domingo, 30 de outubro de 2016

O EXEMPLAR WESTERN DA UTOPIA FORDIANA

Dentre os vários westerns de John Ford, qual é o mais terapêutico, acima de tudo para ele? Qual seria o mais evocativo na alusão a um "paraíso perdido", segundo a visão de mundo muito particular do realizador e apesar da ambientação em cenário conflagrado? Dentre as horse operas fordianas, qual aparenta ares de clara utopia? Em qual filme do bardo de sangue irlandês a locação mítico-referencial de Monument Valley está preenchida por distante sacralidade, como componente de uma natureza anímica? Estas questões estão respondidas na apreciação a seguir, escrita em 1983, revista e ampliada em 1990. Aborda Paixão dos fortes (My darling Clementine, 1946), primeiro trabalho do cineasta após o término da Segunda Guerra Mundial. Participou do conflito como correspondente, não raro na linha de frente das batalhas. A experiência o afetou significativamente, no plano pessoal e desenvolvimento da filmografia. As mudanças são evidentes neste segundo western rodado em Monument Valley. O filme, como o famoso duelo que lhe serve de clímax, é um divisor de águas. Assinala o início da separação entre o Ford da juventude e o da maturidade. Daí em diante as epopeias localizadas no Oeste assumem ares crescentes de desencanto, amargura e pessimismo, um desenvolvimento consequente e compassado, conforme se depreende das análises em retrospecto. Do ritmo otimista de balada de Paixão dos fortes já se antevê o apuradíssimo andamento outonal e crepuscular exposto no exemplar ocaso dos mitos de O homem que matou o facínora.







Paixão dos fortes
My darling Clementine

Direção:
John Ford
Produção:
Samuel G. Engel
20th. Century-Fox
EUA — 1946
Elenco:
Henry Fonda, Victor Mature, Linda Darnell, Walter Brennan, Cathy Downs, Ward Bond, Tim Holt, Alan Mowbray, John Ireland, J. Farrell McDonald, Grant Withers, Roy Roberts, Jane Darwell, Russell Simpson e os não creditados Francis Ford, Don Garner, Ben Hall, Arthur Walsh, Jack Pennick, Louis Mercier, Mickey Simpson, Fred Libby, Harry Woods, Charles Stevens, Mae Marsh, Robert Adler, C. E. Anderson, Don Barclay, Danny Borzage, Frank Conlan, William B. Davidson, Earle Foxe, Aleth 'Speed' Hanson, Duke R. Lee, Margaret Martin, Frances Rey, Hank Bell, Ruth Clifford, Tex Cooper, Jack Curtis, James Dime, Tex Driscoll, Frank Ellis, Jack Kenny, Kermit Maynard, Robert Milasch, Jack Montgomery.


John Ford, em posição elevada, quando da realização de Paixão dos fortes

Cansado da guerra, o desmobilizado "Soldier Ford" está prestes a voltar para casa
Seu cinema irá rever os mitos sobre os Estados Unidos  e assumirá ares de desencanto
O cineasta começará a buscar refúgio em "paraísos perdidos" e a estreitar o convívio entre companheiros próximos harmonizados pelo ideal de fraternidade



Wyatt Earp, Doc Holliday, Clementine Carter, Old Man Clanton, Tombstone, Chihuahua, Hamlet, o amor, a amizade, um baile no piso da igreja em construção e o duelo de OK Corral — o mais famoso tiroteio do velho Oeste: tudo isso é Paixão dos fortes, uma das culminâncias da arte fordiana. Após vê-lo, o crítico francês Jean-Georges Auriol — extasiado com a beleza poética e a simplicidade da encenação — escreveu um elogio, a famosa Carta a John Ford: "Depois de Brett Hart[1] ninguém mais que você soube cantar a canção rouca e sentimental desse Oeste no qual a selvageria é temperada pela amizade entre companheiros díspares que a fatalidade harmoniza; no qual o amor de alguns rapazes por uma moça (luzindo de pureza ou com o empoador na mão) relembra, na dureza da existência à mercê de um tiro, que resta um lado delicado no mundo pelo qual vale fazer-se pacífico e bom".


É o primeiro western dirigido por Ford desde 1939 — quando redefiniu as diretrizes fundamentais do gênero, tornando-o adulto, com No tempo das diligências (Stagecoach). Entre este título e Paixão dos fortes há um hiato de sete anos. Aproxima-os o cenário de Monument Valley, utilizado pela segunda vez em uma epopeia do realizador. Antes, a região se apresentou como paisagem dinâmica, ao acompanhar o desenrolar de uma aventura em movimento que a percorria de ponta a ponta. Agora, o visual desértico e rochoso assume dimensão metafísica, quase irreal. Parece parte de uma paragem inatingível, envolvida pelo mistério da sacralidade. Porém, é presença constante, como se oferecesse o testemunho de uma natureza anímica, entretanto indiferente à ação profana dos homens legitimados pelo projeto de edificar uma civilização a partir de golpes de arrojo e determinação. O magnífico conjunto de Monument Valley, destacado no horizonte, é um dos mais belos e imponentes panos de fundo do cinema.


Henry Fonda interpreta o xerife de Tombstone, Wyatt Earp


O tema de Paixão dos fortes mereceu tratamento cinematográfico por Allan Dwan em A lei da fronteira (Frontier marshal, 1939); John Sturges em Sem lei e sem alma (Gunfight at the OK Corral, 1957) e A hora da pistola (Hour of the gun, 1967); e Frank Perry no desmistificador e frustrante O massacre dos pistoleiros (Doc, 1971)[2]. Cinematograficamente a versão de Ford é superior, apesar de não guardar fidelidade aos homens e acontecimentos. A lenda e o mito prevalecem a partir do próprio material bibliográfico que forneceu suporte aos roteiristas Samuel G. Engel e Winston Miller: Wyatt Earp, frontier marshal, de Stuart N. Lake, adaptado por Sam Hellman. Segundo consta, o biografado confirmou a veracidade da fonte. Pelo visto, também preferia o aspecto lendário dos fatos.


Em termos narrativos, Paixão dos fortes segue a estrutura de A lei da fronteira, de Allan Dwan. Mas o andamento e o olhar são totalmente diferentes. É o primeiro filme realizado por Ford após o término da Segunda Guerra Mundial — conflito no qual se engajou e atuou como correspondente, em geral na vanguarda das batalhas. A experiência bélica o marcou profundamente. A partir daí sua obra começará a rever os mitos sobre a formação dos Estados Unidos; assumirá ares crescentes de desencanto, amargura e pessimismo. Paralelamente, o cineasta também passará a buscar refúgio terapêutico em "paraísos perdidos", nos quais pudesse exaltar o bem-viver e a harmonia dos laços comunitários estreitados pelo espírito da camaradagem, em que pesem as diferenças individuais e as adversidades que cercam o próprio ato de existir. Exemplos dessa tendência podem ser vistos em Caravana de bravos (Wagon master, 1950); Depois do vendaval (The quiet man, 1952), O sol brilha na imensidão (The Sun shines brights, 1953), The rising of the Moon (1957)[3] e O aventureiro do Pacífico (Donovan's reef, 1963). Na vida real houve o estreitamento do convívio com o grupo fechado de amigos próximos, periodicamente reunido em acampamentos, bebedeiras, pescarias, aventuras marítimas e nas próprias locações cinematográficas. Estas se convertiam, não raro, em centros de celebração da amizade e exaltação de valores ancestrais, sempre inundados por muita música, ainda mais quando surgia a possibilidade de filmar um western em paragens distantes das comodidades urbanas — como Henry Fonda tão bem expôs no documentário Dirigido por John Ford (Directed by John Ford, 1971), de Peter Bogdanovich.


A concepção do Oeste em Paixão dos fortes guarda semelhanças com a imagem dos paraísos perdidos ou, também, a um centro difusor de utopias segundo a particular visão de mundo de Ford. A narrativa está impregnada pela idealização microcósmica do mundo e da paz. O xerife Wyatt Earp — interpretado pelo inspirado e cool Henry Fonda — guarda pouca correspondência com o histórico homem da lei. Assemelha-se mais ao gentil cavaleiro retirado das mais nobres canções de gesta e inserido no contexto do Oeste selvagem dominado por violência e arbítrio. Por motivos circunstanciais e estritamente pessoais aceita o cargo de xerife de Tombstone — lápide, túmulo ou cemitério conforme as traduções. Exercerá o ofício de forma singular: apela comumente ao diálogo e ao calor que emana de sua personalidade incomum. Poucas vezes recorre às armas. Só as emprega em momentos extremos.


O xerife Wyatt Earp, interpretado por um inspirado e cool  Henry Fonda



Como Ford, o Wyatt Earp de Henry Fonda está cansado de guerra. Busca ardentemente a concórdia e um lugar para repousar e viver, nada mais. O surgimento de um "anjo", Clementine Carter (Cathy Downs) — professora vinda do leste, representação do sopro de novos valores nas terras sem lei —, vai praticamente ao encontro das mais caras e sinceras aspirações do personagem.


Wyatt Earp — personalidade moldada pela poeira levantada pelo vento na vastidão das pradarias — almeja a aceitação e o reconhecimento por uma comunidade de pertencimento, que cultua a tranquilidade dos domingos, os passeios matinais e os festejos nos quais todos possam interagir e comungar. Ninguém melhor que John Ford para filmar um baile e extrair do evento o que há de mais significativo com respeito à integração dos indivíduos com seus iguais.



Acima e abaixo: Wyatt Earp (Henry Fonda) e Clementine Carter (Cathy Downs) a caminho do baile


Entre os cowboys de verdade que conheceu, John Ford foi amigo de Bill Cody, Pardner Jones, All Jennings e do próprio Wyatt Earp, consultor de westerns em Hollywood durante os anos 20[4]. Disse o cineasta: "Eles se interessavam pelos filmes e visitavam-me nos locais das realizações". Também conta que ouviu do próprio Earp a história do duelo de OK Corral. A partir daí, procurou fazer de Fonda e do notório embate réplicas condizentes com o riscado. Se prevaleceu o ponto de vista lendário pouco importa! O filme é grandioso! Passados 16 anos, em O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valence, 1962) — western testamento do gênero e do cineasta —, o jornalista Maxwell Scott (Carleton Young) — profissional que deve se ater aos fatos segundo os ordenamentos da atividade que pratica — dirá, ao tomar ciência de uma história despida de heroísmos, feitos gloriosos e façanhas gradiloquentes: "Estamos no Oeste. Aqui, quando a lenda supera os fatos imprima a lenda". Em Paixão dos fortes, no fortalecimento a este posicionamento está o próprio título original: My darling Clementine, antes de tudo o nome de uma antiga ária do folclore da fronteira, recuperada na trilha musical de Cyril J. Mockridge e recriada na forma de inspiradas variações. O casamento da melodia com a concepção pictórica obtida pelas lentes de Joseph P. MacDonald produz um conjunto de rara poesia e beleza. Faz a paisagem mítico-referencial do Oeste fordiano transbordar em sentimento, confiança e alegria, às vezes de nostálgica melancolia.


Depois de ter o gado roubado e o irmão mais novo James (Don Garner, não creditado) assassinado, Wyatt aceita a nomeação de xerife da violenta Tombstone. Auxiliado pelos manos Morgan (Bond) e Virgil (Holt), tenta recuperar o rebanho, punir os criminosos representados por Old Man Clanton (Brennan, magistral) e filhos — Billy (Ireland), Ike (Whiters), Phin (Fred Libby, não creditado), Sam (Mickey Simpson, não creditado) — e implantar a lei no lugar. Estabelece relações de camaradagem e amizade, inicialmente difíceis, com Doc Holliday (Mature) —, médico fracassado oriundo do leste, constantemente assediado pela tuberculose e com a vida destrutivamente largada aos vícios da jogatina e do alcoolismo. Doc vive conturbada relação amorosa com Chihuahua (Darnell), a garota do saloon, enquanto procura expurgar as lembranças dos melhores dias quando desfrutou do amor da doce Clementine Carter (Downs). Esta chega a Tombstone para reencontrá-lo e com esperanças de conduzi-lo ao tratamento. No entanto, o irascível Doc confunde o gesto com sentimento de piedade. Destratada e recusada, a jovem passa a ser cortejada pelo xerife, com o qual protagoniza as sequências mais idílicas e delicadas. Porém, os Clanton assassinam covardemente Virgil e Chihuahua. Em decorrência, Wyatt, Morgan e Holliday partem para a desforra no OK Corral. No embate, o jogador é mortalmente ferido. Ao final, consumado o acerto de contas, os Earp regressam a Dodge City como emissários de notícias ruins aos demais membros da família. Porém, o xerife planeja voltar e construir um futuro pacífico ao lado de Clementine, decidida a se estabelecer como professora em Tombstone.


Com desenvolvimento linear lento, sereno nas exposições e rico na observação das fragilidades dos indivíduos, Paixão dos fortes é um poderoso estudo psicológico e social que transborda vontade de viver e criar em todos os seus pormenores. Os lugares comuns são evitados. A realização foi fortemente influenciada pelo cinema expressionista alemão, característica revelada na generalidade da iluminação e dos enquadramentos. Há um perfeito equilíbrio entre as variações melódicas da ária e os sons da natureza. A fotografia, de apurada sensibilidade visual, evidencia o valor nas tomadas do crepúsculo, na poeira das pradarias, nas sombras das construções projetadas sobre a rua, no horizonte onde céu e terra se harmonizam e na majestosa imponência dos rochedos de Monument Valley. O lirismo romântico pulsa com maior intensidade em duas sequências antológicas: a do barbeiro e, a seguir, do baile no piso da igreja em construção. Quanto ao duelo, segundo Ford, encenou-se mais que um simples tiroteio movimentado. O diretor alega que reconstituiu o confronto segundo relatos do próprio Earp, na forma de autêntico combate de rua conduzido segundo táticas militares. Nesse momento, a direção, a câmera e a montagem se equilibram à perfeição, em exemplar lição de ritmo cinematográfico.


Os irmãos Earp:  Morgan (Ward Bond), Wyatt (Henry Fonda) e Virgil (Tim Holt)


Quanto aos atores, Henry Fonda compõe o herói fordiano por excelência: íntegro, lacônico, direto, calmo, decidido e internamente frágil. O limitado Victor Mature — que raramente encontrou papéis adequados ao tipo físico —, converte-se nas mãos de Ford num convincente e trágico Doc Holliday: a um só tempo culto, misterioso, decadente, arrogante, provocador e debilitado. Busca desesperadamente a morte, como alívio à horrível prisão interior decorrente da enfermidade que o limita ao ponto de inutilizá-lo.


A tragédia de Holliday, acompanhada do desejo de ser abençoado com o término da existência, mostra-se patente quando protege o ator shakespeariano Granville Thorndyke (Mowbray) da provocação dos Clanton e o auxilia na declamação forçada do monólogo de Hamlet: "Ser ou não ser...". A passagem está prestes a ser concluída enfaticamente pelo próprio jogador, como se os escritos do bardo inglês contivessem a expressão de um profundo e pessoal desejo: "... Quem levaria fardos, gemendo e suando sob a vida fatigante, se o receio de alguma coisa após a morte — essa região desconhecida cujas raias jamais viajante algum atravessou de volta —, não nos pusesse a voar para outras regiões não sabidas? O pensamento assim nos acovarda, e assim é que se cobre a tez normal da decisão..." É interrompido por agudo acesso de tosse decorrente da enfermidade. Porém, a conclusão foi desnecessária para confirmar o estado agônico da alma de Doc Holliday.


O ator Granville Thorndyke (Alan Mowbray) e Doc Holliday (Victor Mature) no monólogo de Hamlet


"Shakespeare em Tombstone?", pergunta Old Man Clanton — entre a admiração e a incredulidade —, quando a troupe teatral chega à cidade. Shakespeare na paisagem agreste da fronteira! Provavelmente, nenhum outro western se valeu de modo tão extraordinário de um texto do autor elizabethano para comentar o estado de ânimo e os desejos mais íntimos de um personagem dominado pelo senso de tragédia. Em 1962 seria a vez do jornalista Dutton Peabody (Edmond O'Brien) também buscar as palavras do menestrel, no caso as de Henrique V, em contexto totalmente diferente mas para igualmente ilustrar um momento dominado pela fragilidade, apesar do tom de comédia.


Shakespeare em Tombstone!
Wyatt Earp (Henry Fonda), Doc Holliday (Victor Mature) e Chihuahua (Linda Darnell) no teatro

Chihuahua (Linda Darnell)


Wyatt e Doc são opostos que se complementam equilibradamente. Ambos encontram o centro na figura de Clementine Carter. Menosprezada pelo jogador, é transformada em ideal a conquistar pelo xerife. É o sopro da civilização. Dramaticamente, para esta triunfar — em outras palavras, a justiça, a lei, a ordem e o direito, valores representados por Earp e acentuados por Carter —, Ford toma a liberdade de cumprir com o desejo de Holliday e o sacrifica em OK Corral. Na verdade, ele faleceu na cama, aos 36 anos, vitimado pela tuberculose, quando estava hospitalizado em Denver, Colorado. A alteração da história não decorre do senso de piedade ou de alguma gratuita antipatia manifestada pelo diretor ao personagem; muito ao contrário. Sempre foram patentes o carinho e respeito devotados por Ford aos marginais sociais, como de certo modo é o refratário Doc Holliday de Paixão dos fortes. Porém, de tão individualista e arbitrário, corresponde aos tipos prontos a serem vencidos pelo progresso ou pela força de novas ideias, como Tom Doniphon (John Wayne) em O homem que matou o facínora.


Old Man Clanton (Walter Brennan) e Wyatt Earp em OK Corral


Doc sairá de cena em decorrência dos valores que expressa e lhe conferem significado. É a simbolização de uma imagem do Oeste que não encontra ressonância frente às demandas civilizatórias trazidas pelo anúncio dos novos tempos. É exemplo de indivíduo que impõe as próprias determinações acima dos interesses maiores da coletividade. Nesse sentido, o duelo de OK Corral é mais que um tiroteio. Tem significados premonitórios, como se fosse um divisor de águas. Depois desse acontecimento vem o adeus às armas. Como no Eclesiastes, inaugura-se o tempo de edificar, fincar raízes, estabelecer, casar, ter filhos, fundamentar as instituições e pavimentar os caminhos do futuro.


O adeus às armas na utopia fordiana
Wyatt Earp (Henry Fonda) em despedida, com ares provisórios, de Clementine Carter (Cathy Downs)


Não para menos, ao final, Wyatt, símbolo da lei e do direito, parte de Tombstone, mas acena com a possibilidade de um retorno para Clementine Carter. Neste epílogo, John Ford antecipa o diretor na plenitude da maturidade artística, que encontrou auge em meados dos anos 50 e início dos 60. A realização já emitia, ainda que embrionariamente, uma mirada crítica à imagem do Oeste que o diretor, mais que qualquer outro, ajudou a consolidar, desde que ofereceu sua particular contribuição, no front cinematográfico, ao esforço de registrar a história nada pacífica dos Estados Unidos. O ritmo otimista de balada de Paixão dos fortes já permite antever o apuradíssimo andamento outonal e crepuscular desenvolvido no exemplar ocaso dos mitos de O homem que matou o facínora.


Por fim, uma curiosidade. Apesar de o filme se chamar, originalmente, My darling Clementine, quem tem amplo destaque em todos os cartazes de divulgação é Chihuahua. A personagem vivida por Cathy Downs sequer aparece, ao passo que Wyatt Earp e Doc Holliday ganham ares de coadjuvantes. Isso é facilmente explicado: Linda Darnell era interesse amoroso do big boss Darryl F. Zanuck,  da 20th. Century-Fox. Ele fazia o que podia e não podia para promovê-la.





Direção de fotografia (preto e branco): Joseph P. MacDonald. Roteiro: Samuel G. Engel, Winston Miller, com base em história de Sam Hellman extraída do livro de Stuart N. Lake, Wyatt Earp, frontier marshal. Direção de arte: James Basevi, Lyle R. Wheeler. Decoração: Thomas Little. Associado à decoração: Fred J. Rode. Figurinos: René Hubert. Música: Cyril J. Mockridge, David Buttolph. Direção musical: Alfred Newman. Orquestração: Edward B. Powell. Montagem: Dorothy Spencer. Assistentes de direção (não creditados): William Eckhardt, Jack Sonntag, Edward O'Fearna. Efeitos especiais: Fred Sersen. Som: Eugene Grossman, Roger Heman Sr. Maquiagem: Ben Nye. Gerente de produção: Raymond A. Klune (não creditado). Dublês (não creditados): Jack Montgomery, Gil Perkins. Guarda-roupa: Sam Benson (não creditado). Joias: Eugene Joseff (não creditado). Aprendiz de montagem: Lyman Hallowell (não creditado). Gerente de locações: Ray C. Moore (não creditado). Apresentação: Darryl F. Zanuck. Dublê para Russell Simpson: Barlow Simpson (não creditado). Estúdio de mixagem de som: Western Electric Recording. Tempo de exibição: 104 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1983; revisão e ampliação em 1990)



[1] Brett Hart ou Francis Bret Harte, é autor estadunidense, um dos nomes basilares da literatura do país. Foi mineiro, professor, mensageiro e jornalista. Contribuiu decisivamente na fixação de uma cor local, diferenciadora, aos romances, contos e poemas ambientados nos Estados Unidos. Faleceu em 1902, aos 66 anos (nota de José Eugenio Guimarães).
[2] Mais recentemente houve as investidas de George Pan Cosmatos em Tombstone — A justiça está chegando (Tombstone, 1993) e Wyatt Earp (Wyatt Earp, 1994), de Lawrence Kasdan.
[3] Inédito comercialmente no Brasil.
[4] A respeito, há o injustamente pouco valorizado filme Assassinato em Hollywood (Sunset, 1988), de Blake Edwards, com James Garner como Wyatt Earp e Bruce Willis no papel do ator de westerns Tom Mix. Garner também viveu o personagem, em sua fase de agente da lei, para A hora da pistola (Hour of the gun, 1967), de John Sturges.