Minhas memórias de cinéfilo aprendiz ainda guardam com
carinho as imagens de Nunca é tarde para amar (Follow
me, boys, 1965). É o último filme de ação viva da Walt Disney Productions
a contar com a supervisão direta do fundador da empresa. Walt morreria alguns
dias após a estreia. Protagonizado por Fred MacMurray e Vera Miles, também reserva
espaço ao jovem Kurt Russell. A direção é do rotineiro Norman Tokar,
pau-para-toda-obra da companhia. A história contém influências de A
felicidade não se compra (It's a wonderful life, 1946), de
Frank Capra. George Bailey (James Stewart), personagem central dessa
realização, tem prolongamentos no Lemuel Siddons vivido por MacMurray. É o típico
filme para "toda a família" da Disney. Celebra os valores considerados
positivos e a mítica fraternidade comunitária. Hoje, Nunca é tarde para amar deve
fazer parte do rol das realizações démodé.
Jamais o revi. Mas a apreciação a seguir, de 1976, chama a atenção para essa
possibilidade.
Nunca é tarde para
amar
Follow me, boys!
Direção:
Norman Tokar
Produção:
Walt Disney (não creditado)
Walt Disney Productions
EUA — 1965
Elenco:
Fred MacMurray, Vera Miles,
Lillian Gish, Charles Ruggles, Elliott Reid, Kurt Russell, Luana Patten, Ken
Murray, Donald May, Sean McClory, Steve Franken, Parley Baer, William Reynolds
e os não creditados Tol Avery, David Alan Bailey, Richard Bakalyan, Sherwood
Ball, Johnny Bangert, Madge Blake, Billy Booth, Willis Bouchey, Dean Bradshaw,
Hank Brandt, Kevin Burchett, Donnie Carter, Duane Chase, Jimmy Cross, Ronnie
Dapo, Mike Dodge, Colyer Dupont, Michael Flatley, Craig Hill, Warren Hsieh,
Ricky Kelman, John Larroquette, Kit Lloyd, Michael Mason, Tim McIntire, William
Mills, Dean Moray, Jimmy Murphy, Tony Regan, Carl Reindel, Dennis Rush, Bryan
Russell, Eddie Sallia, Gregg Shank, William Soo, Keith Taylor, Harry S. Truman,
Greger Vigen, Charles Wagenheim, Adam Williams, Robert Williams, Dick Winslow,
John Zaremba.
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Norman Tokar: pau-para-toda-obra à frente de rotineiras realizações da Disney |
O livro God
and my country, de MacKinlay Kantor, conta história de sabor
tipicamente estadunidense, caríssima aos valores comunitários centrados nas
pequenas cidades interioranas da terra do Tio Sam. Esses locais de população
reduzida e bases essencialmente rurais muito contribuíram para erguer o mito do
indivíduo que vale por seus próprios termos. É geralmente um homem simples, capaz
de fazer a diferença, não em proveito próprio, mas do que se convencionou
chamar o bem comum, residência das necessidades alheias. No filme derivado do
livro, a partir do roteiro convencional de Louis Pelletier, esse alguém é Lemuel
Siddons, interpretado por Fred MacMurray. Este ator talentoso e pouco
prestigiado, marcado por expressão tão mundana e otimista, vem atribuindo ar de
saudável veracidade às realizações protagonizadas por gente de carne e osso da
Walt Disney Productions desde que estreou nesse universo personificando Wilson
Daniels em Felpudo, o cão feiticeiro (The shaggy dog, 1959), de Charles
Barton. Daí para cá é presença regular nos dramas e comédias da companhia. Com
exceção do excêntrico milionário identificado como Father no enfadonho Quando
o coração não envelhece (The happiest millionaire, 1967), de
Norman Tokar, MacMurray comparece na pele de personalidades corriqueiras capazes
de encantar a existência dos demais mortais. Assim é com o abilolado inventor
professor Ned Brainard, presente em duas realizações de Robert Stevenson, O
fantástico super-homem (The absent-minded professor, 1961) e
O
fabuloso criador de encrencas (Son of flubber, 1963); o enfadado turista
Harry Willard perdido na Paris de Bon voyage, enfim Paris! (Bon
voyage!, 1962), de James Neilson, e o sempre atarefado Charley Appleby
de Charley
and the angel (1973), de Vincent McEveety.
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Lemuel Siddons, interpretado por Fred MacMurray, acaba de chegar na pequena Hickory |
Nunca é tarde
para amar é história de longo curso, daquelas que cobrem uma
existência. Inicia-se na década de 30 e avança por aproximadamente 20 anos. Corre
o duro período da Grande Depressão, não mencionado pelo roteiro. Mas, pode-se
dizer, o protagonista é vítima do desastre econômico. É saxofonista de um grupo
de músicos itinerantes, que percorre o país em busca de alguns trocados. Durante
os trajetos e folgas das apresentações, o insatisfeito Lemuel Siddons tenta
ampliar os conhecimentos na área de Direito. Quer ser advogado. Mais que nunca necessita
da tranquilidade de pouso certo e permanente, para organizar os rumos da vida.
O ônibus da troupe para rapidamente na pequena
Hickory, com cerca de 5 mil habitantes em pleno meio-oeste. Parece pacata o
suficiente às necessidades do músico insatisfeito. É aí que ficará. Está experimentando
a temperatura do lugar quando conhece Vida Downey (Miles), funcionária do banco
local. É amor à primeira vista, apesar de não correspondido de imediato. Lemuel
soou antipático à exigente e respeitável moça. Prudente, ela não daria bola ao
forasteiro sem relações sólidas com a comunidade. Ainda por cima, há as
pretensões do ambicioso e pouco honesto Ralph Hastings (Reid), patrão da garota.
Ele fará de tudo para minar as apaixonadas boas intenções de Lemuel. Além de
gerenciar o banco, é sobrinho de Hetty Seibert (Lillian Gish), rica e
respeitável matriarca de bom coração, pessoa mais influente de Hickory. Em
filmes assim, sabe-se de antemão: passados alguns percalços, Vida e Lemuel
ajustarão os ponteiros.
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Vera Miles no papel de Vida Downey |
Determinado,
Lemuel logo arruma trabalho. Emprega-se como faz tudo na casa de comércio do generoso
John Everett Hughes (Ruggles). Não demora a se integrar às atividades
comunitárias, como bom e interessado cidadão, de início para impressionar Vida.
Diante de séria questão levantada pela municipalidade, sobre o estado pouco
promissor de jovens e crianças, sempre nas ruas e sem o que fazer, Lemuel assume
a paternidade pela criação de um destacamento de escoteiros. Logicamente, será o
responsável pela tropa, justificando-se assim o título original do filme: Follow
me, boys! ("Sigam-me, garotos!").
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O problemático e órfão Whitey (Kurt Russell) adotado pelo chefe dos escoteiros Lemuel Siddons (Fred MacMurray) |
O que seria
atividade provisória, prolonga-se por toda a vida. Durante 20 anos, Lemuel
Siddons será animador e exemplar orientador da mocidade de Hickory. Ao longo
desse tempo, contrai matrimônio com Vida. Não terão filhos, mas os escoteiros
preencherão essa lacuna, principalmente o problemático Whitey (Russell), filho
do alcoólatra Edward White (McClory). Será adotado pelo casal, ao perder o pai.
O filme é uma história de renúncia em prol do outro. Lemuel nunca terá tempo para
se graduar formalmente em
Direito. Mas será agraciado ao final, em grandiosa e calorosa
homenagem dos cidadãos, principalmente dos garotos que orientou, já adultos e
encaminhados. Na ocasião, preenche um vazio ao receber o título de Bacharel
Honorário. Afinal, demonstrou aptidão jurídica ao defender em juízo a sanidade
de Hetty Seibert contra as pretensões monopolizadoras do sobrinho.
Nunca é tarde
para amar é a última realização de ação viva da Walt Disney
Productions a contar com a supervisão direta do fundador da empresa. Ele morreu
em 15 de dezembro de 1966, duas semanas após a estreia, com sucesso, do filme. Walt
Disney sempre foi admirador confesso de Frank Capra, principalmente de A
felicidade não se compra (It's a wonderful life, 1946) e seu protagonista
George Bailey (James Stewart). Há pontos de contato entre essa realização e o
filme de Tokar. Siddons e Bailey se parecem. Vivem em cidades pequenas. A elas,
principalmente aos moradores mais necessitados, dedicaram significativas parcelas
de suas existências, ao preço do sacrifício de seus projetos mais pessoais.
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Kurt Russell é o rebelde e arredio Whitey |
Infelizmente, de Nunca
é tarde para amar não emana calor tão intenso e vibrante como em A
felicidade não se compra. A realização de Norman Tokar é por muitos
reputada como uma das melhores encenações de ação viva dos Estúdios Disney durante
os anos 60. De fato, é! Mas o diretor nunca foi dado às ousadias criativas. Sempre
ficou relegado à rotina. É no carisma dos intérpretes, principalmente de Fred
MacMurray e Kurt Russell, que reside o poder de atração do filme. Pouco se
exige da fordiana e hitchcockiana Vera Miles.
Não que o filme
seja desinteressante. Longe disso. Chega a ser delicioso, principalmente em
seus primeiros 80 minutos. Nesse tempo, a história avança com certo frescor e
dinamismo. Mas os 50 minutos restantes — dedicados às demais gerações formadas
por Lemuel, com o personagem entrando em idade avançada, seguindo-se as
homenagens que lhe serão prestadas pela comunidade — são solenemente arrastados
em alguns momentos e apressados em outros. Ainda há uma sequência mal ajustada, com
jeito de interregno cômico: Lemuel e os escoteiros se envolvem acidentalmente
com manobras voltadas ao treinamento de soldados para a Segunda Guerra Mundial.
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Vida Downey (Vera Miles) e Lemuel Siddons (Fred MacMurray) |
A falta de
ousadia narrativa decorre do fato de Nunca é tarde para amar se situar
entre as muitas realizações "saudáveis" da Disney Productions. É
produto a ser degustado sem muita dificuldade, "por toda a família",
segundo os prospectos publicitários. Tem a vantagem de propagar mensagem positiva e evitar o tom melosamente piegas. Porém, não deixa de se render ao
sentimentalismo que compra a fácil e imediata adesão do espectador médio e
pouco exigente. Por outro lado — e aí já não é culpa do filme —, ao ser visto
10 anos após realizado deixa a sensação de que o fator tempo — em suas relações
com visões de mundo e readequação de posturas e costumes —, afetou-o negativamente.
Parece ultrapassado — infelizmente — em sua celebração dos valores comunitários
e preocupação desinteressada com o bem comum. Os tempos de agora abrem espaços ao
cinismo e niilismo. Com isso, os temas destacados pelo filme tendem a ser
percebidos como caretas, quando não chauvinistas e anacrônicos. Assim, se apreciado
de forma apressada periga ser facilmente relegado com tudo o que pode
ter e significar de bom.
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Lemuel Siddons (Fred MacMurray) tenta dobrar o refratário Whitey (Kurt Russell) |
Kurt Russel tem em
Nunca
é tarde para amar seu primeiro papel de destaque. Atualmente é presença
constante em várias produções standard
da Disney: Sindey Bower em The one and only, genuine, original Family
Band (1968), de Michael O'Herlihy; Ronnie Gardner de A
sorte tem quatro patas (The horse in the gray flannel suit,
1968), de Norman Tokar; Rich em Guns in the heather (1969), de
Robert Butler; Dexter Riley de Viva o garotão prodígio! (The computer wore tennis shoes,
1969), de Robert Butler; Steven Post em O chimpanzé manda-chuva (The
barefoot executive, 1971), de Robert Butler; novamente Dexter Riley de Now
you see him, now you don't (1972), de
Robert Butler; Ray Ferris em Charley and the angel (1973), de
Vincent McEveety; Bart de Superdad (1973), de Vincent McEveety
(1973); novamente Dexter Riley em O homem mais forte do mundo (The
strongest man in the world, 1975), de Vincent McEveety.
Russel começou a
atuar aos nove anos, em 1962, com participações não creditadas nas séries de TV
Dennis
the menace e The Dick Powell show. Também marcou
presença em episódios de Perdidos no espaço, Laredo,
The
FBI, A ilha dos birutas, The legend of Jesse James, O
homem de Virgínia, O agente da U.N.C.L.E., Gunsmoke
etc. Não chega a ser extraordinária, mas não deixa de ser tocante sua atuação
em Nunca
é tarde para amar, principalmente nos momentos em que tenta assumir os
cuidados com o pai alcoólatra que o constrange socialmente. Ou ao marcar posição
arisca e resistente diante dos escoteiros, antes de se tornar um deles e
encontrar maior segurança emocional.
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Walt Disney na sequência de apresentação de Follow me, boys! |
Harry Truman,
presidente dos Estados Unidos ao longo de dois mandatos sucessivos (1945-1953),
participa do elenco devido à utilização de sua voz em arquivo de áudio.
Roteiro: Louis
Pelletier, baseado no livro God and my country, de MacKinlay
Kantor. Direção de fotografia (Technicolor): Clifford Stine. Música:
George Bruns. Direção de arte:
Carroll Clark, Marvin Aubrey Davis. Figurinos:
Bill Thomas. Montagem: Robert
Stafford. Co-produção: Winston
Hibler. Som: Robert O. Cook. Maquiagem: Jim Fetherolf, Pat McNalley.
Decoração: Emile Kuri, Frank R.
McKelvy. Efeitos especiais: Eustace
Lycett. Assistente de direção: Terry
Morse Jr. Mixagem de som: Robert
Post. Orquestração: Walter Sheets. Penteados: La Rue Matheron. Supervisão de som: Robert O. Cook. Arte matte: Jim Fetherolf. Dublês (não creditados): Jerry
Brutsche, Jesse Wayne (para Kurt Russell), Jesse Wayne. Confecção de vestuário: Chuck Keehne, Neva Rames, Luster Bayless
(não creditado). Edição musical:
Evelyn Kennedy. Assistente para o
produtor: Jerome Courtland. Apresentação:
Walt Disney. Sistema de mixagem de som:
RCA Sound Recording. Tempo de exibição:
131 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1976)