Em 1985, por iniciativa de representações diplomáticas da
República Popular da Polônia, uma pequena mostra de filmes do país teve
exibição no circuito alternativo, não comercial, de cine clubes, salas
especiais e cinematecas das principais capitais brasileiras. Segundo anotações
da época, houve a reapresentação do clássico Madre Joana dos Anjos (Matka
Joanna od Aniolow, 1961), de Jerzy Kawalerowicz, e o lançamento dos
mais recentes Dagny (Dagny, 1977), de Haakon Sandoy; Iluminação
(Iluminacja,
1973), de Krzystof Zanussi; e A leprosa (Tredowata, 1976), de
Jerzy Hoffman. Transparecia um tom de oficialidade na exposição desses títulos,
como se fossem — independentes de suas qualidades artísticas e históricas — um
contraponto às manifestações políticas que sacudiam o país em decorrência do
surgimento do sindicato livre Solidariedade,
da oposição aguerrida de Lech Walesa e de recentes desafios no campo
cinematográfico, principalmente da parte de Andrzej Wajda com Terra
prometida (Ziemia obiecana, 1975), O homem de mármore (Czlowiek
z marmuru, 1977), Sem anestesia (Bez znieczulenia, 1978), As
senhoritas de Wilco (Panny z Wilka, 1979), O
maestro (Dyrygent, 1980) e, principalmente, de O homem de ferro (Czlowiek
z zelaza, 1981), que provocou o exílio temporário do cineasta. A
leprosa, ao menos, é exemplo da rendição às convenções da cartilha
oficial que regia a produção de cinema na Polônia segundo emanações do realismo
socialista. O roteiro aborda a novela Tredowata, lançada em 1909 pela
escritora ucraniano-polonesa Helena Mniszkówna. A narrativa, localizada nos últimos
momentos do século XIX, critica com pouco realismo e excesso de convicção os códigos
exclusivistas da aristocracia, principalmente na esfera matrimonial.
Percebem-se alguns valores dispersos na encenação, insuficientes para completar
uma equação cinematográfica artística e dramaticamente coerente. Sobra a
abordagem unidimensional em detrimento da crítica social pretendida. Segue apreciação
escrita em 1985.
A leprosa
Tredowata
Direção:
Jerzy Hoffman
Produção:
Film Polski, Zespól Filmowy
"Silesia"
República Popular da Polônia — 1976
Elenco:
Elzbieta Starostecka, Leszek
Teleszynski, Jadwiga Baranska, Czeslaw Wollejko, Lucyna Brusikiewicz, Irena
Malkiewicz, Anna Dymna, Gabriela Kownacka, Mariusz Dmochowski, Piotr
Fronczewski, Zbigniew Józefowicz, Janusz Bylczynski, Barbara Drapinska,
Aleksander Gassowski, Wieslawa Kwasniewska, Andrzej Mrozewski, Ryszard
Ostalowski, Józef Para, Andrzej Piszczatowski, Hanna Stankówna, Ernestyna
Winnicka, Jerzy Moes e os não creditados Cezary Harasimowicz,Marlena
Miarczynska, Maciej Pietrzyk.
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O diretor Jerzy Hoffman |
Na origem deste
filme está um dos romances mais populares da Europa do Leste: Tredowata,
lançado em 1909, de autoria da ucraniano-polonesa Helena Mniszkówna.
Pejorativamente, é enquadrado no rol de obras menores graças ao público que atingiu:
mães, senhoritas casadoiras e mulheres mais simples das classes subalternas.
Porém, o sucesso que angariou não decorre da mera atração de gênero. Apesar de literatura
fácil, para consumo imediato — segundo críticos e conhecedores —, aborda com
precisão um tema sintonizado com a moral que advogava a separação estrita das
classes sociais de então. Especificamente, trata da interdição do casamento
entre pretendentes de padrões diferentes. Apesar das transformações presentes
no tempo de narração da história, os hábitos e costumes da ordem estamental
ainda vigoravam — principalmente no âmbito mais impermeável da aristocracia.
A leprosa, segundo
informações, é a terceira transposição do livro para as telas. As anteriores,
também produções polonesas, preservaram, tal qual a presente, o título
original. A primeira, de 1926, tem Boleslaw Mierzejewski na direção. A segunda
surgiu dez anos depois, por conta de Juliusz Gardan. Ao que se sabe, não tiveram
lançamento comercial nos cinemas brasileiros. O mesmo se aplica à realização de
Jerzy Hoffman. Mereceu exclusivamente exibições no circuito alternativo: cine
clubes, salas especiais e cinematecas. A iniciativa partiu das representações
diplomáticas da Polônia, que organizaram mostra dedicada à divulgação da
produção cinematográfica do país. Formado no documentário, Hoffman é
desconhecido do público e da crítica do Brasil. Sabe-se que não goza de boa
reputação entre os pares poloneses, aos menos aqueles que buscaram, contra
todas as dificuldades, um caminho mais ousado, experimental e relativamente
independente dos preceitos impostos oficialmente ao cinema da República Popular
da Polônia — prisioneiro da matriz soviética. Em geral, é conhecido como
cineasta oficial do regime. Portanto, não é dado às complexidades e sutilezas
comprometedoras das verdades estabelecidas. Prova-o A leprosa.
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Acima e abaixo: Elzbieta Starostecka no papel de Stefcia Rudecka |
O filme é
estruturado como conto de fadas às avessas. Transcorre nos últimos momentos do
século XIX. Conta história sórdida, com final trágico. A personagem principal é
a jovem, bela e etérea Stefcia Rudecka (Starostecka). Egressa dos setores
médios, é educada, instruída e bem apessoada. Ganha a vida junto à Condessa
Idália Elzonowska (Baranska), como professora e governanta da filha Lúcia
(Brusikiewicz). Reside na casa da família. Aí também se faz presente o idoso,
compreensivo e amargurado patriarca Maciej Michorowski (Wollejko). O jovem de
ideias arejadas Waldemar Michorowski (Teleszynski), sobrinho da Condessa, é
presença constante. Cai de amores por Stefcia. A corte é rejeitada pela
personagem. De início, mostra-se precavida e realista quanto à própria condição
— apesar de intimamente sonhadora. Entretanto, a resistência dura pouco.
O idílio é
duramente reprovado pela família de Waldemar. A muito ciosa Idália reage à
altura da posição ocupada no concerto de classes. Os pais do rapaz,
particularmente o ardiloso e hipócrita Conde Barski (Dmochowski), planejavam
para ele um casamento de conveniência com Melania Braska (Dymna). A censura do
patriciado é fulminante e hedionda. Toda a aristocracia se une em torno de uma
causa: impedir o matrimônio e reduzir Stefcia à condição de intrusa inoportuna.
Converte-se em pária aos olhos da nobreza. Na intimidade desse círculo fechado
é chamada de “leprosa”. O único personagem solidário ao drama é o ressentido
Maciej Michorowski. Na juventude, os interditos de classe o impediram de se
relacionar com a jovem remediada que amava. Sentimentalmente, jamais se
recuperou da ruptura forçada.
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Leszek Teleszynski como Waldemar Michorowski e Jadwiga Baranska no papel da Condessa Idalia Elzonowska |
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O amargurado patriarca Maciej Michorowski (Czeslaw Wollejko) |
Apesar de tudo, o
casamento acontece. Após as bodas, o fechamento da nobreza é mais intenso. Apesar
da união legal, Stefcia jamais será aceita. Algo será feito para remover a
leprosa de um círculo ao qual não pertence e devolvê-la ao lugar de onde jamais
deveria ter saído. Os meios a empregar não importam. O que vale é afastá-la. Uma
morte social é tramada ardilosa e subrepticiamente. Acontecerá em público e
terá efeitos nefastos, além do esperado.
A leprosa revela maduro
aproveitamento da capacidade de ilustração do cinema. A embalagem do produto,
belíssima, é imediatamente ressaltada. A cenografia, logo no início, com apoio
da montagem e câmera, estampa o caráter alegre de Stefcia. Revela-se feliz,
fascinada pela vida. Esse estado de espírito é reforçado pelo envolvimento com
a natureza ensolarada e primaveril. Nessa ocasião, conhece Waldemar.
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Stefcia Rudecka (Elzbieta Starostecka) com o pai interpretado por Zbigniew Józefowicz |
A decoração
destaca o mundo suntuoso, distante e frio da aristocracia. Externamente às
vivendas, há a beleza convidativa dos jardins. Internamente, impera a frieza
dos cômodos rigorosamente solenes, detalhados e distribuídos, afinados com a
posição de quem os ocupa. Vigoram o formalismo inibidor, o requinte, as boas
maneiras, os gestos contidos e olhares enviesados, admoestadores, tão eficazes como
expressões silenciosas de comunicação.
As sequências
reservadas às confraternizações e festas são intensas, com magnífico uso de
câmera. O acompanhamento musical de Wojciech Kilar é ágil e embriagador. A
atriz Elzbieta Starostecka, carismática de sobra, sabe expressar sentimentos. O
mesmo se aplica a Czeslaw Wollejko em seu personagem envolvido na amargura
silenciosa de anos.
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Waldemar Michorowski (Leszek Teleszynski) e Stefcia Rudecka (Elzbieta Starostecka) |
Entretanto,
apesar dos valores positivos da encenação, a equação não fecha. As boas
qualidades da narrativa resistem isoladamente. A exposição é óbvia e vítima do
moralismo fácil. Os personagens são previsíveis. O retrato da aristocracia
carece de nuances. É um grupo que age em uníssono; como se não houvesse
dissidências e conflitos em seu meio. Transparece a vontade irreal de pintar
retrato desumano a toda prova da nobreza, tão unidimensional. Em meio de
profusos artifícios, o caso de amor impossível entre Stefcia e Waldemar resvala
para a composição pouco crível. Às vezes é ridículo e constrangedor; em outras,
risivelmente cômico. De qualquer modo, é sempre exagerada.
Os desdobramentos
da abjeta combinação que provoca a participação involuntária de Stefcia no
último baile — momento em
que Waldemar é estrategicamente afastado e deixa a mulher
entre os lobos — são graficamente assustadores. Certamente, o clima de filme de
horror dos momentos finais teve a intenção de ressaltar a situação de desamparo
e pesadelo que envolveu a infeliz personagem. Porém, é um exemplo no qual o
acessório se sobrepõe ao essencial. A narrativa vinha, apesar dos problemas, em
compasso de sobriedade. De repente, desequilibra-se espalhafatosamente. Se
houve a necessidade de causar impacto, o tiro saiu pela culatra. Os momentos
derradeiros, apesar da situação exposta, não exprimem pesar. De tão lúgubres e
assustadores, soam falsos. O romance original, em vista da fama e aceitação angariada
junto ao grande público da Europa Oriental, merecia melhor tratamento dramático
e maior coesão de elementos cinematográficos com a narração. Uma pena!
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Abaixo e acima: a aristocracia, inclusive a Condessa Idalia Elzonowska (Jadwiga Baranska), em maquinações contra Stefcia Rudecka (Elzbieta Starostecka) |
Helena Mniszkówna
lançou, no rastro do sucesso de Tredowata, a continuação Ordynat
Michorowski, de 1910. Trata do destino de Waldemar. Apesar de cair no
gosto dos leitores, não despertou o interesse do cinema.
Roteiro: Jerzy Hoffman, Stanislaw Dygat (não creditado),
com base na novela Tredowata, de Helena Mniszkówna. Direção de fotografia (cores): Stanislaw Loth. Música: Wociech
Kilar. Música: Wojciech Kilar. Montagem: Halina Nawrocka. Assistente de montagem: Jadwiga
Ignatczenko. Desenho de produção: Jerzy
Szeski. Decoração: Leonard Mokicz. Figurinos: Malgorzata Spychalska-Komar.
Penteados: Grazyna Jakubczak, Irmina
Stanowska. Maquiagem: Miroslaw
Jakubowski, Maria Lasnowska. Gerente de
produção: Wilhelm Hollender. Assistentes
de direção: Andrzej Czekalski, Walentyna Hoffman, Hanna Hartowicz, Halina
Sprusinska. Direção musical: Wojciech
Michniewski. Tempo de exibição: 91
minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1985)