O tímido e atrapalhado crítico de cinema Allan Felix
(Woody Allen) necessita desesperadamente da realidade para viver, ainda mais
depois de ser abandonado pela esposa. Readaptar-se, porém, não é fácil. Ainda
mais para quem sempre viveu no cinema e se alimentou dos sonhos e ilusões desse
meio. Preocupados com sua falta de traquejo, os amigos mais próximos correm em auxílio. Mas é do
universo de referências cinematográficas que chega o reforço mais inusitado: o
espectro de Humphrey Bogart caracterizado como Ricky Blaine em Casablanca
(Casablanca,
1942), de Michael Curtiz. Sonhos de um sedutor (Play
it again, Sam, 1972), de Herbert Ross, foi, ao menos até 1977, o melhor
filme de Woody Allen. Ele abriu mão da direção, mas o substituto seguiu
fielmente o combinado. Uma feliz conjunção de fatores resultou num trabalho de genial
simplicidade, que permitiu reencenar, com outras intenções, o epílogo de Casablanca.
A apreciação, originalmente de 1977, recebeu revisão e acréscimos em 1998.
Sonhos de um Sedutor
Play it again, Sam
Direção:
Herbert Ross
Produção:
Arthur P. Jacobs
APJAC Production, Rollins-Joffe
Productions, Paramount Pictures
EUA — 1972
Elenco:
Woody Allen, Diane Keaton, Tony
Roberts, Jerry Lacy, Susan Anspach, Jennifer Salt, Joy Bang, Viva, Suzanne
Zenor, Diana Davila, Mari Fletcher, Michael Greene, Ted Markland, os não
creditados Tom Bullock, Mark Goddard e em cenas de arquivo de Casablanca
(Casablanca,
1942), de Michael Curtiz: Ingrid Bergman, Humphrey Bogart, Jean De Briac, Paul
Henreid, Claude Rains.
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Herbert Ross (à esquerda) dirige Woody Allen em filme que este preferiu não realizar |
Vi Sonhos
de um sedutor entre o alívio e a felicidade. A realização, extraída do roteiro
escrito por Woody Allen para sua peça teatral Play it again, Sam, envolveu-me
totalmente. De imediato, as primeiras imagens e diálogos lançaram para
escanteio a desconfiança que alimentava com Herbert Ross[1]
na direção. Mas ele cometeu a proeza de realizar, ao menos até o surgimento de Noivo
neurótico, noiva nervosa (Annie Hall, 1977), o melhor filme
que Allen jamais fizera, o mais bem acabado e homogêneo do comediante nova-iorquino.
Comportou-se, segundo consta, apenas como fiel adaptador das ideias e
coordenadas do autor. No entanto, diante dos resultados alcançados isso pouco
importa. Mas por quais motivos este filme tanto me seduziu? Pelo determinante
papel confiado a Jerry Lacy como fantasma de Humphrey Bogart e a influência que
exerce na vida do tímido e inadaptado crítico de cinema Allan Felix (Allen). Os
personagens interpretados por Bogart em diversos filmes, acima de tudo o Ricky
Blaine de Casablanca (Casablanca, 1942), de Michael
Curtiz, agem como grilos falantes de Allan. São suas consciências e
conselheiros espirituais. Graças a Sonhos de um sedutor senti que não
eram tão estranhos os diálogos que alimentei no meu imaginário, durante a
infância e boa parte da adolescência, com os cowboys resolutos interpretados
por John Wayne, muito menos os pedidos de aconselhamento a eles dirigidos.
Sonhos de um
Sedutor é o infeliz título brasileiro para o delicioso Play
it again, Sam. O original remete o espectador à atmosfera de Casablanca.
No filme de Curtiz ninguém solicita ao pianista Sam (Dooley Wilson) para tocar outra
vez. Ilsa Lund (Ingrid Bergman) lhe pede simplesmente a execução de As
times goes by, "pelos velhos tempos": "Play it Sam, play
As
times goes by". A história muda na reapropriação de Woody Allen.
Principalmente por Allan Felix ter Casablanca como filme referencial e recorrente.
Ao atravessar fase ruim, de carência afetiva e crise de estima, age como se
pedisse a Sam, desta vez por meio do fantasma de Bogart, para repetir a canção;
não pelos velhos tempos, mas por ele mesmo, tão necessitado de recomposição
afetiva e segurança emocional. Ao contrário do que sugere o enganoso título brasileiro,
não há nada de sedutor no solitário e inadaptado Allan Felix. O filme é amargo,
como quase todas as realizações de Allen. O tom de comédia só lhe reforça e realça
a dramaticidade.
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Allan Felix (Woody Allen) e sua sombra, o espectro de Humphrey Bogart (Jerry Lacy) caracterizado como o Ricky Blaine de Casablanca (Casablanca, 1942), de Michael Curtiz |
Allan Felix é
impagável. Apesar de seu jeito atípico, identifica-se com amplos setores do
público. Principalmente pelo fato de amargar problemas considerados banais, mas
de pleno conhecimento do indivíduo comum, destituído de traquejo social:
insegurança, timidez, carência afetiva, males compartilhados por boa parte dos
mortais que habitam os grandes e despersonalizados centros urbanos tomados por solidão
e individualismo. Nesses locais proliferam seres perdidos, socialmente inadaptados.
Um das formas que encontram para compensar carências, fragilidades e dúvidas é apelar
aos personagens fantásticos e supra-humanos criados pelo cinema. Allan Felix
está presente em cada um de nós. Ele e seu drama divertem, mas também machucam.
Sonhos
de um Sedutor é comédia, tragédia, drama e romance. Foi realizado com
altas voltagens de inteligência e pontuado com cargas sutis de crueldade.
Allen escreveu a
peça pensando em encenação de curta temporada. No entanto, o sucesso foi
estrondoso, inclusive junto à crítica. As 60 apresentações inicialmente
planejadas na Broadway se transformaram em 453, desde 1969, com lotação sempre
esgotada. Logo a Paramount se interessou pela adaptação cinematográfica. Não
poupou investimentos, frustrando-se quando a realização não recebeu indicações ao
Oscar.
Nos palcos, Allen
acumulou a direção com a interpretação do personagem principal. Ao seu lado
atuaram os ainda jovens Tony Roberts e Diane Keaton nos papeis de Dick e Linda,
respectivamente. Ambos marcam presença na versão para o cinema, recriando os
mesmos personagens. O surpreendente Jerry Lacy também viveu no teatro o
fantasma de Bogart. Roberts e Keaton foram, durante algum tempo, parceiros
habituais de Woody Allen. Sonhos de um sedutor marca a
primeira aparição de ambos em trabalho do autor[2].
Foi realizado entre Bananas (Bananas, 1971) e Tudo
o que você quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar (Everything you always wanted to know about sex (But were
afraid to ask), 1972).
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Diante de Allan Felix (Woody Allen) estão os amigos Dick (Tony Roberts) e Linda (Diane Keaton) |
Sonhos de um
sedutor é comédia romântica coesa, tão emocional como
genuinamente divertida. Também trafega no terreno da paródia, diante das muitas
brincadeiras referenciais do roteiro com o universo cinematográfico bogartiano.
Nisso, é uma belíssima homenagem ao cinema segundo os preceitos da valorização
nostálgica aos grandes filmes estadunidenses — moda iniciada por Peter
Bogdanovich e ainda em voga no momento da realização.
Allan Felix é
inteligente e articulado. Mas não foi feito para a vida real. Seu mundo
despenca quando é abandonado pela insatisfeita Nancy (Anspach), cansada com sua
falta de traquejo e pragmatismo. E agora? De repente, percebe-se totalmente sem
chão, num apartamento pontuado de motivos cinematográficos, dentre os quais
vários cartazes de filmes estrelados por Bogart. Os personagens bogartianos repletos
de confiança, inabaláveis diante dos problemas, saberiam reagir em situações assim,
mas não Allan Felix. Ele até tenta, apelando às bravatas pronunciadas entre
quatro paredes. Alega que está livre; sairá à caça e pegará gatas de todos os
tipos: swingers, loucas, ninfomaníacas, moralistas, o que for. Mas há muita diferença
entre as intenções das palavras e os atos. Allan é um perdedor enrustido; um romântico
fracassado com as mulheres. Porém, diante da nova e difícil situação, percebe que
não pode viver sempre protegido pela falsa sensação de segurança proporcionada
pelas salas escuras dos cinemas e recorrência constante às representações de
Humprhey Bogart sempre que é premido pelas mais comezinhas e complexas
dificuldades. Mas será mesmo assim? Nem tanto. Do mundo real Allan recebe a
ajuda de Dick e Linda, casal amigo. Mas Bogart não o abandona. O onipresente
fantasma sempre lhe diz como agir a partir de seus próprios exemplos cinematográficos.
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Allan Felix (Woody Allen) na primeira tentativa solo de aproximação de uma garota (Diana Davila) |
Devido aos
esforços de Dick e Linda, o cotidiano de Allan é preenchido com a dura e difícil
realidade. Cheios de boa vontade, fazem o possível para relacioná-lo com
mulheres disponíveis. Não faltam conselhos. Mas a proverbial falta de traquejo
de Allan sempre põe tudo a perder e o envolve em tremendas confusões. Portanto,
o apoio da realidade encontra seus limites. Assim, parece dizer o filme: nem só
de realidade vive o homem. Sonhos e fantasias são essenciais aos devidos
ajustes. Enquanto Dick e Linda auxiliam por um lado, o espectro de Bogart
intervém por outro, nos momentos mais precisos, até tudo se complicar!
Linda é muita
próxima a Allan. Gentil, sensível e compreensiva, nutre sincera preocupação
pelo amigo. Maternal, quer ajudá-lo de todas as formas. Na verdade, é negligenciada
por Dick, profissional sempre ocupado. Este, não importa onde chegue, serve-se
do telefone mais próximo para informar o paradeiro aos amigos, colegas e
clientes[3].
Está sempre atento aos negócios. Uma viagem de trabalho o afasta
temporariamente de Linda. Solitária, ela se estreita mais ao tímido amigo.
Acontece o previsto. Ambos são caras metades. Aos trancos e barrancos — graças
à sua inépcia — e estimulado pelo cupido sem meias medidas do fantasma de
Bogart, Allan se lança sobre a amiga. Ataca-a literalmente com um beijo. A
surpresa gera rápido mal estar ao qual se segue curto e desconfortável romance
durante a ausência de Dick. Pronto! A situação de Casablanca é recriada em São Francisco , agora
transformada, ao mesmo tempo, em Paris e na cidade marroquina do título. O
personagem de Roberts se torna o equivalente de Victor Lazlo (Paul Henreid); Linda
passa por Ilsa Lund (Ingrid Bergman) e Allan Felix por um muito improvável Rick
Blaine (Humphrey Bogart).
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Linda (Diane Keaton) no apartamento de Allan Felix (Woody Allen) e junto a motivos alusivos aos filmes estrelados por Humphrey Bogart |
Bem ou mal o
ausente Dick está sempre presente. Faz a sombra da traição pairar sobre os
momentos felizes de Allan. O belo, delicado e atrapalhado romance é invadido
por problemas éticos. É indesculpável ter um caso com a mulher do melhor amigo,
ainda mais pelas costas deste. Linda, moída pela culpa, sabe que ama o marido e
deixa o tímido crítico. Mas a situação não retorna satisfatoriamente ao ponto
de partida. Dick desconfia da esposa. Presume que ela teve um caso em sua
ausência. Sequer desconfia de Allan. Chega a lhe pedir ajuda para desvendar o
mistério. Insatisfeito, resolve deixar São Francisco, sozinho. Ao fim, todos se
encontram, à noite, sob neblina, na pista do aeroporto. O final de Casablanca
é belamente reescrito, com graça e emoção. Allan, imbuído com o abnegado heroísmo
de Rick, reconcilia o casal amigo. Afinal, ele e Linda terão sempre as
lembranças de São Francisco, da mesma forma como Paris estará nas melhores
recordações de Ilsa e Blaine. A vida volta à normalidade, da melhor maneira. O
avião parte com os personagens de Keaton e Roberts. Allan presencia a decolagem
acompanhado do fantasma de Bogart. A realidade recuperou seu espaço, mas as
influências do cinema forneceram acentos e devidas contribuições ao ajuste. O
espectro bogartiano constata o amadurecimento de Allan, agora mais consciente
de suas fraquezas e melhor preparado para enfrentar o mundo por conta própria. Ele,
por sua vez, estará presente como fonte inspiradora sempre que necessário.
Sonhos de um
sedutor é redondo, graças aos momentos finais perfeitamente
sintonizados às cenas da abertura. O personagem de Woody Allen estava, desde o
começo da história — em que lhe pesem a inadaptação e falta de jeito —
predestinado a protagonizar um feito heroico. Parece que ansiava por algo
assim, ainda mais se pudesse refazer, com gestos próprios e palavras, o final
de Casablanca.
No começo, vê-se o close up do sardento e boquiaberto Allan Felix, maravilhado,
em êxtase, como se estivesse em transe hipnótico. Está no cinema, diante do epílogo
do filme de Michael Curtiz. Sabe os diálogos de cor e salteado. Repete-os junto
aos personagens, com as devidas ênfases, principalmente os de Rick Blaine.
Allan, sentado, tão pequeno e insignificante, dubla não só falas mas os
trejeitos do herói no qual ardentemente se projeta enquanto as luzes estão
apagadas. Finda a projeção, vem o reencontro com realidade. O tímido crítico caminha
para o exterior iluminado, cabisbaixo, exalando frustração. É como se soubesse
de antemão: jamais poderá ser firme, duro, resoluto, direto, heroico e desprendido como Rick. É o que confirma todo o desenrolar de Sonhos
de um sedutor. Até o final, quando ele se vê diante de um tenso e
angustiante imprevisto: a separação dos amigos que mais preza. Reconciliá-los em
nome do amor, da amizade, do bom mocismo e da auto estima será tão heroico como
permitir a partida de Ilsa com Victor em prol da causa antifascista. Ficarão as
boas lembranças, tanto as de Paris como as de São Francisco, estimulando a
continuidade da vida e o enfrentamento de novas batalhas cotidianas às quais se
engajarão Rick e seu atrapalhado modelo real. Os motivos que alimentam Allan
Felix não são tão gigantescos quanto os decorrentes do segundo grande conflito
mundial. Porém, importa de fato aproveitar a chance de refazer o epílogo de Casablanca,
crescer como homem e ficar em paz com a consciência. Neste momento, os mortais
comuns reunidos como plateia de Sonhos de um sedutor — muitos jamais
terão a chance de uma saída heroica de grande amplitude — se sentem
recompensados e reconciliados com suas existências. Foram inteiramente
reintegrados por Allan Felix às suas limitadas mas não insignificantes parcelas
da humanidade.
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Linda (Diane Keaton) e Allan Felix (Woody Allen) no dilema de uma relação eticamente impensável |
Em Sonhos
de um sedutor Woody Allen encontra, por intermédio de Herbert Ross, um
fino equilíbrio entre comédia, romantismo e espírito de tragédia. A realização é
coesa do início ao fim, ao contrário dos anteriores Bananas e Um
assaltante bem trapalhão, que sofriam com as naturais inflexões de suas
estruturas episódicas. Cada momento do filme é revestido por humor sofisticado,
relacionado às crises existências de Allan, mas em estreita sintonia com
passagens mais histriônicas, algumas próximas do pastelão, que evidenciam a
inaptidão do personagem. Mas não há como reclamar dessa inusitada mistura, na
qual influências do existencialismo de Sartre, Camus e Kirkegaard surgem como que
retomadas pela finesse de um Ernst
Lubitsch. Mais adiante, ou imediatamente, no mesmo plano, tudo se dissolve em
gargalhadas que parecem originadas de um sátiro abastecido pelo humor mais
físico e não menos genial de Harold Lloyd ou Stan Laurel & Oliver Hardy na
primavera de suas carreiras. Essa inusitada química entre fontes aparentemente
tão díspares e não cambiáveis prova que Woody Allen conseguiu, na pele de Allan
Felix, a proeza de fazer o espectador refletir e, concomitantemente, estimulá-lo
rir com gosto de suas próprias limitações.
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O espectro de Humphrey Bogart (Jerry Lacy) incentiva Allan Felix (Woody Allen) a partir para a ação com a garota do lado, a melhor amiga, Linda (Diane Keaton) |
O roteiro é
preciso e espirituoso. O ritmo e a sincronia funcionam perfeitamente. O tom é
alegre e descontraído. Brotam improvisos de monta. Woody Allen insere vários
cacos em suas falas. Tal situação aumenta a graça, pois apanha os demais atores
de surpresa, pondo-os a rir — ainda que tentem se controlar — com determinados
atos, tiradas e gestos de Allan Felix. No momento de seu primeiro encontro com
Sharon (Sal), arranjado por Dick e Linda, ele se atrapalha por completo com o
sobretudo da garota, seu (dele) falatório descontrolado e a perda do domínio
das próprias mãos enquanto segurava um disco de Oscar Peterson: nervoso,
arremessa-o fora da capa. Também é hilariante a frustrada saída com Julie (Joy
Bang), auxiliar de Dick. Devido aos gostos estranhos da menina, terminam num
bar de motoqueiros brutamontes. Além de agredi-lo, roubam-lhe a parceira. E o
que dizer de sua primeira tentativa solo de aproximação de uma garota (Davila)
em uma galeria de arte? Diante de uma tela de Jackson Pollock, Allan pergunta:
"O que essa obra comunica a você?". A resposta: "A negatividade
do universo; o horrível e solitário vazio da existência; o nada. Percebe-se a
situação do homem numa vida levada de modo forçado, sem Deus, eternamente, como
se fosse uma pequena chama soprada num imenso cenário contaminado por lixo,
horror e degradação; uma existência pontuada de absurdos e inutilidades". Abalado
com essa exposição, resolve ser direto: "O que você fará no sábado à
noite?". "Cometerei suicídio", diz a moça com voz indiferente.
Por fim, totalmente sem jeito, buscando uma saída para o mal estar, pergunta:
"E na sexta-feira à noite?". É por tudo isso que se entende o
diagnóstico de Allan a respeito de si mesmo: "Eu rejeito antes de ser
rejeitado. É uma forma de economizar tempo e dinheiro".
Diane Keaton como
a bela, discreta, natural, doce e delicada Linda é uma presença sublime em Sonhos
de um sedutor. É a mocinha pela qual todos se encantam. A combinação da
sua personagem com Allan Felix resulta numa das mais perfeitas parcerias do
cinema. Tony Roberts compõe um Dick afiado, dividido entre o amor por Linda, a
amizade por Allan e os negócios que lhe roubam praticamente todo o tempo. É,
apesar de suas boas qualidades, um sujeito imerso no pragmatismo egoísta. Sabe
que tempo é dinheiro. Dick garante um dos melhores momentos de Sonhos
de um sedutor quando confessa a Allan a vontade de confrontar e matar o
misterioso amante de Linda, provavelmente um "grande garanhão". Quanto
a Jerry Lacy, é um prazer vê-lo bancando Bogart numa bem sucedida atuação,
permanentemente caracterizado com capa de chuva, chapéu caindo sobre o rosto e
fumando segundo o figurino de Casablanca e do cinema noir. É um anjo da guarda tingido de
mundanidade, perfeito em sua composição.
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Linda (Diane Keaton) e Allan Felix (Woody Allen) sempre terão Paris em São Francisco |
Apesar da
comicidade amarga, Sonhos de um sedutor faz parte do seleto grupo de realizações
que deixam os espectadores de bem com a vida. Não somente por causa do roteiro,
das influências de Casablanca, do elenco de apoio e do personagem-espelho de Allan
Felix, no qual muitos se reconhecem. Graças, também, ao colorido suave,
ligeiramente esmaecido, da fotografia de Owen Roizman, filtrada por uma luz que
torna familiares e aconchegantes os ambientes internos e externos. Poucas vezes
a cinematográfica São Francisco pareceu tão acolhedora.
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Linda (Diane Keaton) e Allan Felix (Woody Allen) |
A atuação de
Woody Allen lhe rendeu a premiação Fotogramas de Plata, oferecida pela revista
espanhola Fotogramas, em 1974, pela melhor performance masculina em
realização estrangeira.
Roteiro: Woody Allen, com base na peça Play it again, Sam, de
sua autoria. Direção de fotografia
(Technicolor): Owen Roizman. Desenho
de produção: Ed Wittstein. Decoração:
Doug Von Koss. Títulos: Don Record. Montagem: Marion Rothman. Música: Billy Goldenberg. Canções: Blues for Allan Felix de
Oscar Peterson; As Time Goes By, tema central de Casablanca, de Herman
Hupfeld, e outras melodias compostas por Max Steiner para essa produção. Figurinos: Anna Hill Johnstone. Produtor associado: Frank Capra Jr. Produtor executivo: Charles H. Joffe. Supervisão de produção: Roger M. Rothstein. Consultor
de fotografia especial: Keith C. Smith. Assistente de direção: William C. Gerrity. Maquiagem: Stanley R. Dufford. Penteados:
Patricia D. Abbot. Eletricista-chefe:
John Isaacs. Som: Richard
Reitschmann, David Dockendorf. Técnico-chefe:
Robert Rose. Segundo assistente de
direção (não creditado): Charles Norton. Principal maquinista: Bob Rose. Fotografia de cena (não creditada): Bernie Abramson, Orlando Suero.
Guarda-roupa (não creditado): Arnie
Lipin, G. Fern Weber. Músico (não
creditado): Robert Bain (guitarra). Direção
musical (não creditada): Oscar Peterson. Motoristas (não creditados): James Arena, Ribello Mastroianni,
William Ryan. Publicidade: Jack
Hirshberg. Secretárias da produção (não
creditada): Elizabeth Atkinson, Susan Miller, Wendy Stark, Barbara Sundahl,
Patrizia von Brandenstein, Meghan Williams. Continuidade (não creditada): Dolores Rubin. Assistente para o produtor associado (não creditado): Stan Scholl. Auditoria (não creditada): Foster
Thompson. Agradecimentos a: David
Merrick. Serviços de locações (não
creditados): Cinemobile. Tempo de
exibição: 85 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1977; revisado e ampliado
em 1998)
[1] Woody Allen não se interessou pela direção. A
justificativa, segundo o próprio autor, decorria do fato de o argumento ser
originalmente escrito para o teatro.
[2] Outros filmes de Woody Allen co-protagonizados por
Tony Roberts com seus respectivos personagens: Rob: Noivo neurótico, noiva nervosa
(Annie
Hall, 1977); Tony: Memórias (Stardust memories, 1980);
Maxwell: Sonhos eróticos de uma noite de verão (A midsummer night's sex comedy,
1982); Norman: Hannah e suas irmãs (Hannah and her sisters, 1986);
e'Silver Dolar' Emcee: A era do rádio (Radio days, 1987). Além
de Linda em Sonhos de um sedutor, Diane Keaton interpretou os seguintes
personagens em outros filmes de Woody Allen: Luna Schlosser: O
dorminhoco (Sleeper, 1973); Sonja: A última noite de Boris Grushenko (Love
and death, 1975); Annie Hall: Noivo neurótico, noiva nervosa;
Renata: Interiores (Interiors, 1978); Mary: Manhattan
(Manhattan,
1979); Nova Cantora do Ano: A era do rádio; e Carol Lipton: Um
misterioso assassinato em Manhattan (Manhattan murder mistery,
1993).
[3] Ainda não existiam telefones celulares quando da
realização de Sonhos de um sedutor.