Em condições normais não existiria Mandacaru vermelho (1961)
na carreira de Nelson Pereira dos Santos. A obra decorre de solução
improvisada, tomada no calor da hora, em instante de desespero. É o terceiro
título do cineasta, pelo qual praticamente não nutre apreço. As variáveis
intervenientes, sem possibilidades de controle, que lhe dão origem, merecem
filme próprio diante da força do seu impacto. A realização conta história de amor,
perseguição e vingança passada no sertão nordestino. Percebem-se influências do
melodrama mexicano, western e literatura de cordel. Apesar do status de filho mal querido, Mandacaru
vermelho é pioneiro no tratamento da temática nordestina pelo moderno
cinema brasileiro. Glauber Rocha o tem, numa avaliação um tanto exagerada e
injusta, como o primeiro nordestern.
A apreciação a seguir foi escrita em 1977. Passou por revisão e ampliação em 1989.
Mandacaru vermelho
Direção:
Nelson Pereira dos Santos
Produção:
Danilo Trelles, Nelson Pereira dos
Santos
PRIAL, Nelson Pereira dos Santos
Produções Cinematográficas, Regina Filmes Ltda.
Brasil — 1961
Elenco:
Miguel Torres, Jurema Penna,
Nelson Pereira dos Santos, Mozart Cintra, Ivan de Souza, Luiz Paulino Dos Santos,
João Duarte, Enéas Muniz, Sônia Pereira, José Teles de Magalhães, Mira, Carlos
Augusto, Luís Silva.
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Nelson Pereira dos Santos nas locações de Mandacaru vermelho |
Duas das melhores
realizações de Nelson Pereira dos Santos pertencem à seara do escritor Graciliano
Ramos: Vidas secas (1963) e Memórias do cárcere (1984). Porém, a
visão retrospectiva revela: não foram fáceis as relações do cineasta com o
universo do romancista. De início, por culpa da ingenuidade e posicionamento
romântico do próprio Nelson. Por fim, devido à incidência de variáveis
intervenientes, impossíveis de controlar, que puseram em risco a realização de Vidas
secas e resultaram em Mandacaru vermelho. Este é um
acidente de percurso, uma solução emergencial imposta pelo desespero. Resiste
como corpo estranho na filmografia do realizador, provocando-lhe desconforto
sempre que vem à baila.
O interesse
cinematográfico de Nelson Pereira dos Santos por Graciliano Ramos começou cedo,
em 1951. O futuro realizador, aos 23 anos, era assistente de direção de O
saci, de Rodolfo Nanni. Nessa ocasião, conforme Helena Salem em Nelson Pereira dos
Santos: o sonho possível do cinema brasileiro[1],
ele tinha pretensões de adaptar São Bernardo. Mas um porém resultou em
lição espinhosa. Nelson se apaixonou por Madalena — esposa e vítima fatal do
violento despotismo do protagonista Paulo Honório[2].
Apoiado nesse sentimento, alimentou a intenção de poupá-la do trágico destino caso
transpusesse a obra para o cinema. Solicitou ao escritor, por intermédio de Ruy
Santos — amigo de ambos —, permissão para deixá-la viva. A resposta de
Graciliano foi fulminante e didática: que Nelson produzisse sua própria
história e não viesse com planos de alterar escritos alheios; modificações não
seriam admitidas. A seguir, o escritor acertou em cheio, franca e doloridamente, o ingênuo
romantismo do futuro diretor ao esclarecer que Madalena representava não uma mulher singularizada,
mas um conjunto de outras como ela, vítimas tanto de seus maridos como de circunstâncias
históricas que condicionaram as relações sociais no Nordeste brasileiro. As que
escaparam do triste destino seriam exceções que confirmam a regra. A realidade
nua e crua da região não deixava espaço à falsidade das soluções benévolas e
românticas[3].
Nelson não filmou
São
Bernardo[4].
Mas absorveu e compreendeu intensamente as palavras de Graciliano sobre o
Nordeste e o condicionamento histórico-social. Em 1958 já havia realizado dois
marcantes filmes de temática urbana, considerados pedras fundamentais ao Cinema
Novo: Rio 40 graus (1955) e Rio Zona Norte (1957). Formariam, a
princípio, a trilogia "Rio" com Rio Zona Sul. Mas dado o processo de
amadurecimento do cineasta, o terceiro título não saiu do papel. Nelson decidiu
não realizá-lo após considerar criticamente o argumento que escreveu. Alegou
que a história em nada refletia seus valores e posicionamento como homem e
cineasta[5].
Na verdade, já estava com os olhos postos em Vidas secas, cujo roteiro
concebeu durante a realização de Rio Zona Norte.
As pressões que
partiam do próprio Nelson para filmar Vidas secas aumentaram em 1958. Era redator
do Jornal
do Brasil quando acompanhou o repórter de imagens Hélio Silva — diretor
de fotografia de Rio 40 graus, Rio Zona Norte e O grande
momento (1958), de Roberto Santos[6]
— ao Nordeste, para documentar a seca. A viagem de trabalho funcionou como
jornada de conhecimento e aprendizagem. O cineasta absorveu a realidade do
lugar. Sentiu os problemas, as pessoas e a geografia. Por fim, ao término de
1959, parecia certo que o filme sairia do papel. Ao pouco dinheiro levantado foram
acrescentados valores uruguaios cedidos por Danillo Trelles, "diretor do
Festival de Montevidéu"[7].
Nélson embarcou para a Bahia. Instalou-se na região de Petrolina e Juazeiro,
pronto para filmar. Estava na companhia de jovens ligados ao nascente cinema
baiano, dentre os quais Luís Paulino dos Santos, Miguel Torres e Jurema Penna.
Estes interpretariam, respectivamente, o Soldado Amarelo, Fabiano e Sinhá
Vitória. Luís Paulino, com trânsito no governo baiano de Juracy Magalhães, aliviou
as dificuldades da produção ao levantar facilidades de alimentação, transporte
e hospedagem[8].
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Augusto (Nelson Pereira dos Santos) e Clara (Sônia Pereira) Os jovens enamorados de Mandacaru vermelho |
As filmagens começariam
no domingo de carnaval de 1960. Equipe e atores estavam a postos nas locações
sertanejas. Sem mais nem menos as condições meteorológicas foram radicalmente
alteradas. O tempo fechou e choveu torrencialmente ao longo de dias. O sertão
seco se cobriu de lama, caminhos ficaram intransitáveis, rios transbordaram.
Impossível filmar Vidas secas nessas condições. Hélio Silva documentou a situação
calamitosa de Juazeiro e Petrolina para a TV de Salvador. Nelson, equipe e
atores se integraram às operações de resgate e salvamento dos flagelados.
Quando a chuva cessou, o tempo permaneceu encoberto, com baixa luminosidade
para um filme que necessitava da luz intensa do Sol. Por fim, a dissipação das
nuvens revelou outro sertão, verdejante e florido[9].
Os dias passaram e confirmaram a impossibilidade de realizar Vidas
secas nas condições pretendidas. Porém, encerrar o empreendimento pura
e simplesmente estava fora de cogitação, ainda mais com a fartura de negativos
à disposição, com prazo definido de validade. Apresentou-se a solução
emergencial, desesperadora, improvisada: fazer outro filme. Afinal, materiais,
equipe e atores estavam arregimentados. Mas o que filmar? A solução ficou por
conta de Nelson Pereira dos Santos. Ele escreveu a toque de caixa, em parceria
com L. Andrade, uma história de amor, vingança e conflitos familiares passada no
sertão. Consta que a inspiração veio de uma lenda regional. Mas há quem afirme
que essa origem também é invenção de Nelson[10],
com o objetivo de conferir mais credibilidade e potencial dramático à saída arranjada,
cujo título é Mandacaru vermelho.
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Dona Dusinha (Jurema Penna) e Primo (Ivan de Souza) na perseguição aos fugitivos |
É uma história de
mocinho e mocinha, ambos apaixonados, fugindo sertão afora da implacável
perseguição da despótica Dona Dusinha, tia da jovem Clara (Pereira) e latifundiária que modela
a existência de seus dependentes aos caprichos de uma vontade inquestionável.
Os antecedentes mais antigos do drama residem no assassinato do irmão da plenipotenciária — pai da
fugitiva — em célebre massacre do qual participou e
ordenou. O local ensanguentado, amaldiçoado segundo a voz do povo, foi abandonado.
Ali nasceu e tomou forma um gigantesco mandacaru encarnado. Agora, passados
tantos anos, será palco de novo ajuste de contas.
Glauber Rocha
passa rapidamente por Mandacaru vermelho em seu Revisão
crítica do cinema brasileiro, talvez por se acumpliciar afetivamente
com Nelson Pereira dos Santos, que sempre tratou o filme com estranhamento,
como produto mal nascido e pouco querido. Entretanto, refere-se a ele como
"O primeiro e mais autêntico 'Nordestern' brasileiro, frágil numa história
superficial, mas semelhante aos clássicos de Humberto Mauro pela captação do
meio ambiente, beleza visual, lirismo dos primitivos personagens
sertanejos"[11].
O problema em
Glauber reside na palavra "autêntico", tão carregada de valor. Até
porque Mandacaru vermelho não é o primeiro exemplar do nordestern. Em 1953 Lima Barreto filmou O
cangaceiro, no qual o Capitão Galdino Ferreira (Milton Ribeiro) e seus
homens montavam garbosos cavalos. Historicamente, sabe-se, cangaceiros
avançavam a pé. Assim, ao menos nesse quesito, os namorados fugitivos de Mandacaru
vermelho — que mal dispunham de montaria; jumentos quando muito —
estavam, aos olhos de Glauber, mais antenados à realidade. Por outro lado, do
ponto de vista formal, o visual de O cangaceiro em tudo destoava da
autenticidade pretendida pelo nascente Cinema Novo.
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Primo (Ivan de Souza) em missão de vingança |
O principal
problema na realização de Mandacaru vermelho foi a escolha dos
intérpretes dos amantes fugitivos. O baiano Geraldo Del Rey chegou a ser
cogitado. Mas os minguados recursos da produção não cobririam o valor cobrado.
O jeito mais em conta foi improvisar um ator na figura do diretor. Assim, Nelson
Pereira dos Santos ficou com o papel de Augusto[12].
A namorada de Luís Paulino dos Santos, Sônia Pereira, representou Clara, após
dura operação de convencimento de Dona Julieta, mãe da garota, que tinha o
cinema na conta de atividade pouco digna às pessoas direitas, de família. Ela
acabou acompanhando a filha às filmagens, complicando um pouco as tomadas das
poucas e tímidas cenas carregadas de maior calor afetivo. Nesses momentos,
apelava-se ao recurso pouco limpo de ofuscar a visão de Dona Julieta com a luz
dos rebatedores[13].
A figura forte de
Mandacaru
vermelho é Dona Dusinha (Penna). É a personagem que de fato comanda a
ação em seus mais dramáticos momentos. Como um coronel de saias, é impiedosa e
implacável na guarda à honra e inviolabilidade do sangue de sua parentela. Por isso
eliminou o irmão Nosinho (Muniz) e cunhada no impactante e dinâmico massacre inicial. A
cena da personagem de Jurema Penna no alto de um rochedo, revólver em punho na
consumação da matança, é vigorosa e marcante. Mesmo assim, assumiu a criação da
sobrinha órfã, Clara.
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Dusinha (Jurema Penna) no impactante começo de Mandacaru vermelho |
Passaram-se quase
20 anos. Dusinha nunca se recuperou do trauma da matança. No entanto, sua ira
se voltará contra a sobrinha. Durante um pesadelo, revela para a moça o destino
dado aos seus pais. É o momento em que Nelson Pereira
dos Santos insere um bem orquestrado flashback
à narrativa.
Diante da verdade,
Clara desiste do casamento arranjado com o fazendeiro Mendonça (Cintra),
cúmplice no massacre. Foge com o vaqueiro Augusto, empregado da tia e com o
qual vivia oculto e proibido idílio. Os jovens, muito inocentes, pretendem
oficializar o matrimônio o quanto antes. Durante a fuga — auxiliada pelo bruto
Pedro (Miguel Torres), irmão do pretendente — buscam um padre para consagrar a
união. Em paralelo, Dusinha arregimenta irmão (José Telles de Magalhães) e
filhos (Ivan de Souza e Luís Paulino dos Santos) para a perseguição e vingança.
O grupo é auxiliado de forma independente pelo traído Mendonça. Em seu caminho
não poupam crianças e animais de criação. Clara e Augusto, atraídos a uma
armadilha que culmina em brutal e ousada tentativa de estupro em plena caatinga,
são salvos pela pronta intervenção de Pedro. Mendonça é morto. Os fugitivos tomam
a trilha rumo ao sítio do mandacaru vermelho. A maior parte do percurso se faz a pé, com os perseguidores em seus calcanhares.
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O bruto Pedro (Miguel Torres), irmão de Augusto (Nelson Pereira dos Santos) |
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A desavença entre Pedro (Miguel Torres) e Augusto (Nelson Pereira dos Santos) após a tentativa de estupro de Clara (Sônia Pereira) por Mendonça (Mozart Cintra) |
Augusto e Clara
se separam de Pedro após uma desavença. Mas este os alcança nas cercanias do sítio
amaldiçoado, a tempo de protegê-los do ataque de Dusinha. Um beato louco e
solitário (Muniz) encontrado no local celebra a união dos jovens debaixo de
intenso tiroteio — uma das cenas mais estranhas do cinema brasileiro. É,
provavelmente, sobrevivente do massacre que gerou o drama. Aparenta ser
Nosinho, em vista da fúria com que se lança contra Dusinha, matando-a. Pedro morre
protegendo Augusto e Clara. O clímax, razoavelmente encenado, é uma luta a
facão sobre rochedos pontiagudos entre Augusto e o personagem vivido por Luís Paulino
dos Santos. Os apaixonados são os únicos sobreviventes. Ao final, chegam ao povoado
e se integram a uma cerimônia coletiva de casamento.
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Acima e abaixo, Nelson Pereira dos Santos como Augusto e Sônia Pereira como Clara Atores improvisados pelas condições de realização de Mandacaru vermelho |
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Dusinha (Jurema Penna) nas mãos do beato enlouquecido, provavelmente Nosinho (Enéas Muniz), vinte anos após a tragédia que deu origem a Mandacaru vermelho |
Dadas as condições
em que foi idealizado e concebido, Mandacaru vermelho saiu melhor que a
encomenda, apesar da insatisfação de Nelson Pereira dos Santos com seu acerto
de última hora. Ele poderia ser mais condescendente. Mesmo sabendo que jamais
faria esse filme em condições normais, o que se vê é uma narrativa que
transcorre no clima do melhor cinema de aventuras, com doses de arrojo e
dinamismo. Também não deixa de ser verdadeira a avaliação de Glauber Rocha
acerca da autenticidade da obra. A violência dos plenipotenciários senhores de
terras e gentes — tão bem analisada por Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de
Holanda — está presente no retrato de Dusinha. O caráter rude, taciturno, pouco
racional dos vaqueiros — avessos ao romantismo, sobreviventes em uma realidade
dominada pelo imediatismo — está estampado em Pedro. Os aspectos da
religiosidade popular, tão instrumental, também se mostram. A violência como
recurso preferencial para resolução dos conflitos — tão cara à cordialidade do
brasileiro, conforme registrado em Raízes do Brasil[14]
— é bem evidenciada. Destaca-se também o desolador retrato dos povoados e
cidades sertanejas, em seus cotidianos desprovidos de pulsação humana.
Provavelmente, o que mais pesou no desagrado de Nelson Pereira dos Santos foi
seu trabalho como ator. Mesmo isso pode ser relativizado. Não é tão ruim. O
desempenho não compromete, muito menos o da improvisada Sônia Pereira.
Inclusive pelo fato de serem enquadrados com relativo cuidado durante a maior
parte do tempo, como se fossem coadjuvantes.
Formalmente, Mandacaru
vermelho se beneficia da excelente fotografia de Hélio Silva, que
extrai o belo em meio à rudeza do sertão. Céus, rochas e cursos d'água são
valorizados e fornecem adequadas atmosfera e pano de fundo a uma história de
vingança e também de amor, ainda que os momentos idílicos sejam breves. Também
há os acordes sempre presentes de Remo Usai — um dos melhores compositores do
cinema brasileiro —, alimentados por motivos regionais que bem mais tarde
seriam recuperados e prolongados por grupos musicais que conseguiram ultrapassar
as barreiras do preconceito e do mercado, fazendo-se ouvir nos círculos elitizados,
como Banda de Pau e Corda e Quinteto Violado. Mas não apenas nisso o filme
improvisado de Nelson Pereira dos Santos é premonitório. Também antecipa o
namoro do cinema brasileiro com temáticas nordestinas. A seguir vieram Deus
e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha; Os
fuzis (1965), de Rui Guerra; Cabra marcado para morrer (iniciado
em 1964, finalizado em 1984), de Eduardo Coutinho; O dragão da maldade contra o
santo guerreiro (1969), de Glauber Rocha etc. Mandacaru vermelho abriu
o Nordeste para o cinema. O filme parece antecipar até mesmo o desenho dos
personagens cruéis do western europeu. Dusinha e os seus são extremamente
perversos, em nível como nunca se viu. A um filme realizado no alvorecer da
década de 60 causa certo espanto o grito que ela endereça ao irmão moribundo, gravemente
ferido por um tiro: "Para de gemer!". Até então, pelo que sei, os
mais pérfidos personagens do cinema jamais se dirigiram de modo tão desabrido a
um agonizante.
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"Para de gemer" Dusinha (Jurema Penna) entre os filhos vividos por Luis Paulino dos Santos e Ivan de Souza Abaixo, o moribundo irmão da déspota, interpretado por José Telles de Magalhães |
Muito se falou da
influência do western, principalmente de John Ford, na realização. Mas pouco foi
dito sobre outras referências, vindas do cinema mexicano[15],
particularmente de Emilio Fernández, das quais me vêm à memória os filmes Enamorada
(Enamorada,
1946) e Flor silvestre (Flor silvestre, 1943) — acima de
tudo este —, ambos fotografados pelo mestre Gabriel Figueroa, que pode ter inspirado
alguns enquadramentos poéticos de Hélio Silva. Mas os momentos iniciais e
finais de Mandacaru vermelho parecem respirar pelos pulmões do melodramático
western Duelo ao Sol (Duel in the Sun, 1946), creditado a
King Vidor[16].
Elementos da literatura de cordel também se fazem notar, sobretudo nas canções.
As filmagens de Mandacaru
vermelho ocuparam 60 dias dos seis meses em que Nelson Pereira
dos Santos permaneceu na Bahia[17].
Na volta ao Rio, processou-se a montagem e logo após o lançamento, em 1961,
inclusive no Uruguai. Praticamente não houve divulgação. A artista gráfica
ligada ao Neoconcretismo, Lygia Pape, elaborou os créditos de abertura seguindo
orientações do diretor[18].
O filme cumpriu carreira rápida nos cinemas de ambos os países, de forma quase
imperceptível[19].
O realizador chegou falido ao término da experiência, tendo que reassumir suas
funções no jornalismo[20].
Segundo Helena Salem, a crítica não deu atenção ao filme e menciona como
exceção Cláudio Mello e Souza, do Jornal do Brasil, para quem Mandacaru
vermelho se apresentou, apesar da precariedade da realização, como
tentativa válida e pioneira de devassar o Brasil naquilo que o país apresenta
de mais autêntico, trágico e grotesco, sem a necessidade de cair na armadilha
do exotismo fácil[21].
Apesar de tudo,
principalmente do descaso, Mandacaru vermelho conquistou, em
1961, o Prêmio da Associação Brasileira de Cronistas Cinematográficos, seção Rio
de Janeiro, para Melhor Composição Musical (Remo Usai); e os troféus do Diário
Carioca de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor
Fotografia e Melhor Composição Musical.
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Nelson Pereira dos Santos nas filmagens de Mandacaru vermelho |
Roteiro: Nelson Pereira dos Santos, a partir de argumento
original de L. Andrade e Nelson Pereira dos Santos. Música: Remo Usai, Clodoaldo Brito, Carlos Lacerda. Canções: O sol c'a mão, letra de
Mozart Cintra; Mandacaru, música de Remo Usai e letra de Pedro Bloch; Eu
vou lá, letra de Pedro Bloch. Direção
de fotografia (preto-e-branco): Hélio Silva. Assistente de fotografia: Luiz Paulino dos Santos. Assistentes de câmera: Leonardo
Bartucci, Luiz Paulino dos Santos. Montagem:
Nello Melli. Decoração: João Duarte.
Letreiros e créditos de abertura:
Lygia Pape. Assistentes de direção:
Luis Telles, Ivan de Souza, Luís Paulino dos Santos. Som: Geraldo José, Enéas Muniz, Nelo Melli. Assistentes de produção: Mozart Cintra, Ivan De Souza, José Teles
de Magalhães, Pedro Dantas. Continuidade:
Olney São Paulo. Direção de produção:
Frank Justo Acker. Tempo de exibição:
78 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1977; revisto e ampliado
em 1989)
[1] SALEM, Helena. Nelson Pereira dos Santos:
o sonho possível do cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.
[2] Cf. Ibidem. p. 145.
[3] Cf. Ibidem. p. 145-146.
[4] Em 1972, com este título, São Bernardo foi levado
às telas por Leon Hirszman. É uma das mais sólidas e maduras realizações do
cinema brasileiro.
[5] Cf. SALEM, Helena. Op. cit. p. 146.
[6] O grande momento tem produção de
Nelson Pereira dos Santos.
[7] SALEM, Helena. Op. cit. p. 146-147.
[8] Cf. Ibidem. p. 147.
[9] Cf. Ibidem.
[10] Ibidem. p. 148.
[11] ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema
brasileiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963. p. 87.
[12] SALEM, Helena. Op. Cit. p. 149.
[13] Ibidem.
[14] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de
Janeiro: J. Olympio, 1936.
[15] Nessa época, filmes do México eram fartamente
exibidos entre nós. Havia no Brasil representações da PelMex — Películas
Mexicanas.
[16] Duelo ao Sol contou na realização
com os não creditados Josef von Sternberg, Sidney Franklin, William Dieterle,
William Cameron Menzies e Otto Brower além do próprio produtor, também um dos
roteiristas, David O. Selznick.
[17] Cf. SALEM , Helena .
Op. cit. p. 150.
[18] Cf. Ibidem. p. 150-151.
[19] Cf. Ibidem. p.
151.
[20] Cf. Ibidem.
[21] Cf. Ibidem.