domingo, 30 de outubro de 2016

O EXEMPLAR WESTERN DA UTOPIA FORDIANA

Dentre os vários westerns de John Ford, qual é o mais terapêutico, acima de tudo para ele? Qual seria o mais evocativo na alusão a um "paraíso perdido", segundo a visão de mundo muito particular do realizador e apesar da ambientação em cenário conflagrado? Dentre as horse operas fordianas, qual aparenta ares de clara utopia? Em qual filme do bardo de sangue irlandês a locação mítico-referencial de Monument Valley está preenchida por distante sacralidade, como componente de uma natureza anímica? Estas questões estão respondidas na apreciação a seguir, escrita em 1983, revista e ampliada em 1990. Aborda Paixão dos fortes (My darling Clementine, 1946), primeiro trabalho do cineasta após o término da Segunda Guerra Mundial. Participou do conflito como correspondente, não raro na linha de frente das batalhas. A experiência o afetou significativamente, no plano pessoal e desenvolvimento da filmografia. As mudanças são evidentes neste segundo western rodado em Monument Valley. O filme, como o famoso duelo que lhe serve de clímax, é um divisor de águas. Assinala o início da separação entre o Ford da juventude e o da maturidade. Daí em diante as epopeias localizadas no Oeste assumem ares crescentes de desencanto, amargura e pessimismo, um desenvolvimento consequente e compassado, conforme se depreende das análises em retrospecto. Do ritmo otimista de balada de Paixão dos fortes já se antevê o apuradíssimo andamento outonal e crepuscular exposto no exemplar ocaso dos mitos de O homem que matou o facínora.







Paixão dos fortes
My darling Clementine

Direção:
John Ford
Produção:
Samuel G. Engel
20th. Century-Fox
EUA — 1946
Elenco:
Henry Fonda, Victor Mature, Linda Darnell, Walter Brennan, Cathy Downs, Ward Bond, Tim Holt, Alan Mowbray, John Ireland, J. Farrell McDonald, Grant Withers, Roy Roberts, Jane Darwell, Russell Simpson e os não creditados Francis Ford, Don Garner, Ben Hall, Arthur Walsh, Jack Pennick, Louis Mercier, Mickey Simpson, Fred Libby, Harry Woods, Charles Stevens, Mae Marsh, Robert Adler, C. E. Anderson, Don Barclay, Danny Borzage, Frank Conlan, William B. Davidson, Earle Foxe, Aleth 'Speed' Hanson, Duke R. Lee, Margaret Martin, Frances Rey, Hank Bell, Ruth Clifford, Tex Cooper, Jack Curtis, James Dime, Tex Driscoll, Frank Ellis, Jack Kenny, Kermit Maynard, Robert Milasch, Jack Montgomery.


John Ford, em posição elevada, quando da realização de Paixão dos fortes

Cansado da guerra, o desmobilizado "Soldier Ford" está prestes a voltar para casa
Seu cinema irá rever os mitos sobre os Estados Unidos  e assumirá ares de desencanto
O cineasta começará a buscar refúgio em "paraísos perdidos" e a estreitar o convívio entre companheiros próximos harmonizados pelo ideal de fraternidade



Wyatt Earp, Doc Holliday, Clementine Carter, Old Man Clanton, Tombstone, Chihuahua, Hamlet, o amor, a amizade, um baile no piso da igreja em construção e o duelo de OK Corral — o mais famoso tiroteio do velho Oeste: tudo isso é Paixão dos fortes, uma das culminâncias da arte fordiana. Após vê-lo, o crítico francês Jean-Georges Auriol — extasiado com a beleza poética e a simplicidade da encenação — escreveu um elogio, a famosa Carta a John Ford: "Depois de Brett Hart[1] ninguém mais que você soube cantar a canção rouca e sentimental desse Oeste no qual a selvageria é temperada pela amizade entre companheiros díspares que a fatalidade harmoniza; no qual o amor de alguns rapazes por uma moça (luzindo de pureza ou com o empoador na mão) relembra, na dureza da existência à mercê de um tiro, que resta um lado delicado no mundo pelo qual vale fazer-se pacífico e bom".


É o primeiro western dirigido por Ford desde 1939 — quando redefiniu as diretrizes fundamentais do gênero, tornando-o adulto, com No tempo das diligências (Stagecoach). Entre este título e Paixão dos fortes há um hiato de sete anos. Aproxima-os o cenário de Monument Valley, utilizado pela segunda vez em uma epopeia do realizador. Antes, a região se apresentou como paisagem dinâmica, ao acompanhar o desenrolar de uma aventura em movimento que a percorria de ponta a ponta. Agora, o visual desértico e rochoso assume dimensão metafísica, quase irreal. Parece parte de uma paragem inatingível, envolvida pelo mistério da sacralidade. Porém, é presença constante, como se oferecesse o testemunho de uma natureza anímica, entretanto indiferente à ação profana dos homens legitimados pelo projeto de edificar uma civilização a partir de golpes de arrojo e determinação. O magnífico conjunto de Monument Valley, destacado no horizonte, é um dos mais belos e imponentes panos de fundo do cinema.


Henry Fonda interpreta o xerife de Tombstone, Wyatt Earp


O tema de Paixão dos fortes mereceu tratamento cinematográfico por Allan Dwan em A lei da fronteira (Frontier marshal, 1939); John Sturges em Sem lei e sem alma (Gunfight at the OK Corral, 1957) e A hora da pistola (Hour of the gun, 1967); e Frank Perry no desmistificador e frustrante O massacre dos pistoleiros (Doc, 1971)[2]. Cinematograficamente a versão de Ford é superior, apesar de não guardar fidelidade aos homens e acontecimentos. A lenda e o mito prevalecem a partir do próprio material bibliográfico que forneceu suporte aos roteiristas Samuel G. Engel e Winston Miller: Wyatt Earp, frontier marshal, de Stuart N. Lake, adaptado por Sam Hellman. Segundo consta, o biografado confirmou a veracidade da fonte. Pelo visto, também preferia o aspecto lendário dos fatos.


Em termos narrativos, Paixão dos fortes segue a estrutura de A lei da fronteira, de Allan Dwan. Mas o andamento e o olhar são totalmente diferentes. É o primeiro filme realizado por Ford após o término da Segunda Guerra Mundial — conflito no qual se engajou e atuou como correspondente, em geral na vanguarda das batalhas. A experiência bélica o marcou profundamente. A partir daí sua obra começará a rever os mitos sobre a formação dos Estados Unidos; assumirá ares crescentes de desencanto, amargura e pessimismo. Paralelamente, o cineasta também passará a buscar refúgio terapêutico em "paraísos perdidos", nos quais pudesse exaltar o bem-viver e a harmonia dos laços comunitários estreitados pelo espírito da camaradagem, em que pesem as diferenças individuais e as adversidades que cercam o próprio ato de existir. Exemplos dessa tendência podem ser vistos em Caravana de bravos (Wagon master, 1950); Depois do vendaval (The quiet man, 1952), O sol brilha na imensidão (The Sun shines brights, 1953), The rising of the Moon (1957)[3] e O aventureiro do Pacífico (Donovan's reef, 1963). Na vida real houve o estreitamento do convívio com o grupo fechado de amigos próximos, periodicamente reunido em acampamentos, bebedeiras, pescarias, aventuras marítimas e nas próprias locações cinematográficas. Estas se convertiam, não raro, em centros de celebração da amizade e exaltação de valores ancestrais, sempre inundados por muita música, ainda mais quando surgia a possibilidade de filmar um western em paragens distantes das comodidades urbanas — como Henry Fonda tão bem expôs no documentário Dirigido por John Ford (Directed by John Ford, 1971), de Peter Bogdanovich.


A concepção do Oeste em Paixão dos fortes guarda semelhanças com a imagem dos paraísos perdidos ou, também, a um centro difusor de utopias segundo a particular visão de mundo de Ford. A narrativa está impregnada pela idealização microcósmica do mundo e da paz. O xerife Wyatt Earp — interpretado pelo inspirado e cool Henry Fonda — guarda pouca correspondência com o histórico homem da lei. Assemelha-se mais ao gentil cavaleiro retirado das mais nobres canções de gesta e inserido no contexto do Oeste selvagem dominado por violência e arbítrio. Por motivos circunstanciais e estritamente pessoais aceita o cargo de xerife de Tombstone — lápide, túmulo ou cemitério conforme as traduções. Exercerá o ofício de forma singular: apela comumente ao diálogo e ao calor que emana de sua personalidade incomum. Poucas vezes recorre às armas. Só as emprega em momentos extremos.


O xerife Wyatt Earp, interpretado por um inspirado e cool  Henry Fonda



Como Ford, o Wyatt Earp de Henry Fonda está cansado de guerra. Busca ardentemente a concórdia e um lugar para repousar e viver, nada mais. O surgimento de um "anjo", Clementine Carter (Cathy Downs) — professora vinda do leste, representação do sopro de novos valores nas terras sem lei —, vai praticamente ao encontro das mais caras e sinceras aspirações do personagem.


Wyatt Earp — personalidade moldada pela poeira levantada pelo vento na vastidão das pradarias — almeja a aceitação e o reconhecimento por uma comunidade de pertencimento, que cultua a tranquilidade dos domingos, os passeios matinais e os festejos nos quais todos possam interagir e comungar. Ninguém melhor que John Ford para filmar um baile e extrair do evento o que há de mais significativo com respeito à integração dos indivíduos com seus iguais.



Acima e abaixo: Wyatt Earp (Henry Fonda) e Clementine Carter (Cathy Downs) a caminho do baile


Entre os cowboys de verdade que conheceu, John Ford foi amigo de Bill Cody, Pardner Jones, All Jennings e do próprio Wyatt Earp, consultor de westerns em Hollywood durante os anos 20[4]. Disse o cineasta: "Eles se interessavam pelos filmes e visitavam-me nos locais das realizações". Também conta que ouviu do próprio Earp a história do duelo de OK Corral. A partir daí, procurou fazer de Fonda e do notório embate réplicas condizentes com o riscado. Se prevaleceu o ponto de vista lendário pouco importa! O filme é grandioso! Passados 16 anos, em O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valence, 1962) — western testamento do gênero e do cineasta —, o jornalista Maxwell Scott (Carleton Young) — profissional que deve se ater aos fatos segundo os ordenamentos da atividade que pratica — dirá, ao tomar ciência de uma história despida de heroísmos, feitos gloriosos e façanhas gradiloquentes: "Estamos no Oeste. Aqui, quando a lenda supera os fatos imprima a lenda". Em Paixão dos fortes, no fortalecimento a este posicionamento está o próprio título original: My darling Clementine, antes de tudo o nome de uma antiga ária do folclore da fronteira, recuperada na trilha musical de Cyril J. Mockridge e recriada na forma de inspiradas variações. O casamento da melodia com a concepção pictórica obtida pelas lentes de Joseph P. MacDonald produz um conjunto de rara poesia e beleza. Faz a paisagem mítico-referencial do Oeste fordiano transbordar em sentimento, confiança e alegria, às vezes de nostálgica melancolia.


Depois de ter o gado roubado e o irmão mais novo James (Don Garner, não creditado) assassinado, Wyatt aceita a nomeação de xerife da violenta Tombstone. Auxiliado pelos manos Morgan (Bond) e Virgil (Holt), tenta recuperar o rebanho, punir os criminosos representados por Old Man Clanton (Brennan, magistral) e filhos — Billy (Ireland), Ike (Whiters), Phin (Fred Libby, não creditado), Sam (Mickey Simpson, não creditado) — e implantar a lei no lugar. Estabelece relações de camaradagem e amizade, inicialmente difíceis, com Doc Holliday (Mature) —, médico fracassado oriundo do leste, constantemente assediado pela tuberculose e com a vida destrutivamente largada aos vícios da jogatina e do alcoolismo. Doc vive conturbada relação amorosa com Chihuahua (Darnell), a garota do saloon, enquanto procura expurgar as lembranças dos melhores dias quando desfrutou do amor da doce Clementine Carter (Downs). Esta chega a Tombstone para reencontrá-lo e com esperanças de conduzi-lo ao tratamento. No entanto, o irascível Doc confunde o gesto com sentimento de piedade. Destratada e recusada, a jovem passa a ser cortejada pelo xerife, com o qual protagoniza as sequências mais idílicas e delicadas. Porém, os Clanton assassinam covardemente Virgil e Chihuahua. Em decorrência, Wyatt, Morgan e Holliday partem para a desforra no OK Corral. No embate, o jogador é mortalmente ferido. Ao final, consumado o acerto de contas, os Earp regressam a Dodge City como emissários de notícias ruins aos demais membros da família. Porém, o xerife planeja voltar e construir um futuro pacífico ao lado de Clementine, decidida a se estabelecer como professora em Tombstone.


Com desenvolvimento linear lento, sereno nas exposições e rico na observação das fragilidades dos indivíduos, Paixão dos fortes é um poderoso estudo psicológico e social que transborda vontade de viver e criar em todos os seus pormenores. Os lugares comuns são evitados. A realização foi fortemente influenciada pelo cinema expressionista alemão, característica revelada na generalidade da iluminação e dos enquadramentos. Há um perfeito equilíbrio entre as variações melódicas da ária e os sons da natureza. A fotografia, de apurada sensibilidade visual, evidencia o valor nas tomadas do crepúsculo, na poeira das pradarias, nas sombras das construções projetadas sobre a rua, no horizonte onde céu e terra se harmonizam e na majestosa imponência dos rochedos de Monument Valley. O lirismo romântico pulsa com maior intensidade em duas sequências antológicas: a do barbeiro e, a seguir, do baile no piso da igreja em construção. Quanto ao duelo, segundo Ford, encenou-se mais que um simples tiroteio movimentado. O diretor alega que reconstituiu o confronto segundo relatos do próprio Earp, na forma de autêntico combate de rua conduzido segundo táticas militares. Nesse momento, a direção, a câmera e a montagem se equilibram à perfeição, em exemplar lição de ritmo cinematográfico.


Os irmãos Earp:  Morgan (Ward Bond), Wyatt (Henry Fonda) e Virgil (Tim Holt)


Quanto aos atores, Henry Fonda compõe o herói fordiano por excelência: íntegro, lacônico, direto, calmo, decidido e internamente frágil. O limitado Victor Mature — que raramente encontrou papéis adequados ao tipo físico —, converte-se nas mãos de Ford num convincente e trágico Doc Holliday: a um só tempo culto, misterioso, decadente, arrogante, provocador e debilitado. Busca desesperadamente a morte, como alívio à horrível prisão interior decorrente da enfermidade que o limita ao ponto de inutilizá-lo.


A tragédia de Holliday, acompanhada do desejo de ser abençoado com o término da existência, mostra-se patente quando protege o ator shakespeariano Granville Thorndyke (Mowbray) da provocação dos Clanton e o auxilia na declamação forçada do monólogo de Hamlet: "Ser ou não ser...". A passagem está prestes a ser concluída enfaticamente pelo próprio jogador, como se os escritos do bardo inglês contivessem a expressão de um profundo e pessoal desejo: "... Quem levaria fardos, gemendo e suando sob a vida fatigante, se o receio de alguma coisa após a morte — essa região desconhecida cujas raias jamais viajante algum atravessou de volta —, não nos pusesse a voar para outras regiões não sabidas? O pensamento assim nos acovarda, e assim é que se cobre a tez normal da decisão..." É interrompido por agudo acesso de tosse decorrente da enfermidade. Porém, a conclusão foi desnecessária para confirmar o estado agônico da alma de Doc Holliday.


O ator Granville Thorndyke (Alan Mowbray) e Doc Holliday (Victor Mature) no monólogo de Hamlet


"Shakespeare em Tombstone?", pergunta Old Man Clanton — entre a admiração e a incredulidade —, quando a troupe teatral chega à cidade. Shakespeare na paisagem agreste da fronteira! Provavelmente, nenhum outro western se valeu de modo tão extraordinário de um texto do autor elizabethano para comentar o estado de ânimo e os desejos mais íntimos de um personagem dominado pelo senso de tragédia. Em O homem que matou o facínora o jornalista Dutton Peabody (Edmond O'Brien) também buscará as palavras do menestrel, no caso as de Henrique V. O contexto, totalmente diferente, da mesma forma ilustrará um momento dominado pela fragilidade, apesar do tom de comédia.


Shakespeare em Tombstone!
Wyatt Earp (Henry Fonda), Doc Holliday (Victor Mature) e Chihuahua (Linda Darnell) no teatro

Chihuahua (Linda Darnell)


Wyatt e Doc são opostos que se complementam equilibradamente. Ambos encontram o centro na figura de Clementine Carter. Menosprezada pelo jogador, é transformada em ideal a conquistar pelo xerife. É o sopro da civilização. Dramaticamente, para esta triunfar — em outras palavras, a justiça, a lei, a ordem e o direito, valores representados por Earp e acentuados por Carter —, Ford toma a liberdade de cumprir com o desejo de Holliday e o sacrifica em OK Corral. Na verdade, ele faleceu na cama, aos 36 anos, vitimado pela tuberculose, quando estava hospitalizado em Denver, Colorado. A alteração da história não decorre do senso de piedade ou de alguma gratuita antipatia manifestada pelo diretor ao personagem; muito ao contrário. Sempre foram patentes o carinho e respeito devotados por Ford aos marginais sociais, como de certo modo é o refratário Doc Holliday de Paixão dos fortes. Porém, de tão individualista e arbitrário, corresponde aos tipos prontos a serem vencidos pelo progresso ou pela força de novas ideias, como Tom Doniphon (John Wayne) em O homem que matou o facínora.


Old Man Clanton (Walter Brennan) e Wyatt Earp em OK Corral


Doc sairá de cena em decorrência dos valores que expressa e lhe conferem significado. É o símbolo de uma imagem do Oeste que não encontra ressonância frente às demandas civilizatórias trazidas pelo anúncio dos novos tempos. É exemplo de indivíduo que impõe as próprias determinações acima dos interesses maiores da coletividade. Nesse sentido, o duelo de OK Corral é mais que um tiroteio. Tem significados premonitórios, como se fosse um divisor de águas. Depois desse acontecimento vem o adeus às armas. Como no Eclesiastes, inaugura-se o tempo de edificar, fincar raízes, estabelecer, casar, ter filhos, fundamentar as instituições e pavimentar os caminhos do futuro.


O adeus às armas na utopia fordiana
Wyatt Earp (Henry Fonda) em despedida, com ares provisórios, de Clementine Carter (Cathy Downs)


Não para menos, ao final, Wyatt, símbolo da lei e do direito, parte de Tombstone, mas acena com a possibilidade de um retorno para Clementine Carter. Neste epílogo, John Ford antecipa o diretor na plenitude da maturidade artística, que encontrou auge em meados dos anos 50 e início dos 60. A realização já emitia, ainda que embrionariamente, uma mirada crítica à imagem do Oeste que o diretor, mais que qualquer outro, ajudou a consolidar, desde que ofereceu sua particular contribuição, no front cinematográfico, ao esforço de registrar a história nada pacífica dos Estados Unidos. O ritmo otimista de balada de Paixão dos fortes já permite antever o apuradíssimo andamento outonal e crepuscular desenvolvido no exemplar ocaso dos mitos de O homem que matou o facínora.


Por fim, uma curiosidade. Apesar de o filme se chamar, originalmente, My darling Clementine, quem tem amplo destaque em todos os cartazes de divulgação é Chihuahua. A personagem vivida por Cathy Downs sequer aparece, ao passo que Wyatt Earp e Doc Holliday ganham ares de coadjuvantes. Isso é facilmente explicado: Linda Darnell era interesse amoroso do big boss Darryl F. Zanuck,  da 20th. Century-Fox. Ele fazia o que podia e não podia para promovê-la.





Direção de fotografia (preto e branco): Joseph P. MacDonald. Roteiro: Samuel G. Engel, Winston Miller, com base em história de Sam Hellman extraída do livro de Stuart N. Lake, Wyatt Earp, frontier marshal. Direção de arte: James Basevi, Lyle R. Wheeler. Decoração: Thomas Little. Associado à decoração: Fred J. Rode. Figurinos: René Hubert. Música: Cyril J. Mockridge, David Buttolph. Direção musical: Alfred Newman. Orquestração: Edward B. Powell. Montagem: Dorothy Spencer. Assistentes de direção (não creditados): William Eckhardt, Jack Sonntag, Edward O'Fearna. Efeitos especiais: Fred Sersen. Som: Eugene Grossman, Roger Heman Sr. Maquiagem: Ben Nye. Gerente de produção: Raymond A. Klune (não creditado). Dublês (não creditados): Jack Montgomery, Gil Perkins. Guarda-roupa: Sam Benson (não creditado). Joias: Eugene Joseff (não creditado). Aprendiz de montagem: Lyman Hallowell (não creditado). Gerente de locações: Ray C. Moore (não creditado). Apresentação: Darryl F. Zanuck. Dublê para Russell Simpson: Barlow Simpson (não creditado). Estúdio de mixagem de som: Western Electric Recording. Tempo de exibição: 104 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1983; revisão e ampliação em 1990)



[1] Brett Hart ou Francis Bret Harte, é autor estadunidense, um dos nomes basilares da literatura do país. Foi mineiro, professor, mensageiro e jornalista. Contribuiu decisivamente na fixação de uma cor local, diferenciadora, aos romances, contos e poemas ambientados nos Estados Unidos. Faleceu em 1902, aos 66 anos (nota de José Eugenio Guimarães).
[2] Mais recentemente houve as investidas de George Pan Cosmatos em Tombstone — A justiça está chegando (Tombstone, 1993) e Wyatt Earp (Wyatt Earp, 1994), de Lawrence Kasdan.
[3] Inédito comercialmente no Brasil.
[4] A respeito, há o injustamente pouco valorizado filme Assassinato em Hollywood (Sunset, 1988), de Blake Edwards, com James Garner como Wyatt Earp e Bruce Willis no papel do ator de westerns Tom Mix. Garner também viveu o personagem, em sua fase de agente da lei, para A hora da pistola (Hour of the gun, 1967), de John Sturges.

9 comentários:

  1. Hola Eugenio.
    Excelente análisis de la película y de la idea cinematográfica del maestro John Ford.
    En mí opinión nos encontramos ante su filme más poético y en tu texto demuestras la mucha inspiración que te produjo la historia con frases de mucha belleza que escribes en esta evaluación.
    Creo que en sus cintas como bien remarcas, el paisaje y la dirección de arte además de acompañantes, son otros personajes más de su cinematografía.
    Me gustó la versión de 1994 de Lawrence Kasdan (Wyatt Earp) aunque claro, cualquier comparación con el maestro Ford es odiosa.
    Un abrazo Eugenio y seguimos aprendiendo de cine con tus detallados análisis.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hola, Miguel!

      Para mí, Ford siempre ha sido y será el número 1, Ninguno filma como él. Es probablemente el mejor realizador que combina el elemento humano al espacio, sea la naturaleza o simplemente el paisaje. El humaniza el medio ambiente, siempre. En este sentido, "MY DARLING CLEMENTINE" es una de sus piezas más brillantes.

      Gracias, Miguel! Abrazos y saludos.

      Excluir
  2. Como es de esperar, amigo y compañero bloguero, Eugenio, nos vuelves a ofrecer otra gran y amplía reseña cinematográfica, haciendo un gran análisis de esta gran obra del cine y del género western.

    Tras su intento por ingresar en la Marina, se traslada en 1913 a Hollywood para trabajar con su hermano Francis Ford, director, guionista y actor en la Universal Studios. Diez años después, adoptó el seudónimo de Jack Ford que pronto cambiaría por John Ford. Actor y ayudante de dirección en las películas de su hermano.

    Se considera a esta película como el mejor western de John Ford, así como también la mejor adaptación al cine sobre el legendario "duelo en Ok corral" en la ciudad de Tombstone, Arizona.

    La traducción del título en español de esta película es "Pasión de los Fuertes", una película donde lo romántico está presente y la venganza entre pistoleros y jugadores profesionales, hacen que sea una estupenda combinación de contrastes.

    Muchos saludos, abrazos y besos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hola, Estrella!

      Sus informaciones acerca de los primordios de John Ford son correctas. Este hijo de Irlanda nació en los Estados Unidos, en Cape Elizabeth, estado do Maine. El nombre real es Sean Aloysius O'Fearna o John Martin Feeney segun el Inglés. Adoptó el nombre de John Ford en honor al dramaturgo elizabethano que así se llamaba y del cual era un admirador. Para mí, es muy difícil señalar taxativamente lo que es la mejor película que hizo o incluso su mejor western. Normalmente me quedo entre "THE SEARCHERS" o "THE MAN WHO SHOT LIBERTY VALANCE". Sin embargo, "MY DARLING CLEMENTINE" se encuentra entre las más bellas películas.

      Gracias, Estrella! Saludos, abrazos e besos - Muchos.

      Excluir
  3. Eugenio,

    A visão da proximidade da morte, as guerras e seus contingentes, os momentos críticos e mais drásticos da vida sempre nos faz passar a ter outros olhos a partir de tais e outros mais episódios. Passamos a ser outra pessoa, queiramos ou não, pois o que se viu ou passou nos modifica interiormente.

    Passamos a assistir e a analisar tudo de forma alternativa aos que não cruzaram por fatos destes naipes, o que foi o caso de Ford que, depois de passar e ver o que aconteceu na guerra, sua mente ganhou questionamentos outros, sua meta e visão para a vida mudou a ponto de seus filmes ganharem em qualidade e nos trazerem ares de realismo.

    Acabei de rever Paixão dos Fortes para fazer este comentário.
    No entanto, o linguajar desta postagem não me coloca à altura de entender tudo com nitidez ou conforme meu saber. Ela é forte, destoante para mim em muitas muitas partes aos conhecimentos, mas algo ou a maioria dá para captar.

    Se endeusa muito este filme de Ford nesta postagem.
    Ele é sim um grande filme, tem todas as qualidades que aqui é citada e que compreendi, porém no meu ponto de visão não é o melhor que o Ford fez.

    De um lado ficamos sem saber se o que se conhece do Earp foi vero ou criação de mentes prodigiosas, a fim de se gerar tantas películas de conformidades alternativas sobre o mesmo tema.
    Mas, como cinema é uma obra livre, aberta, cada um dá seu passo do tamanho que deseja que seu pé tenha.

    Neste filme conhecemos um Earp, no filme do Sturges/56, nos mostram uma faceta muito diferente do citado heroi. Já o Kasdan nos mostra um Earp completamente diferente dos acima citados. E neste do Ford, que apesar de qualidades ele tem muitas, vemos um Earp e um andamento de sua vida em disparidade com todos os demais vistos.
    É, não dá para discutir isso, não dá. Vai terminar gerando demais!

    Claro, nada do que cito ou que abordo vem ao caso e sim a qualidade da pelicula. Vou ouvir isso de quem ler minha fala.

    Só que eu não tiro qualquer mérito do filme. Mas acabo de ve-lo e ele não passa apenas de uma boa pelicula do Ford, aliás como tudo o que ele fez, com um elenco funcional, principalmente com um Mature como nunca vimos e com um Brenner como sempre. Mais; todos os apanhados do filme são bem administrados e tudo o mais é de qualidade de bom para cima.

    Mas não sei como se pode endeusar tanto um filme de faroeste quando o próprio Ford fez algo muito mais qualitativo e nunca vi nada dito sobre ele como vejo dito sobre este aqui e também No Tempo das Diligencias! O Homem que Matou o Facínora é perfeito, grandioso, incluindo ali todas as qualidades que o mestre Ford objetou em todos seus filmes e com muito mais incluso ali.

    Estou contra todos os ditos da postagem? Claro que não. Afinal todos têm o direito de ver e sentir as coisas e tudo no mundo como sente. Tudo isso é coisa muito individual, particular, proprio de cada um. E o meu parecer, a minha visão é que o filme acima é ótimo, mas não o observo com tanto fervor quanto os demais. Isto está chegando muito perto de Cidadão Kane que todos o denominam o mais perfeito filme já feito!!!

    A filmografia de Ford é toda muito singular, toda focada na sua qualidade como um diretor de linha primeira. Um homem que faz os filmes que ele fez e que até disse "Me chamo John Ford e faço westerns", ou algo assim. Mas ele não fez apenas westerns. Ele fez filmes espetaculares fora deste gênero, como Depois do Vendaval/52, O Delator/35, O Ultimo Hurrah/57 ou 58, Vinhas da Ira/40 ou 41, e mais, e mais.

    Com isto quero apenas enaltecer a qualidade criativa deste grande cineasta, que fez de tudo e fez tudo muito bem.
    O que não posso é ver o que o editor e outros criticos vêm neste bom western para coloca-lo acima da média de tudo que o mestre fez no gênero.

    Olhemos que Crepúsculo de Uma Raça. Este é um outro grande feito seu. Sem falar em Legião Invencível e Marcha de Herois, uma fita quase esquecida, espetacular, e que não leio quase nada a seu respeito.

    Portanto ainda fico como sendo o melhor western de Ford O Homem que Matou o Facínora.

    jurandir_lima@bol.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. JURANDIR,

      Em que lugar da postagem está escrito que este é o melhor filme de Ford? Em lugar algum, creio. Cuidado com o que lê e com as conclusões que toma. Quanto à linguagem, talvez tenha razão. Está carregada de termos da filosofia, pois esta apreciação foi originalmente escrita e publicada em revista de filosofia. Não é apenas a apreciação de um filme, mas um artigo acadêmico.

      Quanto às qualidades da película... Bom... Você tem a sua maneira de apreciá-la. Eu e meu pai - que a adoramos (ele infelizmente já faleceu) - temos outra. Desde sempre PAIXÃO DOS FORTES foi apontado como uma das obras mais perfeitas de Ford. Recentemente, a revista inglesa SIGHT & SOUND, em sua última enquete decenal publicada em 2012, o incluiu entre os 250 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS, o que me deixou, acima de tudo, feliz. Então, eu e o filme estamos em boa companhia. É uma da realizações mais estudados de todo o cinema.

      Você fica citando outros filmes como se eu tivesse cometido o pecado mortal de não tratá-los. Claro que tem toda a liberdade para fazer isso. Cada qual comenta ou se justifica da forma que melhor convém. Mas esta postagem trata exclusivamente de PAIXÃO DOS FORTES,que é um dos meus filmes referenciais. Quando for a hora de tratar de NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS, O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA, CREPÚSCULO DE UMA RAÇA, LEGIÃO INVENCÍVEL - que são tão importantes ou igualmente referenciais - tais títulos terão postagem específicas, desde que sejam sorteadas. Mas, ESTA, é exclusiva para MY DARLING CLEMENTINE. Por outro lado, não endeuso o filme. Por mais que eu goste dele, quem sou eu para fazer isso? Apenas me debrucei sobre ele com a pena do analista que se propôs a dissecá-lo de ponta a ponta para lhe expor as qualidades, há 27 anos. Esta apreciação foi escrita em 1990, quando eu ainda tinha muito cabelo.

      PAIXÃO DOS FORTES é um filme maior que a vida, como se costumava dizer para as obras com sabor de elegia, destinadas a se consolidar como paradigmas. E este filme é paradigmático.

      Continua...

      Abraços.

      Excluir
    2. JURANDIR,

      Continuando...

      Evidentemente, há muitas versões sobre a vida de Earp. Não dá para saber objetivamente sobre tudo o que ele representou ou fez. Há insuficiência de registros objetivos e, portanto, confiáveis. A biografia do personagem é atravessada por lenda. Então, o que sempre teremos sobre ele serão versões, interpretados de acordo com os tempos e as circunstâncias. E os cineastas estão conscientes de que puseram versões nas telas. O próprio John Sturges apresentou um Wyatt Earp em SEM LEI E SEM ALMA e outro totalmente diferente, quase dez anos, após em A HORA DA PISTOLA. Mas isso não me preocupa. Quando me posiciono diante de um filme baseado em personagens reais, não estou em busca da VERDADE. Estou em busca de uma interpretação, de uma criação que se destaque, de um registro autoral banhado em personalidade. Tudo isto o filme de Ford tem de sobra, além, evidentemente, de muito poesia.

      Para você ver, a famosa frase do Ford - "Meu nome é John Ford e faço westens" - pronunciada numa reunião da Associação de Diretores no final da década de 40... Ela é em tudo lendária. Por quê? Ford não a teria dito? Claro que disse, está gravado. Mas ela é mais verdadeira para os anos 10 e 20 quando ele, de fato, fazia quase tão somente westerns, a maior parte perdida atualmente. No momento em que a pronunciou, Ford era já um diretor com uma das mais diversificadas carreiras do cinema. Mas pela lógica da frase, é também alguém que sempre soube usar a lenda em seu favor, mesmo em uma simples apresentação quando quis dar a impressão, conforme justificou anos depois, que era apenas um diretor sem maior importância junto a colegas como Wyler, DeMille, Mankiewicz, Capra, Huston, Cukor e outros.

      Por fim, concordo com você: o melhor filme de Ford, para mim, é O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA. Em momento algum esta escrito, no texto que você acabou de comentar, que MY DARLING CLEMENTINE é o MELHOR filme dele. Não é! Mas é um dos mais bem conseguidos, um dos mais poéticos, um dos mais referenciais, um dos que é pura elegia. Aliás, voltando a O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA: como gosto de dizer para os meus amigos mais chegados, tão cinéfilos como eu, que volta e meia se reúnem aqui em casa para ver filmes e tomar cachaça, O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA é o MEU melhor filme de Ford nos dias pares, pois nos dias ímpares o MEU melhor é RASTROS DE ÓDIO.

      Abraços

      Excluir
  4. Que belleza de filme....No sólo se trata de una película de balazos,sino de la esencia del amor,la aventura y la belleza de la naturaleza rodeando la historia....Estupenda reseña querido Eugenio,siempre un placer visitar tu blog,besitos...!!! :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Trata-se de um filme belíssimo, Maria Del Socorro! Espero que possa vê-lo e que isso não demore muito. São necessários olhos acurados e sensibilidade para apreciá-lo.

      Obrigado pelo comentário, pela visita y pelo elogio.

      Beijos, abraços e saludos.

      Excluir