Em geral, não tenho muitas simpatias pelos últimos filmes
dirigidos por Henry King, aí considerados quatorze títulos revelados a partir
de 1950. Aos meus critérios, por razões meramente afetivas consolidadas na
infância, nutro apreço pelo melodrama Suplício de uma saudade (Love
is a many-splendored thing, 1955). Porém, as duas honrosas culminâncias
do período são os westerns protagonizados por Gregory Peck: O
matador (The gunfighter, 1950) e Estigma da crueldade (The
bravados, 1958) — que recebe a apreciação da vez neste blog. King
dirigiu aproximadamente 115 filmes ao longo de uma carreira oficialmente
iniciada em 1915 e encerrada 47 anos depois. Marcou presença em todos os
gêneros, notadamente nos westerns. Hoje, infelizmente, pouco se sabe sobre os
oito títulos com ações ambientadas no cenário do Velho Oeste, produzidos
durante o período do cinema silencioso. Estigma da crueldade é simplesmente vigoroso.
É um dos melhores filmes sobre o batido tema da vingança. No papel de Jim
Douglass, implacável caçador em busca dos assassinos da esposa, Peck apresenta
um dos seus mais convincentes e fortes desempenhos. O roteiro de Philip Yordan
ganha, nas mãos do diretor, um dinamismo sem igual. A narrativa é rápida e
segura; o ritmo acelerado é mantido em estado de permanente tensão, com
decisivos apoios da pontuação musical e fotografia. A apreciação a seguir é de
1977.

Estigma da crueldade
The bravados
Direção:
Henry King
Produção:
Herbert B.
Swope Jr.
20th.
Century-Fox
EUA — 1958
Elenco:
Gregory
Peck, Joan Collins, Stephen Boyd, Lee Van Cleef, Albert Salmi, Henry Silva,
Kathleen Gallant, Barry Coe, George Voskovec, Herbert Rudley, Andrew Duggan,
Ken Scott, Gene Evans, Jack Mather, Niños Cantores De Morelia e os não
creditados Robert Adler, Beulah Archuletta, Ada Carrasco, Alicia del Lago, Joe
DeRita, Jacqueline Evans, Juan García, María Gracia, Robert Griffin, Kay Koury,
Jack Mather, Jason Wingreen.
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Bastidores de Jesse James (Jesse James, 1939): o diretor Henry King, à direita, com Tyrone Power |
Rio Arriba, Texas,
lugarejo próximo à fronteira com o México: chega Jim Douglass (Peck), taciturno
anjo vingador remoído por intenso ódio e trajado em cores escuras. Cavalgou 160
milhas, aproximados 230 Km — para espanto do xerife Sanchez (Rudley) —, somente
para presenciar o enforcamento de quatro condenados por assassinato em tentativa
de assalto ao banco local: os brancos Bill Zachary (Boyd) e Ed Taylor (Salmi),
o mestiço Alfonso Parral (Cleef) e o índio mexicano Lujan (Silva). Que
curiosidade mórbida move Douglass? Por que tanto ódio a reluzir de uma máscara
de poucas palavras, olhar frio e semblante endurecido? Devido às
características espelhadas, chegou a ser confundido com o carrasco aguardado
para a execução dos bandidos, homens que jamais viu. Mesmo assim, faz questão
de visitá-los na prisão. Encara-os com a firmeza exigida pela mais odienta
disposição. O perspicaz Lujan antecipa os motivos que animam o protagonista ao
afirmar para os companheiros de cela: "Este homem é um caçador. Os olhos
não mentem".

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Acima e abaixo: Gregory Peck como o vingador Jim Douglass |
Jim Douglass tem suas
razões, apesar de tortas. Por causa do testemunho do vizinho, o mineiro John
Butler (Evans), acredita que os prisioneiros são os celerados que lhe assaltaram
o rancho há pouco mais de seis meses, deixando-o viúvo de uma mulher brutalmente
violentada. A tragédia endureceu um homem cordato e sensível. Desde então deixou
a filha Helen (Gracia, não creditada) — ainda na primeira infância — aos
cuidados de terceiros. Necessitava de todo o tempo disponível para se atirar,
sem contratempos, na senda da perseguição e vingança.
Agora, parece, a
busca implacável terminará em
Rio Arriba. A Lei dará conta da tarefa que Jim Douglass tentava
levar adiante. Está ansioso. Mal pode esperar as poucas horas para a execução.
Porém, sente-se vazio e frustrado: não deu conta da missão. A sentença impessoal
de um tribunal fará justiça em seu nome, indiretamente, pois os condenados
pagarão por outro crime. A amiga Josefa Velarde (Collins), de quem fora
enamorado, procura apaziguá-lo. Esforça-se para reconduzi-lo ao lado bom da
vida, representado pela filha e o amor sincero que sentia pela esposa. Aparentemente
tem sucesso, tanto que o convence a participar de missa celebrada à noite, na
cidade.
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Jim Douglass (Gregory Peck) visita os prisioneiros que supostamente o deixaram viúvo: Bill Zachary (Stephen Boyd), Ed Taylor (Albert Salmi), Alfonso Parral (Lee Van Cleef) e Lujan (Henry Silva) |
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A partir da esquerda, de cima para baixo: Lujan (Henry Silva), Alfonso Parral (Lee Van Cleef), Bill Zachary (Stephen Boyd) e Ed Taylor (Albert Salmi) |
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Jim Douglass (Gregory Peck) ao lado de Josefa Velarde (Joan Collins) durante a missa |
Entretanto, para paradoxal alívio de Douglass, os condenados escapam
com o auxílio de Mr. Simms (o não creditado DeRita, a partir de 1961 intérprete
de Curly-Joe em Os três patetas/The three stooges), cúmplice que se
passava por carrasco e morto durante a operação. Agora o caçador terá a
oportunidade de se encarregar pessoalmente da vingança, com as próprias mãos,
em obediência ao ordenamento do Antigo Testamento: "Olho por olho, dente
por dente". É o que acontecerá. Os fugitivos tomam por refém a jovem Emma
(Gallant), filha do comerciante Gus Steinmetz (Voskovek). Os cidadãos, até há
pouco irmanados em um culto religioso, logo organizam o grupo de busca. Calculista,
aparentando calma e ciência sobre o modo correto de agir, Jim prefere, em
primeiro lugar, o conforto das acomodações de um hotel. Iniciará o rastreamento
ao amanhecer, devidamente descansado e com adequada visibilidade para descortinar
as pistas no terreno. Junta-se à patrulha nas primeiras horas do dia. Com firmeza,
assume o comando da formação, mas dela mantém considerável distância. Prefere
agir sozinho.
Não demora a
encontrar Parral e Taylor. Liquida-os com requintes de crueldade, um de cada
vez, em locais diferentes. Deixa os corpos na marcação da trilha. Nestes
acertos de contas, uma dúvida começa a assaltar o espectador. Jim Douglass está
na pista dos reais culpados pela morte da esposa? Parral e Taylor, em seus
minutos finais, cada qual ao seu modo, juraram com muita convicção que jamais
viram a mulher que o perseguidor lhes exibia em retrato. Porém, as incertezas
logo parecem se dissipar. Adiante, Douglass chega à cabana de John Butler. Encontra-o
morto. Zachary, o assassino, também violentou brutalmente a refém e a abandonou
no local, em estado de choque. Devido ao deplorável estado de Emma, tudo leva o
espectador a acreditar que os fugitivos são de fato responsáveis pela viuvez do
caçador.
Odiando cada vez
mais, Douglass atravessa sozinho a fronteira, em busca de Zachary e Lujan, após
deixar a pobre Emma aos cuidados de Josefa. Esta, horrorizada com a situação da
garota, agora o incentiva a matar, sem piedade. Zachary é encontrado numa
cantina. Também não reconhece a mulher do retrato, mas age lubricamente, com
total despudor e desdém diante da imagem. Certamente, para o espectador e,
principalmente, Douglass, o celerado se apresenta como o mais covarde e
repulsivo dos assassinos. O roteiro e a direção mexem com os impulsos
sanguíneos e inconfessáveis da plateia, mantidos à flor da pele. O asqueroso
personagem interpretado por Stephen Boyd é, indubitavelmente, o responsável
pela desgraça do protagonista, como aparenta. Tão logo o mata, o vingador se põe
na pista de Lujan. Alcança-o em casa, junto ao filho enfermo e da esposa Angela
(Del Lago, não creditada). Esta, de surpresa, deixa-o fora de combate. Ao
recobrar os sentidos é perguntado sobre os motivos da implacável perseguição.
Segue um diálogo terrivelmente esclarecedor, que aponta para o pior. Nenhum dos
fugitivos é responsável pela morte da esposa. Com Lujan — um sujeito tranquilo,
apenas guia contratado pelos demais perseguidos — são encontradas as evidências
do verdadeiro culpado: o mineiro e vizinho John Butler, que se passava por
amigo e responsável pela descrição dos suspeitos. Jim percebe o quanto estivera
cego, a ponto de se fazer “juiz, júri e carrasco” conforme admite em confissão
ao padre (Dugan) de Rio Arriba — momento marcado pelo sentido peso do amargor e
remorso. Porém, tudo isso não passa de detalhe para a festiva e agradecida
população da cidade, pouco interessada em questões menores, de foro íntimo, não
importa se baseadas em decisões errôneas. Para o povo, Jim Douglass é um herói:
resgatou a honra e a dignidade do lugar.
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Joan Collins no papel de Josefa Velarde |
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Josefa Velarde (Joan Collins) e Jim Douglass (Gregory Peck) com a filha Helen (María Gracia) |
Estigma da
crueldade é o último e décimo primeiro western de Henry King. A
maioria permanece obscura ao espectador hodierno, pois foi realizada no período
silencioso e alguns títulos, a esta altura, estão definitivamente perdidos. São Hobbs in a hurry (1918), When
a man rides alone (1918), Where the west beggins (1919), Brass
buttons (1919), Some liar (1919), This
hero stuff (1919), Six feet four (1919) e Beijo
ardente (The winning of Barbara Worth, 1926). Seguem-se os mais
famosos e conhecidos Jesse James (Jesse James, 1939) e O
Matador (The gunfighter, 1950) — realização vigorosa, tão amarga quanto
seca, indubitavelmente um dos principais exemplares do gênero. Ao todo, Peck e
King firmaram parcerias em seis filmes: Almas em chamas (Twelve
o'clock high, 1949), O matador, David e Betsabá (David
and Bathsheba, 1951), As neves do Kilimanjaro (The
snows of Kilimanjaro, 1952), O ídolo de cristal (Beloved
infidel, 1959) e Estigma da crueldade.
Os westerns de
King, protagonizados por Gregory Peck, assemelham-se nas imagens iniciais: apresentam
os protagonistas — Jimmy Ringo na realização de 1950 — cruzando a tela em
galopes solitários durante a apresentação dos créditos. Estigma da crueldade,
mesmo inferior a O matador, está entre as melhores realizações tanto do diretor
como dos westerns da década de 50, época de apogeu do gênero.
Peck está particularmente
bem como vingador. O semblante transmite convicção. É um homem visivelmente destruído.
Deixa transparente todo o ódio que lhe remói a alma. A fúria irradiada dos
olhos é assustadora. Dá a impressão de que é possível ouvi-lo no ranger dos
dentes. Jim Douglass está entre os mais fortes personagens do ator. A
autenticidade da interpretação é ampliada por dois poderosos suportes
revestidos de intensa dramaticidade: música
e fotografia. O tema The hunter, ouvido em cada instante
da perseguição, comenta com propriedade um estado de alma esculpido no arrojo e
na determinação. A melodia pontua o galope ou o trote, como se marcasse o
compasso da disposição de avançar sempre, até a consumação da tarefa. Já a
fotografia, a cargo do expert Leon
Shamroy, surpreende pelos contrastes entre dia e noite, com o protagonista bem
inserido em ambos os turnos. Os dias são de fato claros. Refletem luz intensa, que
destaca o chapéu negro do personagem, também trajado em cores quentes. À noite,
tudo se torna excessiva e propositalmente sombrio, imerso em tons escuros
dissolvidos em azul, negro e vermelho, com Jim Douglass respirando incansável
no centro das variedades cromáticas. Dá a impressão de que o forte ódio
extravasa de todo o seu ser, a ponto de iluminar com intensos matizes todo o
cenário. A presença do vingador também não deixa a paisagem indiferente. A
sensação de sobrenatural reveste o conjunto natureza-caçador. O entorno é
agreste, seco, retorcido, esculpido em puro assombro. Poucas vezes o relevo e a
vegetação mexicanas foram tão bem aproveitados pelo cinema.
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Bill Zachary (Stephen Boyd) e a refém Emma Steinmetz (Kathleen Gallant) |
Ainda no tocante
a musica, Josefa Velarde mereceu um prefixo feito de suaves e envolventes acordes
de guitarras. É algo excessivo para uma personagem pouco exigida, mais parecida
a uma coadjuvante de luxo. A atriz Joan Collins, inglesa de nascimento, sequer
conseguiu ocultar o sotaque das origens, falha para quem representa uma
mexicana de nascimento.
Estigma da
crueldade é dos melhores westerns sobre o batido tema da vingança
ou a dicotomia perseguidor-perseguido. A narrativa é rápida e segura. O ritmo
acelerado é mantido em permanente tensão. Henry King —, a serviço da 20th.
Century-Fox dos anos 30 ao encerramento da carreira em 1961
— nunca foi, nesse período pelo menos, realizador de ousadia inventiva. Era
narrador seguro, mas se limitava a seguir fielmente os roteiros. Afundava se a
peça fosse ruim. Mas quando tinha a sorte de receber um bom guião, como o de Philip
Yordan para Estigma da crueldade, acertava na mosca.
A sequência final
— a sofrida expiação de Jim Douglas junto ao padre de Rio Arriba — merece
reparos. Às vezes é pouco convincente. Da mesma forma, o porte altivo do
personagem quando avança diante da multidão que o aclama, levando nos braços a
filha Helen e ladeado por Josefa Velarde que lhe serve de anteparo moral. O
epílogo, em parte, contradiz a figura do pecador visto momentos antes, tão trágico
e fragilizado, purgando à maneira cristã as faltas cometidas, mas de modo tão
simples e fácil... Soa falso, para não dizer hipócrita.
Alguns reparos
podem ser feitos ao figurino de Joan Collins, excessivamente luxuoso e
berrante. A igreja de Rio Arriba também é demasiado grande, ainda mais para um
povoado de tão baixa densidade populacional. Sabe-se que os colonizadores
espanhóis fizeram bom uso dos metais e pedras preciosas que conseguiram reter
da exploração mineiro-colonial na construção de requintados templos católicos.
Mas o de Rio Arriba é acintosamente exagerado para uma comunidade de maioria economicamente
remediada. Críticas no mesmo diapasão podem ser dirigidas à indumentária do
coral representado pelos Niños Cantores De Morelia, constituído de pobres
petizes com pés descalços, certamente moradores de miseráveis casebres. Provavelmente,
sequer possuíam roupas em bom estado. Assim, soam pouco condizentes as vestimentas
utilizadas pelo grupo. De tão brancas e limpas, parecem ilustrar comercial do
melhor sabão em pó da atualidade.
Há um visível
erro de continuidade: Jim Douglass enlaça Ed Taylor em uma perna. Mas, ato
contínuo, a corda envolve os dois membros do fugitivo quando este é arrastado e
pendurado em uma árvore.
É marcante, a
ponto de assustar, a observação de Lujan para os companheiros em fuga:
"Você jamais ouvirá o som do tiro que o matará".

Roteiro: Philip Yordan, baseado em novela de Frank
O’Rourke. Música: Lionel Newman e
dos não creditados Hugo Friedhofer e Alfred Newman. Direção musical: Bernhard Kaun. Direção de fotografia (CinemaScope, Color DeLuxe): Leon Shamroy. Direção de arte: Lyle R. Wheeler, Mark-Lee
Kirk. Decoração: Walter M. Scott, Chester L. Bayhi. Montagem: William Mace. Planejamento
de guarda-roupa: Charles Le Maire.
Maquiagem: Ben Nye, Jack Obringer
(não creditado). Penteados: Helen Turpin. Assistente de direção: Stanley Hough. Som: Bernard Freericks, Hal
Lombard, Harry M. Leonard. Consultor de cor: Leonard Doss. Gerente de
unidade (não creditado): Henry Weinberger. Segundo assistente de direção (não creditado): Jack Stubbs. Camareiro (não creditado): Paul S. Fox.
Edição de som (não creditada): William
Hartman, Don Isaacs, Sam Woodward. Efeitos
especiais: William F. Mittlestedt (não creditado). Assistentes de câmera (não creditados): Delmer Blair, Leo McCreary,
Lou Pazelli. Operadores de câmera (não
creditados): Lee Crawford, Paul Lockwood. Eletricistas (não creditados): Fred Hall, Bob Henderson, Hank
Vadare. Fotografia de cena: Rollie
Lane (não creditado). Primeiro
assistente de edição: Orven Schanzer (não creditado). Mixagem da trilha musical: Michael J. McDonald (não creditado). Continuidade: Teresa Brachetto (não
creditada). Treinador de lutas:
'Chema' Hernandez (não creditado). Auditoria
da produção: Vic Price (não creditado). Lentes de CinemaScope: Bausch & Lomb. Sistema de mixagem de som: Estereofônico em quatro canais pela
Westrex Recording System. Supervisão
musical: Lionel Newman (não creditado). Tempo de exibição: 98 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1977)