Kansas City, Missouri, começo dos anos 30: a jovem socialite Barbara Blandish (Kim Darby)
passa da situação de refém de uma gang a outra num piscar de olhos. O vigésimo
segundo longa metragem de Robert Aldrich, Resgate de uma vida (The
Grissom Gang, 1971), me apanhou desprevenido na poltrona do cinema em
1974, com potentes golpes no estômago. De início não esperava muito, devido a várias
avaliações negativas que o lançaram na vala comum dos exercícios apelativos.
Aos meus critérios é um dos melhores trabalhos do período de vacas magras do
cineasta; um título no mínimo injustiçado. Claustrofóbico, com personagens tensos
respirando intensamente pelos poros, é dos mais vigorosos e sombrios dramas de
gângster do cinema moderno, desde Uma rajada de balas (Bonnie
and Clyde, 1967), de Arthur Penn. A narrativa rascante, inteiramente
despida de glamour, serve-se de diálogos realistas e ambientações das mais
sórdidas — condizentes com a desesperança e brutalidade do período marcado pela
Grande Depressão. O ponto de partida à encenação é a maldita novela best-seller de 1939, No
orchids for Miss Blandish, de James Hadley Chase, imediatamente
classificada como pornográfica. Com igual nome resultou em um dos filmes mais
escandalosos do cinema inglês, dirigido por St. John Legh Clowes em 1948 e que
pôs contra a parede o cioso British Board of Film Censors (BBFC), responsável
por liberações e classificações etárias. Resgate de uma vida privilegia as
relações pouco ortodoxas entre refém e algoz. Nesses papéis brilham Kim Darby e
Scott Wilson apoiados por coadjuvantes de peso, principalmente Irene Dailey
como a assustadora e implacável 'Ma' Gladys Grissom e Tony Musante na
interpretação do sempre disposto a matar Eddie Hagan. É um filme visceral, como
poucos, de um dos diretores mais ousados e dotados de luz própria do cinema
estadunidense. Segue apreciação de 1974, revista e ampliada em 1980.
Resgate de uma vida
The Grissom Gang
Direção:
Robert
Aldrich
Produção:
Robert
Aldrich
American
Broadcasting Company, The Associates & Aldrich Company
EUA — 1971
Elenco:
Kim Darby,
Scott Wilson, Tony Musante, Connie Stevens, Robert Lansing, Irene Dailey,
Wesley Addy, Joey Faye, Hal Baylor, Matt Clark, Alvin Hammer, Dots Johnson, Don
Keeffer, Elliott Street, Alex Wilson, Michael Baseleon, Raymond Guth, Mort
Marshall, John Steadman, Ralph Waite, Dave Willock, Alex Wilson.
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O diretor Robert Aldrich |
Desde que se
lançou inovadoramente na direção, no começo da década de 50, Robert Aldrich perseguiu
com audácia e determinação a independência autoral. A carreira assumiu caráter
ousado, questionador e marcadamente pessoal ― apesar dos riscos que essas qualidades
sempre representaram para a linha de montagem do hollywoodiano sistema de
estúdios. Colecionará vários atritos com produtores. Seus filmes, dos mais
fracos aos vigorosos, passaram por dolorosos processos de saneamento. Os cortes
atingiram seriamente as intenções de Pânico em Singapura (World
for ransom, 1954), O último bravo (Apache, 1954), Colinas
da ira (The angry hills, 1959), A dez segundos do
inferno
(Ten seconds to hell, 1959), O último pôr-do-sol (The
last sunset, 1961), Sodoma e Gomorra (Sodom
and Gomorrah, 1962) e O voo do Fênix (Flight of the
Phoenix, 1965). Por isso, tentava avidamente se firmar como produtor. O
intento foi logrado ao final dos anos sessenta, graças aos ganhos acumulados com
os sucessos de bilheteria de O que aconteceu com Baby Jane (What
ever happened to Baby Jane?, 1962) e, particularmente, Os doze
condenados (The dirty dozen, 1967). A partir de 1968 a já existente
Associates & Aldrich Company dispõe de recursos financeiros suficientes
para garantir ao diretor pleno poder na escolha e no desenvolvimento dos
próprios projetos.
Infelizmente, a
liberdade durou pouco. Sobreveio uma sucessão de fracassos de público e crítica.
Deficiências de roteiro prejudicaram A lenda de Lylah Clare (The
legend of Lylah Clare, 1968) e o lesbianismo provavelmente afugentou os
mais moralistas de Triângulo feminino (The killing of sister George, 1968)
― numa época em que o cinema estadunidense já estava preparado para tudo, como
se acreditava. A falta de clareza e sentido, inclusive ausência de motivação
dos personagens, tornou inexplicável a simplista abordagem da guerra pela
guerra em Assim nascem os heróis (Too late the hero, 1970) ― logo para
um diretor notabilizado pela crítica ao militarismo em Morte sem glória (Attack,
1956) e pelo viés irônico e cínico de Os doze condenados. Já o excelente e
desmistificador A vingança de Ulzana (Ulzana's raid, 1972) pode ter
sofrido as consequências da exposição árida e brutal das ações de brancos e
índios no cenário do velho Oeste ― fato a lamentar diante da dessacralização que
o western experimentava no período. Entre esses títulos figuram o nunca
concluído The greatest mother of them all (1969) ― que consumiu quase
todo capital de giro da produtora ― e Resgate de uma vida. Em 1973, a partir de O
imperador do Norte (Emperor of the North Pole), a
Associates & Aldrich Company estava falida e o diretor reconduzido à seara
dos cineastas contratados.
Resgate de uma
vida está entre as melhores realizações do período de vacas magras de
Aldrich. No mínimo, é um título injustiçado. Trata-se de um dos mais vigorosos
e sombrios filmes de gângster do cinema moderno ― desde Uma rajada de balas (Bonnie
and Clyde, 1967), de Arthur Penn, portanto. A trama, localizada na
desglamourizada e pobre zona rural de Kansas City, Missouri, nos primeiros anos
da década de 30 ― auge da Grande Depressão ―, vale-se de diálogos realistas e ambientações
das mais sórdidas — condizentes com a desesperança e brutalidade do período.
Tais características foram enriquecidas com muitas doses de cinismo, niilismo,
humor negro, ironia, violência e perversidade ― tudo o que se espera de
realizações assim. Sem dourar pílulas, Aldrich conta a palo seco ― como de
hábito ― tensa história de sequestro com ênfase nas relações entre refém e
algoz.
O ponto de
partida ao roteiro de Leon Griffiths é a novela best-seller No orchids for Miss Blandish, de
James Hadley Chase, publicada em 1939 e imediatamente estigmatizada como
pornográfica pelas brigadas puritanas. Com título idêntico foi levada ao cinema
pela primeira vez em 1948, na Inglaterra, por St. John Legh Clowes. A liberação
do filme, inicialmente na íntegra, despertou reação indignada de jornalistas e
políticos. O instituto de censura inglês ― o British Board of Film Censors
(BBFC) ―, duramente questionado, teve que rever a decisão. Recolhido, No
orchids for Miss Blandish sofreu novo exame e vários cortes que o
desfiguraram.
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Kim Darby em surpreendente interpretação como a refém Barbara Blandish |
Resgate de uma
vida apresenta a jovem Kim Darby ― intérprete de Mattie Ross em Bravura
indômita (True grit, 1969)[1],
de Henry Hathaway ― como a garota Barbara Blandish, herdeira milionária de
Kansas City. Chama a atenção de desastrada quadrilha de pés de chinelo por usar
um valioso colar de diamantes. É sequestrada e o noivo assassinado. O caso
ganha imediata repercussão. A polícia inicia as buscas com os bandidos ainda em fuga. Entretanto ,
outro grupo de foras da lei ― Slim Grisson (Wilson), Eddie Hagan (Musante), Woppy
(Faye) e Mace (Waite) ― chefiado despoticamente por 'Ma' Gladys Grissom (Dailey),
toma conhecimento da ação e assume a dianteira das operações. Elimina o bando rival
e toma a refém. Além de ficar com o colar avaliado em 50 mil dólares, exige de John
P. Blandish (Addy) a fortuna de um milhão de dólares pelo resgate da filha.
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Irene Dailey como a implacável 'Ma' Gladys Grissom |
Vestígios de
compaixão e compreensão da quadrilha com Barbara não devem ser esperados. A
começar por 'Ma', o grupo está disposto a tudo. Os bandidos estão cientes de
sua situação em um contexto de crescente criminalidade e pouco valor à vida que
não seja monetariamente quantificada. A crise econômica profunda desnudou
aparências sociais e esfacelou valores. A abordagem realista de Resgate
de uma vida não permite idealizações romanceadas, ambientes limpos,
espaços arejados e palavras bonitas. Sobra uma história de nervos expostos, com
muita depravação e perigo. Os Grissom não estão dispostos a correr riscos e,
assim, não pretendem devolver a garota após recebimento do resgate. Quanto a
isto, o direto e frio Eddie Hagan está ansioso para eliminá-la, como facilmente
faz, sem dor de consciência, com qualquer um que ameace a segurança do grupo. Porém,
surge um complicador: o filho carente, tenso, violento e limítrofe de 'Ma':
Slim, em estupenda atuação de Scott Wilson[2].
Caiu de amores por Barbara. Apesar de inicialmente espezinhado por ela, resolve
protegê-la. Para se impor, ameaça a mãe com a faca e confronta os comparsas. A
herdeira Blandish deve permanecer viva, sustenta. Dessa necessidade imperiosa —
é bom não contrariar o sempre imprevisível e desconfiado Slim — resulta a razão
de ser de Resgate de uma vida. O sequestro e as negociações pouco
importam, mas a ligação afetiva entre os personagens interpretados por Wilson e
Darby. Principalmente, como ela agirá ao saber que a própria sobrevivência
dependerá da sua boa vontade com o sequestrador apaixonado que nunca teve
contato físico com uma mulher.
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Scott Wilson como o perigoso, carente, imprevisível e limítrofe Slim Grissom |
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O frio e despachado Eddie Hagan (Tony Musante), sempre pronto a matar |
Para começar a respeitar
o "querido" Slim, Barbara sofre brutal corretivo de 'Ma'. Terá que
controlar gritos, luxos, xingamentos e a gana de escapar. Termina acuada pelo
limite praticamente instintivo de lutar pela vida com as armas que dispõe. A
jovem de fino trato, egressa de família respeitável, terá que despencar alguns
degraus nos padrões da moralidade e decência aos quais foi habituada. A queda será
grande, ainda mais após tomar ciência de que o pagamento do resgate não implica
necessariamente em
libertação. Prossegue viva, em poder dos criminosos e
submetida a Slim. Diante da demora, o pouco compreensível pai John P. Blandish
põe em dúvida as boas virtudes da filha. Qual puritano zeloso, considera que a sobrevivência
pouco importa quando as virtudes e o senso de decência são sacrificados. Chega
o momento no qual ter filha maculada de volta é o que menos importa. As pistas
obtidas pela investigação policial revelam: na tentativa de sobreviver a
qualquer preço, Barbara avançou por caminhos diametralmente opostos às rigorosas
determinações dos valores paternos.
Kim Darby está
excelente em um papel que a obriga a ir muito além da jovem virtuosa e cheia de
si vista em Bravura indômita. Agora é uma fera acuada, obrigada à mansidão,
trancafiada em cômodos exíguos e abafados, iluminados artificialmente durante
todo o tempo. O cabelo perde o viço, as roupas finas que usava se desfazem, a
higiene corporal deixa de ser imperiosa. A condução de Aldrich e a direção de
fotografia de Joseph F. Biroc — carregada de cores quentes, próximas do
vermelho — conferem a Resgate de uma vida estado de permanente
tensão ou latência próxima à explosão. Os personagens se derretem em suores,
Slim e Barbara principalmente. Os aspectos viscerais da narrativa ganham a
superfície. Robert Aldrich, seguro em seu campo, sabe o que faz. Lamentavelmente,
é uma realização que fracassou por causa da avaliação moralista que mirou apenas
a violência e apressadamente a relegou ao patamar dos filmes de exploração
apelativa. Isto num ano que trouxe à luz realizações tão ou mais ousadas como Laranja
mecânica (A clockwork orange), de Stanley Kubrick; Os demônios (The
devils), de Ken Russell; Perseguidor implacável (Dirty
Harry), de Don Siegel; Carter — O vingador (Get
Carter), de Mike Hodges; e Sob o domínio do medo (Straw
dogs), de Sam Peckinpah.
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Barbara Blandish (Kim Darby) |
A dubiedade narrativa
se apresenta como companheira permanente de Resgate de uma vida. Impossível
saber se Barbara de fato se entregou completamente a Slim, a ponto de se
apaixonar. É certo que ultrapassou os limites, sem que a tanto fosse obrigada e
por motivos os mais diversos: medo, carência, vontade de sobreviver,
necessidade de se relacionar com alguém depois de cativeiro tão prolongado —
quando percebeu a gentileza e a bondade por baixo da máscara do demente
assassino que a vigia de perto. Provavelmente, ela apenas permitiu que
germinassem sentimentos confusos e não controláveis diante das circunstâncias;
uma mistura um tanto maternal de ternura e assimilação. Sabia, no entanto, que
ele a amava, ao contrário do próprio pai que a rejeitou abertamente no violento
e seco epílogo. O filme não termina bem e nem poderia. Sequer oferece a mínima
possibilidade de redenção.
Em meio a tanta sordidez
física e moral, somente o decaído detetive particular David Fenner tem pleno
conhecimento do real estado de Barbara e de toda a ajuda que deverá ter para
superar o prolongado trauma do cativeiro. Ele é o único vestígio de compaixão no
dessacralizado Resgate de uma vida. Em termos de consciência, Fenner supera a desapiedada
percepção de John P. Blandish — tomada pela indiferença com a sorte da filha.
Os atores estão
muito bem ajustados a personagens verdadeiramente maravilhosos, no sentido de genuínos.
Nenhum deles é plano ou estereotipado. No pobre e desolador cenário rural, sobre
o pano de fundo da Grande Depressão, evocam um padrão de vida que chegou ao
limite do caos ou do humanamente possível. Agora é guerra, sem mais
tergiversações. A ordem é matar quem não cumpre com o riscado. A violência é
inevitável.
Outras linhas
podem ser acrescentadas aos desempenhos de Scott Wilson e Kim Darby: Slim é tão
vulnerável e frágil quanto perigoso e imprevisível. Se a princípio parecia
plenamente detestável, passa a merecer uma espécie de simpatia à medida que a
história avança. Barbara é inteiramente crível em sua queda numa espécie de
inferno humanizador. Começa como filhinha de papai protegida das mazelas do mundo
e habituada às facilidades permitidas pelo dinheiro. Ao fim, parece que
terminou um passeio ao inferno, patrocinado pelo próprio Diabo, ou às sendas
nada glamourosas do real. Para o bem e o mal, tingiu-se de mundanidade até o
fundo da alma. A interpretação cuidadosamente modulada de Kim Darby equilibra
na justa medida perplexidade e certeza, fragilidade e sensação de
superioridade, medo e determinação. Barbara é uma personagem intensa.
Concebê-la exigiu sutileza. Incrivelmente, a atriz jamais mereceu outra chance
igual.
Eddie Hagan (Tony Musante), Barbara Blandish (Kim Darby) e Slim Grissom (Scott Wilson) |
Tony Musante está
em seu melhor como Eddie Hagan, o gângster que não titubeia quando é preciso
matar e o faz com prazer. Elegante e bem apessoado, exibe o liso cabelo
pastoso, repleto de fixador, que tão bem combina com a frieza e humor perverso.
Sempre que pode, provoca o mentalmente lento Slim — mesmo sabendo dos sérios
riscos que corre. Aguarda com sofreguidão a hora em que pessoalmente tirará a
vida de Barbara, e alardeia o desejo somente para espezinhar o filho dileto de
'Ma'. Acompanhado do bem humorado Woppy e do hesitante Mace, Eddie faz Musante
se superar numa sequência magistral feita somente de sorrisos e comentários
sardônicos direcionados pessoalmente a Slim. É quando o personagem vivido por
Scott Wilson chega em casa vestindo um terno estalando de novo e carregado de
presentes para Barbara. O momento é exemplarmente construído. Quatro talentosos
atores parecem deixar de lado as figuras frias e prontas a matar que
representam para preencher Resgate de uma vida com um bem vindo
e salutar sopro de humor e humanidade.
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Mace (Ralph Waite) |
Irene Dailey lança
'Ma' Gladys Grissom no rol das mães referências do cinema no quesito
perversidade. É uma matriarca autoritária, sinistra e disposta a tudo. Usa surrados
vestidos de incansável dona-de-casa, tem o cabelo mal ajustado e ausência de modos
ao sentar — quase sempre de pernas abertas — e falar. À aparência pouco
encantadora foram acrescentados discretos pelos de um bigode somente percebido na
contraluz. A performance propositalmente exagerada de Dailey transforma-a em
alguém que parece saído diretamente das histórias em quadrinhos, como as dedicadas
à turma de Ferdinando Buscapé — originalmente o Li'l Abner imortalizado pela
pena de Al Capp. Vê-la enquadrando a família, agredindo Barbara e empunhando a metralhadora
no último ato é impagável, ainda mais quando executa pelas costas o amante Doc
(Keffer), que resolveu se evadir para cenários mais tranquilos quando a
situação ficou perigosa demais para a quadrilha. Cinematograficamente, 'Ma'
Gladys Grissom está na boa companhia de outras matronas masculinizadas,
mandonas e assustadoras: 'Ma' Jarrett (Margaret Wycherly) da obra mestra Fúria
sanguinária (White heat, 1949), de Raoul Walsh, e
as igualmente "adoráveis" Wilma McClatchie (Angie Dickinson) e 'Ma'
Kate Barker (Shelley Winters) respectivamente presentes nos pouco memoráveis A
mulher da metralhadora (Big bad mama, 1974), de Steve
Carver, e Os 5 de Chicago (Bloody mama, 1970), de Roger Corman.
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'Ma' Gladys Grissom (Irene Dailey) pronta para o último ato |
Connie Stevens
oferece como a platinada cantora de cabaré Anna Berg, convertida em interesse
amoroso de Eddie Hagan, um delicioso retrato de todas as mulheres do período
que se miravam no mito Jean Harlow. Os demais destaques do elenco são David
Fenner e Wesley Addy. O primeiro faz o decadente e cansado detetive Robert
Lansing — homem que aparenta ter visto tudo o que há de ruim no mundo e ainda assim
é capaz de crescer humanamente no contraponto ao desdenhoso pai John P.
Blandish interpretado pelo bom Addy, tantas vezes visto em outras realizações
de Aldrich: A morte num beijo (Kiss me deadly, 1955), A
grande chantagem (The big knife, 1955), A dez
segundos do inferno, O que aconteceu com Baby Jane?, Os
quatro heróis do Texas (4 for Texas, 1963) e Com a
maldade na alma (Hush...Hush, Sweet Charlotte, 1964).
Dentre os filmes
de gângster que passam ao largo de facínoras vistosos em grandes centros
urbanos, Resgate de uma vida é dos melhores. Posiciona-se muito bem junto
a similares igualmente vigorosos e ambientados nas regiões mais pobres e
devastadas dos Estados Unidos como Uma rajada de balas e os mais
discretos e nem por isso menores Dillinger (Dillinger, 1973), de John
Milius, e Renegados até a última rajada (Thieves like us, 1974),
de Robert Altman. O roteiro preciso e mordaz de Leon Griffiths é trabalhado por
Aldrich de forma a manter a respiração sempre no ponto da tensão. Também
oferece um retrato evocativo e vivo do que foram os violentos e pouco
aprazíveis Estados Unidos nos anos 30, ao menos nos setores onde as vidas de
nada valiam. É um filme sombrio e brutal. Permite a catarse nas explosões de humor
negro que parecem saídas das aventuras policiais narradas por revistas em
quadrinhos ou pela literatura descartável das brochuras de bolso.
A direção de fotografia
de Joseph F. Biroc é, desde o começo, convidativa. Após um fundo negro abre-se
um grande plano geral, captado de posição relativamente elevada e revelador da paisagem
ampla, semidesértica e ensolarada — ao som da canção I can't give you anything but
love, de Dorothy Fields e Jimmy McHugh, pela voz de Rudy Vallee,
sucesso de 1928 ao início dos anos 30. É uma tomada enganosa. Daí em diante
quase todo o filme se passará no interior de ambientes fechados e escuros, de
certo modo também transformados em soturnos e úmidos personagens e não em meros
suportes ou fundos para a ação. Por sua vez, a trilha musical de Gerald Fried é
das mais alegres e convidativas ao balanço. Além das composições exclusivas do
filme, ouvem-se Ain't misbehavin', de Fats Waller, Harry Brooks e Andy Razaf, e
I
surrender dear, de Gordon Clifford e Harry Barris.
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Anna Berg (Connie Stevens) e Eddie Hagan (Tony Musante) |
Por fim, uma
curiosidade: o perfeccionismo de Robert Aldrich exigiu um verdadeiro colar de
diamantes para servir de motivo para o sequestro de Barbara Blandish. Durante
as filmagens, a peça esteve sob vigilância constante de um agente especial da
companhia de seguros posto a serviço da joalheria. Estava disfarçado de
secretário da produção e fazia-se acompanhar de uma escolta armada sempre
presente ao set. Arranjos especiais foram acertados com o xerife e uma agência
bancária de Placerville, Califórnia — onde algumas tomadas foram obtidas —
sempre que o colar era transportado — no começo e ao fim de um dia de filmagens
— em carro blindado e acompanhado por batedores em motocicletas.
Roteiro: Leon Griffiths, com base na novela No
orchids for Miss Blandish, de James Hadley Chase. Direção de arte: James Dowell Vance. Montagem: Michael Luciano, Frank J. Urioste. Música: Gerald Fried. Direção
de fotografia (Metrocolor): Joseph F. Biroc. Figurinos: Norma Koch. Engenharia
elétrica: Paul Gilbert (não creditado). Assistentes de câmera (não creditados): Gilbert Haimson, Robert
Merry, Rik Nervik, Paul Schwake Jr. Produção
associada: William Aldrich, Walter Blake. Produção de elenco: Lynn Stalmaster. Decoração: John Brown. Penteados:
Jean Austin, William Turner. Gerente de
produção: Fred Ahern. Assistente de
direção: Malcolm R. Harding. Segundo
assistente de direção: William A. Morrison. Coordenação de construções: John La Salandra. Pintura : Maurice Larson. Responsável por áreas verdes: Don Pringle. Contrarregra: Ygnacio Sepulveda. Som: Richard S. Church. Edição
de efeitos sonoros: Van Allen James. Efeitos
sonoros: Milo B. Lory. Gravação de
som: George Malley. Supervisão de
gravação: Harry W. Tetrick. Microfones:
Morris Feingold (não creditado). Responsáveis
por cabos (não creditados): Donald F. Johnson, Mickey Cureton. Efeitos especiais: Henry Millar Jr. Dublês (não creditados): Dick Durock, Paul
Nuckles, Jesse Wayne. Operadores de
câmeras: Joe Jackman, Orville Hallberg (não creditado). Fotografia de cena: Kenny Bell (não
creditado). Eletricista-chefe:
William Hanna II (não creditado). Guarda-roupa
feminino: Lucia De Martino. Supervisão
de guarda-roupa masculino: Charles E. James. Edição musical: Scott Perry Jr. Músico: Ethmer Roten (flauta/não creditado). Transportes: Pat Miller (não creditado). Continuidade: Robert Gary. Assistente
de produção: Patricia Heade. Coreógrafo:
Alex Romero. Supervisão de diálogos:
Robert Sherman. Publicidade: Dave
Davies (não creditado). Planejamento de
créditos: Don Record (não creditado). Tempo
de exibição: 128 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1974; revisto e ampliado
em 1980)