domingo, 27 de outubro de 2013

JENNIFER JASON-LEIGH BRILHA, MAS ALAN RUDOLPH NÃO FAZ JUSTIÇA A DOROTHY PARKER

Atualmente, no Brasil, Mrs. Parker and the Vicious Circle (1994) é conhecido como O Círculo do Vício. Mas recebeu, quando do lançamento, o nome de O Círculo Vicioso: a vida de Dorothy Parker. A intelectual do título, virulenta contestadora do American way of life, foi vibrantemente interpretada por Jennifer Jason-Leigh com o apoio de poderoso grupo de atores. Infelizmente, a direção de Alan Rudolph — um protegido de Robert Altman — não faz justiça à escritora, jornalista, poeta e roteirista de cinema. A narrativa, fragmentada e arrastada, concentra o foco principalmente na conturbada vida privada de Mrs. Parker. Concede especial atenção aos anos 20, quando ela e seu séquito se reuniam à hora do almoço  para destilar críticas e deitar falação sobre assuntos diversos  em torno do Vicious Circle, espécie de Távola Redonda instalada no restaurante do Hotel Algonquin em New York.







O Círculo Vicioso: a vida de Dorothy Parker
Mrs. Parker and the Vicious Circle

Direção:
Alan Rudolph
Produção:
Robert Altman
Odissey Enterntainment Ltd., Fine Line Features, Miramax Films
EUA — 1994
Elenco:
Jennifer Jason-Leigh, Matthew Broderick, Campbell Scott, Peter Gallagher, Jennifer Beals, Andrew McCarthy, Wallace Shawn, Martha Plimpton, Sam Robards, Lili Taylor, James de Gros, Gwyneth Pattrow, David Thornton, Heather Graham, Tom McGowan, James Adams, Stephen Baldwyn, Gary Basaraba, Chip Zen, Rebecca Miller, Jake Johannssen, Amelia Campbell, David Gow, Leni Parker, J. M. Henry, Stanley Tucci, Randy Lowell, Mina Badie, Keith Carradine, Gabriel Gascon, Bruce Dinsmore, Matt Holland, Joe De Paul, Arthur Holden, Howard Rosenstein, Eleonor Noble, John Fayreau, Jesse Evans, Peter Benchley, Malcolm Gets, Barbara Jones, Walter Massey, Gisele Rousseau, Ellen Cohen, Philip Patton, Mark Camacho, Gary Lawrence, Harry Hill, Jim Bradford, Roch Lafortune, Vanya Rose, Nick Cassavetes, Matt Malloy.



O diretor Alan Rudolph


Dentre as intelectuais que assombraram a mentalidade puritana dos Estados Unidos  no século 20, destaca-se Dorothy Parker (1893-1967), escritora, jornalista, roteirista de produções hollywoodianas e, principalmente, contestadora da mediocridade do American way of life. A vida desta mulher deve ter sido das mais agitadas. Mas não é nisso que aposta O Círculo Vicioso: a vida de Dorothy Parker. A produção acompanha a trajetória da personagem dos anos 20 (concentrando-se nesta década) aos 60, quando ainda estava em atividade, lúcida e crítica, destilando veneno contra a linha de frente da “geração beat”.



Acima e abaixo: Jennifer Jason-Leigh no papel de Dorothy Parker

Ao roteiro de Alan Rudolph e Randy Sue Coburn não interessa a personalidade pública de Dorothy Parker. A dupla optou pelo enfoque privado. Descreve o lado pessoal da escritora. O que se vê, ao longo de arrastados 158 minutos, é uma rotina das mais enervantes, um cotidiano regado a álcool, cigarros, barbitúricos, depressões, desilusões amorosas e tentativas de suicídio. Como bebia e fumava essa mulher! Praticamente é só isso que faz durante todo o filme. Exagerando um pouco, copos e líquidos ingeridos podem ser classificados como verdadeiros atores coadjuvantes.


Dorothy Parker (Jennifer Jason-Leigh) com o marido Eddie Parker (Andrew McCarthy)

Campbell Scott no papel do humorista e editor Robert Benchley e Jennifer Jason-Leigh como Dorothy Parker

Dorothy Parker (Jennifer Jason-Leigh)


Quanto aos envolvimentos amorosos de Mrs. Parker, o filme flagra-a casada com Eddie (McCarthy), vivendo uma daquelas uniões que a passagem do tempo transforma em lamentável equívoco. O marido nada tinha a ver com a esposa. Nem intelectual era. Estava sempre à margem dos debates e encontros para o lustro da mente, tão vitais a Dorothy. Separam-se após uma briga que culminou na agressão física da escritora. Ela, a seguir, envolve-se desesperadamente com o jornalista e escritor Charles MacArthur (Broderick) — roteirista dos melhores da Hollywood dos anos de ouro, autor de guiões dirigidos por cineastas fundamentais como Billy Wilder, Howard Hawks e Lewis Millestone. Dorothy tenta o suicídio quando descobre as aventuras extraconjugais de MacArthur. É salva por Robert Benchley (Scott), humorista, editor da Vanity Fair, seu grande amigo e confidente, uma espécie de alma gêmea. Mantiveram a amizade por mais de 20 anos sem desviar para nenhuma aventura amorosa. Preferiram alimentar uma paixão platônica. Dorothy também foi casada com o diretor de cinema Alan Campbell (Gallagher), no tempo em que tentou sobreviver como roteirista em Hollywood. Essa época corresponde às passagens em preto-e-branco que vez ou outra interferem na narrativa, contribuindo ainda mais para fragmentá-la.


Dorothy Parker (Jennifer Jason-Leigh)

Dorothy Parker (Jennifer Jason-Leigh)  e o roteirista Charles MacCarthur (Matthew Broderick)


No balanço geral, a Dorothy Parker do filme teve uma vida repleta de frustrações; nunca chegou a lugar algum; sequer constituiu um movimento progressivo. O Círculo Vicioso do título quer dizer principalmente isso. Não é somente a enorme mesa redonda que a gerência do restaurante do Hotel Algonquin, de Nova York, reservou para receber a escritora e seus numerosos amigos — intelectuais e artistas — que sempre apareciam para almoçar à mesma hora, tumultuando o ambiente. Para acabar com a confusão, o jeito foi concentrá-los num só lugar, numa Távola Redonda sem Rei Arthur. Aí, cabeças e línguas igualmente brilhantes e ferinas se reuniam para ironizar o que fosse, inclusive eles próprios, fazer poesia, lapidar máximas de vida, ridicularizar a mediocridade estadunidense, beber e fumar, fumar e beber.



Acima e abaixo: Mrs. Parker (Jennifer Jason Leigh) com seu séquito: o Vicious Circle


Jennifer Jason-Leigh arrasa na interpretação etérea da personagem, um desempenho que a indicou ao Globo de Ouro de Melhor Atriz. Sem dúvida, é o que há de melhor no filme. Mas é muito pouco para salvá-lo.





Direção de fotografia (cores): Jan Kiesser. Assistente de direção e co-produção: Allan Nicholls. Música: Mark Isham. Costumes: John Hay, Renée April. Desenho de produção: François Seguin. Montagem: Suzy Elminger. Produção executiva: Scott Bushnell, Ira Deutchman. Roteiro: Alan Rudolph, Randy Sue Coburn. Gerente de unidade de produção: Irene Litinsky. Gerente de locações: Michele St. Arnold. Decoração: Francis Calder. Direção de arte: James Fox. Supervisão de som: John Alberts. Coordenador de som: Michelle Wasserman. Arranjos e orquestação: Ken Kugler. Gravação e mixagem: Steven Krause. Tempo de exibição: 158 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1997)

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