Um dos meus grandes momentos cinéfilos em tempos de
adolescência, aos 14 anos, foi ver Grand prix (Grand prix, 1966) no
cinema, em 1970. Se toda realização originalmente cinematográfica só pode ser
integralmente apreciada em salas de exibição, isto se torna mais verdadeiro em
se tratando do filme de John Frankenheimer. Vê-lo na estreita e banalizadora TV
é sacrilégio. Todas as dimensões de um bem cuidado espetáculo sensorial —
equilibrado em som, imagens e efeitos — se perdem completamente na telinha
doméstica. Afirmo-o de cadeira, desde a desgraçada decisão de revê-lo em 1995,
no pequeno formato. Tudo foi para o espaço. Em geral, não me atrai o
automobilismo. Grand prix é a exceção, mesmo assim por causa dos aspectos
dramáticos e cinematográficos. É cinema-espetáculo em sua melhor acepção. Guardo
vivíssimas as lembranças da sessão que me teve presente há 46 anos. Faz parte
do melhor momento da trajetória de John Frankenheimer, um valor que logo se
perdeu depois de apresentar, em sequência, um lote no mínimo instigante de
marcantes realizações: O homem de Alcatraz (The
birdman of Alcatraz, 1962), Sob o domínio do mal (The
Manchurian candidate, 1962), Sete dias em maio (Seven
days in May, 1964), O trem (The train, 1964), O
segundo rosto (Seconds, 1966), Grand prix e O
homem de Kiev (The fixer, 1969). Além do mais, a
realização foi valorizada por uma imprevisibilidade histórica, ao apreender o
automobilismo em momento de transição, quando passava a atrair o interesse do
grande capital como logo ficaria patente. Os personagens que protagonizam o
drama, junto aos maiores ases do volante nos anos 60, podem ser vistos como os
últimos exemplares de um período épico, heroico e romântico. A apreciação a
seguir, de 1975, foi revista e ampliada 20 anos depois.
Grand prix
Grand prix
Direção:
John
Frankenheimer
Produção:
Edward
Lewis
Metro-Goldwyn-Mayer,
Joel Productions, John Frankenheimer Productions, Cherokee Productions, Douglas & Lewis Productions
EUA — 1966
Elenco:
Yves
Montand, Eva Marie Saint, James Garner, Toshiro Mifune, Brian Bedford, Jessica
Walter, Antonio Sabato, Françoise Hardy, Adolfo Celi, Claude Dauphin, Enzo
Fiermonte, Geneviève Page, Jack Watson, Donald O’Brien, Albert Remy, Bernard
Cahier, Alan Fordney, Tommy Franklin, Graham Hill, Phil Hill, Rachel Kempson,
Anthony Marsh, Ralph Michael, Jean Michaud e os não creditados Bruce McLaren,
Richie Ginther, Evans Evans, John Bryson, Arthur Howard, Alain Gerard, Tiziano
Feroldi, Gilberto Mazzi, Raymond Baxter, Eugenio Dragoni, Maasaki Asukai, Joan
Cahier, Coeline Bryson, Anne Schlesser, Lynn Spence, Dennis Hulme, Barry Gill,
Geoffrey Charles, Pat Merone, R. Robertson, Louis Chiron, Juan Manuel Fangio,
Brian Duffy, Joakin Bonnier, Chris Amon, Lorenzo Bandini, Jean-Pierre Beltoise,
Bob Bondurant, Jack Brabham, Ken Costello, Nino Farina, Paul Frère, Dan Gurney,
Tony Lanfranchi, Guy Ligier, Michael Parkes, André Pilette, Teddy Pilette,
Peter Revson, Jochen Rindt, Jim Russell, Ludovico Scarfiotti, Jo Schlesser,
Skip Scott, Jo Siffert, Mike Spence, Salvatore Billa, Jim Clark, Noël Godin.
O diretor John Frankenheimer em 1995, durante a rodagem de Andersonville, produzido para a TV |
John Frankenheimer pertence à primeira
geração de cineastas estadunidenses egressa da televisão. Começou na telinha
como assistente de Sidney Lumet. Depois encenou telepeças para os programas You
are there (1954), Danger (1954-1955), Climax!
(1955-1956), Playhouse 90 (1955-1960) etc. Já havia realizado dois filmes
para a tela grande — No labirinto do vício (The
young stranger, 1956) e Juventude selvagem (The
young savages, 1961) — quando disse a que veio ao dirigir Burt
Lancaster no sóbrio O homem de Alcatraz (The birdman of Alcatraz, 1962). A
seguir, praticamente numa só enfiada, brindou o público com trabalhos notáveis
nos quais conciliava argúcia, senso de ritmo, domínio da técnica, montagem rápida,
intrigas claras, gosto pelo suspense, valorização do roteiro e dos atores: Sob o
domínio do mal (The Manchurian candidate, 1962), Sete
dias em maio (Seven days in May, 1964), O
trem (The train, 1964), O segundo rosto (Seconds,
1966) e O homem de Kiev (The fixer, 1969). Hoje, é um valor
decadente, muito distante do talento que surgiu como promessa de renovação do
cinema dos Estados Unidos no começo dos anos 60[1].
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James Garner interpreta Pete Aron, piloto estadunidense |
Frankenheimer estava no auge quando,
imediatamente após O segundo rosto e no mesmo ano, fez Grand prix, ainda hoje o
mais espetacular e adulto filme sobre corridas de automóveis. A realização une
aventura e drama para perscrutar o universo dos pilotos de Fórmula 1. Fascinado
pela velocidade, o diretor se cercou do mais moderno aparato de filmagens
disponível na época, e dos mais experimentados técnicos para exprimir na tela,
com o máximo realismo (dramático, técnico, visual e formal), a sensação de
estar a bordo de um bólido disparado a mais de 200 Km/h. Para dar veracidade à
ficção contida no roteiro de Robert Alan Arthur, uniu-se a profissionais de
verdade do métier: os então famosos pilotos
André Pilette, Bob Bondurant, Bruce McLaren, Chris Amon, Dan Gurney, Dennis
Hulme, Graham Hill, Guy Ligier, Jack Brabham, Jean-Pierre Beltoise, Jim Russell,
Jo Schlesser, Skip Scott, Joachim Rindt, Joakin Bonnier, Joe Siffert, Juan
Manuel Fangio, Ken Costello, Ludovico Scarfiotti, Maasaki Asukai, Mike Spence,
Nino Farina, Lorenzo Bandini, Paul Frere, Peter Revson, Phil Hill, Richie
Ginther, Teddy Pillette e Tony Lanfranchi que exibem toda a perícia de que são
capazes em muitas tomadas ainda capazes de suspender o fôlego. Na elaboração de
cenas e seqüências contou com a especial consultoria dos ases Joakim Bonnier,
Richie Ginther, Phill Hill e Graham Hill. Disputas reais, documentadas durante
provas do Grande Prêmio de Fórmula 1 de 1965, fornecem a necessária atmosfera
em torno dos dramas vividos pelos quatro automobilistas cujas trajetórias o
filme acompanha dentro e fora das pistas: Pete Aron (Garner), americano; Scott
Stoddard (Bedford), inglês; Jean-Pierre Sarti (Montand), francês; e Nino
Barlini (Sabato), italiano.
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Yves Montand como o corredor francês Jean-Pierre Sarti |
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O piloto italiano Nino Barlini (Antonio Sabato) e Lisa (Françoise Hardy) |
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Pete Aron (James Garner) e o piloto inglês Scott Stoddard (Brian Bedford) |
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Os pilotos reais Graham Hill no papel de Bob Turner e - entre Pete Aron (James Garner) e Jean-Pierre Sarti (Yves Montand) - Joakin Bonnier |
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Pete Aron (James Garner) e Agostini Manetta (Adolfo Celi) |
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Pete Aron (James Garner) observa o exame no veículo por Izo Yamura (Toshirô Miffune) |
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Izo Yamura (Toshirô Miffune) e Pete Aron (James Garner) |
Música e direção musical: Maurice Jarre. Direção de fotografia (Super-Panavision 70mm, Cinerama, Metrocolor) e
câmera: Lionel Lindon. Consultor
visual, títulos: Saul Bass. Consultoria
de corridas: Joakim Bonnier, Richie Ginther, Phill Hill, Graham Hill. Argumento e roteiro: Robert Allan
Arthur, com apoio de John Frankenheimer (não creditado). Diálogos adicionais: William Hanley (não creditado). Desenho de produção: Richard Sylbert. Supervisão de montagem: Fredric
Steinkamp. Montagem: Henry Berman,
Stewart Linder, Frank Santillo, Fredric Steinkamp, Saul Bass. Gravação
de som: MGM SSD, Roy Charman, Franklin
Milton. Administração: George Cole. Gerente de produção na Inglaterra:
Peter Crowhurst. Gerente de produção na
Itália: Sam Gorodisky. Gerente de
produção em Mônaco e França: Sacha Kamenk. Edição de som e efeitos sonoros: Gordon Daniels. Câmeras da segunda unidade:
Jean-Georges Fontenelle, Yann Le Masson, John M. Stephens. Penteados: Sydney Guilaroff. Assistentes
de direção: Enrico Isacco, Roger Simons, Stephan Iscovescu, Sacha Kamenk, Sam
Itzkovitch. Gerente de unidade de
produção: William Kaplan. Maquiagem: Giuliano
Laurenti, Sydney Guilaroff, Alfio Manicon. Efeitos
especiais: Milt Rice, Robert Bonnig, Jeff Clifford, Jimmy Harris, Garth
Inns, Jimmy Ward, Jack Woodbridge. Consultoria técnica: Caroll Shelby. Produção executiva (não creditada): Kirk Douglas, John
Frankenheimer, James Garner. Produção de
elenco: Irene Howard (não creditada). Gerente
de produção na Holanda: Wim Lindner (não creditado). Contrarregra: Frank Agnone, Mickey Lennon (não creditado), Mickey
O'Toole (não creditado). Concepção do
poster: Tom Jung (não creditado. Som:
Harry Warren Tetrick. Edição de som:
Van Allen James (não creditado). Concepção
de créditos: James S. Pollak (não creditado). Dublês (não creditados): Max Balchowsky, Tom Bamford, Carey Loftin,
Ronnie Rondell Jr. Operador adicional de
câmera: George Lucas. Primeiro
assistente de câmera: Olivier Benoist (não creditado). Eletricista-chefe: George Cole (não creditado). Seleção e supervisão de figurinos: Sydney
Guilaroff. Assistente de montagem:
Chris Kelly (não creditado). Músicos
(não creditados): Laurindo Almeida (violão), Leo Arnaud (percussão), Paul
Beaver (órgão), Harry Bluestone (violinos), Perry Botkin Jr. (trombone), Mike
Deasy, Carl Fortina (acordeón), Caesar Giovannini (piano), Artie Kane (piano),
Milton Kestenbaum (baixo), Mitchell Lurie (clarinete), Virginia Majewski
(viola), Shelly Manne (percussão), Michael Melvoin (piano), Red Mitchell
(baixo), Uan Rasey (trumpete), Emil Richards (percussão), Lyle Ritz (guitarra),
Ethmer Roten (flauta), Bud Shank (saxofone). Continuidade: Lucie Lichtig. Publicidade:
Saul Cooper. Fornecimento de câmera para
corridas: Frick Enterprises. Equipamento
de iluminação: Lee Lighting. Gravação
da trilha musical: Private Island Audio. Sistema de mixagem de som: Westrex Recording System em 6 pistas nas
cópias em 70 mm. Tempo de exibição:
179 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1975; revisto e ampliado
em 1995)