Dentre as produções marcantes de
minha infância está Astúcia de um rebelde (Big Red, 1962), dirigido por Norman
Tokar para os Estúdios Disney. Antes de conhecê-la acompanhei, por volta de
1963-64, a
adaptação publicada em quadrinhos no Suplemento
Dominical do então vibrante jornal Correio da Manhã. Pude vê-la no
cinema em 1966. Na oportunidade, o encanto manteve-se preservado e assim
permaneceu durante anos. Infelizmente, tomei a decisão de revê-la na entrada da
vida adulta e toda a magia se esboroou. Astúcia de um rebelde é o primeiro
trabalho do confiável e rotineiro Norman Tokar para o cinema e a Disney. Na empresa,
sempre bateu ponto no setor das produções live
action. O roteiro de Louis Pelletier, extraído de novela de Jim Kjelgaard,
conta história ambientada e filmada nas áreas verdes vizinhas à cidade de
Quebec, Canadá. Big Red é um Setter Irlandês treinado para brilhar em exposições. Torna-se
o centro da discórdia entre o indiferente e solitário proprietário James Haggin
(Walter Pidgeon) e René Dumont (Gilles Payant), garoto órfão e carente
contratado como tratador. As contradições evoluem para a quase tragédia e
culminam em operação de busca e salvamento por áreas remotas, acidentadas e
selvagens das matas próximas. O desenvolvimento é pedestre. Os melhores valores
residem nos desempenhos dos personagens centrais e no sóbrio acompanhamento
musical a cargo de Oliver G. Wallace e da afamada dupla Richard e Robert M.
Sherman. Segue apreciação escrita em 1975.
Astúcia de um
rebelde
Big Red
Direção:
Norman Tokar
Produção:
Walt Disney (não creditado)
Walt Disney Productions
EUA, Canadá — 1962
Elenco:
Walter Pidgeon, Gilles Payant, Émile
Genest, Janette Bertrand, Georges Bouvier, Doris Lussier, Rolland Bédard, Teddy
Burns Goulet.
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O diretor Norman Tokar |
Certamente, com
respeito aos cães, a Walt Disney Productions merece a palma pela divulgação que
lhes proporcionou no cinema. Caninos das mais variadas raças ganharam o conhecimento
do grande público graças aos desenhos animados e filmes de ação viva da
companhia. Alguns conseguiram ampla popularização por conta desse empenho: o
Cocker Spaniel — A dama e o vagabundo (Lady and the tramp, 1955), de Clyde
Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske; Labrador Retriever — O meu
melhor companheiro (Old Yeller, 1957), de Robert
Stevenson; Sheepdog — Felpudo, o cão feiticeiro (The
shaggy dog, 1959), de Charles Barton; Skye Terrier — Meu
leal companheiro (Greyfriars Bobby: the true story of a dog,
1961), de Don Chaffey; Dálmata — A guerra dos Dálmatas (One
hundred and one Dalmatians, 1961), de Clyde Geronimi, Hamilton Luske e
Wolfgang Reitherman; mestiços — Nikki, o valente indomável (Nikki,
wild dog of the North, 1961), de Jack Couffer e Don Haldane; Bluetick
Coonhound — Na trilha dos Apaches (Savage Sam, 1963), de Norman Tokar;
e os Dachshund e Dogue Alemão — Um amor de companheiro (The
ugly Dachshund, 1966), de Norman Tokar.
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Walt Disney com o Setter Irlandês Champion Red Aye Scraps, "intérprete" de Big Red |
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Gilles Payant, intérprete de René Dumont |
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Foto promocional: Gilles Payant, Champion Red Aye Scraps e Walter Pidgeon, intérprete de James Haggin |
Um dos mais
carismáticos exemplares dessa leva é o Setter Irlandês batizado de Big Red (o
nome real é Champion Red Aye Scraps) em Astúcia de um rebelde. É o título de
estreia do rotineiro e confiável Noman Tokar na direção cinematográfica e no
quadro de funcionários dos Estúdios Disney. Amparava-o uma experiência de dez
anos (1952-1962), quando garantiu o suprimento de episódios para as mais
diversas séries da nascente televisão.
Astúcia de um
rebelde está preso às limitações do realizador. É obra
corriqueira, centrada no carisma do cão e nos desempenhos corretos do reduzido
elenco. Se alguma potencialidade havia no roteiro de Louis Pelletier — adaptado
do romance Big Red, de Jim Kjelgaard — não se converteu em ato pela
direção. Nem os maravilhosos cenários naturais canadenses do entorno de Quebec
foram adequadamente aproveitados pela convencional direção de fotografia, em vivo Technicolor ,
a cargo de Edward Colman. O resultado final é frio, apesar da boa embalagem.
Dramaticamente, conta história sobre carências afetivas e personalidades
incompreendidas dos solitários James Haggin (Pidgeon), René Dumont (Payant) e,
até certo ponto, do próprio Big Red.
O milionário
Haggin, criador de cães, pagou vultosa quantia de cinco mil dólares por Big
Red. No entanto, não nutre especial afeto por eles. Interessa-se somente nos
ganhos financeiros que poderá auferir em exposições e feiras. É viúvo solitário
e lacônico, amargurado pela perda do filho durante a guerra. Terá a vida lentamente
redirecionada ao contratar o jovem René para auxiliar o veterinário Emile
Fornet (Genest) nos cuidados mais básicos exigidos pelo canil.
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Acima e abaixo: René Dumont (Gilles Payant) nas brincadeiras com Big Red |
Órfão,
praticamente só no mundo, René tem forte personalidade e muito poder de decisão.
Carente, afeiçoa-se aos animais e é plenamente correspondido — principalmente
por Big Red. Esta relação, aos olhos e interesses do imediatista Haggin,
revela-se perniciosa. Afinal, o cão é submetido a distrações pouco condizentes
com o comportamento centrado exigido pelas rigorosas normas que regem as
exposições. Por isso, resolve afastá-los. Os resultados dessa decisão
desencadeiam uma quase tragédia de efeitos danosos ao animal. Contra todas
as circunstâncias, René assume a pronta determinação de salvá-lo do sacrifício
definitivo.
Big Red serve
como ponto de intersecção do embate de personalidades entre René e Haggin.
Apesar da aparência de homem indiferente, preocupado apenas com dinheiro, o
personagem defendido por Walter Pidgeon não deixa de se preocupar com o futuro
do garoto — principalmente quanto aos estudos negligenciados. Este, por sua
vez, não teme recriminar o patrão pela falta de afeto aos cães — o que não deixa
de ser uma forma de extravasamento da própria carência. Para evitar novos
problemas e contra a vontade de Haggin, deixa o trabalho. Consegue nova
ocupação na propriedade vizinha. Descobre, após breve e áspero contato com o antigo
chefe, que Big Red e a companheira Molly foram vendidos e se encontram perdidos
em região erma e acidentada após fugirem do trem que os transportava ao novo
proprietário.
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Acima e abaixo: René Dumont (Gilles Payant) nas brincadeiras com Big Red |
Evidentemente,
René abre mão de tudo e parte em operação de busca e salvamento. Atrás dele
segue James Haggin, vivamente interessado no bem estar do garoto. A partir daí
a narrativa é encaminhada para o clímax dramático e da ação. René localiza os cães,
acrescidos dos respectivos filhotes. Com a providencial intervenção de Big Red,
também encontra e salva o acidentado, ferido e imobilizado ex-patrão ameaçado
por um leão da montanha. Juntos, partem para formar uma nova família. O epílogo,
cessados todos os conflitos, é tipicamente disneyano.
Apesar das
limitações, principalmente do ralo tratamento dramático com respeito aos perfis
dos personagens principais, Astúcia de um rebelde conta com
excelentes desempenhos do veterano Walter Pidgeon e do novato Gilles Payant em
seu único trabalho para o cinema. Quanto a isto, ponto para a produção: não é apenas
um filme animado pelas peripécias e olhares carentes de um cachorro esperto e carismático.
O elenco de apoio, centrado basicamente em Émile Genest e Janette Bertrand, dá conta
do recado apesar de pouco exigido.
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René Dumont (Gilles Payant) com Big Red e prole |
Por fim, merece
destaque a sóbria e pouco invasiva trilha musical de Oliver G. Wallace
acrescida da canção Mon amour perdu — também conhecida como Big Red’s Theme — de Richard
M. Sherman e Robert B. Sherman.
Direção de fotografia (Technicolor, Panavision): Edward
Colman. Roteiro: Louis Pelletier,
com base em novela de Jim Kjelgaard. Música:
Oliver G. Wallace. Figurinos: Chuck
Keehne. Montagem: Grant K. Smith. Coprodução: Winston Hibler. Produção associada: Erwin L. Verity. Direção de arte: Carroll Clark, Marvin
Aubrey Davis. Som: Robert O. Cook. Decoração: Hal Gausman, Emile Kuri. Operador de câmera: Travers Hill (não
creditado). Edição musical: Evelyn
Kennedy. Treinador do Setter Irlandês:
William R. Koehler. Maquiagem: Pat
McNalley. Orquestração: Walter
Sheets. Mixagem de som: Dean Thomas.
Assistente de direção: Arthur J.
Vitarelli. Direção de segunda unidade:
Jack Couffer (não creditado). Operador
de câmera da segunda unidade: Lorne C. Batchelor. Canções (letra e música): Richard M. Sherman, Robert B. Sherman. Sistema de mixagem de som: RCA Sound
Recording. Tempo de exibição: 89
minutos.
(José
Eugenio Guimarães, 1975)