Na cinefilia, orgulho-me de minha filiação fordiana e de
afirmar, com segurança, que assisti a todos os filmes preservados do diretor de
Rastros
de ódio (The searchers, 1956), inclusive os documentários sobre a
Segunda Grande Guerra, o inédito comercialmente no Brasil The rising of the moon (1957),
as peças de propaganda encomendadas sobre a Guerra da Coréia — This
is Korea! (1951) e Korea (1959) — e o postumamente
lançado em 1976 Chesty: A tribute to a legend (1970). Porém, o trabalho fordiano
que mais me empenhei em conhecer é o obscuro E o mundo marcha (The
world moves on, 1934), praticamente amaldiçoado pelo diretor.
Atualmente, o título para o Brasil, segundo o IMDb — Internet Movie
Database — é A marcha dos séculos. Trata-se de realização de encomenda.
Ford, na qualidade de diretor contratado, teve, por imposição da Fox Film
Corporation, que seguir as linhas mestras do roteiro de Reginald Berkeley e
realizar uma saga familiar de longo curso segundo os moldes do oscarizado e
atualmente envelhecido Cavalgada (Cavalcade, 1933), de
Frank Lloyd. O resultado da experiência, em nada gratificante, repugnou-o. Mesmo
assim, apesar da pouca liberdade de movimento, encontrou formas de se vingar. É
um filme estranho ao universo do cineasta. Por outro lado, é um dos mais premonitórios
da história do cinema. Conta, ainda por cima, com um brasileiro no elenco, a
quem Ford se referiu, segundo testemunho de Glauber Rocha, como "meu amigo
e grande ator". Segue apreciação escrita em 2012.
E o mundo marcha
The world moves on
Direção:
John Ford
Produção:
Winfield R. Sheehan
Fox Film Corporation
EUA — 1934
Elenco:
Madeleine Carroll, Franchot Tone,
Reginald Denny, Siegfried "Sig" Rumann, Louise Dresser, Raul Roulien,
Stepin Fetchit, Lumsden Hare, Dudley Digges, Frank Melton, Brenda Fowler,
Russell Simpson, Walter McGrail, Marcelle Corday, Charles Bastin, Barry Norton,
George Irving, Ferdinand Schumann-Heink, Georgette Rhodes, Claude King, Ivan F.
Simpson, Frank Moran e os não creditados Neville Clark (eliminado na montagem),
Eva Dennison (eliminada na montagem), Brooks Benedict, Anita Brown, Pierre
Callos, Fred Cavens, Jack Chefe, André Cheron, Pierre Couderc, Sidney De Gray,
Mario Dominici, Francis Ford, J. C. Fowler, Hans Fuerberg, Mary Gordon, Jesse
Graves, Ben Hall, Winter Hall, Ramsay Hill, Adolf Hitler (imagens de arquivo),
Fred Hueston, Hans Joby, Beulah Hall Jones, Kenner G. Kemp, Colin Kenny, Emmett
King, Otto Kottke, Louise La
Croix , Charles Legneur, Jacques Lory, Margaret Mann, Alphonse
Martell, Tony Martelli, Billy McClain, Paul McVey, Torben Meyer, George Milo,
Edmund Mortimer, Benito Mussolini (imagens de arquivo), Jack Pennick, John S.
Peters, Albert Pollet, Frank Reicher, George Renault, Larry Steers, Harry
Tenbrook, Anders Van Haden, Perry N. Vekroff, Hans von Morhart, William
Worthington.
Quando das filmagens de Fomos os sacrificados (They were expendable, 1945) O diretor John Ford e a atriz Donna Reed, intérprete da Tenente Sandy Davyss |
Dentre os títulos
menos conhecidos de John Ford — excluídos os consumidos por incêndios nos
depósitos dos estúdios ao longo dos anos 20, quando se perderam, decerto em
definitivo, perto de 60 filmes[1]
— E o mundo marcha[2] é o mais obscuro.
Para tanto contribuiu o próprio diretor. Alegava, abertamente, não guardar
simpatia alguma pelo trabalho. Fora praticamente obrigado a fazê-lo, como
diretor contratado. Tentou de tudo para tornar a história mais leve e
palatável, inclusive com a adição de trechos cômicos. Porém, os produtores
bateram o pé. As linhas mestras do roteiro desvitalizado de Reginald Berkeley —
baseado em história de sua autoria — deveriam ser seguidas à risca. A peça,
durante a fase de elaboração, já merecera os tratamentos de praxe pelos não
creditados Doris Anderson, William M. Conselman, Joe Cunningham, James Gleason,
Llewellyn Hughes, Edward T. Lowe Jr. e Henry Wales[3].
O produto é
totalmente estranho ao cinema fordiano. O andamento narrativo é engessado por
excesso de pompa, solenidade e circunspecção; as interpretações trazem vícios
do período silencioso; os atores se movimentam com rigidez, como se estivessem
estritamente presos às marcações; os diálogos, desprovidos de naturalidade,
soam declamados. "Nada tem que se assemelhe a um filme de Ford",
conforme ouvi do grande e incomparável cinéfilo, pesquisador e arquivista de
cinema Ivan Casassanta Dantas (1925-1995), em Belo Horizonte /MG.
No entanto, apesar
de ostentar a aura de produto raro, foram duas as vezes que me vi diante de E o mundo marcha. A primeira, em 1985, graças a Ivan Casassanta
Dantas. Tive o prazer de conhecê-lo nesse ano, na sala Humberto Mauro do
Palácio das Artes, capital mineira. Exibia-se ali monumental mostra dedicada a
David Wark Griffith. Por acaso, entre uma sessão e outra, trocamos ligeiras
impressões sobre cinema. As conversas avançaram pelos outros dias. Logo nos
descobrimos fãs de John Ford. Daí passamos a "trocar figurinhas" com
mais intensidade, enquanto durou o evento. Neste meio tempo, convidou-me a uma
sessão de cinema em sua casa, com a presença de outros aficionados.
Especificamente para assistir a E o mundo marcha, em 16 mm.
Infelizmente, era apenas algo perto de 60% da metragem original em cópia
conseguida por empréstimo. Faltavam legendas e os diálogos estavam dublados
para alguma língua da Europa oriental, conforme pressupomos. Passaríamos pela
frustração de quase nada compreender. Porém, menos mal! Era um filme praticamente
desconhecido de Ford — até pelo sapientíssimo anfitrião, se não me traem as
lembranças. Não poderia desperdiçar a oportunidade por motivo algum. Enquanto
preparava o ambiente para a projeção, Ivan informava o que sabia de E o mundo marcha: a história, o elenco estranho ao stock company fordiano, a insatisfação do
diretor com o roteiro e, principalmente, a participação, entre os intérpretes,
de um brasileiro: Raul Roulien[4]
(1905-2000). A respeito, Glauber Rocha conta história no mínimo curiosa. Estava
presente ao Festival de Montreal de 1973, durante evento que reuniu Fritz Lang,
Jean Renoir e John Ford — faleceria nesse ano, em 31 de agosto. Foi apresentado
por Michel Ciment — crítico e editor da revista Positif — ao diretor de E o mundo marcha. Este logo perguntou ao brasileiro: "Where is
Raul?" — em referência a Roulien, a quem tratou por "Meu amigo e
grande ator"[5].
Por fim, assisti
na íntegra a E o mundo marcha em 2012, graças
ao canal por assinatura Telecine Cult. As lembranças da sessão de 1985 ainda
estavam vivas. Assim, o estranhamento não foi tão acentuado. Porém, a impressão
de que é um corpo alienígena ao universo fordiano se ampliou consideravelmente.
Conta história de
longo curso, uma saga familiar iniciada em 1825, nos Estados Unidos. Em New Orleans , Louisiana,
por vontade expressa do patriarca Sebastian Girard, recentemente falecido, seus
herdeiros unem os interesses de uma plantation
de algodão aos empreendimentos dos ingleses Warburton, representados por
Gabriel (Hare). Agora, o lucrativo negócio do cotonifício será explorado de ponta
a ponta, do cultivo ao processamento. O capitalismo ainda é essencialmente
nacional e atravessa instante de boom.
Mas Sebastian era um visionário. Antecipou-se aos movimentos dos mercados e à internacionalização
dos negócios. Preparou a família para o futuro.
![]() |
A leitura do testamento do patriarca Sebastian Girard |
Os momentos
passados no século XIX duram o necessário à união dos grupos e à explicitação
de um frustrado caso de amor. O primogênito de Sebastian, Richard Girard
(Tone), apaixona-se pela jovem esposa de Gabriel, apenas identificada por Mrs.
Warburton (Carroll). Envolve-se até em duelo de morte para defender a honra
insultada da mulher. Porém, as estritas convenções familiares impedem a
evolução do affair.
![]() |
Acima e abaixo: Richard Girard (Franchot Tone) e Mrs. Warburton (Madeleine Carroll) em 1825 |
O tempo avança e
aciona a roda do destino. Os novos herdeiros serão flagrados na conturbada
segunda década do século XX. A expansão internacional capitalista, inclusive dos
empreendimentos Girard-Warburton — de início sustentados pelo lema "A família
em primeiro lugar", segundo a vontade do patriarca fundador — revela-se
frágil diante da ascensão do nacionalismo belicoso.
Mais interessante:
passados 89 anos da união e do frustrado caso de amor, os bisnetos de Richard e
de Mrs. Warburton retomam o interrompido sentimento experimentado pelos bisavós
em 1825. Assim, Mary Warburton se casa com o novo Richard Girard. São
igualmente representados por Madeleine Carroll e Franchot Tone. Não são os
únicos personagens vividos pelos idênticos atores que emprestaram feições aos ancestrais
diretos. Henri Girard é defendido por Raul Roulien, que também fez Carlos
Girard. Da mesma forma, Sir John Warburton é personificado por Lumsden Hare que
forneceu estampa a Gabriel. A permanência desses intérpretes nos desempenhos de
personalidades diferentes, ainda que descendentes diretos, mereceu críticas exageradas
e injustas. Aos meus critérios foi saída válida. Certamente — não se sabe se
graças ao roteiro de Reginald Berkeley, por alguma liberdade de manobra de John
Ford, ou imposição da Fox Film Coporation —, houve aí uma forma de se expor o permanente
vigor das estruturas, no caso a herança familiar, que se mostra impávida frente
às mudanças decorrentes de novas conjunturas históricas. Um jeito de dizer que
tudo muda, porém, nem tanto. O presente continua, de algum modo, relacionado ao
passado, principalmente às vontades dos ancestrais que costuraram a aliança
Girard-Warburton.
![]() |
No século XX, o novo Richard Girard (Franchot Tone) contrai matrimônio com Mary Warburton (Madeleine Carroll) |
Nos albores da
Primeira Guerra Mundial, Richard e Mary instalam residência em New Orleans , no lar
ancestral dos Girard. Enquanto isso, ramificações do empreendimento estão dispersas
pela Inglaterra, França e Alemanha. O estado de beligerância internacional cindirá
a sensação de unidade. Erguem-se poderes maiores que a vontade patriarcal e os interesses
econômicos personalizados. E o mundo marcha revela, apesar
dos pesares, tema muito caro ao diretor: a fragilidade dos indivíduos quando
contrapostos ao pano de fundo da mudança histórica e coletiva. Alguns membros
da firma se posicionam em campos opostos, obedientes às escolhas de seus
países: França e Inglaterra contra a Alemanha. Num primeiro momento, os Estados
Unidos permanecem neutros. Em 1917 tomam o partido dos aliados, para desespero
de Mary Warburton. Ela sabe dos elevados custos em sangue cobrados pelo conflito,
inclusive no círculo próximo de relações. Ainda mais quando, por imposição
governamental, as indústrias que gerencia são readaptadas para a produção de
material bélico. Uma mortandade sem igual toma os campos de batalha. Richard e
o primo francês, Henri, foram incorporados às tropas e experimentam o horror. Fritz
(Schumann-Heink), um von Gerhardt (conversão de Girard para o alemão), participa
de operação que afunda embarcação inglesa e mata John Girard (Melton). Seu
submarino também irá a pique.
![]() |
Primeira Guerra Mundial: Henri Girard (Raul Roulien) e Dixie (Stepin Fetchit) |
![]() |
Mary (Madeleine Carroll) se despede de Richard (Franchot Tone), de partida para a guerra |
1918: a Alemanha
derrotada é obrigada a se submeter aos termos escorchantes do Tratado de
Versalhes. Entrará em monumental crise econômica, com a maior parte da
população lançada à sanha dos especuladores e à miséria. Nos anos 20, o resto
do Ocidente experimenta franco otimismo econômico. A ciranda monetária distribui
as cartas. Os interesses da produção são desviados para a especulação financeira
nas bolsas de valores. Mary se mantém cautelosa. Richard, porém, se tornou um
ganancioso magnata e usurário. Henri, depois de desilusões amorosas e da
barbárie bélica, adere ao sacerdócio.
1925: Richard,
Mary, Jacques Girard (Norton), Henri e Erik von Gerhardt (Denny) celebram o
centenário da fusão. Tudo leva a crer em prolongado tempo de prosperidade. O
personagem vivido por Franchot Tone, amparado por intermináveis ganhos
financeiros, promete mundos e fundos aos negócios gerenciados pelos parentes
mundo afora. A ideia é formar um monopólio via aquisição de empresas
concorrentes. Assim será possível controlar os preços do algodão e derivados. Quatro
anos depois acontece o crash da bolsa
de valores de Nova York. Em escala global bancos quebram, capitais se evaporam,
investidores, comerciantes e industriais vão à bancarrota. Richard, falido, estreita-se
à contida Mary. Esperam um filho. Mais uma vez o destino do mundo, em crise
econômica, é incerto. Apoiado na fé, Henri acredita em soluções no curto prazo.
Mas o realista Jacques prevê a eclosão de outra grande guerra, para breve.
Mary e Richard
retornam à velha mansão dos Girard, onde tudo começou. Ela implora a Deus por dias
melhores. Mas o lado masculino da família sabe: somente outra guerra trará de
volta os anos de esplendor. No tocante a isto, a realização é muito feliz em
seu poder de antecipação. A história contada termina em 1929. Foi filmada em
1933 e lançada em 1934. Até aí, quantos poderiam supor que, brevemente, em 1939,
estouraria a Segunda Guerra Mundial? O vaticínio de Jacques será incrivelmente
certeiro. Já o epílogo se revestirá de um caráter premonitório sem precedentes
acerca da convergência de eventos mundiais que ganharão sentido ao final dos
anos 30. No começo da década, todos desejavam a paz. Os países ainda se
ressentiam do morticínio provocado pela Guerra de 1914; política e
economicamente não estavam prontos para outra conflagração de grandes
proporções. Mesmo assim, John Ford encerra o filme com corajosa previsão sobre
o reaquecimento do nacionalismo aguerrido. Na Alemanha, mostra soldados em
passos de ganso desfraldando bandeiras com suásticas; Mussolini aparece mais
teatral que nunca, agitando seguidores fascistas; forças do exército imperial
japonês atravessam a tela em disciplinada evolução; frotas inglesas,
esquadrilhas estadunidenses e batalhões de infantaria franceses e soviéticos
estão de prontidão. São momentos que deixam boquiabertos quaisquer espectadores
antenados com o curso da história.
![]() |
Madeleine Carroll como Mrs. Warburton - 1825 |
Não se sabe de
outra realização contemporânea de E o mundo marcha com tamanho poder
de antevisão. Em Hollywood pelo menos não há. Os grandes estúdios, afinados aos
sentimentos da nação, preferiram ignorar qualquer assunto sobre a possível retomada
da escalada belicista, mesmo quando já havia iniciado. Sobre isso, é exemplar o
boicote sofrido por Charles Chaplin e seu O grande ditador (The great dictator), cujas filmagens começaram em 1937. A maioria do
público — inclusive políticos, jornalistas e intelectuais —, contra todas as
evidências, preferiu acusar Chaplin de sabotar os interesses comerciais estadunidenses
e as boas intenções nacionais de nazistas e fascistas. Preferia acreditar que
não representavam ameaça, em absoluto. Muitos mantiveram a crença após
setembro de 1939, inclusive quando a peça chapliniana foi finalmente lançada,
em 1940. De certo modo, permaneceram confiantes até 7 de dezembro de 1941,
quando os japoneses atacaram o Havaí.
Um dos motivos da
insatisfação de Ford com E o mundo marcha decorre do engessamento
que sofreu dos produtores. Mais: simplesmente encomendaram algo parecido a Cavalgada (Cavalcade), de Frank Lloyd,
sucesso da Fox Filme Corporation um ano antes, vencedor dos Oscar de Melhor
Filme, Melhor Direção e Melhor Direção de Arte. O roteirista é o mesmo Reginald
Berkeley. Envelheceu consideravelmente a realização. Na comparação — algo
sempre temerário —, o produto fordiano é acentuadamente melhor, apesar de todos
os problemas e da maldição lançada pelo diretor. Fico a imaginar a indignação
do irascível cineasta frente à encomenda. Logo ele, tão conhecido pela marca de
pessoal originalidade estampada em todos os filmes que fez, ser praticamente obrigado
a seguir as pegadas de trabalho alheio.
E o mundo marcha fracassou nas bilheterias. Acompanhá-lo exige
esforço, dada a falta de dinamismo. Propositalmente, Ford contribuiu para isso.
O tempo de exibição, de apenas 104 minutos, parece curto para dar conta de uma
complexa saga com mais de 100 anos. Ampliá-lo, no entanto, seria arriscado. Além
do mais, o sempre econômico diretor encontrou uma forma de se vingar: filmou
muito além do necessário, com intenções de dificultar a montagem. É conhecido o
método de trabalho de John Ford. Para evitar a intromissão indevida de editores
e produtores em suas obras de cunho mais pessoal, praticamente editava o filme
na câmera, registrando apenas o necessário. O resultado final estava consolidado
em sua cabeça. Com E o mundo marcha agiu diferente.
Além das tomadas em excesso, feriu um dos principais ordenamentos fordianos: pôs
a câmera em movimento, na execução de panorâmicas e travellings. Diversificou as tomadas e os planos. Ao final, sobrou
um produto retalhado, uma sucessão de episódios aparentemente incompletos e que
transmitem a sensação de algo estático.
Outrossim, o fato proposital
de relegar o filme ao esquecimento influenciou de igual maneira os analistas do
cinema fordiano. Dos aproximados 30 livros consultados, com considerações
pormenorizadas acerca dos títulos da filmografia de Ford, apenas três abordam E o mundo marcha com algum detalhamento. Sequer é comentado en passant por J. A. Place no alentado
e abrangente The non-westerns films of John Ford[6]. As exceções, ao
menos no que me concerne, são John Ford: The man and his films[7], de Tag
Gallagher; John Ford[8], de Jean Mitry; e
William K. Everson no artigo "Forgotten Ford", publicado pela revista
Focus on Film[9].
E o mundo marcha é mais conhecido, inclusive pelos que não o viram, por
estes fatores: 1) é o primeiro filme estadunidense aprovado pelo Código Hays ou
Código de Produção. O "selo número 1" aparece logo no começo; 2) o
tom pacifista de fundo religioso é claramente assumido pela narrativa,
decorrência do posicionamento estadunidense em geral, também defendido pelas companhias
produtoras. Por isso, atualmente, recebe muitas críticas como se assumisse
compromissos isolacionistas e irresponsáveis no tocante à Primeira Grande
Guerra. No entanto, aqueles que as emitem parecem desconhecer os imperativos
históricos envolvidos; 3) a participação, com objetivo de fornecer alívio
cômico, do talentoso comediante e ator negro Stepin Fetchit, no papel de Dixie,
é francamente incômoda, dado o tom excessivamente pejorativo, racista, no
tratamento do personagem. As cenas são constrangedoras.
Em 1934, o
Festival de Veneza, em sua primeira edição competitiva e sob a égide dos
fascistas, surpreendeu John Ford, gratificado com a Recomendação Especial por E o mundo marcha. O título ainda foi nominado à Copa Mussolini como
Melhor Realização Estrangeira.
Alguns dos
melhores e mais vigorosos momentos de E o mundo marcha estão nos campos
de batalha. Infelizmente, a maioria dessas cenas não foi filmada por Ford. A
Fox Film Corporation preferiu utilizar trechos da produção francesa Cruzes de madeira (Le croix de bois, 1931), de
Raymond Bernard. Esta contribuição estrangeira à produção recebeu a maioria dos
elogios de parte da crítica de então. O material foi novamente empregado por
Howard Hawks em Caminho da glória (Road to glory, 1936), com ação também ambientada no contexto da Primeira
Guerra Mundial.
![]() |
As cenas bélicas de E o mundo marcha foram obtidas da produção francesa Cruzes de madeira (Les croix de bois, 1932), de Raymond Bernard |
Por fim, a
parceria entre Franchot Tone e Madeleine Carroll não engrena. A atriz inglesa
estreou no cinema dos Estados Unidos com E o mundo marcha. Infelizmente,
sua magnética presença não encontrou correspondência à altura no apagado parceiro
de expressão monocórdia.
Roteiro: Reginald Berkeley e dos não creditados Doris
Anderson, William M. Conselman, Joe Cunningham, James Gleason, Llewellyn
Hughes, Edward T. Lowe Jr., Henry Wales, com base em história de Reginald
Berkeley. Música (não creditada): R. H.
Bassett, David Buttolph, Louis De Francesco, Hugo Friedhofer, Cyril J.
Mockridge. Direção de fotografia (preto e branco): George Schneiderman. Montagem: Paul Weatherwax (não creditado). Decoração: William S. Darling, Thomas Little (não creditado). Figurinos: Rita Kaufman. Gerente de unidade: Bernard McEveety (não creditado). Assistente
de direção: Edward O'Fearna (não creditado). Supervisão
de som: Eugene F. Grossman (não creditado). Operadores
de câmera (não creditados): Paul Lockwood,
John Van Wormer. Fotografia de cena: Anthony
Ugrin (não creditado). Direção musical:
Arthur Lange. Orquestração (não creditada): R. H. Bassett, Hugo Friedhofer, Emil Gerstenberger, Arthur Lange, Paul
Van Loan. Empresa de mixagem de som:
Western Electric Noiseless Recording. Tempo de exibição: 104 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 2012)
[1] Por golpes da sorte, alguns títulos considerados
definitivamente perdidos foram encontrados em cinematecas, coleções
particulares, ajuntamentos de sótãos, porões e outros improváveis depósitos,
geralmente no leste europeu, América do Sul e, caso mais recente, na Oceania:
uma cópia praticamente integral e em bom estado de Upstream (1927) apareceu em 2009,
na Nova Zelândia.
[2] No Brasil, o título sempre foi E o mundo marcha. Entretanto, há algum tempo o IMDb — Internet Movie Database (http://www.imdb.com) — o registra como A marcha dos séculos. É difícil compreender alteração tão arbitrária. Só
provoca equívocos. Outros títulos sofrem de igual problema. No caso da
realização fordiana, é provável que tenha acontecido em função de dois outros
filmes, da mesma época, que ganharam, no Brasil, nome semelhante, o primeiro, e
idêntico, o segundo: A humanidade
marcha (The world changes, 1933), de
Mervyn Le Roy, e E o mundo marcha (The
wet parade, 1932), do não creditado Victor
Fleming.
[3] A insatisfação de Ford foi explicitada em
entrevista a Peter Bogdanovich: "Gostaria de esquecer esse filme. Lutei
como um louco para não fazê-lo. (...) Tentei o impossível para contornar o
assunto, porém estava contratado e ao final tive que me render. Não obstante
fiz tudo o que pude, pois o maldito assunto me incomodava. Realmente, foi um
filme asqueroso, não havia coisa alguma a comunicar, sequer a possibilidade de
comicidade. Porém — que diabo! — é isso que significa ser diretor contratado.
Pagava-se bem e havia poucos impostos incidindo sobre a renda, de maneira tal
que teria que engolir o orgulho e fazê-lo. Havia algumas coisas muitos boas no
filme, como as cenas de combate, mas como discuti e lutei, criei a fama de ser
um sujeito duro, coisa que não sou. Posso ser duro com o produtor executivo e
ser mal educado com o chefe de estúdio, porém nunca com minha gente, acredito
que me querem todos" (Cf. BOGDNOVICH, Peter. John Ford. 2. ed. Madrid:
Fundamentos, 1983. p. 70-71).
[4] O nome verdadeiro é Raúl Pepe Acolti Gil, natural
do Rio de Janeiro. Além de ator, foi cantor, roteirista, produtor e diretor.
Dirigiu os nacionais O grito da
mocidade (1937), vertido na Argentina para
El grito de la juventud (1939), Aves
sem ninho (1939), Maconha, erva maldita (1959) e Brasileiros
em Hollywood (1970). Entre os filmes nos
quais atuou, destacam-se: Eram
treze (Eran trece, 1931), de David
Howard; O último varão sobre a
Terra (El último varon sobre la
Tierra , 1933), de James
Tinling; O homem que ficou para
semente (It's great to be alive, 1933); de
Alfred L. Werker; Não deixes a
porta aberta (No dejes la puerta abierta, 1933),
de Frank R. Strayer e Miguel de Zárraga; e Voando para o Rio (Flying down to Rio, 1933), de Thornton Freeland.
[5] Cf. ROCHA, Glauber. O século do cinema. Rio de
Janeiro: Alhambra, 1983. p. 76.
[6] PLACE, J. A. The non-western films of John Ford. Secaucus, Nova Jersey : Citadel Press, 1979.
[7] GALLAGHER, Tag. John Ford: The man and his films. Los Angeles :
University of California Press, 1988.
[8] MITRY, Jean. John Ford. Paris :
Editions Universitaires, v. 1, 1954.
[9] EVERSON, William
K. Forgotten Ford. Focus on Film, Londres, n. 6,
p. 13-19, primavera 1971.