possibilidades narrativas e
formais da sétima arte. Essa vocação experimentadora prosseguiu após Napoleão.
Manifesta-se no novo Mater dolorosa (1933), em Napoléon Bonaparte
(1935) — versão sonora e reduzida da obra de 1927 —, Jérôme Perreau héros des
barricades (1935) e Acuso! — Abaixo a guerra! (J’accuse!,
1938). De 1936 é um dos seus trabalhos mais desafiadores e inventivos: a
cinebiografia Um grande amor de Beethoven (Un grand amour de Beethoven)
protagonizada pelo exuberante Harry Baur na interpretação do compositor e
representante maior do romantismo alemão. É um filme no qual o irrequieto cineasta
procurou romper os limites e possibilidades expressivas do som para expor
contra o pano de fundo da natureza os estados agônicos e extáticos de um
compositor ferido na alma — pela impossibilidade do amor — e no corpo — pelo
avanço irreversível da surdez. Ao tratamento criativo do som se une o ousado
trabalho de câmera na combinação de belíssimos interlúdios musicais que
comentam imagens de muita força dramática. Esteticamente, é realização da maior
importância — ainda mais se especificamente avaliada na moldura temporal em que
foi concebida. Não importa se, hoje, pareça datada ou superada pelo implacável
e enigmático avanço dos anos. Segue apreciação escrita em 1996.

Um grande amor de
Beethoven
Un grand amour de Beethoven
Direção:
Abel Gance
Produção:
Michel Kagansky (não creditado),
Christian Stengel (não creditado)
Générales Productions
França — 1936
Elenco:
Harry Baur, Jean-Louis Barrault,
Marcel Dalio, Jany Holt, Annie Ducaux, Jean Debucourt, André Nox, Gaston
Dubosc, Jane Marken, Sylvie “Marjoleine” Gance, Georges Paulais, Georges Saillard,
Jean Pâqui, André Bertic, Philippe Richard, Enrico Glori, Roger Blin, Dalméras,
Lucas Gridoux, Yolande Laffon, Lucien Rozemberg, Paul Paulay e os não
creditados Maurice Devienne, André Moreau, Nadine Picard, Gisèle Préville, Rika
Radifé, Henri Richard, René Stern, Nadine Vogel.
 |
O pioneiro e experimentador cineasta Abel Gance |
Abel Gance, responsável
pelo assombroso Napoleão (Napoléon vu par Abel Gance, 1927),
afirmou: “O cinema é a música da luz”. Nisso apoiado, levou às telas a vida de
Ludwig van Beethoven (Baur) — nome maior do romantismo alemão no plano musical.
O compositor da Quinta sinfonia teve existência trágica: desilusões amorosas,
avanço paulatino e irreversível da surdez e um difícil final. Morreu em estado
de quase indigência e praticamente esquecido. Doente e humilhado, era explorado
por Karl (Barrault) — sobrinho que tomou sob cuidados. Além de roubar o tio, abandonou-o
quando necessitava de urgente socorro médico.
O roteiro,
escrito por Gance em parceria com Steve Passeur, enfatiza o percurso afetivo e
musical. Abrange o período entre 1801 e 1827, quando faleceu. A narrativa, como
a obra, é acentuadamente romântica — o que lhe realça ainda mais o caráter
trágico. Os personagens parecem joguetes nas mãos do imponderável. Sob essa perspectiva,
Beethoven tem a vida tratada como peça programada pelo destino — contra o qual
é impossível fugir e lutar. Está perfeitamente ajustado à situação. Por isso, resigna-se
diante de percalços e aflições. Da mesma forma, a produção musical não surge
unicamente como produto do gênio criador. Apresenta-se como resposta reativa às
trampas da fatalidade. Basta ver as circunstâncias nas quais compõe Sonata
ao luar: praticamente num relance, no contexto de uma decepção amorosa.
A melodia brota por inteiro após Giulietta Guicciard (Holt) — a famosa “amada
imortal” — comunicar matrimônio com o conde Robert Gallenberg (Debucourt).
 |
Ludwig van Beethoven na representação de Harry Baur |
 |
Jany Holt como Giulietta Guicciardi, a "amada imortal" |
Não é produção
biográfica em sentido estrito. Da sensibilidade de Abel Gance nasce um filme
experimental que procura tirar máximo partido das potencialidades sonoras do
cinema da época. É praticamente um trágico e complexo poema musical. Revela o compositor
envolvido pela criação, como se essa fosse um crescendo de decorrências
incidentais adaptadas para a exposição de um percurso existencial à medida que
os acordes ganham sentido. Muitas liberdades foram tomadas, ainda mais no plano
afetivo-amoroso. Governado pelas paixões, Beethoven é um personagem
profundamente emotivo, vitimado por constantes frustrações. A agonia e o êxtase
o acompanham enquanto avança pelos anos como peça frágil e aleatoriamente arremessada
por poderosas e incontroláveis forças, inclusive as naturais, que o moldam animicamente.
Exemplo desse
estado é a longa e expressiva sequência que o toma perplexo, desesperado e, por
fim, resignado com a percepção da surdez. Ao descontrole inicial advém
desesperada tentativa de compreender a nova condição. Se a vida do compositor é
feita de sons, que fazer diante da impossibilidade de ouvi-los? Resta-lhe
apenas a memória de cantos, trinados, rumores, badaladas, atividades,
brincadeiras, falas, vibrações, cantos, aragens... Poderá apenas imaginar a
música como processo em formação, construção puramente mental. Senti-la
empiricamente, não mais. Considera a possibilidade de suicídio ao mirar o rosto,
qual premonitória máscara mortuária, nas águas do rio. O silêncio é cortante,
desesperador. Não para menos a produção musical é, daí em diante, formada por
expressivos acordes enfáticos e retumbantes, em sintonia com o romantismo que o
envolve qual doloroso rompante de uma subjetividade ferida, magoada e compreensivelmente
repleta de frustração e fúria.
 |
A mãe enlutada do começo da história, interpretada p0r Marjolaine ou Sylvie Gance |
Nas cenas
iniciais, Um grande amor de Beethoven apresenta o personagem confiante,
seguro e tomado pela certeza. Revela-se decidido na execução do consolo musical
— uma peça para piano composta para a ocasião — que aplaca o desespero da jovem
mãe (Marjolaine ou Sylvie Gance) diante do filho morto. A seguir é professor de
música em interação com a pouco promissora Giulietta. Apesar disso, é atraído pela
discípula. Dedica-lhe composições e cartas de amor, para desgosto do pai pouco
afável e compreensivo — o conde Guicciardi (Rozemberg). Quando ela comunica a
Beethoven, em 1803, o casamento com Robert Gallembert, nasce a belíssima e
melancólica Sonata ao suar. O toque dramático maior vem com a celebração da
união: o compositor se tranca na catedral, no aposento do órgão, e ilustra a
ocasião — para desespero dos presentes — ao expor o próprio estado de alma: executa
a Marcha fúnebre, opus 26 da Sonata
para piano 12. Desiludido, fixa residência no rústico e isolado moinho
de Heiligenstadt. Aí sente o início da surdez e parece receber das mãos do
destino a inspiração para os primeiros acordes da Quinta Sinfonia, concluída
em 1808. Ocasionalmente é tomado pela vontade suicida. A apaixonada e
masoquista Thérèse Brunswick (Ducaux) se entrega a ele intensamente, qual
esposa dedicada. Chega a imaginar que é a “amada imortal”. Logo se desilude. Apesar
de agradecido e dependente, Beethoven jamais a amará verdadeiramente. No
entanto, compõe para ela, em 1803, Eroica ou Terceira Sinfonia. Nesse
contexto nascem a Sexta (Pastoral), Sétima e Oitava
sinfonias. Enquanto isso, o casamento de Giulietta fracassa. Infelizmente, nada
possa ser feito para reparar um antigo amor destroçado. A amada restará como lembrança
incômoda, fantasmagoria sempre pronta a atormentar a alma nada pacífica do
compositor.
 |
Schuppanzigh (Paul Pauley), Thérèse Brunswick (Annie Ducaux) e Beethoven (Harry Baur) |
A narrativa
avança até o ano da decepção de 1826. Beethoven é rejeitado pelas cortes e
plateias. Compositores considerados mais suaves e refinados tomam-lhe o lugar.
O editor Steiner (Dalio) recusa as partituras da Nona e Terceira
sinfonias. Velho, alquebrado, doente e reduzido à quase indigência, abriga-se
com Thérèse nas dependências de um velho mosteiro. Tem os parcos recursos dilapidados
pelo parasitário Karl. No leito de morte, em 1827, recebe a notícia de que seus
trabalhos foram efusivamente recebidos na corte alemã. O reconhecimento chega
demasiado tarde, faz questão de frisar: “A comédia terminou. Resta aplaudir”.
 |
Ludiwig van Beethoven (Harry Baur) no leito de morte |
Visto 60 anos
após a realização, Um grande amor de Beethoven parece envelhecido. A concepção contribuiu
para tanto. Não obstante — e isso parece importar —, foi ousado e inovador para
a época. Menos não se esperaria do incansável experimentador Abel Gance.
Permanece impactante o modo como as imagens comunicam os primeiros sintomas de
perda de audição. Nesses momentos, todas as cenas que captam o ponto de vista
do compositor são desprovidas de signos sonoros. Transmitem, ainda hoje,
terrível e perturbadora sensação de angústia.
 |
Giulietta Guicciardi (Jany Holt) e Thérèse Brunswick (Annie Ducaux) |
 |
Jean-Louis Barrault como o sobrinho Karl |
Em termos
propriamente biográficos, ainda assim repletos de liberdade, Abel Gance se
concentra quase que totalmente nos aspectos pertinentes à vida romântica e
indigência material de Beethoven. São elementos narrativos básicos, no sentido
mais tradicional. Apesar de tais momentos merecerem ampla visibilidade, de tão
aparentes, a direção alcança a grandeza na utilização da música que a tudo
ilustra e comenta. No cerne do filme está a identidade romântica do personagem e a maneira desta filiação conflitar com seu gênio
criativo e, inclusive, intensificá-lo. O ápice dramático da percepção da surdez
gradual e intermitente não demora a entrar em cena e é o elemento fulcral dessa
cinebiografia. Mereceu encenação intensa e brilhante. Como elemento meramente
ilustrativo ou sem maior importância em algumas cenas, a música se reveste de intemporalidade
com o objetivo de captar o dado emocional de episódios os mais diversos de uma acidentada
e incomum trajetória. No conjunto, apesar do envelhecimento estético, Um
grande amor de Beethoven sobrevive pela beleza e honestidade do
tratamento. É realização importante no que pretendeu oferecer de experimental,
principalmente como interação entre imagem e som com o objetivo de gerar uma
obra ímpar — lograda com orçamento limitado — e que está longe de ser
classificada como mestra.
 |
Harry Baur como Ludwig van Beethoven |
Felizmente, Abel
Gance teve a sorte de contar com um ator repleto de possibilidades dramáticas. Harry
Baur tem desempenho sublime, principalmente nos sofridos e longos momentos finais
— coroados pela lenta transformação do semblante moribundo na antecipada
máscara mortuária. Baur revela, sob o impacto de dores e agonias, um ser que
desejava desesperadamente o amor e o reconhecimento — como qualquer homem que
se preza. Apesar disso, resignou-se a uma triste condição de forma a mais
realista. Incapaz de superar reveses físicos e afetivos, mobiliza forças
sobre-humanas para seguir em frente — concentrado exclusivamente na produção
musical. É algo que o cineasta parece ter compreendido muito bem. Tanto que há
uma utilização praticamente apoteótica das composições, ainda mais quando a
arrojada interpretação de Baur o projeta no cerne da irracional fúria dos
elementos manifestados como vendavais, nuvens escuras e carregadas, ventania e
o movimento algo fantasmagórico das pás do moinho.
Sob outro ponto
de vista, Beethoven surge como claro produto de seu tempo, vivamente recortado pelo
impulso transformador aberto pela Revolução Francesa e prolongado nas campanhas
napoleônicas. O compositor é como uma fúria remodeladora numa Alemanha avessa
ao sopro da modernidade revolucionária. Solitário e incompreendido, uniu seus
poderosos acordes às forças que lhe pareciam disponíveis. Estas decorrem da
natureza como ordem capaz de ser domada pela vontade de uma música pulsante e
ardente, pronta a atribuir sentido e ordem ao universo que o rodeava. A
natureza, no filme, é uma realidade panteísta. Impulsiona e inspira a
composição sob chuva, vendavais e trovões. Alguns desses momentos são
impressionantes e contribuem para retirar a realização de Gance do campo das
biografias tradicionais. Remetem Um grande amor de Beethoven a um
patamar que pode ser classificado de impressionista ou até surrealista. É
cinema da inventividade.

Roteiro: Abel Gance, Steve Passeur. Diálogos: Steve Passeur. Operadores
de câmera e direção de fotografia (preto e branco): Robert Lefebvre, Marc
Fossard. Engenheiro de som: Georges
Leblond. Decoração: Jacques
Colombier. Montagem: Marguerite
Beaugé, André Galitzine. Script girl:
Paule Boutaut. Música: Franz
Schubert (Marcha militar), Ludwig van Beethoven (Sonata ao luar, Melancolia,
Sonata
para piano 12, Quinta Sinfonia, Sexta
Sinfonia, Oitava Sinfonia, Nona Sinfonia). Adaptação e apresentação musical: Louis Masson. Direção musical: Philippe Gaubert,
regendo a Orchestre de la
Sociète des Concerts du Conservatoire de Paris. Piano: Lucas. Órgão: Marcel Dupré. Direção
de produção: Christian Stengel, Marc le Pelletier, Louis Daquin. Assistente de direção: Jean Arroy. Coordenação de efeitos especiais (não
creditada): Paul Minine, Nicolas Wilcké. Tempo de exibição: 135 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1996)