A esta altura, passados 44 anos, poucos sabem de um filme
brasileiro chamado O descarte. É bem urdida história de uma conspiração que abala a
sanidade mental da protagonista Cláudia Land (Glória Menezes), jovem viúva
herdeira de um complexo industrial de alumínio. Reclusa desde a morte do marido
em brutal acidente de automóvel, cuida da louca irmã Tereza (Maria Amélia
Marcondes Ferraz). Experimenta um renascimento afetivo ao se envolver, sob o
véu da discrição, com o muito mais novo Bruno (Ronnie Von), do qual pouco sabe.
Tem a estabilidade emocional afetada ao receber ameaçadoras cartas anônimas. De
nada adiantam o apoio do médico e amigo Pedro Oliveiros (Fernando Torres) e as
investigações do Comissário Aguiar (Mauro Mendonça). Praticamente
solitária diante das intimidações, Cláudia evolui para acentuado estado de paranoia
com sérias consequências. O descarte é bem conduzido drama
psicológico apoiado no desempenho de Glória Menezes. É praticamente um
veículo promocional para a atriz, produzido pelo marido, o também ator Tarcísio
Meira. O roteiro concebido pelo diretor é baseado no livro Um crime perfeito de
Flávio Manso Vieira. Evidencia mais uma vez o talento de Anselmo Duarte como
diretor de atores, encenador, narrador e bom criador de climas e atmosferas. A
montagem de Carlos Coimbra é outro elemento a valorizar. A apreciação a seguir
é de 1974.
O descarte
Direção:
Anselmo Duarte
Produção:
Tarcísio Meira, Anselmo Duarte
MM Empreendimentos e Comércio,
Cinedistri
Brasil — 1973
Elenco:
Glória Menezes, Ronnie Von, Carlos
Vereza, Fernando Torres, Mauro Mendonça, Rosita Thomaz Lopes, Célia Biar, Vera
Gimenez, Leda Valle, Olivier Perroy, Maria Amélia Marcondes Ferraz, Abel Pera,
Enoch Batista, Alcione Mazzeo, Elisa Fernandes, Zbigniew Ziembinsky, Heloísa
Helena, Carlos Eduardo Dolabella, Luiz José, Ibrahim Sued, Hyeda Rocha.
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O diretor Anselmo Duarte |
Na filmografia do
diretor Anselmo Duarte, O descarte segue a Um
certo capitão Rodrigo (1971). Este foi realizado após o ambicioso Quelé
do Pajeú, de 1969, e estrelado pelo galã das telenovelas da TV Globo,
Tarcísio Meira. Nesse mesmo ano, o cineasta também participou, junto com C.
Adolpho Chadler e Daniel Filho, do episódico e obscuro O impossível acontece[1],
com o segmento O reimplante.
O descarte reúne, novamente,
Tarcísio Meira e Anselmo Duarte. Desta vez o ator comparece como produtor. Impulsionado
pela visibilidade conferida pelas telenovelas, Meira experimentava, desde 1969,
praticamente sem solução de continuidade, frutífero namoro com o cinema. Além
de Quelé
do Pajeú, atuou em Máscara da traição (1969), de
Roberto Pires; Verão de fogo (OSS 117 prend des vacance, 1971),
coprodução entre Brasil, França e Itália com direção de Pierre Kalfon; As
confissões do Frei Abóbora (1971), de Braz Chediak; Missão:
matar (1972), de Alberto Pieralisi; Independência ou morte
(1972), de Carlos Coimbra; e O marginal (1972), de Carlos Manga. Agora,
exclusivamente como produtor, Meira se dedicou a viabilizar um veículo para a
parceira romântica dos teledramas e esposa na vida real: Glória Menezes. A
intérprete de Rosa em O pagador de promessas (1962), de
Anselmo Duarte, apresentou-se para a tela grande em Lampião, o rei do cangaço
(1964), de Carlos Coimbra; Eu, ela e o
outro, de Daniel filho — parte de O impossível acontece —; e Independência
ou morte. Tem em O descarte a chance de brilhar como
protagonista em um drama psicológico com conotações policiais. Gira
exclusivamente em torno da personagem que representa: a milionária Cláudia
Land, carente viúva de meia idade. Testemunhou a trágica morte do marido
Eduardo (Perroy) em acidente automobilístico. Como parceiro por assim dizer
romântico de Glória Menezes está Ronnie Von no dúbio papel de Bruno — em outros
círculos é conhecido como Marcelo. Na ocasião, o cantor e compositor investia
na carreira cinematográfica. Um ano antes marcou presença em Janaína,
a virgem proibida, de Olivier Perroy.
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Acima, ao centro e abaixo: a socialite e viúva Cláudia Land (Glória Menezes) experimenta um renascimento emocional no relacionamento com Bruno (Ronnie Von), também conhecido como Marcelo |
O descarte é adaptação, por
Anselmo Duarte — autor roteiro —, do livro Um crime perfeito, de Flávio Manso
Vieira[2].
Mereceu do Instituto Nacional do Cinema (INC) o prêmio Coruja de Ouro de Melhor
Montagem de 1973. Em 1974, Glória Menezes recebeu o Diploma de Mérito dos
Diários Associados de São Paulo na categoria de Melhor Atriz e, na
oportunidade, também foram premiados Anselmo Duarte pela Melhor Direção e Aila
de Jesus por Melhor Montagem. O título foi nominado ao Kikito de Ouro de Melhor
Filme no Festival de Gramado de 1974.
Cláudia Land é
praticamente onipresente no centro da trama. Não tem filhos e cuida da louca
irmã Teresa (Marcondes Ferraz). Interrompe dois anos de reclusão, decorrentes
de viuvez traumática e precoce, ao experimentar um renascimento emocional quando
conheceu e se deixou apaixonar pelo jovem e sedutor Bruno. Pouco sabe do
presente e da vida pregressa do rapaz. Porém, com o avanço do relacionamento,
mantido em quase sigilo, ela se torna alvo de cartas anônimas que a ameaçam de
morte. Assustada, apela ao médico particular e amigo, o neurologista Dr. Pedro
Oliveiros (Torres). A polícia, representada pelo Comissário Aguiar (Mendonça),
assume as investigações. Importante detalhe chama a atenção da expansiva e
pouco discreta amiga Renata (Biar). A grafia das cartas é parecidíssima à de
Cláudia, fato confirmado pela perícia. Pressionada, a personagem nega a autoria
das missivas.
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Acima e abaixo: o neurologista Pedro Oliveiros (Fernando Torres), Cláudia Land (Glória Menezes) e o Comissário Aguiar (Mauro Mendonça) |
Nada de relevante
é descoberto. As pessoas próximas são, aparentemente, acima de qualquer
suspeita. No entanto, as intimidações prosseguem e elevam a tensão. Cláudia
afunda em crescente paranoia. Desconfia de tudo e de todos. Tem pesadelos com o
marido. O espectro a responsabiliza pelo acidente que o vitimou. A sigilosa
relação com Bruno vem à tona quando passa a suspeitar do rapaz, de quem fugiu
apavorada após um idílico encontro. A polícia o procura, inutilmente. Mesmo
assim, ele não deixa de manter desesperados contatos com a amada.
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Cláudia Land (Glória Menezes) desesperada com as visões de Eduardo (Olivier Perroy), o marido morto |
Após ser violentamente
assediada por um motoqueiro anônimo (Vereza), a frágil situação psicológica da
protagonista piora. Convencida por Oliveiros, é submetida a uma bateria de exames
neurológicos que confirmam desequilíbrio mental. Deverá passar por cirurgia
cerebral, ou poderá enlouquecer como a irmã. Estava na sala de operações,
praticamente anestesiada, quando uma terrível verdade é esclarecida.
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Cláudia Land (Glória Menezes) é submetida a intensos exames neurológicos |
O descarte deixou boa
impressão, apesar das constantes insatisfações de Anselmo Duarte com o cinema
brasileiro. Estas vinham à tona periodicamente, desde que se tornou, muito
injustamente, alvo preferencial dos cinemanovistas e de amplos setores da
imprensa. As causas de tudo — um misto de ressentimento e inveja — se encontram
nas consagradoras vitórias de seu O pagador de promessas em mostras e
festivais: Palma de Ouro de Melhor Filme em Cannes, Prêmio Especial do Júri no
Festival de Cartagena, e o Golden Gate para Melhor Filme e Melhor Trilha
Musical (Gabriel Migliori) no Festival Internacional de São Francisco.
Duarte é ótimo
encenador e contador de histórias. Tem talento para criar climas, atmosferas e conduzir
atores. Tira bom proveito dramático de cenários e enquadramentos. Valorizado
por tudo isso, O descarte resulta em filme denso e tenso em sua aparente
simplicidade. Ainda por cima, é beneficiado por um final surpreendente que expõe
uma situação de homossexualismo reprimido em nome da preservação das aparências
e um quadro de sórdida mesquinharia que provoca a vil manipulação do estado
mental da protagonista. No elenco, ninguém destoa. Glória Menezes está
particularmente muito bem, ainda mais com o acompanhamento da música que lhe
serve de tema: Mulher, de Sadi Cabral e Custódio Mesquita. A interpretação da
atriz é beneficiada pela montagem de Carlos Coimbra. Os cortes são dinâmicos e
precisos. Valorizam o crescente desequilíbrio da personagem.
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Bruno (Ronnie Von) e Cláudia Land (Glória Menezes) |
No atual panorama
cinematográfico brasileiro, vitimado pela crescente ação da censura e dominado
pela grosseria da comédia supostamente erótica, O descarte é um bálsamo,
inclusive para o espectador cheio de empáfia que afirma não gostar do cinema
brasileiro, apesar de conhecer tão pouco e mal a produção nacional e seu
posicionamento específico no panorama mundial.
O colunista
social Ibrahim Sued tem rápida aparição como ele mesmo, à frente do programa Ibrahim
Sued Repórter, da TV Globo, ao divulgar matéria de interesse da socialite Cláudia Land.
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Fotografia promocional do lançamento de O descarte Bruno/Marcelo, Cláudia Land e o motoqueiro, respectivamente interpretados por Ronnie Von, Glória Menezes e Carlos Vereza |
Roteiro: Anselmo Duarte, com base no livro Um
crime perfeito, de Flávio Manso Vieira. Diálogos adicionais: Gilberto Tumscitz. Direção de fotografia (Eastmancolor) e câmera: Hélio Silva, José
Assis Araújo. Direção de arte e Costumes:
Isabel Pancada. Decoração: Paulo Afonso
de Carvalho. Montagem: Carlos
Coimbra. Assistente de montagem: Roberto
Leme. Música e arranjos: Guto Graça
Melo. Canção-tema: Mulher, de Sadi Cabral e Custódio Mesquita. Efeitos especiais sonoros: Geraldo
José. Produtor executivo: Carlos
Fonseca. Gerente de produção: Yeda
Rocha. Voz de Bruno (Ronnie Von):
Daniel Filho. Maquiagem: Aila de
Jesus. Assistentes de direção: César
Cavalcanti, Miguel Maurício. Assistente
de direção de arte: Paulo R. Amaral, Moacyr Estevão da Cunha. Som: Geraldo José, Roberto Melo, Victor
Raposeiro, José Tavares. Assistentes de
produção: Aurélio Ferreira, Maurício Miguel, Isabel Pancada. Continuidade: Helena Levier. Edição musical: Som Livre. Assistência de câmera: José Assis de
Araújo. Efeitos especiais de fotografia:
Joseph Hendel. Fotografia de cena:
Anselmo Duarte. Chefe eletricista:
Eduardo Gomes dos Santos. Eletricista:
José Telles da Rocha Jr. Maquinista:
Moacyr Estevão da Cunha. Direção de
dublagem: Roberto Melo, Victor Rapozeiro. Créditos: Cyro del Nero. Produção
de cenografia: Moacyr Estevão da Cunha. Tempo de exibição: 95 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1974)
[1] O impossível acontece é completado por O acidente e Eu, ela e o outro, respectivamente dirigidos por C. Adolpho Chalder
e Daniel Filho.
[2] Algumas fontes dão a entender que
o script foi desenvolvido, com várias alterações, a partir de um guião
encomendado pelo ator Milton Rodrigues (ou Rodríguez), nunca levado às telas.