Geralmente, nos dias que correm, Crepúsculo de uma raça (Cheyenne
Autumn, 1964) — último western de John Ford — só pode ser visto na
diminuta e medíocre tela da TV. É desses filmes só plenamente apreciados nos
cinemas, ainda mais se as salas admitirem a esplendorosa, hipnótica e
inesquecível projeção no original Super Panavision 70 mm — formato, apesar de
tudo, mal avaliado pelo diretor. Responsabilizou-o pela dispersão dos elementos
cênicos quando a intenção era integrá-los mais intimamente à imagem. A
realização apresenta outros problemas, decorrentes sobremaneira das
intervenções do produtor majoritário Bernard Smith. É o mesmo financiador do
ambicioso e superficial empreendimento épico de A conquista do Oeste (How
the West was won, 1962), de Henry Hathaway, George Marshall e John
Ford. Em Crepúsculo de uma raça, Ford é produtor minoritário não
creditado. Apesar de desenvolver um projeto do coração, teve que se sujeitar a
muitas interferências do sócio majoritário. Essas se refletiram na escolha do
elenco considerado inadequado para a representação das lideranças Cheyennes,
montagem que suprimiu cenas e passagens consideradas importantes e, entre
outras, no mau aproveitamento da sequência de Dodge City — concebida como intermission. Informações a confirmar
atestam: Bernard Smith assumiu responsabilidades por John Ford junto às seguradoras
em vista da fragilidade provocada pela doença que o consumia. As atividades em
locações naturais do Arizona, Utah, Colorado e Califórnia exigiam considerável
esforço físico e eram arriscadas para o velho e incansável cineasta. Em parte
baseado no romance Cheyenne Autumn de Mari Sandoz, o roteiro de James R. Webb e do
não creditado Patrick Ford incorpora elementos do não referenciado escritor Howard
Fast em The last frontier. Apesar dos senões, Crepúsculo de uma raça é
um feito de singular beleza carregado de intensa sinceridade. Como uma tragédia
das mais compassadas, reconstitui dramática e histórica epopéia digna de
figurar entre os grandes movimentos milenaristas: os últimos remanescentes da
derrotada nação Cheyenne, militarmente submetidos aos rigores de uma reserva
inóspita, enfrentam o sobre-humano desafio de voltar à região de origem: a terra sem males distante milhares de
quilômetros em
Yellowstone. Esta é a primeira das duas partes de uma
apreciação originalmente escrita em 1978, revista e ampliada em 1996.
Crepúsculo de uma
raça
Cheyenne Autumn
Direção:
John Ford
Produção:
John Ford (não creditado), Bernard
Smith
Warner Brothers, Ford-Smith
Productions
EUA — 1964
Elenco:
Richard Widmark, Carroll Baker,
Ricardo Montalban, Gilbert Roland, Dolores Del Rio, Sal Mineo, James Stewart,
Edward G. Robinson, Karl Malden, Arthur Kennedy, Patrick Wayne, Elizabeth
Allen, John Carradine, Victor Jory, Mike Mazurki, George O'Brien, Sean McClory,
Judson Pratt, Carmen D'Antonio, Ken Curtis e os não creditados Ben Johnson,
Bing Russell, Carleton Young, Chuck Hayward, Chuck Roberson, Denver Pyle, Donna
Hall, Harry Carey Jr., James Flavin, Jeannie Epper, John Qualen, Lee Bradley,
Louise Montana, Many Muleson, Mary Statler, Nancy Hsueh, Nanomba "Moonbeam"
Morton, Sam Harris, Shug Fisher, Stephanie Epper, Walter Baldwin, Walter Reed,
William Henry, Willis Bouchey, James O'Hara, Frank Bradley, Danny Borzage, Dean
Smith, David H. Miller, Ted Maples, Al Bain, Bert Stevens, Bill Borzage, Bill
Williams, Bryan 'Slim' Hightower, Cap Somers, Charles Morton, Charles Seel, Dan
Carr, Dave Dunlop, Eddie Juaregui, Harry Hickox, Harry Holcombe, Harry Strang,
Jack Williams, Jerry Gatlin, Joe Brooks, Joe McGuinn, John McKee, John Roy, Mae
Marsh, Mathew McCue, Michael Jeffers, Montie Montana, Philo McCullough, Rudy
Bowman, Steven Manymules, Syl Lamont, Ted Smile, William Forrest, Zon Murray.
Três anos após se
despedir do cinema com Sete mulheres (Seven women, 1966) e
quatro antes de falecer em 31 de agosto de 1973, John Ford ofereceu entrevista
a Claudine Tavernier. Dentre os próprios títulos, listou rapidamente os
preferidos: O sol brilha na imensidão (The Sun shines bright, 1953) e A
mocidade de Lincoln (Young Mr. Lincoln, 1939), seguidos
por A
longa viagem de volta (The long voyage home, 1940), Como
era verde o meu vale (How green was my valley, 1941), Ao
rufar dos tambores (Drums along the Mohawk, 1939), Legião
invencível (She wore a yellow ribbon, 1949), Audazes e malditos (Sergeant
Rutledge, 1960), Domínio de bárbaros (The
fugitive, 1947) e Crepúsculo de uma raça[1].
O último título
relacionado — epopeia perpassada por dor e tragédia — é o relato anticlimático
de um episódio marginal da consolidação da conquista do Oeste. Os personagens,
movidos por disposição heroica, desafiam a morte na tentativa de recomposição
da humanidade e dignidade perdidas. Hoje, certamente, os fatos em tela estão
esquecidos — atropelados pela rapidez das conjunturas sociais. No máximo — como
lembra a narração — ilustram algumas notas de rodapé nas páginas da História.
Os guerreiros Cheyennes
protagonizam Crepúsculo de uma raça. Vencidos pelo General Milles em 1877,
foram removidos da região que sempre habitaram — Yellowstone, entre os atuais
estados do Wyoming e Dakota do Norte — e concentrados a 2400 Km em área inóspita do
futuro estado de Oklahoma. A calamitosa situação seria, em princípio,
provisória. Afinal, aos vencidos os vitoriosos prometeram dias melhores nos
tratados firmados.
A narrativa
começa em sete de setembro de 1878. Restam apenas 286 índios dos mil chegados à
reserva um ano antes. Foram dizimados por doenças, fome, frio e falta de
perspectivas. Nesse dia, apesar do ceticismo, amanhecem esperançosos. Chegará
de Washington a tão aguardada representação do Senado para validar a palavra solenemente
empenhada nos acordos de paz. Andrajosos, com os rostos sulcados por rugas,
dor, melancolia e descrença, os sobreviventes se dirigem à guarnição militar que
administra e vigia a área. À frente segue o velho chefe Árvore Alta (Jory),
ladeado pelos imediatos Faca Cega (Roland) e Lobo Pequeno (Montalban). O grupo se
detém a poucos passos da mesa cerimonial. Sob o sol abrasador começa longa,
lenta e silenciosa vigília. Árvore Alta não suporta o esforço exigido e cai. Porém,
o corpo alquebrado, ainda obediente à determinação e dignidade do chefe,
dispensa auxílio e se ergue pelo próprio esforço. A espera se prolonga pelo resto
do dia. Às 17 horas chega a notícia: a comissão não virá.
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O chefe Árvore Alta (Victor Jory) ladeado pelo imediatos Lobo Pequeno (Ricardo Montalban) e Faca Cega (Gilbert Roland) |
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Árvore Alta (Victor Jory) durante a longa, penosa e inútil espera |
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Confirmam-se as más notícias: mais uma vez os acordos não serão cumpridos Lobo Pequeno (Ricardo Montalban), Árvore Alta (Victor Jory) e Faca Cega (Gilbert Roland) |
O começo de Crepúsculo
de uma raça é contundente. John Ford expõe economicamente, em poucas
cenas, a penúria dos Cheyennes. Valoriza closes, planos de conjunto e, acima de
tudo, o silêncio quebrado vez ou outra pelas intervenções dos soldados e
pungentes notas da melodia em tom de réquiem de Alex North. Na filmografia do
diretor a realização segue a O aventureiro do Pacífico (Donovan’s
reef, 1963). É seu último western e antepenúltima realização. Faria a
seguir O rebelde sonhador (Young Cassidy, 1965)[2]
e Sete
mulheres.
Uma injustiça
paira sobre John Ford, alimentada inclusive por ele. Em entrevista a Peter
Bogdanovich praticamente deu razão aos detratores que invariavelmente o
acusavam de dizimador de índios: “Sabe, matei mais peles-vermelhas que Custer,
Beecher e Chivington juntos”[3].
Ainda que possa ser verdadeira a autoapreciação, há que destacar: Ford foi um
dos primeiros cineastas a recompor a humanidade ao índio. Em Sangue
de heróis (Fort Apache, 1948), de corajoso pioneirismo, o chefe Cochise
(Miguel Inclán) denuncia em alto e bom som as injustiças sofridas, promessas
sempre quebradas e os acordos nunca cumpridos. Ford também amparou os Navajos
que o homenagearam, na língua tribal, com o nome de Natani Nez ou Chefe Alto. Não
é exagero afirmar: Sangue de heróis abre as portas para Flechas de fogo (Broken arrow, 1950), libelo favorável aos índios de Delmer Daves. Da mesma
forma, Crepúsculo de uma raça possibilita O Pequeno Grande Homem (Little
Big Man, 1970), de Arthur Penn; Quando é preciso ser homem (A
soldier blue, 1970), de Ralph Nelson; e Dança com Lobos (Dances
with Wolves, 1990), de Kevin Costner — títulos que denunciam massacres
e genocídios cometidos pelo Exército dos Estados Unidos.
Qualquer filme de
Ford revela aguda sensibilidade histórica. Ele sabia: muitas verdades passadas
à posteridade são somente versões de acontecimentos pouco gloriosos ou heroicos.
Assim foi a conquista do Oeste. A formação dos Estados Unidos da América é bem
estampada em quase todos os filmes que realizou e obedece a um ponto de vista
muito particular. Se o cineasta na “idade da inocência” — começo da carreira,
em 1917, ao fim dos anos 30 — muitas vezes exaltou, inclusive com euforia, os
mitos e lendas acerca dos vencedores, isso de deve mais à sua própria mocidade coincidente
com a juventude do país. Nessa época, terra e homem buscavam afirmação.
Orientavam-se por imagens e ideias pouco críticas quanto às projeções do passado
ainda fresco, lembrado e reconstituído com emoção. Entretanto, há um
diferencial: mesmo as análises pouco criteriosas dessa fase revelam em Ford uma
ligação incomum não com os grandes personagens, mas com aqueles que ficaram à
margem: a gente simples formada de pioneiros, imigrantes, vaqueiros,
pistoleiros, esposas, mães e soldados rasos que não encontram espaços à
individualização nos livros, hinos e compêndios. Para Ford, o país é,
prioritariamente, o resultado do esforço e determinação de anônimos.
Após a Segunda
Guerra Mundial os Estados Unidos assumem posição de vanguarda no concerto
internacional. Esse amadurecimento e maior visibilidade forçam a poderosa nação
à desconfortável reavaliação de seu papel, inclusive dos pilares sobre os quais
foi internamente erguida. Segura de si e de seu destino, inicia o questionamento
de mitos e resgata personagens até então desprezados. No cinema, essa mudança
de perspectiva é claramente sentida, principalmente no western. O cowboy
impoluto e bom abandona a tela; torna-se representação do passado; humaniza-se.
Mais lentamente, a figura do índio também é reavaliada. As inúmeras tribos que
desafiavam o expansionismo predatório do colonizador estavam há muito
derrotadas e enquadradas. Deixaram de oferecer ameaças. O inimigo estadunidense
abandonou o interior do país. O temor vermelho mudou de significado e se
deslocou para o front externo. Assim,
os selvagens das pradarias se convertem em lembranças de um tempo agora
iluminado pela crítica revisionista. Estão firmadas as condições sociais para
contar o outro lado da História através da visão mais matizada dos fatos. Nesse
novo cenário encontramos John Ford reavaliando a si e ao seu cinema. É o
período que vai de Sangue de heróis a Crepúsculo de uma raça.
Ford declarou
para Peter Bogdanovich[4]
que os estadunidenses sempre trataram os índios muito mal. “Isso será sempre
uma mancha em nossa história. Enganamos, roubamos (...) assassinamos. Porém, se
eles matassem somente um branco, por Deus, chamavam o Exército para combatê-los”[5].
Ainda na ocasião, acerca de Crepúsculo de uma raça, confessou emocionado:
“Há muito queria fazê-lo. Gosto muito dos índios. São um povo muito digno. Têm
uma literatura própria. Não escrita, oral. São muito bondosos. Gostam de crianças
e animais. E quis mostrar, uma vez que fosse, o ponto de vista deles”[6].
Isso fez o
diretor. Realizou uma comovente e melancólica epopeia crepuscular na qual
atribui o máximo de dignidade a uma gente em tudo vilipendiada pelas armações
da conquista. Destaca o porte altivo dos Cheyennes, detalha expressões
sofridas, enrugadas e carregadas de significados, enfatiza curtos trechos de
diálogos, como estes: “Vocês continuam comprometidos a obedecer a lei,
lembrem-se disso” — diz o Capitão Archer (Widmark) a Faca Cega e Lobo Pequeno.
Este contrapõe: “Pedem a nós para lembrar muito, homem branco não lembra nada”.
Mais adiante Faca Cega afirmará com contundência: “Até um cão pode ir aonde
quer, não um Cheyenne”. Tocado pelo impacto de Crepúsculo de uma raça, o
crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva o definiu como “um hino à dignidade do
índio”[7].
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Liderados por Árvore Alta (Victor Jory), os Cheyennes aguardam pelo cumprimento dos tratados |
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A professora quaker Deborah Wright (Carroll Baker), testemunha da miséria Cheyenne |
Crepúsculo de uma
raça foi filmado em
Monument Valley , Reserva Navajo, Deserto de Moab e nos
canyons de Gunnison no estado do Colorado. Custou significativos — para a época
— 6,5 milhões de dólares e exigiu os esforços de 600 pessoas aproximadamente.
Certamente, é a única superprodução sonora de Ford[8].
Após tantos filmes nos quais revelou a necessidade e funcionalidade da lenda
como elemento estruturador à consolidação e legitimação de uma visão social de
mundo, alterou radicalmente o enfoque. Quanto a isso, é bom recorrer às
palavras de Ely Azeredo: “... O último western de (Ford) ilustra simultaneamente
a coragem crítica (...) e sua inigualável visão da história do Oeste Americano.
Plasticamente, (...) com vigor de composição digno dos melhores exteriores
fordianos, focaliza com precisão quase documentária o ‘último capítulo da história
da nação Cheyenne’. (...). Respeitando as grandes linhas históricas, John Ford
se arriscou a digressões pouco favoráveis à armação épica, à evolução dramática
que lastreava a popularidade de seus westerns de estatura clássica. O
crepúsculo (...) dos Cheyennes tem o estilo coerente e comunicativo habitual em
Ford, mas o cineasta se recusa, por fidelidade a um objetivo maior, a empolgar
o espectador. A grande respiração épica do cinema fordiano aparece como que
petrificada no décor hibernal, no
ritmo ritualístico-trágico. É fácil observar, também, que (...) Ford abandonou
a adesão entusiástica às legendas da conquista e da colonização do Oeste. (...)
Peter Bogdanovich marcou bem (essa) evolução (...) a partir do (otimista,
jovial e desconcertantemente simples) Caravana de bravos (Wagon
master, 1950) (...). Depois da Trilogia da Cavalaria, encerrada com Rio
Bravo (Rio Grande, 1950), seu western seguinte, feito seis anos mais
tarde, ‘mostrava o início de uma mudança[9]:
uma história épica, feita de comédia e drama, Rastros de ódio (The
searchers, 1956), termina com uma nota trágica quando o homem do Oeste,
Ethan Edwards (John Wayne) (...), parte sozinho. Marcha de heróis (The
horse soldiers, 1959), Audazes e malditos e Terra
bruta (Two rode together, 1961), são crescentemente amargos em
espírito até que com (o amargo e crítico) O homem que matou o facínora (The
man who shot Liberty Valance, 1962) ele parece fazer o testamento final
sobre o western”[10].
Ludibriados pelos senadores, outra vez
frustrados por um acordo solene rompido, os Cheyennes desistem de esperar. À
morte lenta e desonrosa nas inóspitas paragens de Oklahoma, decidem tomar as
rédeas do destino. Contra tudo e todos voltarão à terra de origem. Reúnem os
poucos pertences, armas e animais. À noite abandonam a reserva. Deborah Wright
(Baker) — jovem professora quaker e alfabetizadora das crianças da tribo — os
acompanha na fuga. Assume duplo papel durante a jornada: o claramente demarcado
de missionária abnegada e protetora dos Cheyennes, e, simbolicamente,
testemunha da degradação à qual foram expostos na reserva e durante a longa
marcha.
Deborah Wright, principal
ponto de vista crítico do filme, prolonga o olhar humanista de Ford. É a
interseção ou o equilíbrio entre duas concepções conflitantes: a do Exército,
representado por homens como o Major Bradley (O’Brien) — que toma a evasão dos
Cheyennes como ato de guerra e parte para combatê-los — e a dos próprios índios
— acuados e desesperados, dispostos ao sacrifício extremo para superar limites.
Deborah busca o meio-termo, a concórdia, o convívio pacífico e digno entre os
diferentes. Não para menos é professora. Como educadora tem por missão preparar
o futuro. Acredita — tal qual diretor — em um porvir melhor que o presente.
Ocupa posição oposta ao soldado moldado pelo pragmatismo. Este percebe apenas a
realidade e as relações sociais como instâncias imóveis, sempre idênticas.
Deborah expõe seu ponto para Archer. Para este, os índios serão sempre
“violentos e malvados sanguinários, guerreiros natos”, mesmo os Cheyennes da
reserva “tão dignos de pena”. Deborah contrapõe: “Você só vê o passado e o
presente. Eu penso no futuro” ou na integração com a educação servindo de base
à consolidação desse projeto ou utopia.
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O Capitão Thomas Archer (Richard Widmark) |
A valorização da
educação — logo, da cidadania — é constante nos filmes de Ford. Deborah Wright tem
predecessores ilustres: Clementine Carter (Cathy Downs) de Paixão dos Fortes (My
darling Clementine, 1948), a resoluta e determinada Senhora Jorgensen
(Olive Carey) de Rastros de ódio, e Ramson Sttodart (James Stewart), o teimoso progressista
de O
homem que matou o facínora.
A professora Clementine
Carter chega do Leste à inóspita Tombstone. Apesar das desilusões desta terra
de ninguém, resolve permanecer e fundar uma escola. A Senhora Jorgensen,
outrora professora, recusa a maldição que o marido Lars (John Qualen) lança às
violentas paragens texanas nas quais perdeu o filho. Mantém a esperança e
prevê: “Um dia esta terra será um bom lugar para viver”. Recentemente chegado a
Shinbone, o jovem advogado Ramson Sttodart acredita na educação como pilar da
democracia. Contra a opinião cristalizada pelo senso comum, ensina as letras e
o significado das leis — opondo-as à irracionalidade do gatilho e dos punhos.
No entanto, Crepúsculo
de uma raça é um Ford carregado de desencanto. O diretor perdeu as
esperanças em integração e futuro promissor. Praticamente prolonga a visão
pessimista e desesperançada endereçada ao Oeste, por extensão à América, em Terra
bruta. A fronteira, tantas vezes percebida como espaço da promissão,
torna-se lugar de egoísmo, mesquinharia e exclusão. Nesse sentido, Crepúsculo
de uma raça destaca: 1) o cowboy lendário, qual nobre cavaleiro andante
das paragens do Oeste cinematográfico, agora é o estúpido, sinistro e covarde
matador de índios famintos como Joe (Curtis) e companheiros; 2) um conluio de
interesses espúrios entre especuladores fundiários, militares e políticos
corruptos é responsável pela dramática situação dos Cheyennes; 3) o Exército, tantas
vezes exaltado por Ford como ambiente de convívio democrático, serve apenas ao
carreirismo e farisaísmo de oficiais preocupados com a honra pessoal a exemplo
do Capitão Wessels (Malden); 4) esse mesmo Exército, sem meios-tons, é
comparado pelo Primeiro-Sargento Stanilslaus Wichowsky (Mazurki) — fazendo a
consciência do diretor — aos cossacos que lhe aterrorizavam a Polônia natal,
matando poloneses “apenas por serem poloneses, como nós estamos querendo matar
índios só porque são índios. Eu tinha orgulho de ser soldado americano. Mas não
sinto orgulho de ser cossaco. (...). Enfrentei índios que queriam brigar
comigo. Não um bando de famintos peles-vermelhas que só querem voltar para
casa”; e, 5) o jornalista idealista e generoso como Duton Peabody (Edmond
O'Brien) de O homem que matou o facínora deu lugar ao noticiador
inescrupuloso e sensacionalista que amplia conscientemente a real dimensão dos
fatos ao falseá-los com o objetivo de vender mais jornais, ou a tomar o partido
dos índios com idêntico fim.
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Capitão Thomas Archer (Richard Widmark) e o soldado Plumtree (Ben Johnson) |
Nesse contexto de
desilusões parecem quixotescas as imagens e esperanças de Deborah Wright.
Quanto a isso é exemplar a cena na qual toca exaustiva e inutilmente o sino,
chamando as crianças índias para as aulas. Para que escola se as “palavras dos
brancos são mentiras? É melhor que nossas crianças não as aprendam”, diz Lobo
Pequeno à professora. Ford não faz reparos à fala. Como assinalou J. A. Place,
em Crepúsculo
de uma raça valores como “democracia” e “educação” parecem inadequados
pelo fato de não se acreditar em seus significados[11].
Essa visão pessimista explica a derradeira cena do filme: as minúsculas
silhuetas de Lobo Pequeno e esposa (D’Antonio) na amplidão do horizonte revelam
mais que a simples e aparente imagem de dois desgarrados que se excluíram do
grupo de pertencimento ao término da longa marcha. Representam o destino do índio
em geral, expulso da terra à qual pertencia, transformado em pária — sem lugar
numa sociedade que o negará sempre.
O Capitão Thomas
Archer — oficial de campo moldado na ação, profundo conhecedor da terra e dos homens
que comanda — é o personagem emblemático de Crepúsculo de uma raça.
Representa a parte do Exército poupada por Ford. Não tem a limitação do burocrático
militar de gabinete que percebe o mundo conformado a regulamentos rígidos.
Plástico, molda-se às mais diversas situações. Participou de campanhas contra
os índios; tem ciência de que a racionalidade dos combates não corresponde
exatamente aos planos elaborados por estrategistas acomodados confortavelmente
em ambientes apartados do calor, sangue e da poeira. Se Ford está diluído nos
papéis interpretados por Carroll Baker e Mike Mazurki, aparece por inteiro em
Archer. É aos olhos do oficial que praticamente reconstitui a trágica
peregrinação Cheyenne. Richard Widmark interpreta um personagem em processo. Antes
preconceituoso para julgar os índios, passa à compaixão e, finalmente, arrisca
a própria carreira ao assumir a determinação de socorrê-los e impedir a consumação
de desgraça maior. A mudança de visão e atitude de Archer encontra equivalente
nas maneiras como John Ford concebeu e tratou os índios nas realizações
ambientadas no Oeste. Dos primeiros aos últimos westerns, o cineasta transitou
do enfoque turvo, sinistro e sem alma dos peles-vermelhas até o ponto de realçá-los
em nuanças e matizes próprios dos grupos que fazem parte da longa, complexa e
diversificada experiência humana aos lhes oferecer rosto e dignidade.
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O aguerrido e rebelde Camisa Vermelha (Sal Mineo) |
Archer parte em
perseguição aos Cheyennes tão logo é informado da fuga. Sabe da determinação
dos evadidos. Entretanto, recusa o papel de algoz. Evita o ataque e qualquer contato
da tropa com os índios. Apenas se propõe a segui-los. Contraria oficiais
aguerridos e dispostos ao enfrentamento a qualquer preço, como o belicoso
Segundo Tenente Scott (Wayne) e o preconceituoso Major Braden, comandante da
guarnição da reserva. Scott é gravemente ferido ao tomar a tola e imprudente
iniciativa de atacar, a ponto de por em risco o próprio destacamento. Quanto ao
Major, morre na primeira escaramuça.
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Lobo Pequeno (Ricardo Montalban) e Faca Cega (Gilbert Roland) |
A princípio, o
que explica o excesso de prudência de Archer? Não é o zelo do oficial com a
tropa ou a patente, mas o amor por Deborah Wright. Teme deixá-la em situação de
risco. Mas é a determinação dessa mulher tão desapegada e confiante no futuro
que converterá o Capitão, principalmente após os acontecimentos que antecipam a
tragédia em Fort
Robinson.
Roteiro: James R. Webb, Patrick
Ford (não creditado), sugerido da novela Cheyenne Autumn, de Mari Sandoz, e
da não creditada novela The last frontier, de Howard Fast. Direção de fotografia (Technicolor, Super
Panavision 70): William H. Clothier. Direção
de arte: Richard Day. Montagem:
Otho Lovering, David Hawkins (não creditado). Som: Francis E. Stahl. Decoração:
Darrell “Darryl” Silvera. Assistentes de
direção: Wingate Smith, Russell “Russ” Saunders. Associado à direção e direção de segunda unidade: Ray Kellogg. Consultor de assuntos indígenas: David
H. Miller. Música e direção musical:
Alex North. Coordenação de dublês:
Chuck Roberson. Narradores: Spencer
Tracy, Richard Widmark. Figurinos (não
creditados): Frank Beetson Jr., Ann Peck. Maquiagem: Norman Pringle (não creditado). Efeitos especiais: Ralph Webb (não creditado). Dublês (não creditados): Eli Bo Jack Blackfeather, Jeannie Epper,
John Epper, Stephanie Epper, Jerry Gatlin, Donna Hall, Chuck Hayward, Bryan
'Slim' Hightower, John Hudkins, Loren Janes, Leroy Johnson, Eddie Juaregui,
Cliff Lyons, Ted Mapes, John McKee, Louise Montana, Montie Montana, Rudy
Robbins, Chuck Roberson, Dean Smith, Neil Summers, Bill Williams, Jack
Williams. Operador de câmera: Gerald
Perry Finnerman (não creditado). Fotografia
de cena: John R. Hamilton (não creditado). Aparelhamento elétrico: Doug Mathias (não creditado). Assistentes de câmera (não creditados):
George R. Schrader, Harrold Weinberger. Assistente
de figurinos: Luster Bayless (não creditado). Gerente de locações: Bill Cornford (não creditado). Orquestração (não creditada): Henry
Brant, Gil Grau. Sistema de mixagem de
som: Stereo em 6 pistas para cópias em 70mm e mono para 35 mm . Tempo de exibição: 159 minutos (165 minutos na versão original).
(José Eugenio Guimarães, 1978; revisto e ampliado
em 1996)
[1] Cf. TAVERNIER, Claudine. La 4ème dimension de la
vieillesse. Cinéma 69. Paris, n. 137, p. 39, jun.1969.
[2] Filme pouco conhecido, O rebelde sonhador
pertence à seção de temas irlandeses da fordiana. Narra a juventude do dramaturgo
Sean O’Casey em Dublin, com base na autobiografia do autor. Ford adoeceu após
duas semanas de filmagens. Foi substituído por Jack Cardiff.
[3] Cf. BOGDANOVICH, Peter. Nacos do tempo: crônicas
de cinema. Lisboa: Horizonte, 1986. p. 173.
[4] BOGDANOVICH, Peter. John Ford. 2. ed. Madri:
Fundamentos, 1983.
[5] Ibidem. p. 98.
[6] Ibidem. p. 175.
[7] PAIVA, Salvyano Cavalcanti de. O
Globo, Rio de Janeiro, 7 set.1973. Segundo Caderno.
[8] No período silencioso, em 1924, Ford dirigiu O
cavalo de ferro (The iron horse), superprodução sobre
o empreendimento conjunto da Union Pacific e Central Pacific para a construção
da primeira ferrovia transcontinental. Em 1962 Ford se envolveu com outra
superprodução bancada pelo mesmo Bernard Smith que coproduziu Crepúsculo
de uma raça: A conquista do Oeste (How
the west was won), para a qual dirigiu somente o breve episódio da Guerra
Civil (The Civil War) centrado na Batalha de Shiloh, provavelmente o mais
sangrento do conflito (Cf. BOGDANOVICH, Peter. Op. cit. 1983. p. 187.). Os
outros diretores de A conquista do Oeste, Henry Hathaway e George Marshal,
responsabilizaram-se respectivamente pelos episódios Os rios, as planícies, os
bandidos (The rivers, the plains, the outlaws) e A estrada de ferro (The
railroad).
[9] Quanto ao “início dessa mudança”, o mais correto é
localizá-la em Sangue de heróis, filme inaugural da Trilogia da Cavalaria,
particularmente na sequência em
que Cochise (Miguel Inclán) lista para o arrogante
Tenente-Coronel Owen Thursday (Henry Fonda) as mazelas da conquista — uma
história de expropriações, submissões e massacres — que custaram a dignidade, a
determinação e o orgulho de sua gente.
[10] AZEREDO, Ely. O homem universal do Oeste. Filme
cultura, Rio de Janeiro, n. 25, p. 12-13, mar. 1974 (Parênteses de José
Eugenio Guimarães).
[11] Cf. PLACE, J. A. The western films of John Ford.
Secaucus: Citadel Press, 1974. p. 236.