Como geralmente acontecia nos westerns, Barbara Stanwyck dispensou
dublês e realizou praticamente todas as arrojadas façanhas exigidas para a
determinada personagem Sierra Nevada Jones. Recentemente chegada do Texas às
áreas abertas à colonização do território de Montana, ela comprova que é “homem
com ‘M' maiúsculo”. Enfrenta em pé de igualdade o especulador fundiário Tom
McCord (Gene Evans), pistoleiros e índios belicosos. Não para menos mereceu o
respeito e a homenagem dos Pés Pretos contratados para a figuração: fizeram-na
irmã de sangue e membro honorário da tribo ao batizá-la como “Princesa
Vitoriosa”. Pior para Ronald Reagan em desempenho mais apagado que o habitual.
No papel de Farrell, o futuro Presidente dos Estados Unidos foi relegado ao posto
de mero coadjuvante das proezas de Sierra Nevada Jones. Tentou ampliar as
dimensões do personagem junto à produção, mas estava escrito que Montana,
terra do ódio (Cattle queen of Montana, 1954) seria
um filme de cowgirl e não de cowboy. É o terceiro dos dez títulos de baixo
orçamento assinados pelo lendário pioneiro Allan Dwan, durante os anos 50, para
o produtor Benedict Bogeaus. Trata de colonização, relações de índios com
brancos, vingança e especulação fundiária. Tem por atrativos o desempenho de
Stanwyck, a direção de fotografia de John Alton e os exuberantes cenários
naturais do Glacier National Park. Infelizmente, é produção de rotina que pouco
acrescenta à trajetória de um cineasta com história e filmes dignos de
conhecimento. Oficialmente, segundo o Internet
Movie Database (IMDb), dirigiu
pouco mais de quatrocentos títulos entre 1911 a 1961. Porém, há estudiosos que lhe
atribuem outros mil, atualmente impossíveis de serem localizados e convenientemente
registrados. Os atentos apreciadores da saga de Marty McFly (Michael J. Fox) em
De
volta para o futuro (Back to the future, 1985), de Robert
Zemeckis, certamente se lembrarão da referência a Cattle queen of Montana.
Montana, terra do ódio
Cattle
queen of Montana
Direção:
Allan Dwan
Produção:
Benedict Bogeaus
RKO Radio Pictures, Benedict Bogeaus Production,
Filmcrest Productions
EUA — 1954
Elenco:
Barbara Stanwyck, Ronald Reagan, Gene Evans, Lance
Fuller, Anthony Caruso, Jack Elam, Yvette Duguay, Morris Ankrum, Chubby
Johnson, Myron Healey, Rodd Redwing, Paul Birch, Byron Foulger e os não
creditados Burt Mustin, Dorothy Andre, Bob Burrows, Wayne Burson, John Cason,
Bill Coontz, Glenn Strange, Danny Fisher, Roy Gordon, Jonathan Hale, Betty
Hanna, Riza Royce, Ralph Sanford, Tom Steele, Harry Tyler, Bob Woodward.
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Barbara Stanwyck - caracterizada como Sierra Nevada Jones - e o diretor Allan Dwan Bastidores de Montana, terra do ódio |
Atualmente pouco se fala do lendário
Allan Dwan. A ele o Internet Movie
Database (IMDb) credita pouco
mais de 400 títulos realizados de 1911 a 1961. Porém, esse número pode ser bem
mais elevado segundo historiadores, algo em torno dos incríveis 1400. Acredita-se
que Dwan tenha iniciado a carreira em 1909, ou antes, quando pouca preocupação
havia com preservação e registros acurados. Muitos de seus trabalhos estão
definitivamente perdidos ou lançados na conta da autoria desconhecida. Remetem
a um período de filmagens apressadas e aos borbotões. Os produtos eram
imediatamente consumidos em feiras, circos, igrejas, teatros de variedades,
bares e cafés. Pela listagem do IMDb,
263 curtas de um ou dois rolos são atribuídos ao cineasta nos três primeiros
anos oficialmente reconhecidos da carreira.
Em 1914, com The unwelcome Mrs. Hatch,
Dwan adere às produções de maior fôlego. Eclético, realiza dramas, comédias e
aventuras diversas. Ganha a confiança de atores e atrizes da era embrionária do
star system: Donald Crisp, Mary
Pickford, Dorothy e Lillian Gish, Douglas Fairbanks, Norma Talmadge, Marion
Davis, Wallace Beery, Monte Blue etc. Atinge o auge na década seguinte. Faz Robin
Hood (Robin Hood, 1922) com Fairbanks, e Zaza (1923) para Gloria
Swanson — de quem se torna diretor preferido. Formam parceria em A
society scandal (1924), Manhandled (1924), Her love
story (1924), Wages of virtue (1924), Folia
(The
coast of folly, 1925) e Este mundo é um teatro (Stage
struck, 1925). Lança em 1927 o bem sucedido Titanic (East
side, West side). Passa sem problemas ao cinema sonoro: O
triunfo (The big noise, 1928), O máscara de ferro (The
iron mask, 1929) com Fairbanks e Que viúva! (What a window!, 1930) com
Swanson. Reconstitui a trajetória de Wyatt Earp (Randolph Scott) em A lei
da fronteira (Frontier Marshal, 1939); permite um
dos mais sinceros desempenhos a John Wayne no drama de guerra Iwo
Jima – O portal da glória (Sands of Iwo Jima, 1949). Os anos 50
o encontram em franca atividade: dirige quase 20 títulos, sobretudo westerns,
até o encerramento da carreira em 1961.
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Ronald Reagan e Barbara Stanwyck nos papéis de Farrell e Sierra Nevada Jones |
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O especulador Tom McCord (Gene Evans) e o aliado ocasional Natchakoa (Anthony Caruso) |
Montana, terra do ódio é a terceira das dez realizações de
baixo orçamento assinadas por Dwan para o produtor Benedict Bogeaus. As demais
são: Homens
indomáveis (Silver Lode, 1954), Sob a lei da chibata (Passion,
1954), Selvas indomáveis (Escape to Burma, 1955), A
sereia dos Mares do Sul (Pearl of the South Pacific, 1955), A
audácia é a minha lei (Tennessee's partner, 1955), O
poder do ódio (Slightly Scarlet, 1956), Matar
para viver (The river's edge, 1957), O maior ódio de um homem (Enchanted
island, 1958) e O mais perigoso dos homens (Most
dangerous man alive, 1961).
O título em apreço é western frouxo, conduzido
com displicência; um dos piores de Allan Dwan. O interesse é garantido pelo
desempenho de Barbara Stanwyck no papel de Sierra Nevada Jones. É uma cowgirl
para homem algum apontar defeito. Está determinada a vingar a morte do pai Pop
Jones (Ankrum) além de recuperar o gado e o domínio rural que lhe foram
tomados. Tem por oponente o grande proprietário e criador Tom McCord (Evans), especulador
com pretensões de se apossar de vastas áreas abertas à colonização em Montana. A ação
transcorre em 1888, um ano antes de o território passar à condição de estado da
União.
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Pop Jones (Morris Ankrum) e a filha Sierra Nevada Jones (Barbara Stanwyck) |
Sierra Nevada Jones é uma das várias
personagens fortes e aguerridas cultivadas por Stanwyck em westerns, principalmente
nos anos 50. Há muito a atriz consolidava reputação em papéis similares: Mollie
Monahan — Aliança de aço (Union Pacific, 1939), de Cecil B. De
Mille; Lily Bishop — Califórnia (California, 1947), de
John Farrow; Vance Jeffords — Almas em fúria (The Furies, 1950), de
Anthony Mann; Martha Wilkison — Um pecado em cada alma (The
violent men, 1954), de Rudolph Maté; Kit Banion — Até a última bala (The
maverick Queen, 1956), de Joseph Kane; Cora Sutliff — Vingança
no coração (Trooper Hook, 1957), de Charles Marquis Warren; Jessica
Drummond — Dragões da violência (Forty guns, 1957), de Samuel Fuller
e, entre outros, a inesquecível Victoria Barkley dos 112 episódios da
telessérie The Big Valley[1],
dos anos 60.
Em seu esforço verídico de atuação,
com a costumeira dispensa de dublês, Stanwyck, aos 46 anos, cavalgou, saltou, correu,
lutou e laçou. Desempenhou pessoalmente as façanhas que lhe exigiam destreza
física. Por isso, angariou o respeito e admiração dos índios Pés Pretos
contratados como figurantes. Foi honrada com a elevação à condição de irmã de
sangue ou membro honorário da tribo. Recebeu a alcunha de “Princesa Vitoriosa”
ou algo parecido.
A trama, roteirizada por Robert Blees
e Howard Estabrook a partir de história de Thomas W. Blackburn, lança Sierra
Nevada Jones contra os interesses monopolistas de Tom McCord e no centro dos
conflitos internos dos Pés Pretos em decorrência da disputa pelo poder travada
pelos irmãos Colorados (Fuller) — conciliador, favorável à aproximação cultural
com os brancos — e Natchakoa (Caruso) — reafirmador da tradição guerreira, no
momento aliado a McCord em troca de armas e bebida. A situação se complica,
inclusive no plano amoroso, com a intervenção de Farrell (Reagan). De início é capataz
de Tom McCord e contrário aos interesses da mocinha.
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Colorados (Lance Fuller) |
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Natchakoa (Anthony Caruso) |
Sierra Nevada, o pai e o auxiliar Nat
Collins (Johnson) despenderam sete meses numa jornada do Texas às terras
conquistadas em
Montana. Chegaram ao destino com pouco tempo para legalizar a
posse. Trouxeram cerca de mil cabeças de gado. Na primeira noite passada no
domínio, tiveram o rebanho estourado por Natchakoa e incorporado à
propriedade de McCord. Durante o tumulto, Pop Jones morreu. Feridos, Sierra
Nevada e Nat recebem o inesperado auxílio e cuidados médicos de Colorados. São
levados ao acampamento da tribo, apesar dos veementes protestos do irmão
belicoso e desconfiança inicial do velho chefe (Strange) como dos
convalescentes. Colorados tem formação universitária. Pretende incorporar sua
gente aos valores dos brancos. Ganha a confiança de Sierra Nevada. Auxilia-a
nos planos de recuperação das perdas. No entanto, pode ser tarde. Após o
estouro da boiada, os papéis de legitimação da propriedade, encontrados junto
ao corpo de Pop Jones, passaram às mãos de McCord. Agora, as terras estão
incorporadas aos domínios do especulador. Inconformada, Sierra Nevada abre luta
por justiça. Recebe a ajuda inesperada e pouco desinteressada de Farrell. No
prosseguimento das contendas o fiel Nat Collins é assassinado.
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Farrell (Ronald Reagan) e Sierra Nevada Jones (Barbara Stanwyck) |
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Ralph Sanford como lojista e Barbara Stanwyck no papel de Sierra Nevada Jones |
Além da enérgica atuação de Barbara
Stanwyck, outras boas qualidades de Montana, terra do ódio decorrem dos majestosos
cenários naturais do Glacier National Park — vivamente captados pela direção de
fotografia do expert John Alton. Tanta paisagem verde — rica em cursos d’água,
árvores e vegetação arbustiva — parece até nota estranha a um western. O gênero
é geralmente ambientado em meio às pradarias secas, dominadas por areia e
rocha, castigadas por vento, sol e poeira. As poucas internas e o conjunto
urbano se devem ao Iverson Ranch de Chatsworth, Los Angeles, e parque
cenográfico conjuntamente administrado pela Columbia e Warner Brothers em
Burbank.
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Yost (Jack Elam), Farrell (Ronald Reagan) e Tom McCord (Gene Evans) |
A história não empolga. Allan Dwan
não estava em seus melhores dias. Falta agilidade à trama. Os planos são
corriqueiros; as caracterizações, sofríveis. Glenn Strange oferece desempenho
lamentavelmente estereotipado como o velho chefe dos Pés Pretos. A estampa de
Lance Fuller, o Colorados, é simplesmente inacreditável. Pior é Ronald Reagan,
visivelmente contrariado e desinteressado — condição agravada por sua conhecida
limitação na atuação. De início, o papel de Farrell seria de Robert Mitchum —
que desistiu por discordar do roteiro. O futuro presidente dos Estados Unidos o
substituiu. Acreditava que seria atendido nas ponderações em prol da alteração
do desenho do personagem, francamente subalterno diante da predominância da
Sierra Nevada. Como não foram consideradas, Reagan ficou relegado à condição de
quase coadjuvante de Barbara Stanwyck. Desinteressou-se e sequer representou
com o mínimo de credibilidade. A direção também não se esforçou para contornar
a apatia. Anthony Caruso faz um bom Natchakoa. Infelizmente, qual Barbara
Stanwyck, não tem alguém à altura para contracenar. Yvette Duguay é mal
aproveitada como a ciumenta e caprichosa Estrela de Fogo, frustrado interesse
amoroso de Colorados. Opta pela traição e paga com a vida. O índio bonzinho e —
convenhamos — subserviente vivido por Lance Fuller chega solitário ao final. Ao
menos será o chefe da tribo.
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De volta para o futuro (Back to the future, 1985), de Robert Zemeckis O personagem Marty McFly (Michael J. Fox) em 1955 na cidade de Hill Valley |
Uma curiosidade: em De
volta para o futuro (Back to the future, 1985), de Robert
Zemeckis, o filme em exibição no Cine Essex do passado da cidade de Hill Valley
é Cattle
queen of Montana.
Roteiro: Robert Blees, Howard Estabrook, com base em história de
Thomas W. Blackburn. Música: Louis
Forbes, Howard Jackson (não creditado), William Lava (não creditado). Direção de fotografia (Technicolor):
John Alton. Montagem: Carlo Lodato. Supervisão da montagem: James
Leicester. Direção de arte: Van Nest
Polglase. Decoração: John
Sturtevant. Figurinos: Gwen Wakeling
(não creditada). Supervisão da produção:
Lee Lukather. Assistente de direção:
Nathan Barragar. Som: Francis M.
Sarver. Dublês (não creditado): Bob
Burrows, Wayne Burson, John Cason, Danny Fisher, Tom Steele, Bob Woodward. Apresentação: Benedict Bogeaus. Agradecimentos especiais à: Montana
Film Office. Estúdio de mixagem de som:
RCA Sound Recording. Tempo de exibição:
88 minutos.
(José Eugenio
Guimarães, 2016)
[1]
Os 112 episódios foram distribuídos por quatro temporadas. É produção da Levy-Gardner-Laven,
Four Star Television e Margate. Originalmente foi exibida pelo canal ABC — American
Broadcasting Company — de 15 de setembro de 1965 a 19 de maio de 1969.