domingo, 29 de outubro de 2017

OS SINOS DE PEQUIM DOBRAM POR NICHOLAS RAY

Em 1975 fui apresentado à superprodução de Samuel Bronston 55 dias em Peking (55 days at Peking, 1963), em relançamento nos cinemas. Não achei grande coisa. Para piorar, era deplorável o estado da cópia. Também me pareceu uma exaltação desmedida e fora de hora das ações imperialistas do Ocidente na China da Imperatriz Viúva no transcorrer de 1900, quando os nacionalistas Boxers passaram à ação armada contra os estrangeiros. Fiquei chocado com a visão do mito Ava Gardner já atingida pelo implacável tempo. Também quis entender por quais motivos o talentoso Nicholas Ray resolveu dirigir espetáculo tão portentoso, distante da praia que lhe era habitual. A apreciação aqui publicada decorre basicamente das más impressões deixadas pela sessão de 1975. Vinte e dois anos depois reencontrei 55 dias em Peking em cópia de VHS. Resolvi revê-lo, mais pela tentativa de localizar vestígios de Nicholas Ray. O diretor de No silêncio da noite (In a lonely place, 1950), Cinzas que queimam (On dangerous ground, 1951), Johnny Guitar (Johnny Guitar, 1954), Juventude transviada (Rebel without a cause, 1955), Delírio de loucura (Bigger than life, 1956), Sangue sobre a neve (The savage innocents, 1960) e outras preciosidades está irreconhecível sob a grande escala do espetáculo armado por Samuel Bronston. Gostaria de saber mais sobre as circunstâncias que aproximaram o cineasta do produtor, experiência que lhe foi fatal e custara relativamente caro desde a primeira parceria em O rei dos reis (King of the kings, 1961). Pelo menos a revisão em 1997 de 55 dias em Peking serviu para mostrar que não é um filme tão indefensável como me pareceu à primeira vez. Ava Gardner está visivelmente deslocada. Já David Niven surpreende como o embaixador inglês Sir Arthur Robertson. Charlton Heston, apesar de restringido na interpretação pouco nuançada do duro Major Matt Lewis, tem a oportunidade de crescer e emocionar quando contracena com a talentosa Lynne Sue Moon no papel da garota Teresa. Porém, apesar de alguns matizes, não restam dúvidas de que a realização é uma ode tardia ao imperialismo ocidental.






55 dias em Peking
55 days at Peking

Direção:
Nicholas Ray, Guy Green (não creditado)
Produção:
Samuel Bronston
Samuel Bronston Studios
EUA — 1963
Elenco:
Charlton Heston, Ava Gardner, David Niven, Leo Genn, Harry Andrews, Geoffrey Bayldon, Joseph Fürst, Walter Gotell, Robert Helpmann, John Ireland, Juzo "Ichizo" Itami, Mervyn Johns, Kurt Kasznar, Philippe Leroy, Paul Lukas, Alfred Mayo, Martin Miller, Conchita Montes, Lynne Sue Moon, José Nieto, Eric Pohlmann, Flora Robson, Elizabeth Sellars, Massimo Serato, Aram Stephan, Jerome Thor, Robert Urquhart, Jacques Sernas e os não creditados Burt Kwouk, Lucy Appleby, R. S. M. Brittain, Carlos Casaravilla, Michael Chow, Siu Loi Chow, Félix Dafauce, Andrea Esterhazy, Andy Ho, Dong Kingman, Mitchell Kowall, Cheng-Liang Kwan, Soong Ling, Alfred Lynch, John Moulder-Brown, Enzo Musumeci Greco, Paul Naschy, Nicholas Ray, Milton Reid, Robert Rietty, Fernando Sancho, Lucille Soong, Mike Steen, Kenji Takaki, John A. Tinn, Guillermo Vera, George Wang, Stephen Young, Siu Tin Yuen.



O diretor Nicholas Ray e a atriz Ava Gardner - intérprete da Baronesa Natalia Ivanoff - nos bastidores de 55 dias em Peking


Uma das filmografias mais interessantes e originais do cinema estadunidense, a de Nicholas Ray, chega ao fim trágica e melancolicamente com 55 dias em Peking. É o segundo título que dirige para o megaprodutor Samuel Bronston. O primeiro, O rei dos reis (King of the kings), de 1961, também lhe custou a liberdade criativa e outros dissabores. A versão exibida nos cinemas foi remontada à sua revelia. Como um cineasta autoral na melhor acepção do termo — soube se valer como poucos das brechas deixadas a descoberto pelo padronizador e cerceador sistema hollywoodiano — foi se envolver com Bronston? Para mim, é um mistério a elucidar. São personalidades intercambiáveis.


Nicholas Ray é, acima de tudo, um rebelde. Desponta entre os principais valores surgidos no cinema do Tio Sam ao fim dos anos 40. Crítico e original, avesso à “ditadura” do “sistema de estúdios”, jamais teve carreira facilitada. Construiu filmografia sólida, de certa forma marginal nas considerações aos temas e personagens preferenciais da cultura puritana dos EUA. Lidava com a verdade de homens frágeis e feridos, psicologicamente sujeitos a todo tipo de influências e alterações. Analisava com rara propriedade os comportamentos de indivíduos submetidos às mazelas do sistema e levados às transgressões. Fazia filmes “pequenos” e intimistas. Por outro lado, Bronston se notabilizou na linha do grande espetáculo de feitos considerados sobre-humanos e ampliados pela gigantesca escala das encenações. Destacava o heroico e o extraordinário, enquanto Ray percorria trajetória totalmente oposta. Evidentemente, a convivência com pretensões tão marcadas de eloquência e solenidade de Bronston não renderia bons frutos. Nesse quesito, melhor sorte nas relações com o produtor teve o mais adaptável Anthony Mann. Provavelmente por ser, também, um cineasta que considerava os indivíduos em situações que os obrigavam a agir expansivamente. Realizou sob chancela "bronstoniana" dois dos melhores épicos cinematográficos dos anos 60: El Cid (El Cid, 1961) e o pouco apreciado e contemplativo A queda do império romano (The fall of the Roman Empire, 1964).


Um ano antes de cair nas malhas de Bronston, Ray dirigiu o exemplar Sangue sobre a neve (The savage innocents, 1960) ― um dos melhores encontros da Antropologia com o cinema. Tem Anthony Quinn na representação do comovente e crível esquimó Inuk. Outros títulos a destacar em sua filmografia são: Amarga esperança (They live by night, 1948), No silêncio da noite (In a lonely place, 1950), Alma sem pudor (Born to be bad, 1950), Cinzas que queimam (On dangerous ground, 1951), Paixão de bravo (The lusty man, 1952), Johnny Guitar (Johnny Guitar, 1954), Juventude transviada (Rebel without a cause, 1955), Delírio de loucura (Bigger than life, 1956), Quem foi Jesse James (The true story of Jesse James, 1956) e Amargo triunfo (Bitter victory, 1956).


Pressionado por Bronston, Ray se viu cerceado em O rei dos reis. A situação se repetiu em escala ampliada com 55 dias em Peking. Segundo Jean Tullard, o cineasta, frustrado, se desinteressou totalmente pelo filme. Confiou a direção ao “Deus dará” enquanto afogava as mágoas em bebedeiras nos cantos do set[1]. Hollywood não o perdoou. Apressou-lhe o fim da carreira. Dirigiu em 1965 a obscura coprodução estadunidense-iuguslava The doctor and the devil/Doktor I Davoli, roteirizada por Gore Vidal. A seguir, vieram oito anos de ostracismo. Em 1973, guarnecido pelo restrito circuito universitário, rodou We can’t go home again. De 1974 é o episódio The janitor da erótica e pouco vista realização coletiva Wet dreams[2]. O curta Marco (1978) é praticamente desconhecido. Com o organismo devastado pelo câncer, tem os últimos dias registrados pelo fã Wim Wenders em Um filme para Nick (Lightning over water, 1980), da qual é codiretor.


55 dias em Peking seria o último dos quatro grandes épicos produzidos por Samuel Bronston em seus estúdios nos arredores de Madrid, Espanha. Passou à terceira posição quando Charlton Heston se interessou pelo papel do Major estadunidense Matt Lewis, após recusar o de Livius em A queda do Império Romano ― Stephen Boyd assumiu o personagem e o título foi filmado em 1964. Imediatamente, para não perder a disponibilidade de Heston, o produtor interrompeu a construção do conjunto arquitetônico que serviria à encenação do centro romano capitaneado pelo Fórum. Substituiu-o pela Peking de 1900: a Cidade Proibida, sede do governo chinês controlado pela Imperatriz Viúva Tzu-Hsi (Robson), e as imediações destinadas às representações estrangeiras ― embaixadas, consulados, quartéis, hotéis e acampamentos militares ― com interesses comerciais e coloniais no país. Centenas de extras e figurantes fenotipicamente semelhantes aos chineses foram arregimentados de todas as partes da Europa e do cast de Lawrence de Arábia (Lawrence of Arábia, 1962), de David Lean — em parte rodado na Espanha, em Sevilha e Almeria — para compor a fauna pequinesa. Chineses, propriamente, são poucos em 55 dias em Peking. Não é algo a estranhar diante dos padrões concernentes às fidelidades ética, étnica e estética que presidiam as produções estadunidenses na ocasião.


Flora Robson interpreta Tzu-Hsi, a Imperatriz Viúva da China


Por muito pouco 55 dias em Peking não é uma descarada celebração dos piores feitos e efeitos do imperialismo. Politicamente, a China é uma potência de araque. Entretanto, a população numerosa e a vasta extensão territorial transformam-na em promissor mercado de consumidores e fonte inesgotável de matérias-primas. Fragilizada, a Imperatriz Viúva da dinastia Manchu assiste à ininterrupta drenagem dos recursos naturais do país por cerca de 13 potências estrangeiras sustentadas por força militar e pela ideologia do capitalismo liberal da liberdade concorrencial e de mercado. À frente dos espoliadores está a Inglaterra, maior potência armada e econômica do período, ponta de lança do desenvolvimento capitalista e sempre sedenta de novos entrepostos para escoamento da produção manufaturada e apresamento de recursos básicos. Derrotados de forma humilhante pelos ingleses nas conflagrações conhecidas como Guerras do Ópio (1839-1842/1856-1860), os chineses se viram obrigados a entregar os direitos de exploração comercial e consideráveis nacos do território aos vencedores. Logo, mais nações reivindicaram outras partes do país. Além dos europeus e estadunidenses, o pequeno e aguerrido Japão, pronto a ampliar sua vocação bélica e imperialista, impôs à China outra derrota militar na conflagração passada à história como Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894-1895).


Como consequência das constantes submissões, floresceu à margem da inoperância do poder central a resistência armada nacionalista: um grupo organizado como sociedade secreta, os "Punhos Harmoniosos e Justiceiros" ― formado por elites tradicionalistas, camponeses e artesãos ― mal traduzido pelos ocidentais como Boxers. Tinha o firme propósito de expulsar todos os estrangeiros. A Imperatriz Viúva e alguns auxiliares viram no movimento a oportunidade para recompor a unidade chinesa via apoio às revoltas, de forma pouco velada. As primeiras ações de guerrilha começaram em 1898. Envolviam basicamente vandalismo, sabotagem e, acima de tudo, a perseguição e execução de missionários cristãos ― fonte crescente de insatisfações, principalmente entre o campesinato.


Em 1900, uma prolongada seca de verão com efeitos graves sobre os cultivos resultou em insegurança alimentar e acirrou as contradições ao ponto da ebulição. Os Boxers aproveitaram a oportunidade para canalizar em proveito próprio a inquietação e fúria populares. Sentindo-se seguros com as crescentes adesões, passaram à ação armada direta. Este é o contexto de 55 dias em Peking. Apoiados diretamente pelo príncipe Tuam (Helpman), os revoltosos assassinaram o embaixador alemão Barão von Meck (Pohlmann) na rua, à luz do dia. É a senha para o começo das escaramuças com cerco aos estrangeiros. Homens, mulheres e crianças enfrentam 55 dias de isolamento, submetidos à carência de alimentos e medicamentos, sob ataque intermitente e constante. São protegidos por frágeis e improvisadas paliçadas e perto de 400 militares das forças inglesas, estadunidenses, italianas, espanholas, russas, belgas, francesas, japonesas, alemãs, holandesas, austríacas etc.


A Imperatriz Viúva concedeu aos estrangeiros prazo de 24 horas para deixar a China. Porém, diante das ponderações do embaixador britânico, Sir Arthur Robertson (Niven) — cioso de suas funções e confiante na chegada, a partir da costa, de reforço militar multinacional sob o comando do Almirante Sidney — todos os demais representantes nacionais resolveram permanecer em Peking. O cerco às legações diplomáticas, da forma como foi filmada, remete à situação dos combatentes texanos acuados pelas forças do Generalíssimo Sant’Anna (Ruben Padilla) na improvisada fortaleza do Álamo segundo a epopeia contada por John Wayne em 1960[3].Com a diferença de que estes não tiveram escapatória. Na capital chinesa, o cerco foi levantado em 14 de agosto de 1900 quando chegaram, enfim, as forças do Almirante Sidney.


Os principais personagens são o Major estadunidense Matt Lewis (Heston), Sir Arthur Robertson e a improvável e equivocada baronesa russa Natalia Ivanoff (Gardner). Do lado oposto, com menos tempo em tela, estão a Imperatriz viúva, o Príncipe Tuam e o General Jung-Lu (Genn) — este em posição politicamente prejudicada pelo seu ponto de vista liberal, favorável ao acordo com os estrangeiros.


Leon Genn como o General Jung-Lu

  
O mentor intelectual da resistência, Sir Arthur Robertson, equilibra-se no fio tênue entre as éticas da convicção e da responsabilidade. Defende os interesses ingleses e seu futuro na diplomacia. Para tanto, arrisca a segurança familiar, principalmente dos filhos crianças. Em casa, é apoiado pela fiel e submissa esposa Lady Sara (Sellars) e no campo das ações efetivas conta com a retaguarda do determinado, prático e meio bronco Major Matt Lewis à frente de um destacamento de fuzileiros navais. Praticamente, o militar decide em nome dos Estados Unidos ― único país a não reivindicar possessões territoriais na China — diante da doença seguida de morte do embaixador interpretado pelo próprio Nicholas Ray em rápida aparição. Natalia Ivanoff caiu em desgraça entre os patrícios e demais estrangeiros quando veio a público o envolvimento amoroso que mantinha com o General Jung-Lu. A traição resultou no suicídio do marido e na inimizade com o cunhado e embaixador russo, barão Sergei Ivanoff (Kazsnar).


O embaixador inglês Sir Arthur Robertson (David Niven) e a esposa Lady Sara (Elizabeth Sellars)

O Major Matt Lewis (Charlton Heston) e Sir Arthur Robertson (David Niven)


Apanhada no turbilhão dos acontecimentos, Natália não consegue abandonar a tempo a capital chinesa. Termina envolvida numa desnecessária e mal explorada relação amorosa com Matt Lewis. Nos momentos mais dramáticos do cerco, auxilia o Dr. Steinfeldt (Lukas) no precário serviço hospitalar de atendimento aos feridos. Mulheres como ela são comuns nos filmes: questionadas e acuadas pela moral pública, revelam-se generosas, altruístas e dispostas a tudo nos momentos mais críticos. Porém, um cinema marcadamente puritano só reserva uma forma de redenção a personagens "tão impuros": a morte decorrente de um magnânimo e desapegado ato de filantropia. Natalia perece em consequência dos ferimentos adquiridos em arriscada operação para conseguir alimentos e medicamentos para os hospitalizados.


Na verdade, o destino da personagem vivida por Ava Gardner seria bem diferente. Entretanto, a produção decidiu sacrificá-la. Ao que parece, Charlton Heston estava insatisfeito com a parceira. Teria faltado química à relação. Independente disso, o interregno amoroso da russa com o major foi um lamentável equívoco do roteiro escrito por Robert Hamer, Philip Yordan, Bernard Gordon e o não creditado Ben Barzman a partir do livro 55 days at Peking de Samuel Edwards. Talvez funcionasse melhor com outros intérpretes. Diante de Gardner, Heston trava a atuação e se mostra visivelmente constrangido ao passo que ela está muito abaixo do comumente esperado.


A Baronesa Natalia Ivanoff (Ava Gardner) e o Major Matt Lewis (Charlton Heston)

A Baronesa Natalia Ivanoff (Ava Gardner) e o cunhado Barão Sergei Ivanoff


Apesar do protagonismo de Charlton Heston, os melhores momentos, via de regra, pertencem a David Niven. Geralmente dado a interpretações unidimensionais, tem a rara oportunidade de oferecer um personagem nuançado, dividido entre as obrigações públicas e privadas. É o diplomata liberal em busca de uma saída conciliadora para a crise e também pronto a reassumir a identidade do militar que há muito deixou de ter. Não vê a hora de voltar para a Inglaterra, com a família. Ao mesmo tempo tem ciência das atribuições às quais está obrigado nas frentes diplomáticas, bélicas e das relações com as representações diplomáticas que nele confiaram.


Por sua vez, Charlton Heston oferece um desempenho seguro como militar cioso e durão, talhado para a ação e o comando. Porém, não tem tantas oportunidades de se mostrar multifacetado. As exceções, muito bem filmadas, envolvem os momentos de Matt Lewis com Teresa (Moon), órfã de 12 anos, filha do capitão estadunidense Andy Marshall (Thorn) ― morto durante as escaramuças ― com uma chinesa. A pequena Lynne Sue Moon oferece um desempenho sincero e comovente de criança carente que cresceu afastada dos pais. Nos poucos momentos em que contracena com ela, nas dependências do orfanato e no final, Heston tem a oportunidade de se agigantar e emocionar.


Major Matt Lewis (Charlton Heston)


55 dias em Peking é bom exemplo de espetáculo cinematográfico, como Hollywood sempre soube realizar. Tem por principal calcanhar de Aquiles a adesão francamente imperialista. Não chega ao cúmulo de assumir posicionamento tão francamente unilateral qual outros famosos épicos do seu tempo, particularmente O Álamo e A conquista do Oeste (How the West was won, 1962), de Henry Hathaway, John Ford e George Marshall. Concede a palavra aos chineses, que descrevem, ainda que rapidamente, as humilhações impostas pelo Ocidente com as ocupações territoriais e as pilhagens das riquezas nacionais, explorações aviltantes acirradas pela seca seguida de fome e empobrecimento da população mais vulnerável. No mais das vezes, a história é contada do ponto de vista do imperialismo e não oculta a pretensão de exaltá-lo como instancia civilizadora em oposição às tão decantadas ideologias ocidentais acerca da barbárie e atrasos orientais.


Nicholas Ray tentou uma abordagem mais equilibrada das relações entre dominadores e dominados, que ressaltasse inclusive o racismo e o sentimento de superioridade europeu. Como teve as pretensões cerceadas, praticamente encerrou as responsabilidades com a produção. Rompeu drasticamente com Samuel Bronston e foi acometido de ataque cardíaco. Mesmo assim, mereceu crédito como único diretor. Porém, coube aos responsáveis pela segunda unidade, principalmente Guy Green e Andrew Marton, a tarefa de dar conta de quase todas as atribuições.


Os créditos de abertura sobre belíssimas ilustrações alusivas a motivos chineses de Dong Kingman ― embalados pela suave composição So little time (The Peking theme), logo após a abertura de 3 minutos em fotograma fixo com o resumo da trilha musical de Dimitri Tiomkin ―, estão entre as boas qualidades da produção. A pontuação melódica, inspirada e emocionante, é uma pequena mostra do talento de Tiomkin. Recebeu muito justamente a indicação ao Oscar.


Lady Sara Robertson (Elizabeth Sellars)


Outros bons momentos são garantidos pela entrada da vilipendiada Natalia — ornada pelo vistoso colar que se tornou o motivo da discórdia com o cunhado Sergei Ivanoff —, acompanhada de Matt Lewis, no baile dos ingleses. Logo no início, a delicada situação geopolítica da China merece tomadas revestidas de bom humor sobre a quantidade de países estrangeiros que dividem o território, todos com representações diplomáticas na capital chinesa e hasteando ao mesmo tempo as respectivas bandeiras com acompanhamento dos hinos nacionais ― uma profusão de sons insuportáveis para alguns chineses e indiferentes a outros.


Por fim, uma curiosidade: 55 dias em Peking foi o último filme visto na Casa Branca pelo Presidente John Fitzgerald Kennedy, em 10 de novembro de 1963, 12 dias antes de ser assassinado em Dallas, Texas.



  
Roteiro: Bernard Gordon, Philip Yordan, Ben Barzman (não creditado), a partir do livro 55 days at Peking, de Samuel Edwards. Diálogos adicionais: Robert Hamer. Direção de fotografia (Technicolor, Super-Technirama 70mm): Jack Hildyard. Música e direção musical: Dimitri Tiomkin. Decoração, Desenho de produção e figurinos: Veniero Colasanti, John Moore. Direção de segunda unidade: Noël Howard, Guy Green, Andrew Marton. Montagem: Robert Lawrence. Assistente de montagem: Magdalena Paradell. Edição de efeitos sonoros: Milton C. Burrow. Mixagem: David Hildyard. Continuidade: Lucie Lichtig. Primeiro assistente de direção: José López Rodero. Segundo assistente de direção: José Maria. Regravação de som: Gordon K. McCallum. Produção de elenco: Maude Spector. Maquiagem: Mario Van Riel. Canção: So little time (The Peking theme), letra de Paul Francis Webster, música de Dimitri Tiomkin, interpretada por Andy Williams no encerramento. Efeitos especiais: Alex Weldon. Produção associada: Alan Brown. Gerente executivo de produção: C. O. Eriksson. Ilustrações dos créditos: Dong Kingman. Edição musical: Richard C. Harris. Mixagem de som: David Hildyard. Operador de câmera de segunda unidade: Manuel Berenger. Supervisão técnica: Carl Gibson. Supervisão de eletricidade: Bruno Pasqualini. Chefe de guarda-roupa: Gloria Musetta. Penteados de Ava Gardner: Alexandre de Paris. Produção executiva associada: Michael Waszynski. Penteados: Grazia Di Rossi. Assistente de maquiagem: José Luis Pérez (não creditado). Assistente de gerente de produção: Jesús Franco (não creditado). Gerente de unidade: Tadeo Villalba (não creditado). Assistente de direção da segunda unidade: José María Ochoa. Segundo assistente de direção: Julio Sempere (não creditado). Mestre da contrarregra: Stanley Detlie. Pintura: Julián Martín (não creditado). Assistente de decoração: Vicente Sempere Sempere (não creditado). Gravação de som: Otto Snel (não creditado). Assistente de efeitos especiais: Antonio Baquero (não creditado). Dublê: Jack Cooper (não creditado). Coordenação de dublês: Terry Yorke (não creditado). Operador de câmera: Gerry Fisher (não creditado). Segundo assistente de câmera: Douglas Milsome (não creditado). Produção de elenco extra: Joe Powell (não creditado). Orquestração (não creditada): Manuel Emanuel, Herbert Taylor. Apresentação: Samuel Bronston. Consultoria técnica: Coronel J. R. Johnson. Continuidade: Lucie Lichtig. Assistente de produção: Miguel Ángel Bermejo (não creditado). Tempo de exibição: 154 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1975; revisto e ampliado em 1997)


[1] TULLARD, Jean. Dicionário de cinema: os diretores. Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 521.
[2] Os demais diretores e seus episódios: Lasse "Falcon Stuart" Braun (The happy necrophiliacs), Max Fischer (Contrasts, Deep skin, A face), Oscar Girard (Dragirama), Hans Kanters (The private world of Hans Kanters), Geert Koolman (On a Sunday afternoon), Lee Kraft (Contrasts, The banner, The plumber), Dusan "Sam Rotterdam" Makavejev (Politfuck), Jens Jørgen Thorsen (Another wet dream), Heathcote Williams (Flames).
[3] O Álamo (The Alamo). 

2 comentários:

  1. Hola Eugenio, me ha llamado la atención de tu análisis de la película, la posibilidad de que la calidad de la copia exhibida pueda pesar en las impresiones generadas por la misma. A mí en cierta manera me ha pasado también con alguna película y más en concreto con el tipo de proyector utilizado en la sala de cine. Por ejemplo en la actualidad, cambia absolutamente la mirada si el proyector es de calidad optima como el 4k digital y realmente cambia la experiencia de lo vivido en la sala, sobre todo en cuestiones como la fotografía.

    Respecto a 55 días en Pekín, tengo que confensar que me dejó mejores impresiones que a ti, por lo menos la primera que la vi. Tendria que volver a verla, para tener una opinión más contrastada pues hace ya muchos que la visioné.

    En cualquier caso, tu reseña es como siempre maravillosa, abordándola desde todos los puntos de vista posibles.

    Un gran abrazo.

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  2. Saudações Eugênio!

    Parabéns por esta grande resenha, digna do talento deste grande cineasta que foi Nicholas Ray (1911-1979), artista criativo que bem merece minha preferência entre os grandes diretores do século XX. Existe um grande espaço entre o Ray que dirigiu clássicos como “Cinzas Que Queimam” (1951), “No Silêncio da Noite” (1950), e seu ponto culminante em “Juventude Transviada” (1956) com o Ray que realizou duas grandes superproduções no final de sua carreira, sob os auspícios deste “Napoleão das produções cinematográficas” chamado Samuel Bronston. O interessante em tudo em sua matéria é que existe uma pergunta que não quer calar: “por que Ray foi se meter com Sam Bronston?”.

    Li várias fontes sobre Bronston, no entanto o que é certo dizer a seu respeito é que o produtor achava que poderia ganhar muito dinheiro com superproduções milionárias, cenários suntuosos, e claro, um diretor que pudesse levar prestígio a sua produtora na Espanha. Nick, a princípio, se empolgou por ter a chance de dirigir um espetáculo de custo altíssimo como fora em “Rei dos Reis” em 1961. Este filme, para se ter uma ideia, teria dado bem mais certo se não fosse a intervenção sem pé e nem cabeça de Sam Bronston, que controlava tudo, até mesmo a liberdade de criação de seus diretores e roteiristas. De todas as superproduções “brontonianas” , decerta a mais bem sucedida foi “El-Cid”.

    O problema que Bronston achava que apenas um ator de renome como Charlton Heston e a direção de Ray seriam suficientes para o sucesso de “55 Dias em Pequim” que não veio a ocorrer. Piorou ainda mais com “A Queda do Império Romano”, e não restou após tantos gastos perdulários, motivados por sua mania de grandeza, fechar seus estúdios na Espanha e em Madrid, depois do fracasso comercial de “O Mundo do Circo”, em 1965, que seria dirigido por Frank Capra, que foi embromado por Bronston na última hora.

    Nick Ray estressou-se muito durante as rodagens de “55 Dias em Pequim” e chegou a enfartar devido a uma série de discussões com Sam, o mesmo veio a ocorrer com Anthony Mann, que também chegou a declinar de sua saúde por causa de Bronston.

    Fora os problemas de bastidores e produção, a fita apresenta um épico de grandes proporções, embora se fuja da verdadeira concepção histórica, já que colonialistas nunca foram mocinhos ou vítimas circunstanciais. Entretanto, como cenário de aventuras, não deixa de ser interessante. Assisti pela primeira vez na TV em 1988 e foi um dos primeiros filmes que gravei em VHS assim que adquiri meu primeiro vídeo-cassete.

    Parabéns pela matéria! Abraços!
    Paulo Telles
    Blog Filmes Antigos Club
    http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com.br/

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