domingo, 6 de novembro de 2016

UM FUSCA PARA OS TRÊS PATETAS

Naquele meu tempo de criança, tão distante, adorava as comédias com os Três Patetas (The Three Stooges). Porém, chegam os 12 anos, divisor de águas para a minha geração. Assim, em 1968, as tolices protagonizadas por Moe, Larry e Curly começaram a perder a graça e a enfastiar. Coincidentemente, nesse ano, soube que um dos maiores sucessos de público entre os estadunidenses era a comédia Se o meu 'fusca' falasse (The love bug), dos Estúdios Disney, dirigida por Robert Stevenson. Fiquei louco para vê-la. O desejo só foi concretizado seis anos depois. Que decepção! A história Car-boy-girl, de Gordon Bulford, roteirizada por Don DaGradi e Bill Walsh, provavelmente renderia um divertido desenho animado com todos os nonsenses e passagens ridículas que a alimentam. Infelizmente, os produtores tomaram a errônea decisão de transformá-la em aventura de live action. Resultou num filme ao nível da sucessão de tapas na cara, dedos nos olhos e chutes nos traseiros que faziam a (des)graça de Os Três Patetas — com igual profusão de caretas —, a esta altura quase esquecidos no setor mais empoeirado de minhas memórias. É tão ruim a ponto de provocar saudades do trio destrambelhado, que ao menos dava a impressão de ser honesto, sem maiores pretensões, no festival de agressões que protagonizava. Como apenas um fusca não faz verão, vieram as continuações. Os alemães, criadores do carro, não ficaram para trás e ofereceram um Dudu em contraponto ao Herbie da Disney. Como "macaco velho não mete a mão em cumbuca", achei mais prudente passar ao largo de tudo isso. A apreciação a seguir, de 1976, passou por revisão e ampliação em 1987.






Se o meu 'fusca' falasse
The love bug

Direção:
Robert Stevenson
Produção:
Bill Walsh
Walt Disney Productions
EUA — 1968
Elenco:
Dean Jones, David Tomlinson, Michele Lee, Buddy Hackett, Joe Flynn, Benson Fong, Joe E. Ross, Barry Kelley, Iris Adrian, Andy Granatelli, Ned Glass, Robert Foulk, Gil Lamb, Nicole Jaffe, Wally Boag, Russ Caldwell, Max Balchowsky, P. L. Renoudet, Brian Fong, Alan Fordney, Stan Duke, Gary Owens, Chick Hearn, Pedro Gonzales-Gonzales, Edward Kelley, Dale Van Sickel, Regina Parton, Bob Drake, Hall Brock, Ben Ramsey, Lynn Grate, Richard Warlock, Everett Creach, Bill Couch, Robert F. Hoy, Jack Mahoney, Richard Brill, Rudy Doucette, Jim McCullough, Glenn Wilder, Robert James, Bob Harris, Richard Geary, Mack Perkins, Ronnie Rondell, Reg Parton, Tom Bamford, Marion J. Playan, Bill Hickman, Hal Grist, Larry Schmitz, Danna Derfus, Gerald Jann, Ted Duncan, Gene Roscoe, Charles Wills, Roy Butterfield, J. J. Wilson, Gene Curtis, Bud Ekins, John Timanus, Fred Krone, Jesse Wayne, Jack Perkins, Fred Stromsoe, Kim Brewer e os não creditados Leon Alton, Larry J. Blake, John Cliff, Harold Fong, Ben Frommer, Allen Jung, Carey Loftin, Kathryn Minner, Bing Russell, Herb Vigran.



O diretor Robert Stevenson


Empolgante para o espectador mirim, apenas palatável ao pré-adolescente, Se o meu 'fusca' falasse é constrangedor para adultos. A história de Gordon Buford, Car-boy-girl — fonte de inspiração para o roteiro de Don DaGradi e Bill Walsh —, da forma como foi adaptada renderia um bom desenho animado. Mas a Walt Disney Productions preferiu uma aventura de puro nonsense protagonizada por atores de verdade. Resultado: é um dos piores filmes de live action da companhia. Só não é a realização mais fraca de Robert Stevenson porque testemunhos abalizados confirmam: As novas aventuras do fusca (Herbie rides again, 1973) — não exatamente uma continuação de Se o meu 'fusca' falasse — é muito pior.


O veículo tem nome: Herbie. Recebeu-o de Tennessee Steinmetz (Hackett), escultor psicodélico, guru e melhor amigo de Jim Douglas (Jones), piloto de automobilismo atualmente em baixa.


Herbie, um fusca vivamente temperamental

Jim Douglas (Dean Jones), piloto de automobilismo, com o amigo Tennessee Steinmetz (Buddy Hackett)

Jim Douglas (Dean Jones) e Carole Bonnett (Michele Lee)

  
Sem patrocinador e mais uma vez derrotado, o desanimado Jim é apresentado, praticamente a um só tempo, à garota dos seus sonhos, Carole Bonnett (Lee), e ao veículo da Volkswagen. Ela trabalha na loja de automóveis do esnobe e mau-caráter Peter Thorndyke (Tomlinson). No local jaz abandonado, num canto qualquer, o personagem do título. Não é exagero chamá-lo de personagem. É isto mesmo: um personalíssimo, voluntarioso e emotivo "quatro rodas" que adota Jim de imediato.


Assim que deixa a loja, o corredor, sem perceber, é seguido pelo veículo, como o dono acompanhado de cachorro bem mais discreto. Não há ninguém ao volante. No dia seguinte é procurado pela polícia, sob acusação de roubo. De fato, a “prova do crime” está estacionada em frente à casa. Explicações não adiantam. Para se livrar da situação, é convencido por Carole a comprar a fantástica baratinha.


Herbie logo se mostra. Rebelde, não aceita ninguém ao volante, muito menos o dono. Acha mais conveniente, em primeiro lugar, iniciar Jim no namoro com Carole. Seguem-se momentos embaraçosos.


Herbie também é veloz, um desportista nato. Com ele, o piloto recupera a confiança e retorna às pistas. Começa a colecionar vitórias. Mesmo assim, não acredita que o veículo tenha vida própria. O único que aceita a evidência é Tennessee, o maior incentivador do carrinho.


Jim Douglas (Dean Jones) ao volante de Herbie

  
Thorndyke também é automobilista e maior rival de Jim. Sempre derrotado, faz tudo para ter o fusca de volta. Por fim, resolve sabotá-lo. Aproveita a ausência do proprietário e a distração de Tennessee para envenená-lo, via injeção de doses cavalares de “café irlandês” na transmissão. Herbie começa bem na competição, mas logo sente os efeitos da beberagem e amolece as rodas. Derrotado e convencido de que o fusca deu o que podia, Jim comete a imprudência de adquirir novo carro, menos surpreendente, supostamente mais resistente e veloz. Nessa altura, todos estão cientes das vigarices de Thorndyke, de seus esforços para reaver Herbie e transformá-lo em sucata. Assim, insatisfeita com o patrão, Carole o abandona para se unir definitivamente à equipe e ao coração de Jim.


Carole e Tennessee revisavam Herbie quando o corredor chegou ao volante de novo carro. É repreendido pelos companheiros ao revelar a pretensão de revender o veículo ao antigo proprietário. A discussão é interrompida pelo barulho do choque de latarias. Sentindo-se rejeitada, a baratinha partiu com tudo contra a possante aquisição de Jim, transformando-a em sucata, literalmente. Desesperado, o piloto parte, armado de pá, para cima do temperamental veículo, mas é contido por Carole e Tennessee. Admiravam os estragos quando chegou Thorndyke para reaver o carrinho, que não espera para ver. Foge!


O vilão Peter Thorndyke (David Tomlinson)

  
Arrependido, Jim põe-se a procurá-lo, por toda São Francisco. O mesmo faz a equipe do rival, que esteve a ponto de agarrá-lo. Mas a possante baratinha escapa novamente, rumo à ponte Golden Gate, para cometer suicídio. O personagem de Dean Jones chega a tempo de impedir o ato extremo.


Nesta altura, a história incorpora o Sr. Wu (Fong), espertíssimo capitalista chinês que teve parte de uma loja destruída pelo desesperado Herbie. Fã de automobilismo e sabedor das peripécias desse particularíssimo veículo da Volkswagen, resolve empresariar Jim Douglas. É a última chance para piloto e fusca demonstrarem o valor que julgam ter. Da nova competição também participará Thorndyke. Sabotado na primeira etapa, o temperamental automóvel perde as rodas e chega em último lugar. Furioso, investe contra o vilão e precisa ser contido. Essa demonstração de vigor faz o Sr. Wu recuperar a confiança. Seguem-se novas sabotagens, mas o carrinho dá o que tem para vencer. A estrutura não resiste ao esforço. Rompe-se em duas, cada qual com vida própria. Fim da competição: Thorndyke chega em segundo lugar, a dianteira de Herbie em primeiro e a traseira, em terceiro. Por causa das apostas o vilão perde a concessionária para o Sr. Wu, de quem se torna empregado. Jim e Carole, casados, partem em lua-de-mel para um destino que o fusca escolherá.


Final feliz para  Carole Bonnett (Michele Lee), Jim Douglas (Dean Jones) e, claro, Herbie

  
Se o meu 'fusca' falasse segue a fórmula da comédia pastelão desgastada. O resultado provocaria vergonha no show de repetições e mesmices de Abbott & Costello e os Três Patetas. A direção equivale à batida num poste. Os atores principais, Dean Jones e Michele Lee, são canastrões simpáticos e de poucos recursos. Nem mesmo o bom David Tomlinson consegue se salvar, afundado na pouco inventiva profusão de caretas. Os recursos histriônicos de Buddy Hackett são consumidos logo nos primeiros minutos. Além disso, há momentos dolorosos, garantidos pela mais autêntica, ruim e previsível "filosofia de borracharia" a respeito da relação entre o homem e seu carro.


Apesar dos senões, muita gente gostou de Se o meu 'fusca' falasse. É uma das maiores bilheterias da Walt Disney Productions. Rendeu tanto a ponto de o emotivo veículo reluzir a lataria em outras aventuras além da referenciada As novas aventuras do fusca: O fusca enamorado (Herbie goes to Monte Carlo, 1977), de Vincent McEveety; e Novas diabruras do fusca (Herbie goes bananas, 1980)[1], também de McEveety. O astro apresenta diferentes donos nessas seqüências. Combate a especulação imobiliária em As novas aventuras do fusca. Disputa corridas no circuito europeu, soluciona mistério em torno do roubo de um diamante e se apaixona (isso mesmo!) por um Lancia esportivo em O fusca enamorado. Por fim, faz tour pela América Latina, a caminho de disputar o “Grande Prêmio Brasil”, no Rio de Janeiro, quando se envolve com ladrões que o levam ao México e à América Central em Novas diabruras do fusca[2]. Nesse, a ignorância em geografia dos realizadores localizou a sede do Império Inca não no Peru, mas em algum lugar entre o Panamá e o México. Onde, então, viviam os Maias?


Jim Douglas (Dean Jones), piloto vitorioso com Herbie

Jim Douglas (Jones), Carole Bonnett (Lee) e  Tennessee Steinmetz (Hackett) às voltas com Herbie


Mas ruindade pouca é bobagem. Os alemães, inventores do fusca, enciumados com o sucesso do seu mais bem sucedido produto de exportação nos Estados Unidos, produziram também réplicas cinematográficas de Herbie, com o nome de Dudu. Algumas foram exibidas no Brasil: Ein Käfer geht aufs Ganze (1971), Um fusca a todo vapor (Ein Käfer gibt Vollgas, 1972), Ein Käfer auf Extratour (1973), O fusca envenenado (Das verrückteste Auto der Welt, 1975) e Zwei tolle Käfer räumen auf (1979), todas dirigidas por Rudolf Zehetgruber[3].



  
Direção de fotografia (Technicolor): Edward Colman. Roteiro: Don DaGradi, Bill Walsh, com base na história Car-boy-girl de Gordon Buford. Desenho de produção: John B. Mansbridge. Figurinos: Bill Thomas. Montagem: Cotton Warburton. Decoração: Emile Kuri, Hal Gausman. Direção de arte: Carroll Clark, John B. Mansbridge. Assistente de direção: Christopher Hibler. Maquiagem: Otis Malcolm. Penteados: La Rue Matherson. Gerente de unidade: Pal L. Cameron. Supervisão de som: Robert O. Cook, Mixagem de som: Dean Thomas. Confecção de costumes: Chuck Keehne, Emily Sundby. Edição musical: Evelyn Kennedy. Efeitos fotográficos especiais: Eustace Lycett, Alan Maley, Peter Ellenshaw. Efeitos especiais: Robert A. Mattey, Howard Jensen, Dan Lee. Música: George Bruns. Orquestração: Walter Sheets. Direção de segunda unidade: Arthur J. Vitarelli. Supervisão das seqüências de corrida: Carey Loftin. Segundo assistente de direção: Robert Webb (não creditado). Edição de som (não creditada): Ben Hendricks, Bill Wylie. Coordenação de dublês (não creditada): Bob Harris, Carey Loftin. Dublês (não creditados): Max Balchowsky, Steven Burnett, Bud Ekins, Bill Hickman, Carey Loftin, Tom Steele, Dale Van Sickel, Dick Warlock, Jesse Wayne. Assistente de câmera: Stan Reed (não creditado). Músico: Ethmer Roten (não creditado). Estúdio de mixagem de som: RCA Sound Recording. Tempo de exibição: 108 minutos.


(José Eugenio Guimarães,1976; revisão e ampliação em 1987)


[1] Segundo o IMDb (Internet Movie Database) é atualmente chamado de A última cruzada do fusca (nota de atualização para publicação neste blog).
[2] Em 1997 apareceu o telefime Se o meu fusca falasse (The love bug), de Peyton Reed. De 2005 é Herbie, meu fusca turbinado (Herbie fully loaded), de Angela Robinson (nota de atualização para publicação neste blog).
[3] No filme de 1971, Ein Käfer geht aufs Ganze, Rudolf Zehetgruber lançou mão do pseudônimo David Mark (nota de atualização para publicação neste blog).

6 comentários:

  1. Hola Eugenio.
    Aunque luego hiciste revisión y ampliación, la primera evaluación que hiciste del filme fue en 1976, precisamente el año de mi nacimiento, así que es un honor poder leerte y comentar pues los años que llevas haciendo crítica de cine me causan gran admiración.

    Por otra parte en España este filme se tradujo con el título siguiente:
    Ahí va ese bólido.
    Recuerdo haberlo visto cuando era un niño, sino esta versión otra que se llamó 'Herbie torero' sino recuerdo mal, supongo que si la volviera a ver ahora la impresión sería distinta y en la línea que reflejas en tu análisis.

    Nada que ver con John Ford, ja,ja,ja. Un juguete de Walt Disney para el entretenimiento comercial.
    Un gran abrazo Eugenio!!

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    1. Hola, Miguel!

      La película llamada en España de "Herbie torero" en Brasil recibió dos nombres: "Novas diabruras do fusca" e "A última cruzada do fusca". El nombre original es "Herbie goes bananas", de 1980.

      Pois é... Nada que ver con el grand John Ford.

      Saludos.

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  2. Coincido también en tu apreciación sobre esa estúpida adaptación por parte de los estudios de Walt Diney Productions, convirtiendo el guión original en una simple película de aventura con actores reales y fines comerciales exclusivamente.

    Otro dato curioso es que su director Robert Stevenson se convirtió a partir de 1960 en un fiel colaborador de esta productora de Walt Disney, quien además dirigió otra película mucho más famosa y considero que de mejor calidad, me refiero a "Mary Poppins", que estoy segura la habrás visto.

    El caso es que debido al éxito comercial de "Ahí va ese bólido" (The love bug) también se produjeron varias sagas con este inicial argumento, tanto para el cine como para la televisión.

    Muchas gracias, compañero bloguero y buen amigo J. Eugenio, por tus estupendos comentarios en mi blog, enriqueciéndolos con tu ojo crítico cinematográfico y esta gran cultura del cine de la que haces gala en tus publicaciones.

    Muchos saludos, abrazos y besos.

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    1. Comentar su blog será siempre un placer, dada la calidad del texto y la inventividade de la escritura, Estrella Amaranto. Robert Stevenson siempre fue el mejor director para las aventuras con gente de verdad de la Walt Dianey Productions. Pero erró feo en THE LOVE BUG. Muchos años antes de ser contratado por Disney, había hecho una bella película: JANE EYRE, de 1943, una adaptación del libro de Charlotte Brontë, roteirizado por Aldous Huxley y protagonizado por Orson Welles y Joan Fontaine.

      Saludos y abrazos.

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  3. Como siempre cielo,un trabajo muy completo,cuando llego a vuestro blog se que estaré maravillada y sobre todo informada de lo que está detrás de la pantalla,siempre se han realizado adaptaciones,algunas lamentablemente son una ofensa a su historia original y te preguntas Porqué el autor lo permite..La respuesta es simple,por dinero...Excelente reseña,te mando besitos y un gran abrazo venciendo las distancias :)

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    1. El autor permite no solamente por dinero, pero porque es obrigado a eso por cuestiones legais. Él, el autor, vende los derechos de adaptación. A partir de ahí, será lo que Dios quiera, Maria Del Socorro. Algunos son felices, otros se dan enteramente mal. Pueden sólo quedar chocados y reclamar. Pero ya será tarde.

      Besos mil, mi querida.

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