domingo, 29 de novembro de 2015

"O CARDEAL" INJUSTIÇADO DE OTTO PREMINGER

Atualmente pouco lembrado, o austríaco Otto Ludwig Preminger já teve melhor reputação entre os críticos de cinema. Os franceses, mais atenciosos, ainda o tem em alta conta. No Brasil, porém, vive-se a moda de lhe diminuir a importância. Por quanto tempo durará essa injustiça? Decerto, os sete últimos filmes que dirigiu não fazem jus ao seu talento. Parece, no entanto, que toda uma carreira é negativamente avaliada em função de algumas realizações infelizes. O cardeal (The cardinal, 1963) é, provavelmente, um dos títulos mais vilipendiados do cineasta. Baseado no romance homônimo de Henry Morton Robinson, acompanha os dilemas do catolicismo romano no tenso e turbulento período entre as duas guerras mundiais. No centro da narrativa de estatura épica — suportando o peso da Igreja como instituição e sofrendo os impactos da consciência — está o clérigo Stephen Fermoyle, interpretado por Tom Tryon. O ator, de recursos limitados, sofreu nas mãos do exigente diretor. Mas é apoiado por um time tarimbado de coadjuvantes, com destaque para a poderosa participação de John Huston. Organizado como sucessão de episódios marcantes, O cardeal está longe de ser um novelão conforme a avaliação apressada de muitos. Também não se presta ao consumo fácil. Dinâmico em seu desenvolvimento, lança questões complicadas, de fundo moral, que desbancam a lógica maniqueísta e envolvem ativamente o espectador, inclusive o não católico.





O cardeal
The cardinal

Direção:
Otto Preminger
Produção:
Otto Preminger
Otto Preminger Films (Gamma Productions) (não creditado)
EUA — 1963
Elenco:
Tom Tryon, Carol Lynley, Dorothy Gish, Maggie McNamara, Bill Hayes, Cameron Prud'Homme, Cecil Kellaway, Loring Smith, John Saxon, James Hickman, Berenice Gahm, John Huston, Jose Duvall, Peter MacLean, Robert Morse & His Adora-Belles, Billy Reed, Pat Henning, Burgess Meredith, Jill Haworth, Russ Brown, Josef Meinrad, Raf Vallone, Tullio Carminati, Ossie Davis, Don Francesco Mancini of Veroli, Dino Di Luca, Donald Hayne, Chill Wills, Arthur Hunnicutt, Doro Merande, Patrick O'Neal, Murray Hamilton, Romy Schneider, Peter Weck, Rudolf Forster, Dagmar Schmedes, Eric Frey, Josef Krastel, Matthias Fuchs, Vilma Degischer, Wolfgang Preiss, Jurgen Wilke, Wilma Lipp, Eric van Nuys, Stephan Skodler, John Breslin e os não creditado, Jed Curtis, John Dierkes, Adolf Hitler (imagens de arquivo), David Opatoshu, Glenn Strange, Dan White.



Otto Preminger



No plano internacional o catolicismo ocupava o centro das reais atenções quando Otto Preminger levou ao cinema o romance The cardinal, de Henry Morton Robinson[1]. John Fitzgerald Kennedy (1917-1963) — assassinado em pleno mandato — era o primeiro — ainda único — presidente católico dos Estados Unidos. No Vaticano, o cardeal Angelo Giuseppe Roncalli (1881-1963) ocupava como João XXIII o Trono de São Pedro. Seu pontificado de quatros anos, marcado por reformas, arejou a estrutura da Igreja, abrindo-a às questões da mundanidade mais contemporânea a partir das resoluções adotadas pelo Concílio Vaticano II e, principalmente, pelas encíclicas Mater et Magistra (Mãe e Mestra) e Pacen in Terris (Paz na Terra). A primeira exortava os países mais ricos a contribuir para o desenvolvimento dos mais pobres, defendia a participação dos trabalhadores nos lucros das empresas, denunciava a exploração de camponeses e manifestava preocupações com a corrida armamentista, explosão demográfica e a manipulação geopolítica. A segunda, atenta à crescente polarização provocada pela guerra fria, conclamava os povos ao cultivo da paz, liberdade, dignidade, solidariedade, justiça e do amor.


O cardeal é superprodução de 175 minutos. O organizado e metódico Otto Preminger conduziu as filmagens em locações, durante 53 dias, nos Estados Unidos e nas europeias cidades de Roma e Viena. Da mesma época há Cleópatra (Cleopatra, 1963), megalômana, tumultuada e enfadonha realização com 192 minutos (corte do lançamento) bancada pela 20th Century-Fox. Por pouco não arruinou a companhia. Porém, infernizou as vidas e trajetórias artísticas dos diretores Rouben Mamoulian — iniciou-a, foi afastado e jamais se recuperou do trauma que lhe abreviou a carreira — e Joseph L. Mankiewicz — responsável por concluí-la a duras penas.


Na filmografia de Preminger, O cardeal segue a Tempestade sobre Washington (Advise & consent, 1962). Neste filme, o cineasta dá vazão a uma de suas obsessões: analisar o funcionamento das instituições, no caso as pertencentes ao campo das relações entre esferas parlamentar e governamental nos Estados Unidos. Em 1959 o poder judiciário com o tribunal do júri e a pantanosa questão da verdade mobilizaram suas atenções em Anatomia de um crime (Anatomy of a murder). Exodus (Exodus, 1960) expôs as contradições da fundação do Estado de Israel e revelou as táticas terroristas empregadas para alcançar tal propósito.


Em O cardeal a Igreja é a instituição da vez. Apoiada no roteiro de Robert Dozier e do não creditado blacklisted Ring Lardner Jr.[2], a realização empreende jornada de longo curso, por aproximados 22 anos. Privilegia o período dominado por exclusivismos nacionais e religiosos, iniciado em 1917 — Primeira Guerra Mundial em curso; Giacomo Marchese della Chiesa (Bento XV) no pontificado de oito anos (1914-1922) — e encerrado em 1939. Neste ano começa oficialmente a Segunda Grande Guerra e falece Achille Ratti (Pio XI), eleito papa em 1922 e responsável pelo Acordo de Latrão, pelo qual Benito Mussolini reconhece a independência do Estado do Vaticano.


As origens judaicas de Preminger não constituíram problemas à realização, que tenta se aprofundar em questões caras ao catolicismo, nos campos doutrinários, seculares e espirituais. O cineasta teve acesso facilitado às dependências eclesiásticas em Roma, Vaticano e Viena. A Santa Sé, inclusive, apoiou financeiramente a produção. O ainda jovem Joseph Ratzinger — o papa Bento XVI —, à época assessor do cardeal Joseph Frings, em Roma, atuou como oficial de ligação entre os interesses da cúria e o cineasta, também produtor. Apesar deste envolvimento, O cardeal está longe de ser "chapa branca".


O personagem central é o estadunidense descendente de irlandeses Stephen Fermoyle (Tom Tryon). Teve o destino escolhido pelos pais desde o nascimento: seria padre. A imposição deu lugar à vocação após dissabores acumulados em dúvidas, crises de consciência e questionamentos sobre o papel e lugar da Igreja no mundo, ainda mais diante de situações provocadas por tensões sociais e políticas. O filme, de estatura épica, estrutura-se como longo flashback. Começa em 1939. Hitler está para invadir a Polônia e Fermoyle recebe os trajes vermelhos de cardeal — o posto mais próximo de papa. Durante a consagração relembra a trajetória, desde a ordenação como padre, também em Roma. Seus dons para a exegese — pretendia pesquisar as causas da Reforma tomando por base a recusa da Igreja na aceitação de mudanças políticas, filosóficas e científicas — tiveram que ceder espaço às questões mais corriqueiras esperadas de um padre pelo pragmático catolicismo estadunidense. Assim, ao retonar a Boston, a hierarquia o destinou às atividades mais mundanas, pondo-o em contato direto com fiéis, colegas e a família. Sobressai-se aí a vontade da irmã mais nova, Mona (Lynley), em desposar o judeu Benny (Saxon) e sua indesejada gravidez de mãe solteira, com graves consequências.


Tom Tryon interpreta Stephen Fermoyle, o personagem-título


Em meio a esses transtornos, Stephen — mal visto como vaidoso devido aos pendores intelectuais — é transferido para o isolado lugarejo de Stonebury, no Maine, pelo bispo Glennon (Huston)[3]. A punição tem o propósito de lhe ensinar os valores da humildade. O aprendizado se dará em seu contato direto com o velho e doente terminal padre Ned Halley (Meredith). Este personagem, fracassado em termos eclesiásticos, é, indubitavelmente, um autêntico cristão conforme a Igreja dos primórdios.


Stephen Fermoyle (Tom Tryon) e o bispo Glennon (John Huston)


Sempre atormentado por dúvidas crescentes oriundas da dualidade de ser homem no mundo e clérigo apegado a dogmas e doutrinas, Stephen é elevado ao posto de secretário de Glennon. Daí em diante sua trajetória entra em escala ascendente. Praticamente se fixará na Europa, entre os próceres da cúria romana, após licença de dois anos. Nesse período, atuou como professor de línguas em diversas cidades e reavaliou a vocação. Foi quando teve a atenção voltada para a desinibida e apaixonada estudante Annemarie (Schneider). Entretanto, o apelo sacerdotal venceu a disputa. Voltou a usar o colarinho clerical, para decepção da jovem. Ela toma ciência da escolha em cena das melhores, quando se confrontam apenas pela troca de olhares e mediados pela vidraça de uma lanchonete.


Romy Schneider no papel de Annemarie


Annemarie (Romy Schneider) e Stephen Fermoyle (Tom Tryon)


Todo o filme é organizado como sucessão de episódios marcantes, vivenciados intensamente por Stephen Fermoyle. São eventos que lhe moldam a vocação e o consolidam como sacerdote e apóstolo, até contra a vontade. É como se a história que tem a cumprir estivesse planejada pela irrefreável decisão de um "destino manifesto" armado à sua revelia. Apesar de tudo, obriga-se diligentemente a cumprir as emanações dessa vontade, encaradas como decorrências do imperativo divino. Até chegar à consagração cardinalícia, enfrentará testes supremos. Chocado com o isolamento institucional da Igreja acerca das coisas do mundo, confrontará por conta própria, como dever cristão, o racismo e a Ku Klux Klan ao apoiar a luta do aviltado e negro Padre Gillis (Davis) em cidadezinha da Georgia, sul dos Estados Unidos. Anos depois, em esforço diplomático oficial, viajará a Viena, em 1938, para enquadrar o arcebispo Theodor Innitzer (Meinrad) — único personagem real da história: negociou a liberdade da Igreja austríaca ao apoiar publicamente a Anschuss — anexação do país, por Hitler, à Alemanha. Logo mais, conforme o hábito, o Führer voltará atrás e cerceará a religião e imprensa católicas[4].


Stephen Fermoyle (Tom Tryon) enfrenta a segregação racial no Sul dos Estados Unidos


Apesar de transcorrer sobre pano de fundo histórico, O cardeal é peça de ficção. Mesmo assim, segundo consta, Stephen Fermoyle tem, ao menos no início da carreira, um modelo real que inspirou o escritor Henry Morton Robinson: o arcebispo de Nova York, de 1939 a 1967, Francis Joseph Spellman. Quanto ao mais, o retrato e a carreira do onipresente protagonista resultam, segundo o autor, da compilação de vários sacerdotes que conheceu. O livro mostra como um membro da Igreja lida com as contradições decorrentes da tentativa de equilibrar os aspectos humanos e divinos do sacerdócio: como compatibilizar a experiência de estar no mundo, habitando a "cidade dos homens", com o compromisso de erigir a "cidade de deus" — conforme as dicotomias morais de Santo Agostinho? Como equilibrar coerentemente o sagrado e o profano ou o dilema de ser homem e, ao mesmo tempo, santo, em épocas tão complicadas tanto para a humanidade e a santidade?


Excluídos os franceses, Preminger já era alvo visado pela crítica ao tempo de O cardeal. Os cronistas denunciavam com injusto e exagerado denodo sua pretensão artística, que tornava as realizações pesadas e artificiais. O cardeal, especificamente, pode não ser um grande filme. Mas, ao contrário das arengas dos detratores, está longe de ser novelão, como afirmaram muitos, impressionados com sua dimensão épica. É um filme ágil. Além do mais, não se volta ao consumo fácil. Lança questões complicadas, de fundo moral principalmente, que desbancam a lógica simplista do maniqueísmo de respostas claras e indubitáveis. Stephen Fermoyle divide seus dilemas com o plateia. Portanto, trata-se de realização dinâmica, endereçada ao espectador ativo e não apenas católico.


A longa duração sequer é sentida. É filme que se deixa ver com prazer. Em momento algum cai nas armadilhas do sentimentalismo ou da apelação vulgar. Algumas passagens, evidentemente, poderiam ser eliminadas, sem prejuízo algum ao andamento da história. A surra de chicote aplicada pela Ku Klux Klan em Stephen Fermoyle é, em tudo, desnecessária, ainda mais da forma como foi filmada. Para piorar, gera um desdobramento anticlimático constrangedor, pela inclusão de personagem — membro da encapuzada gang racista — que o socorre no dia seguinte. Os longos números de vaudeville são supérfluos. Em Viena, a desajeitada filmagem do suicídio de Kurt Von Hartman (Weck) — marido judeu de Annemarie, temeroso com a Gestapo — por pouco não levou ao humor involuntário um momento carregado de tensão dramática.


Nos aspectos formais, O cardeal é muitíssimo bem embalado. A câmera, sempre em movimento, não perde a oportunidade de revelar, com riqueza de detalhes, os magníficos interiores de templos, residências e demais dependências eclesiais em Roma e Viena. Poucas vezes o recurso da tela larga foi tão bem empregado. Os interiores não são estáticos ou meramente decorativos. São estruturas imponentes, resistentes ao tempo, e foram, como tais, dramaticamente integradas à narrativa como símbolos da permanência e longa trajetória da Igreja. Nisso, a direção de fotografia de Leon Shamroy é primorosa. O comentário musical de Jerome Moross só fortalece a majestosa solenidade do visual ao lhe acrescentar a adequada atmosfera sacra e litúrgica.


Certamente — como acentuaram muitos —, o maior problema de O cardeal está na interpretação pouco nuançada de Tom Tryon. Um ator dotado de maior plasticidade na expressão provavelmente se sairia melhor. No entanto, a composição um tanto hierática de Stephen Fermoyle até soa adequada a um homem da Igreja, ainda mais no tempo coberto pela história. Tryon se esforça para transmitir credibilidade, ainda mais sob o impacto da implacável condução militar de Preminger na direção de atores. Os sets foram contaminados pela tensão decorrente das elevadas admoestações aplicadas pelo diretor ao intérprete, praticamente desde o primeiro dia das filmagens. Em sua autobiografia[5] John Huston revela o quanto Tryon esteve fragilizado, a ponto de sofrer colapso nervoso por causa das constantes exigências. O clima ruim chegou ao auge quando o diretor perdeu literalmente as estribeiras e demitiu o ator no momento em que os pais o visitavam. Felizmente, essa situação limite foi imediatamente contornada.


"Vou desistir de ser ator"[6], confidenciou Tryon a Huston pouco antes da filmagem da última sequência em que aparecem juntos. Ironicamente, é neste momento, quando expõe a Glennon as dúvidas que o acometem, que o protagonista se mostrou plenamente crível, numa longa exposição, praticamente um monólogo.


Stephen Fermoyle (Tom Tryon) e o bispo Glennon (John Huston)


Ao final das contas, Stephen Fermoyle indicou Tom Tryon ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme Dramático[7]. Também não se confirmou a decisão de abandonar a carreira, apesar de se firmar como escritor de relativo sucesso[8]. Por incrível que pareça, voltaria a atuar sob o comando de Preminger, ao lado de John Wayne e Kirk Douglas, em A primeira vitória (In harm's way, 1965), no destacado papel do Tenente William 'Mac' McConnel[9].


Tryon também está convincente nos momentos em que não consegue ser, simplesmente, o irmão e amigo de Mona, aflita com a quantidade de interditos, condições e preconceitos a rondar um casamento inter-religioso, e logo de uma católica com um judeu nos primeiros anos do século 20. Frente à situação — ainda mais após as afrontas sentidas por sua família durante a oficialização do noivado — o pretendente Benny rompeu o compromisso. Mesmo assim, Mona continuou a encontrá-lo, em segredo. Stephen toma conhecimento da situação na condição de padre, no confessionário, atento apenas à doutrina. Ao lhe revelar as relações sexuais, Mona é severamente admoestada como pecadora obrigada a penitências. Em consequência, rompe com a família, abandona a casa paterna e vai ganhar a vida no vaudeville enquanto Benny parte para a guerra. Recusa qualquer contato com os irmãos, principalmente Stephen. Mesmo assim, não deixam de procurá-la. Por fim, será encontrada abandonada, grávida de Ramon Gongaro (Duval) — colega de palco — e prestes a dar à luz.


O parto, complicado, põe em risco a vida de Mona por causa de má formação congênita. Só sobreviverá com a craneostomia fetal. O procedimento médico a tomar depende de Stephen. Novamente, manifesta-se o padre apegado ao dogma. Como a morte de Mona decorrerá de trama da natureza, o irmão opta pela vida da criança. Batizada como Regina, será igualmente interpretada por Carol Lynley na idade adulta. O protagonista passará o resto da história assombrado pela decisão que levou a irmã à morte. Moralmente, jamais se absolverá. Seus próximos passos e ações decorrerão de crise de consciência, inclusive o retorno à vida sacerdotal depois de se confessar apaixonado por Annemarie durante vigência da licença clerical. Doravante, será um membro da Igreja, mas sempre pressionado por questões éticas. Estas o obrigarão a repensar os aspectos mais duros da doutrina à luz dos problemas e necessidades humanos. O aviltado padre Gilles, da racista e perdida cidadezinha da Georgia, compreenderá perfeitamente os dilemas de Stephen, ainda mais quando este deu as costas ao mutismo institucional e, solitário, resolveu apoiá-lo na luta desigual contra a violência segregacionista. Em agradecimento voltará a Roma, para homenageá-lo, por ocasião da ordenação cardinalícia.


Stephen Fermoyle (Tom Tryon) em sua primeira ordenação

  
O cardeal também respira tranquila e amavelmente nos momentos dedicados ao padre Ned Halley. O bom e generoso cura, acometido de esclerose avançada, necessita de cuidados médicos dispendiosos e constantes. Institucionalmente, foi um fracasso. Porém, sempre gozou da estima dos fiéis. Stephen penhora alguns preciosos bens para financiar o tratamento, fato que chega ao conhecimento do aparentemente emproado e distante arcebispo Glennon. Este prontamente desce do pedestal para empreender viagem com o fim de render honras ao idoso, afastado e agora moribundo amigo Ned Halley. Chega a tempo de ministrar pessoalmente a extrema unção. Juntos, Burgess Meredith e John Huston preenchem a tela em momento tocante, emocional na justa medida, próximo do sublime. Suas atuações, ajustadas em fina sintonia, enchem de graça o quarto pobre e despojado de um velho padre em seus derradeiros momentos.


Tom Tryon é apoiado por excelentes atores. No time, isoladamente, John Huston é pedra angular. E pensar que, até então, havia atuado somente uma vez, em rápida aparição no seu O tesouro de Sierra Madre (The treasure of the Sierra Madre, 1948). Praticamente, rouba todas as cenas, tanto pela impressionante presença que parece ocupar todo o ambiente, como pelo destacado timbre da voz. Josef Meinrad é muito convincente como Innitzer. Raff Vallone e Tullio Carminati, nos respectivos papéis dos cardeais Quarenghi e Giacobbi, também iluminam a tela. A atuação de Romy Schneider é pequena, mas cheia de graça, inclusive no final, quando é aprisionada pelos nazistas e recusa auxílio do impotente e aflito Stephen. Carol Lynley brilha intensamente na sequência do confessionário. A lendária Dorothy Gish, atriz nos filmes silenciosos de David Wark Griffith e irmã menos famosa de Lillian Gish, tem seu último momento nas telas como a discreta Celia, mãe do protagonista. O característico Arthur Hunnicutt faz o pouco eficaz xerife Dubrow da racista cidadezinha do padre Gilles.


O cardeal indicou John Huston, Otto Preminger e Leon Shamroy aos respectivos prêmios Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Diretor e Melhor Direção de Fotografia em Cores. À estatueta dourada também foram nominados Lyle R. Wheeler e Gene Callahan por Melhor Direção de Arte em Cores; Donald Brooks — Melhor Figurino em Cores; e Louis R. Loeffler — Melhor Montagem.


A família prestigia Stephen Fermoyle (Tom Tryon) em uma de suas ordenações


Na cerimônia do Globo de Ouro O cardeal recebeu a láurea de Melhor Filme Dramático e John Huston a de Melhor Ator Coadjuvante. Em suas respectivas categorias foram indicados Otto Preminger, Romy Schneider (Melhor Atriz em Drama, apesar de ter papel de coadjuvante) e Tom Tryon. Na ocasião, a realização foi indicada a Melhor Filme na Promoção da Concórdia Internacional. Nesse mesmo ano de 1964, John Huston ficou em segundo lugar como Melhor Ator Coadjuvante na corrida ao Laurel Awards. Já O cardeal despontou na terceira posição como Melhor Realização Dramática e Tom Tryon na quinta, para Melhor Desempenho Dramático Masculino. Por fim, pela National Board of Review, o filme foi incluído no rol dos mais importantes de 1963.





Roteiro: Robert Dozier, Ring Lardner Jr. (não creditado), com base em novela de Henry Morton Robinson. Produção associada: Martin C. Schute. Música: Jerome Moross. Direção de fotografia (CinemaScope, Technicolor): Leon Shamroy. Montagem: Louis R. Loeffler. Produção de elenco: Bill Barnes. Desenho de produção: Lyle R. Wheeler. Decoração: Gene Callahan. Figurinos: Donald Brooks. Maquiagem: Robert Jiras, Dick Smith, Maurice Seiderman (não creditado). Penteados: Frederick Jones. Gerentes de produção: Guy Luongo (International Film Services-Roma), Eva Monley, Harrison Starr, Paul Waldherr (Danubia Films-Viena), Henry Weinberger. Assistentes de direção: Bryan Coates, Roberto Fizz, Hermann Leitner, Gerry O'Hara, Bob Vietro, Erich von Stroheim Jr. Construções: Fred Bockstahler. Contrarregra: Art Cole, Tom Frewer. Direção de arte: Otto Niedermoser (Viena). Títulos de apresentação e desenho do cartaz: Saul Bass. Pintura: Italo Tomassi (não creditado). Som: Morris Feingold, Walter Goss, Red Law, Harold Lewis. Edição de efeitos sonoros: Peter Thornton. Dublê: Jack Cooper (não creditado). Operadores de câmera: Jack Atcheler, Saul Midwall, Paul Uhl. Eletricistas-chefes: Fred Hall, Clyde Taylor (não creditado). Assistentes de câmera: Kenneth Lang, Leo McCreary, Morris Rosen. Operador de câmera da segunda unidade: Piero Portalupi. Eletricista: Francesco Brescini (não creditado). Coordenação de figurinos: Hope Bryce. Guarda-roupa: Joe King, George Newman, Flo Transfield. Segundo assistente de montagem: Timothy Gee (não creditado). Edição musical: Leon Birnbaum. Orquestração (não creditado): Gary Hughes, Albert Woodbury. Ensaios vocais: Elfi von Dassanowsky (não creditado). Responsável pela Abadia de Casamari: Don Nivardo Buttarazzi. Continuidade: Kathleen Fagan. Consultoria técnica: Donald Hayne. Apresentação: Otto Preminger. Assistente executivo para o produtor: Nat Rudich. Prior da Abadia em Casamari: Don Raffaele Scaccia. Coreografia: Buddy Schwab. Instrutor de diálogos: Max Slater. Secretaria da produção: John Dunaway (não creditado). Fornecimentos de trajes religiosos: Costumi d'Arte. Cantos litúrgicos para ordenação e consagração: Monges da Abadia de Casamari. Fornecimento de joias: Paltscho de Vienna. Sistema de mixagem de som: Stereo em 6 canais pela Westrex Recording System. Tempo de exibição: 175 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2015)



[1] Publicado em 1951.
[2] Em 1960, com Exodus, Otto Preminger afrontou corajosamente a lista negra do macarthismo e creditou o banido Dalton Trumbo, autor do roteiro. Por quais motivos não fez o mesmo com Ring Lardner Jr? Prudência? Do diretor ou do roteirista?
[3] Personagem inspirado em William O'Connell, o Arcebispo de Boston no momento em que transcorre a história.
[4] Innitzer acabou se tornando público opositor ao nazismo na Áustria. Em discurso aos fiéis, em frente à Catedral, afirmou a existência de apenas um Füher: Jesus Cristo. Após esse episódio, a residência clerical e demais dependências da Igreja em Viena foram invadidas e saqueadas pelas hordas hitleristas. O cardeal reconstitui esses momentos em sequências de relativo impacto. 
[5] HUSTON, John. Um livro aberto. Porto Alegre: LP&M, 1987. p. 415 e 416.
[6] Ibidem. p. 416.
[7] Perdeu para Sidney Poitier no papel de Homer Smith em Uma voz nas sombras (Lilies of the field, 1963), de Ralph Nelson.
[8] Tryon é autor dos livros The other e Fedora, adaptados ao cinema em A inocente face do terror (The other, 1972), de Robert Mulligan; e Fedora (Fedora, 1978), de Billy Wilder. Também escreveu Harvest home, transformado na minissérie televisiva The dark secret of Harvest Home, 1978), da Universal Television.
[9] Após O cardeal Tom Tryon marcou presença, como ator, em episódios de diversas séries da TV, veículo que lhe permitiu vasto campo de trabalho também ao longo dos anos 50. No cinema, atuou, além de A primeira vitória, em Assim morrem os bravos (The glory guys, 1965), de Arnold Laven e Sam Peckinpah (não creditado); Persecución hasta Valencia (1968), de Julio Coll; Color me dead (1969), de Eddie Davis; Johnny vai à guerra (Johnny got his gun, 1971), de Dalton Trumbo; e Os Cavaleiros do Buzkashi (The horsemen, 1971), de John Frankenheimer. As participações nos títulos de Trumbo e Frankenheimer não foram creditadas. Tryon estreou no cinema em A hora escarlate (The scarlet hour, 1956), de Michael Curtiz. Na sequência vieram Ninho de águias (Screaming eagles, 1956), de Charles F. Hass; Trindade violenta (Three violet people, 1956), de Rudolph Maté; A vergonha de ser profana (The unholy wife, 1957), de John Farrow; Casei-me com um monstro (I married a monster from outer space, 1958), de Gene Fowler Jr.; Gundown at Sandoval (1960), de Harry Keller; A história de Ruth (The story of Ruth, 1960), de Henry Koster; O amor custa caro (Marines, let's go, 1961), de Raoul Walsh; O incrível homem do espaço (Moon pilot, 1962), de James Neilson; O mais longo dos dias (The longest day, 1962), de Ken Annakin, Andrew Marton, Bernhard Wicki mais os não creditados Gerd Oswald e Darryl F. Zanuck; e O cardeal

4 comentários:

  1. Eugenio,

    Não vi mais que 10 fitas do Preminger. Porém, todos que vi foram fitas muito boas ou, posso citar, os melhores trabalhos seus.

    Entretanto não assisti ao da postagem, O Cardeal/1963. E acho que não o veria se oportunidade me surgisse, pois não sou fã do gênero.

    Andei lendo sobre as mazelas que a Monroe andou passando em mãos do temeroso diretor em O Rio Das Almas Perdidas/1954, assim como a instantânea defesa à jovem atriz, contra o tirano diretor, pelo ator da fita Robert Mitchum.

    Quando vi Bom dia Tristeza/58 e a beleza desafiadora de Débora Kerr, voltei-me então para reparar que já a havia visto em O Sol Por Testemunha/57 e A Um Passo da Eternidade/53.

    Não eram filmes dirigidos pelo hungaro, mas foi com ele que a Kerr foi despertada em mim com todo seu talento e deslumbre pessoal.

    Vi mais Exodus/60, Carmem Jones/54 e Anatomia de Um Crime/59 e mais o formidável O Homem do Braço de Ouro/55.

    Como se pode observar, todos filmes citados se enquadram dentro de uma única década (a de 1950), quando minha vida nesta arte era mais ativa.

    Todas estas informações são tiradas de meus alfarrábios, estrutura escrita à mão sobre o que vi no cinema e que até hoje mantenho comigo.
    São vigorosas informações, pois anotava quase tudo que via e sentia.

    Não sei se esta aridez citada sobre o Otto é uma coisa única do mesmo.

    Segundo andei lendo, muitos famosos cineastas, principalmente de Hollywood, eram tiranos por demais, calculistas, semi monstruosos e até obscenos para com seus atores e equipes.

    São fatores que muito pouco se divulga, mas que de alguma parte dela conhecemos.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Jurandir,

      Apenas um reparo: o filme ao qual se referiu, protagonizado pela Kerr, não é O SOL POR TESTEMUNHA. É, sim, O CÉU É TESTEMUNHA. Ela faz uma freira que o soldado interpretado por Robert Mitchum irá encontrar numa ilha do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial. É um dos melhores momentos de John Huston na direção.

      Preminger também é um renomado diretor de filmes "noir". Aliás, foi assim que ele começou, nos anos 40. LAURA é o seu grande momento neste período. Também realizou muitas comédias, mas preciso revê-las para ver se ainda resistem à passagem do tempo.

      Vale muito a pena conhecer O CARDEAL. Apesar de suas falhas, é um filme muito bem amarrado, ainda mais quando se sabe que abrange um longo período de tempo.

      Ainda tenho comigo, em ótimo estado, os cadernos escolares com os quais comecei as minhas anotações de cinema. Hoje, está tudo informatizado. Mas volta e meia os retomo. Repasso as anotações com a minha letra do tempo em que tinha 8 anos de idade e vou vendo como foi se modificando até os anos 90, em sua metade. Vejo também como foi evoluindo a minha maneira de apreciar um filme.

      Abraços.

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  2. Eugenio,

    Correção em tempo e lógica. Grato.

    O Sol Por Testemunha é do Clement/60 com o Delon. Belo filme aliás.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Sim, um belíssimo filme é O SOL POR TESTEMUNHA, de Clement. Um diretor injustamente esquecido.

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