domingo, 12 de agosto de 2018

JOE CHEGA A SAN MIGUEL COM OS PRIMEIROS DÓLARES DE LEONE

A história é pobre, até simplória. Foi executada com sérias restrições orçamentárias. O aparato material de produção praticamente inexistiu. Os efeitos especiais e algumas atuações beiram o primarismo. O ator estadunidense Clint Eastwood estava no mato sem cachorro quando atendeu ao chamado do praticamente desconhecido e italiano Sergio Leone. O diretor de apenas um pífio épico de túnicas e sandálias — O colosso de Rodes (Il Colosso di Rodi, 1961) — foi recusado por Henry Fonda, James Coburn, Charles Bronson e outros tantos. Alguns o desdenharam. Conhecedor de cinema, Eastwood logo adivinhou do que se tratava: o western europeu que estrelaria — coprodução entre Itália, Espanha e República Federal da Alemanha —, originalmente intitulado Il magnifico estraniero, era cópia de Yojimbo — o guarda-costas (Yôjimbô, 1961), de Akira Kurosawa. Após oito semanas de filmagens e rápido período de pós-produção, estreou em Florença sem campanha publicitária e apresentação à imprensa. O nome já era outro: Per un pugno di dollari (1964) ou Por um punhado de dólares no Brasil. O sucesso veio aos poucos, pelo boca-a-boca. A redenção artística começou com crítica das mais elogiosas do cineasta Dario Argento. Dentro em pouco, o título era solicitado em outras salas e cidades da Itália. Atraiu a atenção da United Artists que o distribuiu nos Estados Unidos e mundo afora. Os japoneses de Yôjimbô não gostaram e venceram um processo contra a estrepitosa novidade. Porém, os roteiristas de ambos os títulos nunca pediram cessão de direitos aos herdeiros de Dashiell Hammett. Por um punhado de dólares revelou o talentoso compositor Ennio Morricone e um diretor criativo, expert na violação de códigos, orquestração de planos e criação de atmosferas. Desprevenido, Eastwood foi o último a saber do sucesso da realização. Em 1965 estaria novamente com Leone e também no ano seguinte. A Trilogia dos Dólares vingou, fez história e pavimentou carreiras. Segue apreciação escrita em 1981.






Por um punhado de dólares

Per un pugno di dollari/Für eine handvoll dollar/Por un puñado de dólares

Direção:
Sergio Leone
Produção:
Arrigo “Harry” Colombo, Giorgio “George” Papi
Constantin Film (República Federal da Alemanha), Ocean Films (Espanha), Jolly Film (Itália)
Itália, Espanha, República Federal da Alemanha — 1964
Elenco:
Clint Eastwood, Marianne Koch, Gian Maria “Johnny Wels” Volonté, Wolfgang Lukschy, Sieghardt Rupp, Joseph “Joe” Egger, Antonio Prieto, José Calvo, Margarita Lozano, Daniel Martín, Mario “Richard Stuyvesant” Brega, Bruno “Carol Brown’ Corotenuto, Aldo “Sambrell” Sambreli, Benito “Benny Reeves” Stefanelli e os não creditados Raf Baldassarre, Luis Barboo, Frank Braña, José Canalejas, Juan Cortés, Álvaro de Luna, Nino Del Arco, Joyce Gordon, Bernie Grant, Jose Halufi, Lee Miller, Antonio Molino Rojo, Antonio Moreno, Nazzareno Natale, José Orjas, Manuel Peña, Antonio Pica, Nosher Powell, Julio Pérez Tabernero, José Riesgo, Lorenzo Robledo, Enrique Santiago, Umberto Spadaro, Fernando Sánchez Polack, Peter Tevis, William R. Thompkins, Edmondo Tieghi, Antonio Vico.


Os cineastas Federico Fellini e Sergio Leone - diretor de Por um punhado de dólares


Alguns dos momentos mais constrangedores do cinema estão neste filme. Eis cinco: 1) o tiroteio entre Baxter e Rojos no cemitério, “testemunhado” por dois soldados mortos — inicialmente dados por vivos e que, evidentemente, não esboçam reação — durante todo imbróglio; 2) a surra aplicada pelos Rojos em Joe (Eastwood); 3) o processo de libertação de Marisol (Koch) por Joe, que a devolve ao marido Julian (Martin) e filho Jesus (Del Arco) com a consequente dispersão da família pelo deserto; 4) a violenta eliminação dos Baxter pelos Rojos, sem qualquer reação das vítimas; e, 5) os momentos do definitivo ajuste de contas, com Ramón Rojo (Volontè) desferindo seguidos e inúteis disparos contra Joe — internamente guarnecido por armadura metálica.


No entanto, apesar de todo o amadorismo, Por um punhado de dólares é, para muitos fãs aguerridos, um dos filmes que mudaram a face do cinema. Reinventou o western a partir de uma perspectiva europeia, não maniqueísta e amoral — apesar do exagero da afirmação; projetou Clint Eastwood — até então coadjuvante de pouca expressão do cinema estadunidense e ator de seriados televisivos —, o criativo cineasta Sergio Leone e o talentoso compositor Ennio Morricone.


"O homem sem nome" é Joe (Clint Eastwood) em Por um punhado de dólares


Leone tinha apenas um título na filmografia: o frágil épico pseudo-histórico O colosso de Rodes (Il Colosso di Rodi, 1961). Porém, contava com sólida reputação — consolidada desde 1946, como assistente de direção e diretor de segunda unidade. Trabalhou em Ladrões de bicicleta (Ladri di biciclette, 1948), de Vittorio De Sica; Fausto e o Diabo (La leggenda di Faust, 1950), de Carmine Gallone; O flagelo de Deus (Il brigante Musolino, 1950), de Mario Camerini; Quo vadis (Quo vadis, 1951), de Mervyn Le Roy; Mercado de mulheres (La tratta delle bianche, 1952), de Luigi Comencini; Iolanda, a filha do Corsário Negro (Iolanda la figlia del Corsaro Nero, 1953), de Mario Soldati; Helena de Tróia (Helen of Troy, 1956), de Robert Wise; Uma cruz à beira do abismo (The nun's story, 1959), de Fred Zinnemann; Ben-Hur (Ben-Hur, 1959), de William Wyler; e, entre muitos outros, Sodoma e Gomorra (Sodom and Gomorrah, 1959), de Robert Aldrich. Com aprendizado firmado na prática e observação, a passagem à direção seria o coroamento de um processo natural.


Não são raros os testemunhos de fãs e cronistas apressados que consideram Por um punhado de dólares o primeiro western spaghetti ou o primeiro exemplar europeu no gênero. Nada mais falso: a realização é apenas a primeira a merecer considerações cosmopolitas. Desde que começaram a ser produzidos, ainda nos primórdios do cinema, os westerns atraíram a atenção global. Incursões estrangeiras pela categoria batizada por André Bazin como “O cinema americano por excelência” logo entraram na pauta das produções populares do Velho Mundo. Desde 1950, pelo que se sabe, começou a produção mais contínua dos modernos spaghettis. O primeiro da vaga é Eu sou o capataz (Io sono il capataz), de Giorgio Simonelli. Até a entrada em cena de Por um punhado de dólares, cerca de 25 títulos do subgênero foram realizados por cineastas europeus, muitos protagonizados por atores estadunidenses. As novidades introduzidas por Leone se referem à recusa de repetir o formato hollywoodiano nas caracterizações: o visual e os indivíduos são mais sujos, rudes, brutos e áridos; as posições de câmera e os enquadramentos valorizam o dado operístico para o qual contribuiu sobremaneira a originalíssima pontuação musical de Ennio Morricone. O cineasta subverteu fórmulas consagradas e apresentou um Oeste seco, feio, duro, poeirento e cortado pelo sol inclemente. Todas essas particularidades se manifestam nas vestes e faces. Os rostos passam a impressão de não ver água há meses e as barbas estão sempre por fazer, o que é muito coerente: remetem a gente em contato direto com o meio natural e afastada das comodidades.


Porém, não é procedente afirmar que partiu de Leone a subversão ética do “mocinho” — o cowboy romantizado, revestido de atributos heroicos e moralmente impoluto, como se fosse a própria essência do mito. É mais correto dizer que ele avançou mais na desmistificação. Porém, não partiu da plenitude do zero. Prolongou um processo de dessacralização já evidenciado pelo cinema estadunidense. O nobre vingador Ringo Kid, vivido por John Wayne em No tempo das diligências (Stagecoach, 1939), de John Ford, já se apresentava bastante humanizado em comparação aos modelos anteriores. O próprio Ford é famoso pelos cuidados tomados para evitar a simplificação maniqueísta na composição dos personagens de seus westerns. Em 1948 o mesmo Wayne fez o duro Thomas Dunson em Rio Vermelho (Red River), de Howard Hawks, e oito anos depois estaria na pele do irascível e extremado individualista Ethan Edwards — o solitário de Deus definido por um código de conduta muito particular e pouco condizente com o ordenamento geral — em Rastros de ódio (The searchers), de Ford. Não podem ser esquecidos o cruel e torturado vingador Jim Douglass (Gregory Peck) de Estigma da crueldade (The bravados, 1958), de Henry King, e os tipos acinzentados interpretados por James Stewart para Anthony Mann: Lin McAdam — Winchester’73 (Winchester’73, 1950); Glyn McLyntock — E o sangue semeou a terra (Bend of the river, 1952); Jeff Webster — Região do ódio (The far country, 1954); Will Lockhart — Um certo capitão Lockhart (The man from Laramie, 1955); e acima de tudo o caçador de recompensas Howard Kemp — O preço de um homem (The naked spur, 1953). Não são personagens moralmente virtuosos segundo as exigências que perfazem os heróis. Estavam ao sabor das circunstâncias. Eram falhos, dúbios, violentos e até antissociais. É certo que não atingiram maiores graus de desencantamento e profanação. Entretanto, estavam mais próximos da vida; eram mais verdadeiros se comparados aos cowboys idealizados nas vestes brancas da pureza, imagens de um tempo no qual o gênero iniciou a implantação dos códigos básicos de sua mitologia. Além do mais, nem o desgarrado, amoral e individualista Joe de Por um punhado de dólares se move exclusivamente pelo cálculo do interesse egoísta. Arriscou a pele por Marisol e família; sentiu ira ao saber de Silvanito (Calvo) aprisionado e torturado por Ramón Rojo.


Clint Eastwood foi a última opção considerada por Sérgio Leone para protagonizar o filme. No cinema, era um obscuro ator coadjuvante não creditado, quase um figurante. Possuía mais visibilidade na TV, graças ao papel de Rowdy Yates da série Rawhide[1] — Eric Fleming, como Gil Favour, era a atração principal. Inicialmente, Leone tentou Henry Fonda; a seguir James Coburn e Charles Bronson. Diante das negativas, vislumbrou Lee Marvin, Frank Wolff, Tony Kendall, Cliff Robertson, Steve Reeves, Horst Buchholz, Henry Silva, Rory Calhoun, Tony Russel e Ty Hardin. Segundo algumas versões, Richard Harrison lhe sugeriu atenção aos protagonistas de Rawhide. Sondado, Fleming indicou o parceiro Eastwood[2].


Eastwood foi contratado por 15 mil dólares. A produção teve orçamento de 250 mil. O aparato se resumiu ao básico. Não havia camarins e setores especializados à guarda dos figurinos. As instalações sanitárias eram precárias ou literalmente ajustadas ao terreno: nas locações espanholas em Almeria e arredores de Madrid, o elenco masculino fazia as necessidades fisiológicas atrás das rochas. Por segurança, Eastwood confessou que levava os trajes para casa todas as noites, pois não havia peças de reposição. Porém, quando retornou para rodar Por alguns dólares a mais (Per qualche dollaro in più, 1965), o salário subiu para 50 mil dólares e as condições de trabalho melhoraram substancialmente — graças ao estupendo sucesso de Por um punhado de dólares.


Joe (Clint Eastwood) no início de Por um punhado de dólares


A campanha publicitária da United Artists para o lançamento do filme nos mercados estadunidense e mundial se referiu ao personagem vivido por Eastwood como “The man with no name” (O homem sem nome). Igual identificação se estendeu aos demais títulos da Trilogia dos Dólares. Às vezes ocultava as denominações dos personagens nos títulos da trinca: Joe na realização em apreço; Monco em Por alguns dólares a mais e Blondie em Três homens em conflito (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966). Há semelhanças entre eles. Muitos pensam que são o mesmo indivíduo. Engano: no máximo, são variações de um arquétipo. Tanto que as histórias se passam em diferentes épocas e locais.


Muito injustamente, Akira Kurosawa e Ryûzô Kikushima processaram judicialmente a produção de Por um punhado de dólares. Acusaram-na de plagiar Yojimbo — o guarda-costas (Yôjimbô, 1961). De início, estavam cobertos de razão. As semelhanças são gritantes. O cineasta japonês passava por situação idêntica pela segunda vez em pouquíssimo tempo: em 1960, John Sturges lançou Sete homens e um destino (The magnificent seven) — adaptação ao velho Oeste de Os sete samurais (Shichinin no samurai, 1954), de Kurosawa. A apresentação dos créditos sequer menciona que o roteiro de William Roberts tem por base a peça escrita por Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto e Hideo Oguni. Apesar disso, Kurosawa ficou maravilhado com o trabalho de Sturges. Até o presenteou com réplica cerimonial de espada samurai. Já os responsáveis por Por um punhado de dólares foram levados aos tribunais. Tiveram que repassar aos japoneses o equivalente a 15% da arrecadação bruta nos mercados exibidores do Japão, Taiwan e Coreia do Sul. Kurosawa teria declarado que nunca recebeu tanto dinheiro, nem com as bilheterias dos próprios filmes. Entretanto, a situação fica eticamente mal parada para os roteiristas de Yojimbo e Por um punhado de dólares: partem de premissa claramente sugerida — e jamais referenciada — por Dashiell Hammett na novela Seara vermelha (Red harvest), de 1929.


Uma das mais importantes e atmosféricas contribuições de Sérgio Leone e Por um punhado de dólares ao cinema provém da magnética e original trilha musical de Ennio Morricone. É em tudo diferente. As composições não são ilustrações e/ou comentários estáticos das cenas. Sequer se parecem a elementos externos. Dão a impressão de brotar dos locais de ocorrência dos eventos. Acentuam momentos dramáticos ao prolongá-los além do tempo razoavelmente considerado como natural. Combinam harmonicamente elementos sonoros muito variados: canto, gritos, sons de animais, assobios, sopros, percussão, cordas e ruídos das coisas. Preenchem com vida inclusive as peças de cenografia e vestuário. Morricone atribui alma ao filme. Sem o compositor, seria uma história desprovida de qualquer profundidade; apenas uma peça singela, pueril, fraca e repleta de gratuita exposição de violência gráfica.


Joe (Clint Eastwood) pronto para mostrar a que veio


Os comentários musicais são sui generis e incorporam estilo todo apropriado às cenas. São também substantivos do ponto de vista estético. Sem música tão enriquecedora, Por um punhado de dólares seria insuportável em seu desenvolvimento simplório. Morricone promove uma transformação operística da banalidade e da mais crua brutalidade. Um milagre dramático acontece quando irrompem em cena os sons do clarim ou trompete de Michele Lacerenza ou os solos de guitarra de Alessandro Alessandroni. Fazem longas pontuações. Nos filmes seguintes da Trilogia dos Dólares, une-se a esses valores a voz da soprano Edda Dell'Orso — capaz de magnificar os espaços áridos e poeirentos prontos a sofrer profanação pelo egoísmo, ganância, interesse e ódio dos personagens; quando não do humor negro de Leone.


Com restrições orçamentárias, efeitos especiais primários e cenografia limitada ao essencial, Por um punhado de dólares tem abertura das mais simples e eficazes. A apresentação dos créditos se vale da animação de cavalgadas e perseguições estilizadas sobre fundo majoritariamente vermelho, às vezes branco ou negro. É ritmada pela composição-tema de Ennio Morricone enriquecida por sons de tiros e assobios.


As filmagens duraram cerca de oito semanas com externas obtidas em locações espanholas. Os fundos da produção terminaram antes da conclusão. A retomada se deu mediante arriscados empréstimos e outras manobras financeiras. Os interiores foram rodados em Roma, nos Estúdios Cinecittà. Aí também se elaboraram os efeitos sibilantes dos disparos das armas. Na época, a baixa autoestima ainda predominava nos westerns italianos. Na busca de respeitabilidade ou tentativa de iludir o público com o selo da autenticidade made in America, muitos técnicos e atores se valiam de pseudônimos anglo-saxões como pode ser verificado na identificação do elenco e da equipe técnica. Gian Maria Volontè se apresentou como John Welles, o cenógrafo Carlo Simi se transformou em Charles Simons, Ennio Morricone adotou a alcunha de Dan Sávio e Sergio Leone assinou como Bob Robertson. Com o tempo, em vista do sucesso na Itália e no exterior, as denominações originais substituíram os nomes de conveniência.


A história é simples. Acontece por volta de 1875, embora o único elemento que permita a confirmação seja a data inscrita em um túmulo. Ao desértico lugarejo de San Miguel, na fronteira entre Estados Unidos e México, chega Joe. Vem não se sabe de onde. Tem a atenção despertada pelo garoto Jesus. O pequeno busca a mãe. É covardemente brutalizado por guardas armados. A cena dolorosa mexe com os brios do forasteiro. Porém, nada faz. No centro do povoado é recebido com zombarias por pistoleiros. Conhece o sineiro Juan De Dios (Baldassarre/não creditado), o taverneiro e hospedeiro Silvanito além do carpinteiro e agente funerário Piripero (Joseph Egger).


A economia de San Miguel foi exaurida pela implacável disputa entre as famílias Rojo e Baxter com considerável saldo de mortos. Necessitado de dinheiro, Joe decide instrumentalizar a rixa em proveito próprio. Cínico, lacônico, frio, racional, extremamente rápido no gatilho e aparentemente sem problemas de consciência, consegue servir aos dois lados. A grande oportunidade lhe aparece ao descobrir o envolvimento do psicótico e violento Ramón Rojo no contrabando de armas militares. Entretanto, arrisca-se ao libertar do cativeiro a refém Marisol e devolvê-la à família. Apesar de fortemente espancado por ordem de Ramón, escapa. Consegue abrigo com a ajuda de Piripero, a tempo de presenciar o furioso e inclemente extermínio da família Baxter pelos rivais. Por fim, recuperado dos ferimentos, prepara-se para o inevitável acerto de contas.


Gian Maria Volontè e Sieghardt Rupp são os irmãos Rojo: Ramón e Esteban


A história flui de modo direto e em ritmo constante. Não é prejudicada por tempos mortos e interesses amorosos. Ao dado mais dinâmico da ação se incorporam os personalíssimos exercícios do estilo visual de Leone. Transformam Por um punhado de dólares em realização das mais atmosféricas. A direção prolonga dramaticamente os momentos de tensão com a inserção de inúmeros detalhes de partes de corpos em prontidão, closes em primeiríssimos planos, tomadas longas com a câmera se movendo como uma intrusa no meio das contendas. São detalhes que tornam a realização fascinante, até arrebatadora. Há angulações pouco comuns e uso inteligente da perspectiva. No entanto, tudo seria inútil exibicionismo se não fosse a cobertura musical. Os temas de Morricone esticam o tempo além do convencional. Tudo o que aconteceria num relance é pausadamente dissecado com acordes e pausas. Os espaços abertos e construídos são amplamente concebidos, para ressaltar a sensação de árida desolação. Nisso, paradoxalmente, amplia-se o fator humano pelo viés da resistência — como se sobreviesse a admiração pela possibilidade de vida, mesmo a mais desprezível e insignificante, em meio a paragens tão áridas e ermas. 


Nos tiroteios a acertos de contas com armas de fogo, Leone subverteu a convenção que ordenava tomadas separadas e bem definidas para os indivíduos em pugna. Agora, com lentes grande-angulares e câmeras posicionadas às costas, sobre os ombros dos contendores ou lateralmente, tudo é filmado numa única e realística tomada, sem a necessidade dos cortes intrusivos. A violência física se tornou mais gráfica. Espancamentos e demais violações são detalhados sem pudores. O sangue jorra, as feridas abrem, os corpos são desnudados além do moralmente convencionado. O sadismo abandonou a contenção para se fazer livre e franco.


Clint Eastwood teve liberdades para criar visualmente o personagem. Utilizou botas semelhantes às usadas em Rawhide. Em lojas de Hollywood e Los Angeles adquiriu as peças de vestuário e o chapéu que o caracterizariam em toda a Trilogia dos Dólares. Encontrou o poncho surrado entre peças de figurino depositadas em Cinecittà. Por não fumar, aceitou contrariado as cigarrilhas negras impostas por Leone — que lhe realçavam a imprevisibilidade e o mistério.


Silvanito (José Calvo) e Joe (Clint Eastwood)

Joe (Clint Eastwood) e Piripero (Joseph Egger)


Originalmente, o título seria Il magnifico estraniero. A alteração para Per un pugno di dollari aconteceu pouco antes da estreia em sala secundária de Florença. Não houve campanha publicitária. Cronistas cinematográficos não se apresentaram. Tudo apontava para um fracasso estrondoso. No entanto, depois de seis meses continuava em cartaz no mesmo local, sustentado por lenta, constante e eficaz recomendação boca-a-boca. O público afluía em profusão para prestigiar o primeiro western de Sergio Leone. Logo, oportunidades de exibição se abriram em Roma, Milão, Turim e mais cidades importantes. Novas cópias foram providenciadas às pressas e sem os devidos cuidados. Algumas não completaram o processo necessário de combinação dos negativos vermelho, amarelo e verde exigido pelo Technicolor. Mesmo assim, foram enviadas à exibição. Leone chegou a receber parabéns de um espectador que considerou genial conceber todo o filme em vermelho! O cinema italiano conhecia inusitadamente um novo campeão absoluto de bilheteria. 


A esta altura a imprensa despertou. Em geral, as críticas não foram boas. A exceção partiu do diretor e roteirista Dario Argento — é, com Leone e Bernardo Bertolucci, autor da história que originou Era uma vez no Oeste —, então crítico do diário romano Paese Sera. Manifestou adesão entusiástica ao filme. Destacou principalmente a imaginação, a originalidade e a violência. 


Ramón Rojo (Gian Maria Volontè)


O aspecto anedótico de tudo isso diz respeito a Eastwood. Ficou sem notícias do filme que o lançou como protagonista. Ninguém da produção o avisou da mudança de nome. Assim, soube tardiamente do estupendo retorno nas bilheterias que chancelou o lançamento de Por um punhado de dólares além do mercado italiano — inclusive nos Estados Unidos. Daí teria distribuição mundial pela United Artists. Eastwood tomou ciência das boas novas pela Variety, quase um mês após o lançamento em Florença.


A lenta e frutífera virada de Por um punhado de dólares, saído da obscuridade para a grande visibilidade, elevou imediatamente, no mesmo movimento, o status artístico da obra — inclusive junto à imprensa que a tinha menosprezado praticamente em uníssono. A redenção veio acompanhada do prêmio Nastri d’Argento do Sindicato Nacional dos Jornalistas de Cinema da Itália para Ennio Morricone pela Melhor Trilha Musical de 1965. Gian Maria Volontè, tão criticado por Leone — que o acusou de oferecer desempenho por demais operístico e arrogante —, foi indicado a Melhor Ator Coadjuvante. Perdeu para Leopoldo Trieste em Seduzida e abandonada (Sedotta e abbandonata, 1964), de Pietro Germi.


Aberta a possibilidade de lançamento de Por um punhado de dólares no exterior, com os Estados Unidos como porta de entrada, sobreveio a necessidade de se repensar toda a questão relacionada ao som, principalmente no tocante aos diálogos. Muitos atores não sabiam exatamente o que diziam outros companheiros de atuação. A parte italiana do elenco se expressou na língua de origem. Porém, havia Eastwood. Por mais lacônico que fosse o personagem, exprimiu-se em inglês. A alemã Marianne Koch, também com poucos diálogos, valeu-se do idioma natal. Outros atores falavam apenas o espanhol. Em suma, locações e sets eram uma Babel. Os atores simplesmente repetiam as falas que recebiam. Na pós-produção houve a uniformização linguística com a dublagem dos não italianos. O mercado exterior forçou nova operação. Eastwood foi convocado para deixar Joe falando em inglês. Para essa língua foram vertidos os diálogos dos demais personagens.


Joe (Clint Eastwood)

  
O lançamento nos Estados Unidos só aconteceu em 1967, três anos após as filmagens. De início, Eastwood pensou que ficaria à deriva, pois não havia outras possibilidades abertas a ele. Felizmente, diante do sucesso Leone concebeu outro western e o escalou para protagonista. Convocou também o tão menosprezado Gian Maria Volontè, mais uma vez no papel de vilão em Por uns dólares a mais. Outro ator estadunidense, até então relegado a papéis menores, foi incluído: Lee Van Cleef. Em 1966, com Três homens em conflito, houve a incorporação do também estadunidense Eli Wallach. Completava-se assim a posteriormente denominada Trilogia dos Dólares. Clint Eastwood estava garantido no rol da fama. Nada mal para quem trocou os Estados Unidos pela Itália, sem muitas perspectivas, no começo de tudo. Os personagens que interpretou para Leone lhe redefiniram a carreira. Ator limitado mas convincente, mostrou-se quase sempre em papéis de poucas falas e sustentado por um conjunto de princípios que os revelavam eticamente nos momentos de precisão. Tal qual o amoral Joe, que se manifestou para Marisol ao libertá-la do cativeiro de Ramón Rojo. Com esse ato o misterioso forasteiro deixou de ser o simples mercenário voltado exclusivamente para tirar proveito de situações infelizes. Mesmo assim, a personagem vivida por Marianne Koch teve que perguntar: “Por que faz isso?”. A resposta é até humanizadora: “Porque conheci alguém como você e não havia quem pudesse ajudar”. No fundo, apesar de tantas mudanças operadas nos processos de transformação do herói do western para o anti-herói amoral, o personagem de Eastwood não abandonou algumas linhas básicas — sempre encontradas nesse percurso: a retórica é dispensável; valem as ações e estas são suficientes para revelar a moralidade dos indivíduos, sempre nos momentos extremamente necessários — quando são afetados por algo muito pessoal e íntimo.





Roteiro: Jaime Comas Gil, Víctor Andrés Catena, Clint Eastwood (não creditado), Sergio Leone, Duccio Tessari (não creditado), Fernando Di Leo (não creditado), Tonino Valerii (não creditado), baseados em história de Víctor Andrés Catena, Adriano Bonzzoni e Sergio Leone. Diálogos da versão em inglês: Peter “Mark Lowell” Fernandez. Direção de Fotografia (Technicolor, Techniscope): Massimo “Jack Dalmas” Dallamano, Federico G. Larraya. Música e direção musical : Ennio “Dan Savio” Morricone. Temas musicais: Per un pugno di dollari (créditos), La reazione, Senza pietà, Alla ricerca dell'evaso, Tortura, L'inseguimento, Cavalcata, Scambio di prigionieri, Per un pugno di dollari 1, Doppi giochi, Consuelo Baxter, Ramon, Square dance, Musica sospesa, Quasi morto, Per un pugno di dollari (epílogo). Direção de arte: Carlo “Charles Simons” Simi. Decoração: Sigfrido Burmann, Francisco Rodríguez Asensio, Carlo “Charles Simons” Simi. Costumes: Carlo “Charles Simons” Simi. Gerentes de unidade de produção: Fernando “Fred Ross” Rossi, Anselmo Zabala. Assistentes de produção: Pietro “Peter Saint” Santini, Jerónimo Montoro, Marta Pons, Eugenio Villar. Efeitos especiais: Giovanni “John Speed” Corridori, Manuel Baquero. Montagem: Roberto “Bob Quintle” Cinquini, Alfonso Santacana. Maquiagem: Sam Watkins, Alberto Gutiérrez. Assistentes de direção: Franco “Frank Prestland” Giraldi, Julio Sempere (não creditado), Tonino Valerii (não creditado), Mario Caiano (não creditado). Continuidade: Tilde Watson, Maria Antonia Puerta. Som: Elio “Edy Simson” Pacella. Consultoria técnica: William R. Thompkins. Gerentes de produção: Franco “Frank Palance” Palaggi, Günter Raguse, Jaime Comas Gil, Ramón Crespo. Músicos (não creditados): Michele Lacerenza (trompete), Alessandro Alessandroni (arranjos do coral, guitarra elétrica, solos de guitarra, assobios), Cantori Moderni Di Alessandroni (coro), Peter Tevis (canto). Consultor de westerns: Clint Eastwood (creditado somente nas cópias italianas). Sistema de mixagem de som: Western Electric Sound. Assistente de montagem: Alicia Castillo. Penteados: Dolores Clavel. Assistente de maquiagem: José Luis Pérez (não creditado). Chefe do departamento de maquiagem: José María Sánchez (não creditado). Direção de segunda unidade: Franco Giraldi (não creditado). Assistentes de decoração: Adolfo Cofiño, Rafael Pérez Murcia. Contrarregra: Luis Ocaña. Desenho do poster original: Renato Casaro (não creditado). Coordenação de dublês: Benito Stefanelli. Dublês (não creditado): Nosher Powell, William R. Thompkins. Operadores de câmera: Stelvio “Steve Rock” Massi, José Sánchez, José María Sánchez. Assistentes de câmera: Eduardo Noé, Ramón Sempere. Fotografia de cena: Julio Wizuete. Animação da apresentação dos créditos: Igino Lardani (não creditado). Guarda-roupa: María Casado. Secretaria de produção: Pietro “Peter Saint” Santini. Secretária da direção: Marisol de Villanueva. Dubladores (não creditados): Ferruccio Amendola (Antonio Molino Rojo), Giorgio Capecchi (Wolfgang Lukschy), Dhia Cristiani, Arturo Dominici (Juan Cortés), Corrado Gaip, Lauro Gazzolo (Josef Egger), Nando Gazzolo (Gian Maria Volonté), Sergio Graziani (Aldo Sambrell, Benito Stefanelli), Oreste Lionello (Antonio Moreno), Anna Miserocchi (Margarita Lozano), Glauco Onorato (Lorenzo Robledo), Luigi Pavese (José Calvo), Nino Pavese (Daniel Martin), Bruno Persa (Sieghardt Rupp), Mario Pisu (Antonio Prieto), Enrico Maria Salerno (Clint Eastwood), Deddi Savagnone (Nino Del Arco), Rita Savagnone (Marianne Koch), Renato Turi (Mario Brega). Intérpretes de línguas (não creditados): Elena Dressler, Benito Stefanelli. Publicidade: Géneviève Hersent (não creditado). Direção de diálogos: Tonino Valerii (não creditado). Estúdio de edição musical: R.C.A. Estúdios de combinação de sons: Titanus, Cooperativa Doppiaggio Cinematografico (CDC). Empresa de guarda-roupa: Cornejo. Serviços de contrarregra: Vázquez Hermanos. Tempo de exibição: 99 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1981)



[1] Rawhide tem oito temporadas. Soma 217 episódios. É produção de Endre Bohem, Vincent M. Fennelly, Bruce Geller, Bernard L. Kowalski, Charles Marquis Warren e Robert E. Thompson (produção executiva). Originalmente, teve exibição pela rede CBS (Columbia Broadcasting System) de 9 de janeiro de 1959 a 7 de dezembro de 1965.
[2] Segundo outras fontes, um dos produtores de Rawhide, Charles Marquis Warren, indicou Eastwood a Leone. Até a agente italiana Claudia Sartori entra em cena, com a orientação para o cineasta conferir a série. Diante da obsessão de Leone por James Coburn, ela teria dito: “Seja realista se pretende fazer o filme”. Henry Fonda nem soube da proposta, desprezada pelo agente que a considerou execrável. James Coburn pediu mais dinheiro do que a produção poderia oferecer e Charles Bronson recusou com a alegação de que nunca viu roteiro tão ruim. Bem mais tarde, quando os westerns de Sergio Leone ganharam relevância internacional, Henry Fonda e Charles Bronson estrelaram Era uma vez no Oeste (C’era una volta il West, 1968) e James Coburn atuou em Quando explode a vingança (Giù la testa, 1971).

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