domingo, 3 de novembro de 2013

NÃO! ELE NÃO ESTÁ MORTO, AINDA NÃO!

Western movimentado, com tinturas cômicas, Jake Grandão (Big Jake, 1971) é o canto de cisne do diretor — também produtor — George Sherman. Apresenta John Wayne num dos melhores trabalhos de sua última fase. Dentro de oito anos o veterano ator perderia a batalha para o câncer. Aqui ele interpreta o poderoso proprietário fundiário Jacob "Big Jake" McClandles no cenário de um Oeste adentrado nos primeiros anos do século 20. É um herói da resistência, alguém que se recusa a morrer, para espanto de alguns e contrariedade de outros. A fibra do personagem serve de espelho ao próprio ator, presença marcante nas telas por quase meio século. Big Jake é retirado do ostracismo a pedido da esposa, a geniosa Martha (Maureen O'Hara), da qual vivia afastado. Liderará uma missão de busca e salvamento do neto Little Jack (John Ethan Wayne), sequestrado pela quadrilha de John Fain (Richard Boone). Desavenças familiares e oposição entre modernidade e tradição pontuam numa narrativa atraente, divertida e descompromissada. Só há um senão: Maureen O'Hara fica pouquíssimo tempo em cena. A apreciação a seguir, de 1975, foi revista e ampliada em 1980.







Jake Grandão
Big Jake

Direção:
George Sherman
Produção:
Michael Wayne
Batjac Productions, 20th. Century-Fox, National General Pictures
EUA — 1971
Elenco:
John Wayne, Maureen O'Hara, Richard Boone, Patrick Wayne, Christopher "Chris" Mitchum, Bruce Cabot, Bobby Vinton, Glenn Corbett, Harry Carey Jr., John Doucette, Jim Davis, John Agar, Gregg Palmer, Robert Warner, John Ethan Wayne, Jim Burke, Dean Smith, Virginia Capers, William Walker, Jerry Gatlin, Tom Hennesy, Don Epperson, Everett Creach, Jeff Wingfield, Hank Worden, Chuck Roberson, Roy Jenson, John McLean, Bernard Fox.


O diretor George Sherman - ladeado por Gilbert Rolland e Shelley Winters - nos bastidores de seu O tesouro de Pancho Villa (The treasure of Pancho Villa, 1955)


O movimentado western Jake Grandão é um dos melhores filmes da última fase de John Wayne. Assinala a despedida das telas de cinema do diretor — muitas vezes produtor — George Sherman e do ator Bruce Cabot. Sherman faleceu em 1991. Fez de tudo um pouco em Hollywood. Teve pouquíssimas oportunidades para voar mais alto. Manipulava orçamentos que, quase sempre, esbarravam no teto da produção "B". Porém, entendia do riscado como poucos. Hoje, é um nome injustamente esquecido. Bruce Cabot, por sua vez, faleceu um ano após a realização de Jake Grandão.


Bruce Cabot como o experiente guia apache Sam Sharpnose


Alguns nomes familiares aos filmes de John Ford estão aqui reunidos. Além de John Wayne e Maureen O’Hara, comparecem os atores Harry Carey Jr., Hank Worden e John Agar; o diretor de segunda unidade Cliff Lyons; e o diretor de fotografia William H. Clothier. Wayne patrocina a realização de Jake Grandão ancorado na sua firma, a Batjac Productions. Michael Wayne, filho do ator, responsabiliza-se diretamente pela produção. Aliás, a família Wayne está muito bem representada no filme.


John Wayne e Maureen O'Hara formaram uma das melhores parcerias do cinema
Ele faz  Jacob McCandles; ela incorpora Martha McCandles


O roteiro de Harry Julian Fink e Rita M. Fink absorve influências de Meu ódio será sua herança (The wild bunch, 1969), de Sam Peckinpah, pelo menos no começo da história. Tal qual nesse filme, a ação de Jake Grandão também é passada nos primeiros anos do século 20 — em 1909, especificamente —, quando o velho Oeste, visivelmente transformado, incorporava inovações tecnológicas como automóveis, motocicletas e armas automáticas. Deixava de ser espaço à realização de indivíduos e famílias de pioneiros. Mais que nunca, estava enquadrado ao modo de produção capitalista e inserido nas modernas estruturas jurídico-legais do Estado, que exigiam de todos o irrestrito cumprimento da lei. Mas persistem os refratários, como os celerados de John Fain (Boone). Eles cavalgam para desencadear a história de Jake Grandão enquanto são apresentados os créditos. A mesma coisa fazem Pike Bishop (William Holden) e sua quadrilha em Meu ódio será sua herança. A narração que identifica os facínoras no filme de Sherman não se faz presente na realização de Peckinpah. Mas não faltou o violento e impressionante tiroteio que abre a ação em Jake Grandão, imediatamente após a apresentação do último nome nos títulos de abertura.


O sequestrador John Fain (Richard Boone) desencadeia a ação de Jake Grandão

John Wayne e Richard Boone durante o lançamento de Jake Grandão

  
John Wayne é o lendário e poderoso proprietário fundiário Jacob “Big Jake” McCandles, há muito afastado das terras e da família, desde a última briga que protagonizou com Martha (O’Hara), a esposa aguerrida e geniosa. Está há tanto tempo desaparecido que muitos o julgam falecido. Para irritá-lo, basta alguém dizer, após ser a ele apresentado: "Pensei que estivesse morto!". Contrariado, Jake contra-argumenta com um "Ainda não" pronunciado com os cantos da boca. Praticamente diz isso a toda hora, a quase todos que encontra. Aos admiradores de Wayne, essa resposta transcende o personagem e se projeta por inteiro no mítico espectro do ator, presente nas telas, com disposição renovada, há quase meio século. Por mais oito anos John Wayne continuaria respondendo "Ainda não" àqueles que o imaginavam prestes a se afastar do cinema. Até o câncer vencê-lo de vez, em 11 de junho de 1979.


John Wayne interpreta Jacob "Big Jake" McCandles


Enquanto esteve fora, dado por morto, Jake teve a fazenda assaltada por John Fain e seu asseclas. Depois de farto tiroteio, que resulta em impressionante chacina, os bandidos sequestram o garoto Little Jack (John Ethan Wayne[1]), neto do patriarca ausente. Fain e seus homens partilham do mesmo e generalizado engano: acreditam que "Big Jake" McCandles está morto. Exigem um milhão de dólares pelo resgate. Diante do problema, Martha dá o braço a torcer. Chama de volta o "desagradável" marido. Este coordenará a operação de busca e salvamento do garoto.


Martha (Maureen O'Hara) decide que a busca ao neto sequestrado - Little Jake McCandles (Ethan Wayne) - ficará a cargo do marido  Jacob "Big Jake" McCandles (John Wayne)

Big Jake John (Wayne) com olhar de desaprovação ao filho James McCandles (Patrick Wayne)


Jacob não perde tempo. Após rápida combinação com Martha, põe-se a caminho, acompanhado dos filhos James (Patrick Wayne[2]) e Michael (Christopher Mitchum[3]). Não os viu crescer e mal os conhece. Junta-se ao grupo o velho amigo Sam Sharpnose (Cabot), experimentado guia apache e, injustamente, o único que não sobreviverá para contar a história da perseguição a Fain e seu bando. Quase todo o trajeto é pontuado por conflitos familiares. Jake vive às turras com a prole. Estão sempre trocando sopapos. O velho pai experimenta as consequências de anos de ausência. Mas as rusgas também acontecem pela oposição entre tradição e modernidade. Conservador, Jake não vê com bons olhos as novidades que os filhos incorporam ao salvamento do neto. Só dão trabalho e logo se revelam inúteis na erma região acidentada que atravessam. Não demora para os garotos se convencerem disso e aceitarem os velhos modos de ser e agir. Mas os entreveros são bem-humorados e divertidos; atenuam a violência — sempre presente — e destilam uma moral rala. A crueza, mesmo, está junto de Fain.


James McCandles (Patrick Wayne) e Big Jake John (Wayne)

 Little Jake McCandles (Ethan Wayne) e Jacob "Big Jake" McCandles (John Wayne)


George Sherman mantém a narrativa sempre agradável. Há apenas um senão: Maureen O’Hara permanece pouquíssimo tempo em cena. Aparece apenas no início. Além de Jake Grandão, ela e Wayne foram parceiros em três realizações de John Ford: Rio Bravo (Rio Grande, 1950), Depois do vendaval (The quiet man, 1952) e Asas de águia (Wings of eagles, 1957). Também protagonizaram uma divertida guerra de sexos no cômico western Quando um homem é homem (McLintock, 1963), uma das melhores realizações do irregular Andrew V. McLaglen.






Direção de fotografia (Panavision, Technicolor): William H. Clothier. Diretor de segunda unidade: Clyff Lions. Roteiro: Harry Julian Fink, Rita M. Fink. Direção de arte: Carl Anderson. Decoração: Raymond Moyer. Efeitos especiais: Howard Jensen. Efeitos fotográficos especiais: Albert Whitlock. Maquiagem: David Greyson. Guarda-roupa: Luster Bayless. Supervisão de script: Charlie Bryant. Produção de elenco: Hoyt Bowers. Títulos: Wayne Fitzgerald. Montagem: Harry Gertstad. Música: Elmer Bernstein. Gerente de produção: Lee Lukather. Gerente de unidade de produção: Joseph C. Behm. Tempo de exibição: 110 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1975; revisto e ampliado em 1980)



[1] John Ethan Wayne, nascido em 1962, é filho de John Wayne com Pillar Pallete, terceira esposa do ator.
[2] Segundo filho de Wayne com Josephine Alicia Saenz.
[3] Filho do ator Robert Mitchum.

8 comentários:

  1. Oi, Eugenio! Também gosto do filme, mas acho o final muito repentino e frio. Vencem os bandidos, resgatam o moleque e fim. Mais nada. Nenhuma lamentacão pelas mortes do amigo índio e do fiel cão, pelo contrário, todo mundo sorri como estivesse acabado uma festa e não um tiroteio. Nem uma cena final do reencontro da família com a matriarca Maureen. Nada. Por isso que, dessa fase dos anos 1970 (e última) do Duke, prefiro Os Chacais do Oeste, com seu final inesperado e bem-humorado, e Rio Lobo, o digno encerramento da brilhante parceria Wayne-Hawks. Abraço. Robson

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    1. Para ser franco, não tenho lembranças claras do final de "Jake Grandão", Robson. Faz muito tempo que o revi pela última vez. Adquiri o DVD de "Rio Lobo" nesses últimos dias. Este é um filme do qual sempre gostei. Hawks está entre os meus diretores preferidos.

      Abraços.

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  2. Gosto deste filme porque conta a história de um marido que depois de muitos anos retorna ao lar para ajudar a família. John Wayne e Maureen atuam pela quinta vez juntos, o que mostra uma parceria de sucesso.
    Há outros filmes do Duke que eu gosto mais, porém não deixa de ter seu encanto em ser uma vibrante versão dos últimos dias do Oeste yanque. Adoro!!! :)

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    1. O bom de John Wayne é que ele é sempre fiel, siby13.

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    2. Assim como meu querido e amado Gary Cooper ♥ ㄥ◯√モ ♥
      Gary Cooper é o homem mais belo e prefeito que já existiu na face da terra.
      E reina eternamente em meu coração ♥, José Eugênio, rs

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    3. Também gosto muito de Gary Cooper, siby13. Ele tem um jeito todo natural de interpretar. O meu filme predileto com Cooper é "Sargento York", de Howard Hawks.

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  3. Gosto muito desse ator, ele tem uma interpretação perfeita e natural!
    Ótimo post!
    bjus
    http://www.elianedelacerda.com

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    1. Olá, Elyane!

      Sim, estou de pleno acordo com você. Wayne sempre teve sólida e natural presença em cena, apesar da má vontade de muitos críticos que, em geral, misturavam as avaliações negativas sobre seus posicionamentos políticos de extrema-direita - de fato, lamentáveis - com a sua interpretação. Ele não era um ator excepcional, a não ser que contasse com diretores que o domassem, como John Ford e Howard Hawks. Mas você disse o principal: era dono de um modo natural de atuar. Além do mais, seus papeis, quase sempre, eram os de pessoas em quem se podia integralmente confiar. Gosto muito dele, desde minha infância passada nos anos 60.

      Obrigado pela participação.

      Forte abraço.

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