Minhas memórias cinéfilas guardam a lembrança de amigos de
infância apaixonados por filmes de terror. Na verdade, devido aos rigores da
censura de então, não haviam assistido a nada do que comentavam. Mas sabiam de tudo
sobre peripécias cinematográficas de Drácula e outros seres do macabro, graças
às revistas em quadrinhos que reproduziam filmes ou pelas muitas matérias
publicadas em veículos diversos. O filme de Kurt Neumann, A mosca da cabeça branca
(The
fly, 1958), exercia enorme atração sobre a garotada. Só tive
oportunidade de vê-lo já adolescente, graças à Sessão Mistério da TV Globo, em
1972. A história, pavorosa segundo os padrões da época, liquidou com a
tranquilidade de minhas noites de sono. Bastava cerrar os olhos para o diptera do
título zunir em torno da cama, durante assustadoras semanas. Hoje — com a
banalização do mistério e a explicitação dos temas sobrenaturais —, não deve amedrontar a mais ninguém. Principalmente depois de A mosca (The fly, 1986), releitura
de David Cronenberg — repleta de gosma, degradação e perebas — ao conto de George
Langelaan, publicado e premiado pela Playboy em 1957. Aqui, a oportunidade
permite a rememoração da eficaz, simples, direta e atualmente olvidada produção
B de 1958. A apreciação a seguir, datada de 1974, é uma das primeiras
experiências do autor na abordagem de filmes.
A mosca da cabeça
branca
The fly
Direção:
Kurt
Neumann
Produção:
Kurt
Neumann, Robert L. Lippert (não creditado).
20th
Century-Fox
EUA — 1958
Elenco:
Vincent
Price, Al Hedison, Patricia Owens, Herbert Marshall, Kathleen Freeman, Betty
Lou Gerson, Charles Herbert e os não creditados Eugene Borden, Harry Carter,
Arthur Dulac, Torben Meyer, Franz Roehn, Charles Tannen, Bess Flowers.
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Moldes utilizados por Al Hedison da cabeça metamorfoseada da mosca e o diretor Kurt Neumann |
A mosca da cabeça
branca é clássico de horror e ficção científica. O roteiro de James Clavell
adapta o conto The fly, de George Langelaan — originalmente publicado na Playboy
de junho de 1957 e imediatamente elevado ao patamar dos melhores desse ano. A
narrativa — densa, concisa e de qualidade — fez jus ao prêmio com o nome da
revista. O cinema logo se interessou. Foi filmado com baixo orçamento no rápido
prazo de 18 dias, número reduzido de atores e cenários. Estes basicamente se concentram
no laboratório do cientista Andre Delambre (Hedison) — palco do trágico
acidente que o vitimou para sempre — e são extensão da casa que divide com a
esposa Helen (Owens) e o filho menor Philippe (Herbert).
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Al Hedison, futuro David Hedison, interpreta o cientista Andre Delambre |
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Charles Herbert interpreta Philippe Delambre, filho de Andre (Al Hedison) |
Andre desenvolvia sigilosa pesquisa para a Força Aérea. O trabalho
resultou no teletransportador — aparelho capaz de restaurar a integridade
molecular de coisas e seres depois de os transportar, desintegrados, muito além
do ponto de origem. Antes do pleno aperfeiçoamento, foi testado em seres vivos.
O pobre gato de estimação da família desapareceu por completo. Feitos os reajustes,
o próprio inventor se entregou como cobaia. O sucesso da aferição seria completo
se não fosse pelo detalhe da mosca distraída a invadir, sem ser percebida e na
hora H, o compartimento de desintegração. Na recomposição, as moléculas dos
dois entes foram misturadas e reorganizadas da pior maneira. Andre passou a
ostentar, acima do pescoço, a cabeça do inseto proporcionalmente reajustada em
tamanho. Nas mesmas condições, uma pata da intrusa substituiu um dos braços. O
cérebro do infeliz permaneceu em perfeito funcionamento. Mas a fala foi prejudicada
e a aparência geral não ficou das melhores. Como primeira reação, encapuzou-se
por completo e se isolou da família. Porém, desprovido de condições para
resolver sozinho o problema, teve que solicitar o auxílio de Helen. A mosca
metamorfoseada com partes do seu corpo teria que ser encontrada. A esposa ainda
desconhecia o estado do marido, algo que o espectador apenas cogitava.
Curiosa e aflita, Helen descobre a cabeça de Andre. Sobrevém uma das
cenas mais assustadoras do cinema. Incrédula e apavorada diante da visão, tem o
rosto multiplicado na tela — conforme a capacidade visual de uma mosca na qual
o marido parcialmente se transformou — acompanhado por grito de pleno horror. Como
a específica criatura não é encontrada, cessam as esperanças para o consorte voltar
à normalidade. Resta-lhe a desesperada opção de apressar o próprio fim. Mais
uma vez terá que contar com o auxilio da atordoada mulher. O ato de extremo sacrifício
obriga-a a acionar gigantesca prensa industrial para esmagar por completo cabeça
e membro do infeliz cientista, de modo a não sobrar vestígios da fracassada
experiência.
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O cientista Andre Delambre (Al Hedison) metamorfoseado |
Findo o trágico e
brutal ato de imolação, Helen — fora de si e pressionada pelo remorso — confessa-se
culpada de assassinato ao cunhado François (Price), mas não consegue explicar
os motivos. A polícia, via inspetor Charas (Marshall), entra no caso. Ela corre
o risco de ser presa. Seu estado aparenta loucura, ainda mais pelo estranho
hábito de sempre vasculhar a casa à cata de uma mosca de peculiar aparência. Por
fim, forçada por François, revela a verdade. Mas não convence o policial,
disposto a interná-la.
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Andre Delambre (Al Hedison) e Helen (Patricia Owens) |
Felizmente — na
falta de palavra mais apropriada —, tudo se põe em pratos limpos, em sequência
angustiante e pavorosa. No jardim, acompanhado do sobrinho Philippe, François tem
a atenção despertada por pedidos de socorro quase inaudíveis. Logo descobre a
fonte dos chamados: a mosca com a cabeça de André, prisioneira em uma teia, prestes
a ser atacada por uma aranha. Charas, chamado a testemunhar o terrível quadro,
perturba-se com a visão. Desconcertado e movido pela piedade, desfere esmagadora
e definitiva pedrada sobre a inusitada cena. O estranho caso envolvendo a morte
de Andre Delambre chega ao fim, como decorrência de suicídio.
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Helen (Patricia Owens) |
A mosca da cabeça
branca — apesar do baixo orçamento característico do padrão de produção B —
prima pela eficácia na manipulação dos elementos do mistério, suspense e pavor
ao longo dos seus 94 minutos. Um clima angustiante, ampliado pelo quase
incessante zunido do inseto na trilha de som, percorre o filme desde o fatal
experimento ao ponto no qual Helen remove o capuz da cabeça do marido. O
espectador praticamente a acompanha no grito de desespero e pavor. Também sofre,
imobilizado e impotente, nas terríveis cenas finais.
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O terrível e angustiante final: Philippe (Charles Herbert) e o tio François Delambre (Vincent Price) diante da teia de aranha que aprisiona a mosca metamorfoseada (abaixo) |
Muito depois, o
ator Al Hedison — Albert David Hedison Jr. — alterou o prenome artístico apenas
para David, com o qual ficou mais conhecido — principalmente ao dar vida ao Capitão
Crane do submarino Seaview na série de TV Viagem ao fundo do mar (Voyage
to the bottom of the sea)[1],
criada por Irwin Allen.
Roteiro: James Clavell, baseado no
conto The Fly, de George Langelaan. Direção de fotografia (CinemaScope, Color DeLuxe): Karl Struss. Música: Paul Sawtell. Montagem e desenho de produção: Merrill
G. White. Maquiagem: Ben Nye. Efeitos especiais fotográficos: L. B.
Abbott, Jack B. Gordon (não creditado). Figurinos:
Adele Balkan, Charles Le Maire. Decoração:
Eli Benneche, Walter M. Scott. Penteados:
Helen Turpin. Consultor de cor:
Leonard Doss. Assistente
de direção: Jack Gerstman. Som: Eugene Grossman, Harry M. Leonard.
Direção de arte: Theobold Holsopple, Lyle R. Wheeler. Sistema de mixagem sonora: Stéreo em 3
canais pela RCA Sound Rocording. Edição
de som (não creditada): Don Isaacs, Dick Jensen. Assistente de montagem: Orven Schanzer (não creditado). Continuidade: Kathleen Fagan (não
creditado). Planejamento dos créditos:
Wayne Fitzgerald (não creditado). Instrutor
de diálogos: Clarence Marks (não creditado). Lentes de CinemaScope: Bausch & Lomb. Tempo de exibição: 94 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1974)
[1] Produção da Cambridge em associação com a 20th
Century-Fox Television. A série é composta de 110 episódios distribuídos por
quatro temporadas. Originalmente foi lançada pelo canal estadunidense ABC
(American Broadcasting Company) em 14 de setembro de 1964 e encerrada em 31 de
março de 1968.