Viçosa/MG, meados dos anos 60: a dieta de um menino
atraído pela cinefilia era composta por filmes dos estúdios Disney, variados
westerns, comédias românticas, aventuras bélicas e de capa-e-espada, épicos
bíblicos e pseudo-históricos, reapresentações das estripulias de Harold Lloyd,
do Gordo e o Magro e de Os Três Patetas. E, claro, não podiam faltar as
peripécias de Tarzan. Nessa época, o personagem criado por Edgar Rice Burroughs
vivia prolongada decadência cinematográfica, quadro acentuado desde 1948,
quando Johnny Weissmuller deixou de representá-lo após vestir a tanga ao longo
de 12 aventuras. Mesmo assim, o homem-macaco teria fôlego para atravessar a década de 60 e continuar nas telas mais além. Eu estava com nove anos quando vi, em
1965, Tarzan, o magnífico (Tarzan the magnificent, 1960), de Robert
Day. Fiquei impressionado, em primeiro lugar, pela violência excessiva, algo inédito
se comparado a outros filmes do personagem. Também não havia as famosas e divertidas
acrobacias em rios, árvores e cipós, ou medições de força com animais. Mais
tarde, por conta de revisões, percebi o quanto este Tarzan estava distante de
qualquer veleidade que lembrasse o "bom selvagem". É excessivamente
metódico, calculista, pragmático e tingido de civilização. A apreciação, datada de 1976, foi iniciada por volta de 1969, quando minhas anotações ainda eram
feitas em pequenos cadernos escolares, organizadas em tópicos que resumiam o
filme e lhe apontavam algumas qualidades. A adjetivação excessiva, típica da
idade, foi suprimida, restando o pequeno texto a seguir.
Tarzan, o magnífico
Tarzan the magnificent
Direção:
Robert Day
Produção:
Sy
Weintraub, Harvey
Hayutin (não creditado)
EUA — 1960
Elenco:
Gordon
Scott, Jock Mahoney, Alexandra Stewart, John Carradine, Betta Saint John,
Lionel Jeffries, Gary Cockrell, Earl Cameron, Charles "Bud" Tingwell,
Al Mulock, Harry Baird, Christopher Carlos, Ron McDonnell, John Sullivan, Ewen
Solon, Jacqueline Evans, Thomas Duggan, Peter Howell, John Harrison, George
Taylor.
Esta é a trigésima-sexta
aventura cinematográfica do personagem criado por Edgar Rice Burroughs. Nas
telas, em termos de sobrevida, ninguém se compara a Tarzan. Apareceu pela
primeira vez em 1918, na pele de Elmo Lincoln, em Tarzan, o homem macaco (Tarzan
of the apes), de Scott Sidney.
O massudo
professor de educação física Gordon Scott é o décimo-primeiro intérprete de
Tarzan. Vestiu a tanga pela primeira vez em Tarzan na selva misteriosa[1]
(Tarzan’s
hidden jungle, 1954), de Harold Schuster. Depois apareceu em Tarzan
e o safari perdido[2]
(Tarzan
and the lost safari, 1956) e Tarzan e tribo Nagasu[3]
(Tarzan
fight for life, 1958), dirigidos por Bruce Humberstone. Sob as ordens
de John Guillermin atuou em A maior aventura de Tarzan (Tarzan’s
greatest adventure, 1959).
Após Tarzan,
o magnífico, Scott passou a tanga a Jock Mahoney, intérprete do
personagem em Tarzan vai à Índia (Tarzan goes to India, 1962) e Os
três desafios de Tarzan (Tarzan’s three challenges, 1963),
realizados por Robert Day.
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Gordon Scott é Tarzan em Tarzan, o magnífico: a mais violenta caracterização do homem-macaco |
Mahoney é o vilão
Coy Banton em Tarzan, o magnífico. Condenado por assassinato, escapa da
prisão graças à pronta e brutal ação de seus irmãos — Martin (Mulock), John
(Cockrell) e Ethan (McDonnell) — e do próprio pai — Abel Banton (Carradine). Os
Banton formam uma quadrilha de métodos cruéis e covardes. Na libertação de Coy,
matam um guarda. A seguir, buscam refúgio na selva. Mas são perseguidos pelo
Inspetor Wintors (Sullivan). Este recaptura Coy. Mas é emboscado e assassinado pelos
Banton quando reconduzia o fugitivo ao presídio de Kayroby.
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O vilão e assassino Coy Banton (Jock Mahoney) com Fay Ames (Betta Saint John) |
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Abel Banton (John Carradine) com os filhos Martin (Al Mulock, à esquerda) e John (Gary Cockrell) |
Tarzan intervém.
Consegue deter e imobilizar Coy. Por segurança, pretende transportá-lo de barco
à prisão. Mas Abel Banton, prevendo os movimentos do homem-macaco, intercepta e
destrói a embarcação antes que chegue ao porto.
Agora, a única opção
para chegar a Kayroby é um longo percurso a pé, por terreno perigoso e mal
explorado. A situação ruim é agravada quando Tarzan se vê obrigado a contar com
a companhia de passageiros do barco destruído: o cientista Ames (Jeffries) e
sua esposa Fay (Saint John); o médico Conway (Tingwell) e a namorada Lori
(Stewart); e o auxiliar de piloto Tate (Cameron). Atrás do grupo, ganhando
terreno, seguem Abel, Martin e John. Ethan morreu na emboscada que vitimou
Wintors.
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De esquerda para a direita: Conway (Charles Tingwell), Tarzan (Gordon Scott), Lori (Alexandra Stewart) e Ames (Lionel Jeffries) |
O casal Ames traz
vários problemas à comitiva de Tarzan. O marido, cientista arrogante, é tão incapaz
e covarde quanto o Dr. Zachary Smith (Jonathan Harris) da série de televisão Perdidos
no espaço (Lost in space)[4].
A esposa posa de lady enfastiada.
Coy, perspicaz, canaliza a situação em proveito próprio. Provoca Mr. Ames de
todas as formas. Leva-o a disparar tiros inúteis, que servem à orientação dos bandidos.
Flerta com Fay, que o liberta, acompanhando-o na fuga. Mas a pobre coitada é
abandonada e devorada por leões. Coy reencontra a família, mas não há tempo
para comemorações. Tarzan logo aparece. No embate com o homem-macaco morrem
todos, exceto Coy. Outra vez recapturado, é, enfim, entregue às autoridades da
fronteira.
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John Carradine interpreta Abel Banton |
Tarzan, o
magnífico surpreende. É, provavelmente, a mais violenta aventura
cinematográfica do personagem. Aqui, o homem-macaco não está para brincadeiras.
Guarda pouquíssimas semelhanças ao “bom selvagem” tantas vezes visto nas telas
e que teve melhor personificação pelo campeão olímpico de natação Johnny
Weissmuler[5].
O Tarzan do filme em apreço é um vingador furioso e implacável, sempre armado
de arco e flecha. Não se faz acompanhar de Cheeta, Jane e Boy. Dispensa cipós e
sequer emite o famoso grito. Nunca esteve tão racional, adulto e
ocidentalizado.
Foi filmado no Quênia com a participação das tribos Kikuyo e Masai.
Foi filmado no Quênia com a participação das tribos Kikuyo e Masai.
Roteiro: Berne Giler e Robert Day, com base no personagem
de Edgar Rice Burroughs. Direção de fotografia
(Eastmancolor): Ted Scaife. Direção
de arte: Ray Simm. Montagem:
Bert Rule. Gerente de produção: Roy
Parkinson. Assistente de direção:
Clive Reed. Operador de câmera: Alan
Hume. Fotografia adicional: Jack
Mills. Supervisão de som: John Cox. Gravação de som: Bob Jones, Buster
Ambler. Edição de som: Ted Mason. Continuidade: Betty Harley. Decoração: Scott Slimon. Guarda-roupa: Felix Evans. Penteados: Ivy Emmerson. Música: Ken Jones. Maquiagem: Tony Sforzini. Produção
executiva: Sy Weintraub (não creditado), Harvey Hayutin (não creditado). Tempo de exibição: 82 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1976)
[1] No Brasil, também é conhecido
como Tarzan
e os selvagens.
[2] No Brasil, também é conhecido como
Tarzan
e a expedição perdida.
[3] No Brasil, também é conhecido
como Tarzan
luta pela vida.
[4] Criação de Irwin Allen e produção
da Columbia Broadcasting System (CBS). São três temporadas com total de 84
episódios realizados de 1965 a 1968 e originalmente levados ao ar durante o mesmo
período.
[5] Johnny Weissmuler interpretou
Tarzan em doze filmes realizados de 1932 a 1948: Tarzan, o homem macaco, (Tarzan
the ape man, 1932), de W. S. Van Dyke; A companheira de Tarzan (Tarzan
and his mate, 1934), de Cedric Gibbons e dos não creditados Jack Conway
e James C. McKay; A fuga de Tarzan (Tarzan escapes, 1936), de Richard
Thorpe e dos não creditados John Farrow, James C. McKay, George B. Seitz e
William A. Wellman; O filho de Tarzan (Tarzan finds a son!, 1939), de
Richard Thorpe; O tesouro de Tarzan (Tarzan's secret treasure, 1941), de
Richard Thorpe; Tarzan contra o mundo (Tarzan's New York adventure, 1942),
de Richard Thorpe; Tarzan, o vingador (Tarzan triumphs, 1943), de Wilhelm
Thiele; Tarzan e o terror do deserto (Tarzan's desert mystery,
1943), de Wilhelm Thiele; Tarzan e as amazonas (Tarzan
and the amazons, 1945), de Kurt Neumann; Tarzan e a mulher leopardo
(Tarzan
and the leopard woamn, 1946), de Kurt Neumann; Tarzan e a caçadora (Tarzan
and the huntress, 1947), de Kurt Neumann; e Tarzan e as sereias (Tarzan
and the mermaids, 1948), de Robert Florey. No Brasil, Tarzan,
o homem macaco é também conhecido como Tarzan, o filho das selvas.
Esse Tarzan sempre me marcou e fez parte de meu imaginário das tardes dos anos 70. O Eugênio marca sua critica comentando a violência, ou quase truculência, do personagem Tarzan, que atravessa essa narrativa nas selvas. Mas confesso que, entre meio assustado e desejando cenas tão fortes quanto as do filme, gostava desse Tarzan que está para pouca conversa e quer resolver o que precisa ser resolvido. Ainda que o bom selvagem fique para trás, um Tarzan mais contemporâneo nunca me incomodou...Vai ver que um certo senso de justiça rápida e precisa me acompanhe desde tenra adolescência. Uma vez um herói, sempre um herói.
ResponderExcluirHoje, provavelmente, talvez não ficasse tão impressionado com este Tarzan, meu caro "Anônimo" (você não assinou o comentário!). Mas, na idade dos 9 anos, este Tarzan mexeu com o meu imaginário curtido de tanto ver outras realizações mais anemas do homem-macaco. Quanto ao mais, só posso concordar com você. Este Tarzan estava à frente do seu tempo. É um Tarzan para os dias de hoje.
ExcluirAbraços.
Amigo, como é bom relembrar.....
ResponderExcluirTarzan e Perdidos no espaço!!!Sempre adorei estas séries, muito interessantes e exaltavam a bondade, o contato com o animal selvagem, mas não havia maldade...e perdidos no espaço era muito show, eu não perdia de forma nenhuma!!!!
bjus
obrigada pela grande lembrança!
http://www.elianedelacerda.com
Olá, Elyane Lacerda.
ExcluirTambém fui um ardoroso fã de Perdidos no Espaço, sem esquecer outras aventuras seriadas como Terra de Gigantes, Túnel do Tempo, que transitavam pelo terreno da ficção científica. Mas as que mais curtia eram os westerns como O Homem de Virginia, Bonanza, Chaparral, Lancer...
Este "Tarzan, o magnífico" é um filme único dentre todos aqueles que foram dedicados ao Homem Macaco. Provavelmente, é o mais adulto, exatamente devido às características que explicitei.
Abraços.
Quando Sol Lesser saiu da produção dos filmes de Tarzan, assumiu Sy Weintraub, que passou a produzir as aventuras do Homem-Macaco de uma forma mais adulta, quase que perdendo a áurea fantástica do herói criado por Edgar Rice Burroughs. Quando ele enfrenta o vilão interpretado por Anthony Quayle e o derrota, nem o grito de vitória dos grandes macacos é ecoado pelo herói. Outro detalhe nas produções de Weintraub é que Tarzan passa a ser mais articulado e inteligente no que nos filmes produzidos por Sol Lesser e que tinham Johnny Weissmuller e Lex Barker como intérpretes do Rei das Selvas. Gosto muito de Gordon Scott, que também pegou as produções de Lesser, e se o compararmos nas atuações anteriores, se nota a mudança de interpretação de Scott a partir destes dois exemplares produzidos por Weintraub! Muito bom!!!!!
ResponderExcluirAbraços
PAULO TELLES
BLOG FILMES ANTIGOS CLUB ARTIGOS
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Paulo Telles,
ExcluirEste comentário de "Tarzan, o magnífico" é um dos primeiros que ousei escrever para um filme. Começou a tomar forma em fim dos anos 60, conforme destacado na postagem. Ainda sou impressionado com a racionalidade e o pragmatismo que dominam o personagem nesta aventura. São características que me provocaram estranhamento quando a assisti em 1965. Nessa época, estava tomando conhecimento de várias outras aventuras do Homem Macaco, sempre reprisadas nos cinemas. Os títulos eram incontáveis. Todo domingo havia um filme de Tarzan em exibição nos cinemas de Viçosa. Mas "Tarzan, o magnífico" ainda mantém a aura de obra única.
Forte abraço.
O melhor filme de Tarzan de todos os tempos com o melhor ator para o papel, a melhor história e o melhor final. Sou fã incondicional desse filme top 20, pois mostra muito de nossa civilização ocidental e que precisa sempre do espírito usado pelo herói nesta película para conseguir vencer os desafios da vida.
ExcluirOlá, Edison Peixoto!
ExcluirAo menos para mim, TARZAN, O MAGNÍFICO é o mais realista dos filmes do personagem. Faz muito tempo que o vi. Na ocasião, os cinemas ainda exibiam muitos realizações com Tarzan. Na cidade onde cresci, Viçosa/MG, geralmente se via um exemplar todo fim de semana. Mas a peculiaridade de TARZAN, O MAGNÍFICO, me marcou para sempre. É um filme único sobre o Homem-Macaco".
Abraços.
José Eugenio Guimarães
Gordon Scott é super lindo, tb me marcou seu Tarzan... Adoraria rever...
ResponderExcluirAcredito que não será difícil encontrar TARZAN, O MAGNÍFICO em sites e/ou programas de download, Sibely! Já tentou uma busca no youtube? Sei, ao menos, que aí poderá encontrar muitas imagens em movimento com o Gordon Scott.
ExcluirAbraços e boa tarde.
Nice
ResponderExcluirThank you for your consideration, Tourism Gemza.
ExcluirEugênio, muito boas as matérias e os comentários (de alto nível) deste seu blog. Tudo muito bom mesmo. Sobre esta matéria a respeito de Gordon Scott e seu "Tarzan, o Magnífico", é perfeita. Realmente é um Tarzan diferente, violento, perigoso. Também observei isto desde a primeira vez que o vi. Na época não gostei muito de ver Jock Mahoney (então um de meus heróis do faroeste), aparecendo como um bandidão sem escrúpulos. Mas eu tenho este como um dos bons filmes de Tarzan. Tem muita gente que considera Gordon Scott como tendo sido o melhor dos três mais famosos Tarzans (Johnny Weissmuller, Lex Barker e Gordon Scott). Não é o meu caso. Continuo com Weissmuller.
ResponderExcluirGrande abraço e parabéns por este blog e seu consistente conteúdo.