O grande e esquecido cineasta-aviador William Augustus Wellman
tem filmografia marcada por exposições secas, sóbrias, eficazes e diretas.
Hodiernamente é merecedor de urgente reconhecimento e revalorização. Como assinala
Philippe Paraire em O cinema de Hollywood[1],
é talento vocacionado à ação sem jamais deixar de lado a reflexão. Por essa
característica, é praticamente um pioneiro do engajamento e da crítica social. Dirigiu
os marcantes Asas (Wings, 1928) e Mendigos da vida (Beggars
of life, 1928); marcou os anos 30 com o drama de gângsters — Inimigo
público (The public enemy, 1931) —, a aventura — O grito da selva (Call
of the wild, 1935) e Beau Geste (Beau Geste, 1939) —, o
musical — Nasce uma estrela (A star is born, 1937) — e a comédia
— Nada
é sagrado (Nothing sacred, 1937). Adentra os anos 40 com o humor
descontraído de A cidade que nunca dorme (Reaching for the Sun, 1941) e o
delicioso Pernas provocantes (Roxie Hart, 1942). Logo realiza vigorosa
denuncia do linchamento no western Consciências mortas (The
Ox-Bow incident, 1943). Permanece nessa seara na ousada tentativa de
apresentar um libelo favorável aos índios com o desmistificador Buffalo
Bill (Buffalo Bill, 1944), cujas pretensões foram, em parte,
arruinadas pelos produtores. Retorna ao velho Oeste pelos vieses da aridez e
desilusão em Céu
Amarelo (Yellow Sky, 1948). Vai aos campos da
Segunda Guerra Mundial em busca da humanidade sacrificada dos combatentes em Também
somos seres humanos (Story of G.I. Joe, 1945) e O
preço da glória (Battleground, 1949). Em meio a esse
conjunto de títulos no mínimo primorosos, também lançou os olhos sobre os
tensos e ruidosos bastidores de um teatro de variedades assombrado por misteriosos
assassinatos em A morte dirige o espetáculo (Lady of burlesque, 1943).
É praticamente um veículo frustrado para Barbara Stanwyck. Segue apreciação de
1997.
A morte dirige o
espetáculo
Lady of burlesque
Direção:
William A. Wellman
Produção:
Hunt Stromberg
United Artists, Hunt Stromberg
Productions
EUA — 1943
Elenco:
Barbara Stanwyck, Michael O'Shea,
J. Edward Bromberg, Charles Dingle, Frank Conroy, Gloria Dickson, Stephanie
Bachelor, Marion Martin, Iris Adrian, Victoria Faust, Pinky Lee, Frank Fenton,
Janis Carter, Eddie Gordon, Gerald Mohr, Lew Kelly, Claire Carleton, Bert
Hanlon, Sidney Marion, Lou Lubin, Lee Trent, Don Lynn, Fred “Freddie” Walburn,
Isabel Withers e os não creditado Florence Auer, Valmere Barman, Ted Billings,
Eddie Borden, Carol Carrolton, George Chandler, Gerry Coonen, Kernan Cripps, Joan
Dale, Joe Devlin, Mary Gail, Virginia Gardner, Kit Guard, Chuck Hamilton, Oscar
'Dutch' Hendrian, Dave Kashner, Louise La Planche , Maxine Leslie, George Lloyd, Jean Longworth,
Frank Moran, Noel Neill, Bob Perry, Lee Phelps, Marjorie Raymond, Joette Robinson
, Barbara Slater, Elinor Troy, Dan White, Beal Wong, Dallas Worth.
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O ainda jovem William A. Wellman quando das filmagens de Asas (Wings, 1927) |
A morte dirige o
espetáculo — exibido na televisão como A senhora da farsa — é título
menor de um cineasta maior. Foi realizado um ano antes de William Wellman
oferecer um opus máximo: o atualmente pouco visto e praticamente esquecido Consciências
mortas (The Ox-Bow incident), western de reflexão, seco e direto — agudo
libelo contra a instituição estadunidense do linchamento.
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Barbara Stanwyck interpreta a corista Deborah Hoople ou Dixie Daisy |
Barbara Stanwyck
interpreta Dixie Daisy, nome fictício da corista Deborah Hoople. Integra, há
uma semana, o cast fixo do Old Opera
House de S. B. Foss (Bromberg). “Ópera” há apenas no nome. É uma companhia
dedicada à exploração de rápidos números de variedades. Dixie — cantora,
dançarina e comediante — é a estrela maior da casa, à frente de "50 outras
garotas bonitas" — conforme os anúncios. A lotação, invariavelmente
esgotada, deixa Foss plenamente satisfeito com os resultados da bilheteria.
"Garotas! São o que o público deseja ver. Quando as óperas atrairiam tanta
gente?", questiona exultante.
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Dixie Daisy (Barbara Stanwyck) e Princesa Nirvena (Stephanie Bachelor) |
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Gee Gee Graham (Iris Adrian) e Dixie Daisy (Barbara Stanwyck) |
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Dixie Daisy (Barbara Stanwyck) |
O Old Opera House
não é lugar fino. Vez ou outra atrai batidas policiais. É ponto de encontro de
gângsters. A plateia, inquieta, está sempre aos apupos. Nos bastidores as
atrizes se desentendem por ciúmes ou motivos os mais banais.
Dixie não gosta
de palhaços. Tem motivos: foi roubada por um representante da categoria quando
contava apenas sete anos. Ficou traumatizada. Como eles marcam presença
constante no palco, nas coxias e nos camarins, habituou-se a colecionar
problemas. Entretanto, divide número com o palhaço irlandês Biff Brannigan
(O'Shea) — apaixonado pela estrela. A princípio, recusa a aproximação. Mas
logo, segundo o previsto, dará o braço a torcer.
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Acima e abaixo: Barbara Stanwyck como a corista Dixie Daisy |
A paz nervosa do Old Opera House é
quebrada por misteriosos assassinatos nos bastidores. Primeiro morre a corista
Lolita La Vern
(Faust). Depois, a pedante Princesa Nirvena (Bachelor) — outrora grande estrela
da casa, egressa dos refinados palcos operísticos. No tumulto que antecedeu à
morte de La Vern ,
Dixie por pouco não sofreu estrangulamento. O assassino, tem, parece, a intenção
de provocar pânico e o consequente fechamento do teatro. As perguntas óbvias
são: por quê? Quem será? Os policiais investigam, interrogam e lançam suspeitas
em todas as direções. Biff é preso, o que pode dar razão aos traumas de Dixie. No
entanto, logo é posto em liberdade. À frente das apurações, O Inspetor Harrigan
(Dingle) sugere o cancelamento temporário das atividades até a solução do caso.
Todo o cast em princípio concorda,
com pesar. Porém, logo Dixie convence o pessoal do contrário: afinal, o Old
Opera House é a razão de viver de todos ali. Assim, o assassino retorna às
investidas. Agora, o alvo é a estrela número um da casa.
Conforme o
esperado, Dixie é salva por Biff com o auxílio da polícia. O parceiro,
vigilante desde a prisão, desconfiava do pertencimento do criminoso à companhia
e de Dixie como a próxima vítima por causa da posição de liderança que assumiu.
O assassino, antigo funcionário do Old Opera House, pretendia de fato o
fechamento definitivo do lugar. Estava inconformado com as crescentes
popularização e vulgarização dos espetáculos.
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Acima e abaixo: Dixie Daisy (Barbara Stanwyck), principal atração do Old Opera House |
Um dos pecados de
A
morte dirige o espetáculo é a falta de dinamismo narrativo, fatal a um
filme de mistério. Quase toda a história transcorre em interiores, geralmente nos
bastidores do teatro. Wellman, de fato, perdeu a mão. As presenças magnéticas
de Stanwyck e O'Shea são insuficientes para garantir um espetáculo no mínimo
razoável. Até parece que estamos diante de um filme de início de carreira de um
diretor pouco imaginativo, algo que, definitivamente, William Wellman nunca foi.
Ao espectador só resta se conformar com tanta decepção. Afinal, mesmo os mais
inventivos cineastas — inclusive os de longa e mais que testada filmografia
como é caso — estão sujeitos às derrapadas.
Roteiro: James Gunn, com base na novela G-Strings
murders, de Gypse Rose Lee. Direção
de fotografia (preto e branco): Robert De Grasse. Desenho de produção: Joseph E. Platt. Direção de arte: Bernard Herzbrun. Costumes de Barbara Stanwyck: Edith Head. Costumes: Natalie Visart. Coreografia:
Danny Dare. Trilha musical: Arthur
Lange, Charles Maxwell (não creditado). Canções:
Take
it off the E-String, So this is you, compostas por Sammy
Kahn e Harry Akst. Supervisão de
montagem: James E. Newcomb. Produção
de elenco: Robert Stirling (na creditado). Penteados de Barbara Stanwyck: Hollis Barnes. Penteados: Nina Roberts (não creditado). Maquiagem: Robert Stephanoff (não creditado). Gerente de produção: Joseph C. Gilpin (não creditado). Assistente de direção: Sam Nelson (não
creditado). Arte dos créditos: Elois
Jenssen (não creditado). Gravação de
som: Charles Althouse (não creditado). Fotografia
de cena: Ned Scott. Orquestração:
Maurice De Packh (não creditado). Estúdio
de mixagem de som: Western Electric Mirrophonic Recording. Tempo de exibição: 91 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1997)