domingo, 29 de julho de 2018

HAVANA, ASPIRADORES, ESPIONAGEM, GRAHAM GREENE E CAROL REED

As guerras, não importam se quentes ou frias, favorecem histórias de espiões, serviços secretos e apropriação de segredos de Estado. Um escritor antenado como Graham Greene não escaparia ao tema, ao menos como exercício de desmistificação. Ele e o cosmopolita cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti tentaram, ao fim da Segunda Grande Guerra, desenvolver projeto sobre um acomodado vendedor de aspiradores de pó cooptado ao posto de agente secreto. A ação em tom de sátira teria por palco a remota e estoniana cidade de Tallinn em fins dos anos 30. Ao que se sabe o cioso Serviço Secreto Britânico não gostou e pôs fim à brincadeira. Cavalcanti buscou outros afazeres, mas Greene não deixou a ideia morrer. Concretizou-a em 1958. Deslocou o centro de operações para a capital de Cuba ao tempo da ditadura de Fulgencio Bastista e publicou a novela Our man in Havana. Carol Reed, habituado a verter textos de Greene para o cinema, dirigiu o filme com exteriores rodados na cidade do título. Alec Guinness vive o pacato inglês Jim Wormold, remediado vendedor de aspiradores. Precisa de dinheiro para educar no exterior a filha Milly (Jo Morrow). Assim também a livrará do assédio amoroso do brutal Capitão Segura (Ernie Kovacs) da polícia política local. Inesperadamente, surge a oportunidade de ganhar algum dinheiro como o espião 59200/5 do MI6. Imaginação para mostrar serviço não lhe falta. Trabalha tão bem a ponto de receber reforços enviados por Londres, inclusive a experiente agente Beatrice Severn (Mauren O’Hara). Infelizmente, a farsa se mistura à realidade com resultados trágicos. O nosso homem em Havana (Our man in Havana, 1959) é eficaz mistura de drama e comédia com excelentes diálogos e maravilhoso aproveitamento cenográfico das locações havanesas. Fidel Castro já estava no poder quando as filmagens aconteceram. As lideranças revolucionárias colaboraram com a produção. Antes, preocupadas, revisaram atentamente o roteiro. Faltava pouco para o bloqueio dos EUA a Cuba. Em consequência, o governo revolucionário se alinhou à URSS. Segue apreciação datada de 1997, revista e ampliada em 2001.






O nosso homem em Havana

Our man in Havana

Direção:
Carol Reed
Produção:
Carol Reed
Kingsmead Productions Ltd., Columbia Pictures Corporation
Inglaterra — 1959
Elenco:
Alec Guinness, Maureen O’Hara, Noël Coward, Burl Ives, Ralph Richardson, Ernie Kovacs, Jo Morrow, Grégoire Aslan, Paul Rogers, Raymond Huntley, Ferdy Mayne, Maurice Denham, Joseph G. “Jose” Prieto, Duncan McCrae, Gerik Schjelderup, Hugh Manning, Karel Stepanek, Maxine Audley, Elisabeth Welch, Yvonne Buckingham e os não creditados Enrique Almirante, Timothy Bateson, René de la Cruz, Reginald Holder, Madeleine Kasket, Juba Kennerley, Shan Lawrence, John Le Mesurier, Aileen Lewis, Anne Padwick, Bob Raymond, Rachel Roberts, John Tatum.



Alec Guinness - intérprete de Jim Wormold - e o diretor Carol Reed chegam em Cuba para as filmagens de O nosso homem em Havana


Muito remotamente, o diretor desta sátira aos serviços de espionagem seria o mais internacional dos cineastas brasileiros: Alberto Cavalcanti. Ele e o escritor Graham Greene conversaram, ao fim da Segunda Grande Guerra, sobre uma história totalmente inventada acerca de um pacato e remediado vendedor de aspiradores de pó convencido a entrar para o serviço secreto. Originalmente, o centro urbano da intriga seria Tallinn, na Estônia, ao final dos anos 30.


Infelizmente, as muito ciosas autoridades britânicas não gostaram da brincadeira. Cavalcanti se voltou para outras atividades. Greene não desistiu da sugestão. Atento observador do movimento das agências de inteligência alemã em Portugal durante os anos da guerra, tinha inspiração e material de sobra para escrever a respeito. Em 1958 publicou o cinematográfico romance Our man in Havana. A distante Estônia, agora sob influência soviética, foi substituída por Cuba sob a brutal ditadura de Fulgencio Batista.


Coube a Carol Reed levar Our man in Havana ao cinema. Estava afeiçoado ao universo de Greene. Em 1948 filmou O ídolo caído (The fallen idol), adaptado do texto ainda inédito The basement room. Na sequência, em 1949, realizou O terceiro homem (The third man, 1949), extraído do original lançado em livro no ano seguinte. A publicação de Our man in Havana encontrou solo fértil. Após a Segunda Guerra Mundial, a tensão ideológica entre o bloco ocidental capitalista — liderado pelos Estados Unidos — e o oriental, comunista — com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) à frente —, foi consideravelmente ampliada. A construção do Muro de Berlim em 1961 e o imaginário permeado de mistério e terror sobre os acontecimentos a leste da Cortina de Ferro forneciam farta munição aos escritores. Os livros de Ian Fleming, criador de James Bond, já chamavam a atenção do cinema bem antes do sucesso de O satânico Dr. No (Dr. No, 1962), de Terence Young. Um dos mais prolíficos autores da literatura de espionagem, John Le Carré, é impulsionado por este boom. Estreia em 1961 com Call for the dead e lança em dois anos O espião que saiu do frio (The spy who came in from the cold). Foram adaptados para o cinema por, respectivamente, Sidney Lumet — Chamada para um morto (The deadly affair, 1967) — e Martin Ritt — O espião que veio do frio (The spy who came in from the cold, 1965). Mais recentemente, certamente inspirado por Greene, Le Carré publicou história em linhas gerais semelhante à Our man in Havana: O alfaiate do Panamá (The tailor of Panama), levada ao cinema em 2001 por John Boorman[1].


Alec Guinness interpreta Jim Wormold


O que varia consideravelmente dos textos de Graham Greene para os de Ian Fleming, John Le Carré e outros autores impulsionados pela vaga da espionagem é o tom. Para esses, é geralmente sério, praticamente grave. Por outro lado, assume claramente as vestes da sátira ou galhofa em Our man in Havana. Greene situa o tema no plano da comédia de equívocos levada a termo por pessoas comuns, excessivamente terrenas até, que tentam conduzir atividades confidenciais de desenterrar segredos prontos a comprometer a credibilidade de governos e Estados.


Fidel Castro estava no poder quando Carol Reed utilizou as locações da capital cubana para rodar o misto de aventura, drama e comédia de espionagem que se tornou O nosso homem em Havana. O roteiro é do próprio Graham Greene. A história, apesar de localizada na era de Fulgencio Batista, preocupou os titulares do novo governo. Afinal, não queriam de forma alguma que pairassem dúvidas acerca da Cuba que seria retratada. Não foi apenas por interesse cinéfilo que o próprio Fidel Castro compareceu, em 13 de maio de 1959, às tomadas na Praça da Catedral de Havana. Ministros e secretários examinaram com cuidado o roteiro e sugeriram 39 mudanças para deixar clara a questão da ambientação política e, principalmente, a identidade e reais intenções do personagem claramente identificado como vilão: o violento e aproveitador Capitão Segura (Kovacs) da polícia política de Batista. Inclusive, seria barbudo. A produção achou melhor deixá-lo glabro — exceto pelo bigode — para não envolvê-lo com a aparência geral dos revolucionários.


As tomadas externas atraíram a atenção dos ruidosos, festivos e receptivos moradores de Havana — principalmente por causa da presença de Maureen O’Hara. Ela e Alec Guinness foram fotografados ao lado de Castro e junto a populares. Como nem sempre era possível conter a animação dos presentes, o tempo de filmagens em Cuba foi abreviado de sete para cinco semanas e as cenas aí geradas tiveram que ser dubladas na fase de pós-produção por causa das interferências auditivas indevidas. Os interiores foram filmados nos ingleses Estúdios Shepperton ao longo de 11 semanas.


Maureen O'Hara, Fidel Castro e Alec Guinness

Maureen O'Hara com populares em Havana


Na Havana pré-revolucionária, o pacato inglês Jim Wormold (Guinness) leva vida medíocre e financeiramente apertada como vendedor de aspiradores de pó. Tem responsabilidades com a filha Milly (Morrow), adolescente e perdulária, que cria sozinho. Preocupado com o futuro da jovem, pretende educá-la convenientemente em afamada e dispendiosa escola na Suíça. Mandá-la para fora da ilha tem também o propósito de livrá-la das investidas amorosas do Capitão Segura, notório agente e torturador do serviço secreto de Batista, conhecido pela assustadora alcunha de Abutre Vermelho. Wormold precisa de dinheiro. Infelizmente, os negócios vão mal e não há promessas imediatas de melhorias. Porém, abrem-se oportunidade das mais improváveis. A vida besta que leva muda de uma hora para outra após a visita de um certo Hawthorn (Coward). É um espião a serviço da Grã Bretanha, identificado pelo número 59200 do Secret Intelligence Service (SIS), também conhecido como Military Intelligence – Section 6 (MI6). Tem a intenção de recrutar o acomodado Wormold para os quadros da agência. A remuneração é tentadora: 150 dólares ao mês mais o custeio de despesas. O vendedor de aspiradores de pó — disfarce mais que perfeito — seria o subagente 59200/5 e teria a própria Cuba como base operacional. Aparentemente, teria que fazer muito pouco para mostrar serviço. Bastaria recrutar dois subagentes e enviar periodicamente os relatórios de atividades a Londres.


O temido Capitão Segura (Ernie Kovacs), apelidado de Abutre Vermelho

Hawthorn (Noël Coward) e Jim Wormold (Alec Guinness)

Jim Wormold (Alec Guinness) e o Dr. Hasselbacher (Burl Ives)


Por mais acomodado que pareça, Wormold não é tolo. É um pai amoroso e preocupado. Sabe que precisa salvar a filha e a si próprio do pior. Atordoado pela proposta, conversa com o amigo e médico alemão Dr. Hasselbacher (Ives). Este sugere, sem rodeios: invente! Alega que não fará nada de imoral se apelar à fabulação, pois a espionagem não passa de um jogo, uma partida que os países envolvidos disputam da forma que podem. Wormold aceita o conselho e põe a imaginação para trabalhar. Fantasia o próprio círculo particular de agentes auxiliares, concebe relatórios a partir do talento para a escrita e os ilustra com plantas de gigantescas e secretíssimas instalações — supostamente perigosas — adaptadas dos formatos e engrenagens dos aspiradores que comercializa. Tudo funciona muito bem. Em Londres, todos ficam maravilhados. Acreditam que Wormold é o melhor e mais eficaz agente secreto a serviço da rainha. Os pagamentos são regiamente depositados. Porém, não esperava receber reforços: Beatrice Severn (O’Hara) e Rudy (Bateson/não creditado) chegam para auxiliá-lo.


Jim Wormold (Alec Guinnness) e Beatrice Severn (Maureen O'Hara)


A partir daí o jogo começa a desandar e ficar perigoso, inclusive para as vidas envolvidas. A farsa se mistura com a realidade quando um dos relatórios de Wormold é interceptado em Cuba. O violento aparato policial de Batista entra em cena. Gente inocente é aprisionada e morta no decorrer das sumárias investigações. O Dr. Hallsebacher é desmascarado. Revela-se, sob a fachada do médico, um agente secreto alemão. A segurança de Wormold e Milly está ameaçada pelo Capitão Segura. Somente a experiente Beatrice, por quem o vendedor está apaixonado, poderá livrá-lo das enrascadas.


O Capitão Segura (Ernie Kovacs) e Jim Wormold (Alec Guinness)


Evidentemente, tudo termina da melhor forma. Livres do assédio de Segura, Wormold, Milly e Beatrice embarcam às pressas para Londres. Na capital britânica planejam uma tranquila vida a três. Afinal, ao descobrir que foi exemplarmente ludibriado o Serviço Secreto Britânico desmonta a conexão cubana. Para não se transformar em motivo de riso no cenário internacional — enganado que foi por um vendedor de aspiradores de pó —, simplesmente abafa o caso e não pune os responsáveis.


Jim Wormold (Alec Guinness) e Beatrice Severn (Maureen O'Hara)

  
O nosso homem em Havana é comédia de bom funcionamento. A direção é leve e descompromissada, mais preocupada em ressaltar o absurdo de situações e a humanidade dos personagens. Carol Reed destaca principalmente os diálogos espirituosos escritos por Greene. Quando a trama é envolvida por aspectos mais sombrios, a atmosfera comunicada pelos ambientes, inclusive pela cidade de Havana, evidencia cinematograficamente a sensação de perigo. Nesse quesito cabe ressaltar a direção de fotografia de Oswald Morris: vale-se de imagens em perspectiva do cenário urbano quando o mundo em torno do improvisado espião ameaça desmoronar.


Todo o elenco está muito bem. Merece especial consideração a atuação de Ernie Kovacs. Não faz um vilão estereotipado. Apesar de profissionalmente violento e cruel, o Capitão Segura deseja ardentemente o amor e a atenção de Milly. Esta, porém, tem olhos voltados apenas para o cavalo que ganhou de presente. O lascivo e perspicaz policial sabe muito bem que Wormold está envolvido em alguma coisa e tenta, de modo bastante crível, descobrir o que é.


Jo Morrow como Milly Wormold


O nosso homem em Havana poderia abrir um filão todo próprio para satirizar os filmes de espionagem. Infelizmente, o contexto geopolítico não era favorável às brincadeiras do tipo. A norma logo voltou a imperar com as mirabolantes aventuras de James Bond a partir de 1962. De lado ficaram as pessoas comuns envolvidas em tom menor nos bastidores das relações internacionais. Entrou em cena a eficácia instrumental de especializadíssimos agentes cosmopolitas, impecavelmente trajados e apoiados por armamentos e gadgets de ponta. Acerca disso, O nosso homem em Havana dá a impressão de fazer um vistoso chamamento ao personagem criado por Ian Fleming. Nas vizinhanças de Wormond há uma placa luminosa onde se lê “Bond”. Na verdade, é referência às organizações Bond Clothiers, especializadas na confecção de roupas masculinas e presentes nas principais cidades do Ocidente. Quem sabe, não veio desse detalhe a inspiração para John Lee Carré escrever O alfaiate do Panamá?


Jean Seberg e Lauren Bacall foram sondadas para o filme. A primeira, considerada para o papel de Milly, estava envolvida com as personagens de Cecile em Bom dia, tristeza (Bonjour tristesse, 1958), de Otto Preminger, e Helen Kokintz de O rato que ruge (The mouse that roared, 1959), de Jack Arnold. Bacall faria Bearice Severn. Abriu mão da oportunidade devido aos atrasos nas filmagens de Sangue sobre a Índia (North West frontier, 1959), de J. Lee Thompson.



  
Direção de fotografia (preto e branco, CinemaScope): Oswald Morris. Roteiro: Graham Greene, baseado em sua novela homônima. Produtor associado: Raymond Anzaruth. Direção de arte: John Box. Montagem: Bert Bates. Gerente de unidade de produção: James H. Ware. Assistente de direção: Gerry O’Hara. Operador de câmera: Dennys N. Coop. Continuidade: Maggie “Margaret Shipwey” Unsworth. Assistente de direção de arte: Syd Cain. Supervisão de som: John Cox. Gravação de som: John W. Mitchell, Red Law. Edição de som: Teddy “Ted” Mason. Maquiagem: Harry Frampton. Penteados: Gordon Bond. Figurinos: Phyllis Dalton. Guarda-roupa: Betty Adamson, Arthur Newman. Execução musical: Frank Deniz, Laurence Deniz (The Hermanos Deniz Cuban Rhythm Band). Música (não creditada): Frank Deniz, Laurence Deniz. Contrarregra: Chuck Ferrigno (não creditado). Planejamento do set: John Graysmark (não creditado). Estúdio de mixagem de som: Westrex Recording System. Tempo de exibição: 111 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1997; revisto e atualizado em 2001)





[1] O alfaiate do Panamá (The tailor from Panama).

Um comentário:

  1. Excelente comentários .
    E o filme também .Achei muito inteligente.

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