O mórbido e sombrio O quarto verde (La chambre verte, 1978) —
ver neste blog A REALIZAÇÃO MAIS MÓRBIDA E SOMBRIA DE TRUFFAUT É UM LIBELO CONTRA A ‘PRAGA’ DO ESQUECIMENTO — é uma das realizações mais incompreendidas de François Truffaut. De igual
destino padece a alegre e descompromissada comédia de 1972, Uma
jovem tão bela como eu (Une belle fille comme moi). Adaptada
da novela policial Such a gorgeus kid like me
(Bitch kitty), de Henry Farrell, acompanha a trajetória da trambiqueira
Camille Bliss (Bernadett Lafont) enquanto demole os mitos da neutralidade e
objetividade científicas do sociólogo Stanislas Prévine (André Dussolier).
Também oferece rara oportunidade — provavelmente única — de se ver Truffaut —
um dos cineastas que melhor louvou a paixão — fazendo pilhéria do amor
romântico em todas as suas formas. A apreciação a seguir é de 1980.
Uma jovem tão bela
como eu
Une belle
fille comme moi
Direção:
François Truffaut
Produção:
Marcel Berbert
Les Films du Carrossé, Columbia
Pictures Corporation
França — 1972
Elenco:
Bernadette Lafont, André
Dussollier, Claude Brasseur, Charles Denner, Guy Marchand, Philippe Léotard,
Anne Kreis, Gilberte Géniat, Gaston Ouvrard, Danièle Girard, Michel Delahaye,
Martine Ferrière, Annick Fougery, Jacob Weizbluth, Jérôme Zucca e os não
creditados Marcel Berbert, Jean-Loup Dabadie, Jean-François Stévenin, François
Truffaut.
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François Truffaut e Bernadette Lafont nas filmagens de Uma jovem tão bela como eu |
Este é o duodécimo
longa de François Truffaut. É imediatamente posterior a Duas inglesas e o amor (Les
deux anglaises et le continent, 1971) — fracasso de público que só
mereceu lançamento comercial entre nós em 1976, após o cineasta emplacar dois
sucessos consecutivos: A noite americana (La
nuit americaine, 1973) — Oscar de Melhor
Filme Estrangeiro — e A história de Adele H (L’histoire
de Adele H, 1975). Uma jovem tão bela como eu estreou
no Brasil em 1972.
A realização é
adaptação — por Truffaut e Jean-Loup Dabadie — da novela policial Such
a gorgeus kid like me (Bitch kitty), do estadunidense Henry
Farrell. É um dos filmes mais pessoais do diretor. Francamente cômico, não
apresenta qualquer ponto de contato com suas realizações anteriores. Por isso,
causou profundo estranhamento em redutos mais conservadores do público e da crítica.
Esses — viciados na facilidade limitadora de rótulos e fórmulas — resistiram a
um produto que não souberam exatamente onde e como classificar. Preferiram
simplesmente recusar a novidade e optar pela saída fácil e confortável de
acusar o diretor de aderir ao cinema "francamente comercial e
americanizado". Tais apreciadores se mostraram tão chapados quanto o
sociólogo Stanislas Prévine (Dussolier), prisioneiro da arrogância intelectual
e dos mitos das absolutas neutralidade e objetividade científicas. Por isso, perdeu
de vista a independência crítica e analítica; sucumbiu fácil à vulgaridade e
previsibilidade de Camille Bliss (Lafont), presidiária e sujeito de sua pesquisa.
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O pobre sociólogo Stanislas Prévine (André Dussollier) |
Surpresos com o aspecto
algo insólito de um Truffaut que teria abandonado as inigualáveis sofisticação
e delicadeza sempre presentes no tratamento da infância, do amor e de temas
banais do cotidiano — sabiamente elevados à dimensão do sublime —, cronistas e
espectadores fiéis andaram em círculos diante de Uma jovem tão bela como eu.
Ficaram em busca da imagem e do talento supostamente perdidos do cineasta. “Ele
baixou o nível” — diziam uns. Ou se rendeu ao "comércio fácil" para
cobrir o fracasso financeiro de Duas inglesas e o amor — acusavam
outros.
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Bernadette Lafont é Camille Bliss, a jovem do título |
Porém, o problema
é outro: geralmente não se perdoa o artista — a quem se é fiel — pela inovação
e busca de rumos diferentes. Às mentes embotadas pela rotina é mais confortável
e tranquilizador tudo permanecer como sempre foi. Truffaut tentou
contra-argumentar, expor seus motivos. Não foi ouvido. Os fãs, transformados em
críticos empedernidos, não quiseram saber da alternância, na filmografia do
cineasta, de filmes tristes — como Duas inglesas e o amor — com alegres
— a exemplo de Uma jovem tão bela como eu. Também não se importaram com o fato
de Truffaut adentrar em momento particular de sua carreira, quando se dedicou a
fazer troça do amor romântico (etéreo, contemplativo, platônico), causa dos males
que afligiam as protagonistas de Duas inglesas e o amor.
Em Uma
jovem tão bela como eu Truffaut é implacavelmente impiedoso com o
ingênuo e arrogante Stanislas Prévine. O personagem contraria todas as
evidências e se apaixona cegamente, até a ruína moral, pela trambiqueira
Camille Bliss, a quem procura com o objetivo inicial de levantar dados à
pesquisa que lhe permitirá o doutoramento em Sociologia. Camille
usa e abusa de todos que lhe atravessam o caminho. Livra-se deles, com toda a
falta de cerimônia, quando perdem a utilidade. Deseja apenas levar vantagem em tudo. Segundo
Truffaut , o fascínio da jovem decorre do realismo selvagem e
brutal da vida que leva. São atributos que a aproximam do status de irmã
mais velha de Victor (Jean-Pierre Cargol), personagem-título de O
garoto selvagem (L’enfant savage), realizado e
estrelado por Truffaut em 1970.
O filme é armado
como peça burlesca, na qual o cineasta encontra oportunidade para anarquizar
com várias convenções sociais. Não sobram espaços para inocência, delicadeza e
bons sentimentos. Tais atributos são ridicularizados e demolidos. O andamento é
acelerado, trepidante, em tom de farsa. Lembra algumas ofegantes comédias do
cinema mudo. Também há pontos de contato com obras como Uma rajada de balas (Bonnie
and Clyde, 1967), de Arthur Penn.
Foi acertada a
escolha de André Dussolier para interpretar o sociólogo mal saído da
universidade, total desconhecedor do mundo real. Acredita piamente que as
teorias são suficientes para tanto. Dificilmente surgiria outro ator dotado de
aparência ao mesmo tempo tão inexpressiva, arrogante e burlesca. O personagem Stanislas
Prévine é o contraponto exemplar à experiente, vivida, amoral, cínica e
sedutora Camille. Ela não demora a perceber que está diante de um autêntico
pateta. imediatamente começa a manipulá-lo em proveito próprio — operação
facilitada pela súbita paixão do pesquisador à prisioneira. Na segunda
entrevista já a presenteia com doces e outros agrados. Logo se vê na impossibilidade
de viver longe dela. Hélène (Kreis), auxiliar de pesquisa, tenta abrir os olhos
de Stanislas a um possível engodo. Mas é rudemente destratada. Ele acredita
piamente que Camille é inocente vítima da sociedade cruel. Enquanto a história avança,
o espectador se delicia com imagens reservadas ao retrospecto que a cínica prisioneira faz de sua trajetória, repleta de pequenos golpes, até o acontecimento que a
condenou à prisão. O sociólogo não percebe a razoável distância que deve haver
entre a narração ouvida e a fidelidade aos fatos que o tem como guardião.
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O sociólogo Stanislas Prévine (André Dussolier) entrevista Camille Bliss (Bernadette Lafont) |
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A auxiliar de pesquisa Hélène (Anne Kreis) tenta, inutilmente, chamar Stanislas Prévine (André Dussollier) à realidade |
As primeiras
imagens ocupam o cenário de uma livraria. Uma cliente procura o título Mulheres
encarceradas, tese de doutoramento em Sociologia com publicação
anunciada há um ano. Porém, por motivos desconhecidos, não foi lançada. Por
quê? A resposta virá com o desenrolar da história.
A uma
penitenciária feminina chega o sociólogo em seu primeiro dia de contato com o
mundo real. Será levado à presença de Camille, para a primeira entrevista. Ouve
uma história que começou aos nove anos de idade, quando ela tramou e executou a
morte do pai violento e alcoólatra que lhe quebrou o banjo de estimação. Camille
passa o resto da infância em casa de correção, da qual foge nas proximidades da
idade adulta. Encontra Clovis Bliss (Léotard), que a abriga na casa da mãe,
Isobell Bliss (Géniat), sovina administradora de um posto de gasolina. As
diferenças entre ambas logo se manifestam. Camille é expulsa. Porém, está
grávida de Clovis. Casam-se. Descobre que a sogra esconde uma fortuna em casa. Com a cumplicidade
do marido, consuma o roubo e elimina Isobell. Ambos fogem para Paris.
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Maître Murene (Claude Brasseur) e Camille Bliss (Bernadette Lafont) |
Mas não chegam à
capital francesa. Ficam no meio do caminho, empregados no Colt Saloom, cabaré
fuleiro de Sam Golden (Marchand), artista de fancaria que passa por cantor country. Enquanto Clovis serve mesas e limpa
o estabelecimento, a garçonete Camille afana clientes e compartilha a cama com o
chefe. Este só consegue fazer amor ao som dos motores acelerados de carros em Indianápolis. Ao descobrir
a traição, Clovis, louco de ciúmes, é atropelado e hospitalizado. Entra em cena Florence
(Girard), esposa de Sam. Novamente expulsa, Camille encontra abrigo no caminhão
do dedetizador Arthur (Denner), católico ferrenho e moralista para quem tudo é
pecado. Mas é alma boa, desinteressada. Vê na perdida Camille a oportunidade de
praticar boas ações. Ela, em contrapartida, transforma-o em gato e sapato. Mesmo
assim, concede a ele a oportunidade da primeira experiência sexual.
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Stanislas Prévine (André Dussollier) e Camille Bliss (Bernadette Lafont) |
Entretanto,
Florence contrata Murène (Brasseur), advogado picareta. Este se apresenta a
Camille com objetivo de conseguir indenização para Clovis, devido ao atropelamento
que sofreu. Ela assina um papel em branco, transformado por Florence em confissão
de adultério. Também percebe que Murène e Clovis são empecilhos à sua vida. Decide
eliminá-los. A atividade de dedetização do novo companheiro vem a calhar.
Marido e advogado são atraídos a uma armadilha. Quando estavam prestes a sucumbir,
envenenados, são salvos por Arthur que, ato contínuo, descobre toda a verdade
sobre Camille. Premido pelo remorso, encontra no duplo suicídio a possibilidade
de redenção. Planeja pular com ela do alto de uma torre. Mas somente Arthur despenca.
Camille é presa, acusada de assassinato. É julgada e condenada por uma morte
que não cometeu.
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Camille Bliss (Bernadette Lafont) em fuga |
Termina aí a
história contada ao patético e crédulo Stanislas Prévine. Daí em diante buscará
provas para inocentar a amada. Localiza testemunhas da queda de Arthur, dentre
os quais um garoto que filmou o local naquele dia. Logo providencia a revelação
e projeção do material. Vê-se claramente que Camille não provocou morte alguma.
Libertada, passa a viver com o benfeitor e se estabelece como cantora. Porém, Clovis
reaparece. Stanilas o surpreende com a amante. Em meio à desavença uma arma é disparada
por Camille. Clovis morre. Mas quem vai preso é o sociólogo. Ela não move uma palha
para ajudá-lo. Percebendo que foi usado e enganado, Stanislas se recorda do
episódio da morte de Isobell Bliss e instrui seu advogado, Marchal (Delahaye),
a conseguir as provas necessárias para responsabilizar a ex-amante. Toma
conhecimento, dentro em pouco, de que as principais evidências do crime foram
destruídas. Pior: a jovem, agora cantora famosa, seduziu Marchal com quem vive tórrido
e público romance. A Stanislas nada resta fazer. Somente se resignar ao
cumprimento da pena. Lá fora, num apartamento próximo à prisão, a auxiliar de
pesquisa Hélène espera por sua libertação. Enquanto isso, prepara a publicação
da incrível, cômica e dramática história.
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Camille Bliss (Bernadette Lafont) e Stanislas Prévine (André Dussolier) |
Roteiro: François Truffaut, com base na novela Such
a gorgeus kid like me (Bitch kitty), de Henry Farrell. Adaptação e diálogos: François
Truffaut, Jean-Loup Dabadie. Música:
Georges Delerue. Canções: Canção
de Sam (Guy Marchand ‑ música; Jean-Loup Dabadie ‑ letra), adaptada por
France Marie Watkins; Une belle fille comme moi (Jacques
Datin ‑ música; Jean-Loup Dabadie ‑ letra); J’attendrai (Dino
Olivieri ‑ música; Nino Rastelli ‑ letra). Direção
de fotografia (Eastmancolor): Pierre-William Glenn. Decoração: Jean-Pierre Kohut-Svelko, assistido por Jean-François
Stevenin. Enquadramentos: Walter
Bal, assistido por Anne Khripounoff. Direção
de produção: Marcel Berbert, Claude Ganz, Claude Miller. Assistente de direção: Suzanne Schiffman. Som: René Levert. Efeitos
especiais: Jean-Claude Dolbert. Maquiagem: Thi-Lom Nguyen. Figurinos: Monique Dury. Gerente geral: Roland Thenot. Administração da produção: Christian
Lentretien. Montagem: Yann Dedet,
Martine Barraqué. Mixagem: Studios
De Billancourt. Produção executiva:
Marcel Berbert. Chefe de produção:
Roland Thénot. Assistente de direção de
arte: Jean-François Stévenin. Operador
de câmera: Walter Bal. Assistente de
câmera: Anne Khripounoff. Continuidade: Christine
Pellé. Tempo de exibição: 98
minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1980)