domingo, 13 de setembro de 2015

O COMPLETO FRACASSO DE FRANCESCO ROSI NA SEARA DE GARCÍA MÁRQUEZ

O sóbrio e corajoso diretor Francesco Rosi não foi feliz em seus últimos trabalhos. A falta de inspiração se instalou em Carmen (1984) e não mais o abandonou. Completamente desastrosa foi sua incursão pelo universo de Gabriel García Márquez na adaptação de Crônica de uma morte anunciada (Crónica de una muerte anunciada), um dos livros mais simples e despretensiosos do escritor colombiano. Em aproximadas 150 páginas ironia e tragédia se unem no desenrolar de uma trama de amor, sangue e vingança. O leitor atento percebe de imediato os aspectos cinedramatúrgicos do texto. Parece que foi escrito diretamente para o cinema. Por isso, causa espécie o fracasso da adaptação a cargo de Rosi em parceria com Tonino Guerra. O elenco também não ajuda. Nem a autenticidade da cor local — facilitada pelas filmagens em locações latinoamericanas — conseguiu dar alguma relevância à empreitada. A apreciação a seguir é de 1993.







Crônica de uma morte anunciada
Chronique d'une mort annoncée/Cronaca di una morte annunciata/Crónica de una muerte anunciada

Direção:
Francesco Rosi
Produção:
Yves Gasser, Francis Von Buren
Italmedia Film, Soprofilm-Les Films Ariene, France 3 Cinéma, Soprofilms, FOCINE, RAI 2
Colômbia, Itália, França — 1987
Elenco:
Rupert Everett, Ornella Muti, Gian Maria Volonté, Irene Papas, Lucia Bose, Anthony Delon, Alain Cuny, Sergi Mateu, Carlos Miranda, Rogerio Miranda, Carolina Lang, Carolina Rosi, Silverio Blasi, Vicky Hernández, Mariela Rivas, Yolanda García, Matilde Suescun, Gabriel Pazos, Isabel de León, Denis Julio, Carlos Varela, Pablo Soler, Maritza de Ávila, Nelson Pineros, Dora Isquierdo, Lina Botero, Divo Cavicchioli, César Fernández, Arquimedes Erazo, Bienvenida Chamorro, Carmecita De Rizo, Bill Moore, Leonor Gonzáles, Edgardo Román, Lucy Martínez, António de la Vega, Regulo Ahumada, María Elena Castro.



O diretor Francesco Rosi



Um time de craques do cinema italiano, liderado pelo diretor Francesco Rosi — parceiro de Tonino Guerra na elaboração do roteiro —, perdeu-se feio na América Latina nesta risível adaptação de Crônica de uma morte anunciada, romance de Gabriel García Márquez. Rosi — dono de uma das mais sólidas e engajadas filmografias do pós-guerra, com carreira consolidada, até o momento, em 14 títulos ao longo de 40 anos — cometeu aqui o seu pior trabalho. Conseguiu ser mais enfadonho que em Carmen (1984) — fracassada transposição ao cinema da obra de Prosper Mérimée.


Um fracassado empreendimento cinematográfico do diretor Francesco Rosi e do roteirista Tonino Guerra

A narrativa cinematográfica é organizada em torno das memórias de Cristo Bedoya, interpretado na maturidade por Gian Marian Volonté


A latinidade de Rosi não é a mesma de Márquez. Entre Itália e Colômbia há mais que um oceano. O cineasta, em sua percepção europeia, não estava, mesmo, credenciado a transformar em filme a crônica de honra, sangue e vingança esquematizada em precisas e sucintas linhas pelo autor. Os intérpretes ficaram perdidos na tropical paisagem do continente Sul Americano, reduzido a um acidente geográfico desprovido da específica singularidade, principalmente a cultural. Crônica de uma morte anunciada — o filme — é um empreendimento para regalo de turistas apressados e distraídos. Consegue, quando muito, privilegiar os aspectos folclóricos de uma terra ensolarada, quente e musical. Fornece visão deformada de um mundo reduzido, com sua gente, a mero pano de fundo de uma história de vingança. O roteiro não soube sequer aproveitar as potencialidades cinedramatúrgicas do livro, que se apresenta decupado até para quem desconhece os ofícios do fazer cinema. Outra infelicidade foi a escolha do elenco, especialmente os nomes principais. Apresentam fenótipos excessivamente europeus para compor personagens latinoamericanos. Também falhou a direção de atores. Com exceção de Gian Maria Volonté — o Cristo Bedoya maduro (Mateu, quando jovem) — e Irene Papas — a mãe da desonrada Angela Vicario (Muti) —, todo o resto representa muito mal, especialmente Rupert Everett no papel de Bayardo San Roman.


Cristo Bedoya (Gian Maria Volonté) na expiação de circunstâncias de um passado de 25 anos

  
Depois de 25 anos ausente, o Dr. Cristo Bedoya regressa à cidade natal para assumir a direção de um hospital. Sua memória fervilha. Passado tanto tempo, não expiou a culpa por não ter evitado a morte do amigo Santiago Nasar (Delon). À localidade chegou, no tempo rememorado, o rico forasteiro Bayardo San Roman. Além de impressionar a todos pela excessiva generosidade, caiu de amores por Angela Vicario, a quem desposa. Mas o matrimônio resulta em tragédia. Bayardo descobre, no leito nupcial, que a mulher não é virgem. Devolve-a à casa paterna. A desonra mexe com Pedro (Carlos Miranda) e Pablo (Rogerio Miranda), irmãos gêmeos de Angela. Forçam-na a revelar o nome do homem que ultrajou a família. Ela acusa Santiago Nasar — o último a saber dos fatos.


Angela Vicario (Ornela Muti), o pivô da tragédia

Bayardo San Roman (Rubert Everett) e Angela Vicario (Ornela Muti)

  
Daí em diante, ironia e tragédia se misturam no desenrolar da trama. A anulação do casamento vem a público. O comentário é geral. Todos também sabem o nome do suposto culpado. Porém, não há quem consiga preveni-lo do risco que corre. Os desencontros se sucedem enquanto Nasar caminha desavisado ao encontro da morte certa.


Os irmãos Pedro e Pablo (Carlos Miranda e Rogério Miranda)  acertam as contas com Santiago Nasar (Anthony Delon)

Os gêmeos Pedro e Pablo (Carlos Miranda e Rogerio Miranda)


Esperava-se infinitamente mais dessa empreitada dispendiosa — 12 milhões de dólares vindos somente dos produtores franceses — inteiramente rodada na Colômbia, em regime de grande produção fotografada em Supertechniscope com equipamentos trazidos da Europa. A produção chegou ao requinte de construir integralmente, em tamanho real, imenso barco de transporte fluvial. Todos os esforços resultaram inúteis. Crônica de uma morte anunciada — o filme — é apenas um empreendimento à deriva. Adernou nas águas à margem das letras que lhe deram origem.


As bodas de trágicas consequências de Bayardo San Roman (Rubert Everett) com Angela Vicario (Ornela Muti)





Figurinos: Enrico Sabbatini. Roteiro: Francesco Rosi, Tonino Guerra, com base no romance Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez. Direção de fotografia (cores, Supertechniscope): Pasqualino De Santis. Montagem: Ruggero Mastroianni. Música: Piero Piccioni. Desenho de produção: Andrea Crisanti. Produção associada: Xavier Gélin (França), Felipe López Caballero (Colômbia). Assistentes de produção: James Ordonez, Felipe Aljure. Produção executiva: Jean-José Richer (França). Produção de elenco: Gianni Arduini. Maquiagem: Walter Cossu, Federico Laurenti, Giuliano Laurenti, Flore Marina Sandoval, Maurizio Silvi. Gerente de unidade de pós-produção: Gerald Morin. Gerente de unidade: Luciano Pecoraro. Gerentes de produção de tomadas: Paolo Piria, Christine Renaud. Primeiros assistentes de direção: Carlo Arduini, Gianni Arduini, Salvatore Basile, Carlo Lastricati. Segundo assistente de direção: Eric Dionysius. Assistente de direção: Claudia Gomez. Ruídos de sala: Italo Cameracanna. Edição de efeitos sonoros: Italo Cameracanna, Daniele Quadroli. Operador de câmera: Bernard Chaumeil. Som: Pierre Gamet. Edição de som: Gérard Hardy. Operador de foco: Roberto De Nigris. Produção de elenco: Enrico Marrari (Itália/não creditado). Assistente de figurinos: Giovanni Viti. Engenheiro musical: Greg Fulginiti. Continuidade: Rachel Griffiths. Dublagem da versão original: Tiziana Lattuca. Auditoria da produção: Roberto Penna. Tempo de exibição: 107 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1993)








2 comentários:

  1. É.
    É necessário, ao menos, alguma sensibilidade para se envolver numa obra e recria-la com imagens o que foi transcrito em palavras.

    Não conheço a fita, porém Carmem eu já havia visto e não gostara também, colocando toda credibilidade no editor desta postagem, por conhecer sua qualidade como homem de cinema e por sua sensibilidade a bons espetáculos.

    Porém, talvez o Rosi não carregue apenas sozinho a culpa da má confecção de Cronica... Numa produção existem várias mãos a trabalhar em prol dela. Porém, cabe à voz principal, que é o diretor, picotar aqui e ali, aderir algo aqui e ali, se inteirar completamente do que quer fazer e, no fim, realizar um trabalho que mereça alguma dignidade.

    E me parece que não fez isso ou nada disso. O que não é um fato único, dado em vista que todo bom diretor um dia toma uma porrada e seu projeto viaja esgoto abaixo.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Olá, Jurandir;

      De fato, não dá para debitar toda a culpa pelo fracasso de CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA sobre o diretor. Trata-se de uma grande produção envolvendo suportes, principalmente capitais, de três países. Não é uma realização pessoal, como as que fizeram as glórias do diretor, quais O CASO MATTEI, O BANDIDO GIULIANO, MÃOS SOBRE A CIDADE, TRÊS IRMÃOS... Interesses mais poderosos falaram mais alto e deu no que deu.

      O triste é saber que esse diretor essencial do grande cinema italiano dos anos 60 e 70 terminou os seus dias dando conta de filmes injustificáveis para o seu talento. Mas são coisas do cinema e das armadilhas que ele prepara. Só podemos lamentar.

      Um abraço.

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