Nova York em pleno verão: a temperatura elevada não
permite refresco. Ainda mais para o editor Richard Sherman (Tom Ewell) — lobo
de meia idade momentaneamente solitário na metrópole —, escalado pelo diretor
Billy Wilder para atualizar ancestral hábito dos índios da ilha de Manhattan.
Julgando-se imune às tentações que acometem os homens casados de sua faixa
etária, põe-se diante da fragilidade de suas convicções morais ao se perceber vizinho
da tentadora garota interpretada por Marilyn Monroe em O pecado mora ao lado (The
seven year itch, 1955). É a primeira parceria entre o diretor e a
atriz. A segunda, quatro anos após, resultará em Quanto mais quente melhor
(Some
like it hot, 1959), para muitos a melhor das comédias cinematográficas.
Coordenados pela inspirada batuta de Billy Wilder, Monroe e Ewell estão
afinadíssimos. Como um espírito livre, a atriz representa com rara felicidade a
ingênua garota tentação da estabilidade burguesa masculina. O filme certamente
mexeu com os pruridos morais das puritanas plateias estadunidenses de meados dos
anos 50, ainda sob efeito das cruzadas macarthistas. Mas a direção disfarçou tudo
muito bem, com toques sublimes de humor em cenas e diálogos de significados
implícitos e dúbios. Além de ser uma delícia, a realização recebe a antológica
contribuição de uma das mais benfazejas correntes de ar do cinema. A apreciação
a seguir é de 1983.
O pecado mora ao
lado
The seven
year itch
Direção:
Billy Wilder
Produção:
Charles K.
Feldman, Billy Wilder
20th.
Century-Fox, Charles K. Feldman Group
EUA — 1955
Elenco:
Marilyn
Monroe, Tom Ewell, Sonny Tufts, Roberts Strauss, Oscar Homolka, Marguerite
Chapman, Dolores "Roxanne" Rosedale, Evelyn Keyes, Victor Moore,
Roxanne, Donald MacBride, Carolyn Jones e os não creditados Doro Merande, Butch
Bernard, Dorothy Ford, Ron Nyman, Ralph Sanford, Mary Young, Steven Benson, Kathleen
Freeman, Ralph Littlefield, Tom Nolan.
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O diretor Billy Wilder com Marilyn Monroe e Tom Ewell nos bastidores da sequência da corrente de ar expelida pelo sistema de ventilação do metrô de Nova York |
O pecado mora ao
lado é o primeiro filme de Billy Wilder fora da Paramount — companhia que
o abrigou desde que chegou aos Estados Unidos após fugir da Europa assombrada
por Hitler. Também é sua primeira parceria com Marilyn Monroe e um dos
principais trabalhos da atriz. Quatro anos mais tarde ambos voltariam a se ver na
antológica e definitiva comédia Quanto mais quente melhor (Some
like it hot).
O pecado mora ao
lado está entre as melhores peças de humor do cinema. Evidencia com
clareza o “toque de Wilder” — misto de malícia e sensualidade respaldada por imagens
e diálogos sutis, impregnados de ambiguidade. Segundo revelam as divertidas cenas
iniciais, a temática que aborda — se não for universal ou ocidental — é
tipicamente americana. Um rápido prólogo introduz o espectador no assunto:
leva-o ao passado, quando a ilha de Manhattan, Nova York, era habitada exclusivamente
por índios. Os nativos, especialmente os homens casados, cultivavam hábito
muito “estranho”: atiravam-se loucamente à caça de mulheres assim que enviavam
esposas e filhos às estações de férias.
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O prólogo: Dorothy Ford faz a jovem índia |
Logo o narrador esclarece:
não é um filme sobre índios. No entanto, frisa: os atuais moradores de
Manhattan ainda atualizam a tradição indígena tão logo começam as férias de
verão. Daí, O pecado mora ao lado acompanha por 48 horas a vida de Richard
Sherman (Ewell) — sujeito de meia idade prestes a sentir os sintomas típicos de
sua faixa etária, que despertam o lobo adormecido: a “comichão dos sete anos”
(de casamento) do título original, tal qual os índios do começo. Funcionário de
uma editora, Richard é responsável pela seleção e lançamento de publicações da
literatura de bolso. Do casamento com Helen (Keyes) nasceu o garoto Richy
(Bernard). Logo fica evidente: é exemplar como marido e pai — o típico e
estável homem médio estadunidense.
Após o prólogo, Richard
Sherman é visto na estação ferroviária. Despede-se da família, de partida a uma
estação de férias. O calor é insuportável em Nova York. Ele não viajará por
motivos profissionais. Jura para a esposa que se comportará em todos os
sentidos. Inclusive evitará a bebida e o fumo. Já em casa, esforça-se para examinar
os originais de um livro sobre problemas conjugais de homens de meia idade, com
ênfase no “comichão dos sete anos”. A leitura é convite à imaginação, na qual
dialoga com Helen e protagoniza improváveis escapulidas com a secretária, vizinha,
melhor amiga da esposa — praticamente reproduzem o tórrido beijo na praia entre
os personagens de Burt Lancaster e Deborah Kerr em A um passo da eternidade
(From
here to eternity, 1953), de Fred Zinnemann. É devolvido à realidade
pelo toque do interfone. Uma voz feminina solicita-lhe a gentileza de abrir a
portaria, pois não está de posse da chave. Trata-se da própria encarnação do
pecado presente ao título brasileiro de The seven year itch: Marilyn Monroe
no auge da forma como a garota sem nome. Ocupa provisoriamente o apartamento
superior ao de Sherman.
Monroe em cena é
conjugação sem precedentes de provocação, inocência, alegria, pureza,
sensualidade, simplicidade e tentação. Abobalhado, Sherman quase desloca o
pescoço para vê-la passar, tão logo entra e sobe as escadas. O
"comichão" já o domina completamente. E pensar que recriminara, na
estação, o assanhamento de maridos transformados em lobos famintos tão logo se
livraram das famílias. Agora, excitado, esquece inclusive as recomendações
médicas e juras feitas a Helen. Tenta se acalmar com drinks e cigarro. A
imaginação está em acelerado e alto voo livre. Motivos há de sobra. Logo a
tentação entrará em sua vida, fazendo-se tão próxima quanto inatingível.
Tenta voltar à
normalidade. Acomoda-se na varanda. Quase é atingido na cabeça pelo vaso que
despenca do andar superior — um descuido da vizinha. Ela, tão assustada quanto
a eventual vítima, debruça-se no parapeito para se desculpar. À primeira vista
parece que está nua. É o bastante para Sherman perder o senso de orientação. Ilumina-se!
Assanha-se! Convida-a a descer. Poderá ouvir música e saborear alguns drinks. A
garota aceita. Porém, informa com todas as letras: antes, vestirá a calcinha deixada
na geladeira para refrescar por causa do excesso de calor. Os comentários melódicos
de Concerto
n. 2 para piano de Rachmaninoff não a comovem. Musicalmente, é
partidária do gosto popular. Na verdade, queria apenas se refrescar no ar
condicionado do anfitrião. De nada vale o ventilador que conseguiu. Literalmente,
Sherman deseja "se molhar". Em transe, toma conhecimento das
atividades às quais se dedica a vizinha: modelo de “fotos artísticas” e
anúncios televisivos de creme dental. Coincidentemente, guarda um livro de
fotografias ilustrado por imagem da garota estirada de bruços na areia da
praia, entre pedras e plantas rasteiras, trajando generosos (para a época) soutien e short quadriculados. A pose lembra a foto de calendário que
catapultou a nua Marilyn Monroe para a fama.
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A Garota (Marilyn Monroe) no apartamento do vizinho Richard Sherman (Tom Ewell) |
Os momentos de
humor são sublimes. A atriz está deliciosa em seu papel de ingênua-esperta, a
provocar os macaquinhos que infestam o sótão da moralidade do americano médio —
seja quando faz usos do chuveiro e da cama do solícito vizinho; ao se desmanchar
tentadoramente na poltrona do pobre coitado; na execução do bife ao piano; e ao
lhe aplicar um par de beijos que confirmam a veracidade do frescor do creme
dental que anuncia — cena que valoriza a força do mercado publicitário
estadunidense na vida do cidadão comum. Por fim, uma das sequências mais
famosas do cinema: num passeio noturno pela quente Nova York, a garota se
refresca na lufada de ar do respiradouro do metrô. Para satisfação de Richard,
a saia se eleva acima do quadril, revelando tudo o que era permitido naquele meado
dos anos 50.
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Marilyn Monroe é A Garota |
Tom Ewell e
Marilyn Monroe estão afinadíssimos. A parceria de ambos ocupa praticamente
todos os tempos do filme. Sobra muito pouco para o elenco de apoio. Mesmo
assim, seus integrantes defendem com garra os reduzidos papéis, sempre que surgem
oportunidades. Principalmente Robert Strauss como o abobalhado e impertinente
Mr. Kruhlik, zelador do prédio, também atacado pelo “comichão”. Sabiamente, despachou
mulher e filho para um passeio.
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Acima e abaixo: Richard Sherman (Tom Ewell) e A Garota (Marilyn Monroe) |
O tema, sem
dúvida, era cabeludo para as puritanas plateias dos Estados Unidos. O conservadorismo,
guindado pela paranoia moralizante e anticomunista das campanhas do Senador
Joseph McCarthy, falava alto. Mas Wilder soube suavizar os momentos de arrepio,
inserindo cenas e diálogos de significados implícitos e dúbios, que não se
revelavam de pronto à obtusidade da maioria dos espectadores estadunidenses.
A inesquecível
cena de Marilyn no respiradouro do metrô, apesar de simples causou muita dor de
cabeça. Wilder pretendia filmá-la em locação, próximo à esquina da Rua 54 com a
Madison Avenue. Bem que tentou. Mas cerca de 5 mil curiosos, dentre os quais
prováveis vítimas do “comichão”, compareceram ao local para testemunhar a
generosa elevação do vestido da atriz. Sob a grade, eletricistas acionavam
potente ventilador. Chegaram a ser subornados com congratulações e copos de
vinho dos presentes, tão desejosos de um lugar privilegiado ou de ocupar até as
funções da própria corrente de ar. Por perto, furioso, o boxeador Joe DiMaggio
— à época marido de Marilyn — estava pronto para distribuir sopapos. O assédio excessivo
prejudicou as filmagens. Incapaz de controlar a situação, Wilder voltou aos
estúdios, onde reconstituiu a esquina tornada famosa por causa da atriz.
Tranquilamente, filmou toda a sequência conforme o planejado.
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A Garota (Marilyn Monroe) e Richard Sherman (Tom Ewell) em uma das mais antológicas sequências do cinema |
Paradoxalmente, o
humor e a vivacidade que Marilyn esbanja ao longo do filme não correspondiam à
realidade. O conturbado relacionamento com DiMaggio era movido a agressões físicas,
por causa do excessivo ciúme do consorte, sempre ampliado pelas atenções que ela
a todo instante recebia. Segundo Tom Ewell, a parceira chegou a comparecer às
filmagens com o corpo coberto de hematomas. Em depressão, atrasava-se constantemente,
levando diretor, atores e técnicos ao desespero. Tais agruras, provavelmente,
abalaram a autoestima da atriz, e contribuíram para o triste fim que a acometeu
em 5 de agosto de 1962, aos 36 anos, descontadas aí as causas da morte
alimentadas por teorias da conspiração.
Roteiro: Billy Wilder, George Axelrod, baseados na peça The
seven year itch, de George Axelrod, encenada nos palcos por Courtney Burr
e Elliott Nugent. Direção de fotografia
(CinemaScope, Color DeLuxe): Milton R. Krasner. Música: Alfred Newman, Cyril J. Mockridge (música adicional/não
creditado), Sergei Rachmaninoff (Concerto n. 2 para piano). Direção de arte: George W. Davies, Lyle
R. Wheeler. Decoração: Walter M. Scott,
Stuart A. Reiss. Figurinos:
Travilla. Maquiagem: Bem Nye. Maquiagem de Marilyn Monroe: Allan
Snyder (não creditado). Penteados:
Helen Turpin, Gladys Rasmussen (não creditada), Gladys Witten (não creditada). Montagem: Hugh S. Fowler. Produção associada: Doane Harrison. Assistente de direção: Joseph E. Rickards. Som: Harry M. Leonard, E. Clayton Ward. Planejamento de créditos: Saul Bass. Consultor de cor: Leonard Doss. Efeitos fotográficos especiais: Ray Kellogg. Direção de guarda-roupa: Charles Le Maire. Orquestração: Edward B. Powell. Assistente de câmera: Felix Trimboli (não creditado). Efeitos do respiradouro do metrô e Gerente
de unidade de produção em Nova York: Saul Wurtzel (não creditado). Gerente de unidade: A. F. Erickson (não
creditado). Contrarregra (não
creditada): Jack Stubbs, Tom Volpe. Edição
de som (não creditada): Louis Hesse, Ray Raymond, Dolph Rudeen. Assistente de câmera: Walter Engels
(não creditado). Fotografia de cena:
Sam Shaw (não creditado). Assistente de
câmera e operador de câmera da segunda unidade: Felix Trimboli (não
creditado). Guarda-roupa masculino:
Sam Benson (não creditado). Joalheria:
Joan Joseff (não creditada). Guarda-roupa
feminino: Ann Landers (não creditada). Assistentes
de montagem (não creditados): Lyman Hallowell, Orven Schanzer. Direção musical: Alfred Newman (não
creditado). Planejamento de créditos:
Saul Bass. Fotografia de cena: Joe
Coudert. Publicidade: S. Charles
Einfeld (não creditado). Marcação de
tomadas para Marilyn Monroe: Gloria Jones (não creditada). Instrutor de danças para Tom Ewell:
Stephen Papich (não creditado). Auditor
da produção: Tom Pryor (não creditado). Consultor de roteiro: Marshall Schlom (não creditado). Sistema de mixagem de som: Stéreo em
quatro canais pela Western Electric Recording. Tempo de exibição: 105 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1983)