domingo, 9 de agosto de 2015

JOEL McCREA EM FÚRIA NA ROTINA DE CHARLES MARQUIS WARREN

Depois de amargar injustos cinco anos de prisão, o experiente cowboy John Cord (Joel McCrea) atende ao chamado do homem que o condenou, o grande pecuarista Ralph Hamilton (Don Haggerty). Depara-se com uma cidade inteiramente levantada contra ele além da proposta de assumir a condução de um grande rebanho por região inóspita. Homens sem lei (Cattle empire, 1958) é a antepenúltima realização para cinema de Charles Marquis Warren, um expert nos temas do velho Oeste. Entretanto, seu talento nunca foi devidamente reconhecido. Relegado às produções rápidas de pequeno orçamento, não tardou a afundar na rotina. Viveu melhores dias na TV, quando produziu, roteirizou e dirigiu séries que marcaram época. Em Homens sem lei o amargurado e vingativo personagem de Joel McCrea é lançado na seara de Rio Vermelho (Red River, 1948), de Howard Hawks, mas em escala muito inferior. O ator, cowboy de verdade, estava entrando nos últimos anos de sua carreira. As boas oportunidades ficavam escassas. Teria seu último grande momento em 1962, quando protagonizou o outonal Steve Judd em Pistoleiros do entardecer (Ride the high country), de Sam Peckinpah. A apreciação a seguir é de 1995.






Homens sem lei
Cattle empire

Direção:
Charles Marquis Warren
Produção:
Robert Stabler
20th Century-Fox
EUA — 1958
Elenco:
Joel McCrea, Gloria Talbot, Jack Lomas, Don Haggerty, Phyllis Coates, Bing Russell, Richard Shannon, Paul Brinegar, Charles H. Gray, Hal K. Dawson, Patrick O'Moore, Duane Grey, William McGraw e os não creditados Nesdon Booth, Howard Culver, Ron Foster, Signe Hack, Bill Hale, Eddie Juaregui, John Powers, Steve Raines, Rocky Shahan, Ted Smile.



o diretor Charles Marquis Warren (à direita) ao lado de Elvis Presley, protagonista de Charro! (Charro!, 1969), último filme que realizou


Charles Marquis Warren é, antes de tudo, escritor apaixonado pelo velho Oeste; um especialista no assunto. No cinema, iniciou-se como roteirista, em 1948: escreveu os guiões de Código de honra (Beyond glory), de John Farrow, e Os mosqueteiros do mal (Streets of Laredo), de Leslie Fenton. Estreou na direção em 1951, com o bom Massacrados (Little Big Horn). Em sua filmografia constam 16 títulos originalmente direcionados ao cinema. Destacam-se, além de Massacrados, os também westerns Vivendo no inferno (Hellgate, 1952), Sete homens enfurecidos (Seven angry men, 1955), Marcados pela violência (Tension at Table Rock, 1956) e Vingança no coração (Trooper Hook, 1957). Um início de carreira promissor logo se desgastou pelas artimanhas do sistema de produção hollywoodiano. Nunca foi experimentado no primeiro time de realizadores e sempre operou milagres com orçamentos apertados. Certamente, por esses motivos, desencantou-se com o cinema. Enquanto seus filmes se transformavam em exercícios de rotina, voltou-se à TV. Beneficiaram-se com seu talento telefilmes e, principalmente, séries: Rawhide[1], Gunsmoke[2], O homem de Virgínia (The Virginian)[3] e Gunslinger[4]. Delas foi produtor, diretor e roteirista.


Das realizações cinematográficas de Charles Marquis Warren apenas quatro não são westerns: Os mistérios de Marrocos (Flight to Tangier, 1953), Voltou dentre os mortos (Back from the dead, 1957), The unknow terror (1957) e Ride a violent mile (1957). Em 1969, depois de uma ausência de 11 anos — aparentemente, despedira-se definitivamente do cinema em 1958, com o frustrado Desert hell —retornou aos temas do velho Oeste em tela grande com um veículo para Elvis Presley: Charro! (Charro!). Faleceu aos 77 anos, em 1990.


O razoável Homens sem lei é a antepenúltima realização cinematográfica do diretor. O roteiro de Daniel B. Ullman revisita o tema das grandes conduções de gado por vastas, áridas e perigosas extensões. Dez anos antes, Howard Hawks forneceu leitura ainda definitiva ao assunto: Rio Vermelho (Red River) — extraído de roteiro de Borden Chase e Charles Schnee, com John Wayne interpretando o despótico Thomas Dunson à frente de comitiva com pretensão de percorrer trecho praticamente inexplorado da fronteira do Texas com o México ao Missouri.


Em Homens sem lei a expedição tem na liderança o experiente, ressentido e amargurado John Cord (McCrea). Aprisionado injustamente há cinco anos, pretende levar o empreendimento ao fracasso para se vingar do grande proprietário Ralph Hamilton (Haggerty) e dos habitantes da cidade que este fundou com seu nome.


O injustiçado e amargurado John Cord (Joel McCrea)


Estranhamente, é o próprio Ralph Hamilton, atualmente cego e casado com Janice (Coates) — noiva de Cord antes de este ser preso — que lhe ofereceu o trabalho. A promessa de remuneração tentadora acompanha a alegação de que é o único com habilidades necessárias para dar conta do empreendimento. A quantia amealhada com a venda do gado permitirá reerguer economicamente a combalida Hamilton Town.


Ralph Hamilton (Don Haggerty) com o irmão Douglas (Bing Russell)


A história tem inicio tenso e vigoroso. Dá até a impressão de que Homens sem lei será um grande western. Cord atende ao chamado de Hamilton. Chega à cidade e se depara com o ódio acumulado de todos os moradores. Pretendem linchá-lo. As primeiras imagens revelam-no caído, atado a um cavalo, pronto a ser arrastado. Está cercado por multidão que o acusa pela destruição do lugar, há cinco anos, por descontrolados vaqueiros bêbados sob sua liderança. Na ocasião, muita gente, inclusive crianças, foi morta ou gravemente ferida pela ação da turba. Explicam-se, assim, as razões da prisão de Cord. Ralph Hamilton, acompanhado de Janice e do irmão Douglas (Russell), chega a tempo de salvá-lo.


O início de Homens sem lei: John Cord (Joel McCrea) prestes a ser linchado por populares enfurecidos de Hamilton Town

Janice (Phyllis Coates), uma das mocinhas de Homens sem lei

  
Apesar de tudo, Cord é ríspido com seu salvador. Recusa a proposta. Tem suas razões: além de Janice estar casada com Hamilton, o depoimento deste foi fundamental para condená-lo. Porém, volta atrás ao saber que Garth (Shannon) — ex-empregado de Hamilton, enriquecido às custas da cegueira do patrão — também pretende mover outro grande rebanho na mesma direção.


Contratado por Garth — e fazendo segredo disso —, Cord também conduzirá a manada de Hamilton. Impõe condições: a contratação de vários homens que tentaram linchá-lo e a incorporação do patrão cego e de sua família (Janice e Douglas) ao grupo, ao qual também se integram velhos e leais companheiros de curiosos nomes históricos: os irmãos Jeffrey, Thomas Jefferson (Brinegar) e George Washington (Dawson), inclusive a neta de um deles, a jovem e aguerrida Sandy (Talbott), apegada a Cord desde criança, agora visivelmente apaixonada por ele.


John Cord (McCrea) com os amigos Thomas Jefferson (Paul Brinegar) e George Washington (Hal K. Dawson)


Excluídos os Jeffrey, Cord trata a todos os membros da equipe com áspera rigidez. Oferece a Garth vantagem considerável sobre o terreno enquanto cobre com visível lentidão, evitando os raros cursos de água, a boiada de Hamilton. Sua estratégia e despotismo levantam suspeitas em muitos, que passam a lhe questionar a autoridade. Apesar de tudo, o dono da boiada deposita inteira confiança em seu chefe da comitiva. Também o defende veementemente em momento delicado, instante no qual revela os fatos por trás da destruição da cidade. Cord é inocente. Os responsáveis pelo caos foram Hamilton e Garth.


Descoberta a verdade seguida da retratação pública de Hamilton, Cord assume de fato a correta condução do rebanho. Garth, deixado à própria sorte, não dá crédito às recomendações para mover seus animais por caminho seguro e servido de água. Perde todo o gado. Arregimenta pistoleiros para a vingança. Mas é subjugado por Cord — agora apoiado por aqueles que lhe faziam oposição.


A história chega ao fim antes do término da jornada, quando faltavam poucos quilômetros para a expedição encontrar o destino. Cessados os ressentimentos e expiados todos os pecados, Cord parte solitário, conforme o figurino característico dos westerns. Não aceitou parceria nos empreendimentos de Hamilton. Porém, deixou o imaturo Douglas preparado para concluir o trabalho. Também consolou as mulheres que o desejavam.


John Cord (Joel McCrea) é ríspido e duro no tratamento da equipe que lidera

Apaixonadas por John Cord (Joel McCrea) mas não correspondidas: Janice (Phyllis Coates) e Sandy (Gloria Talbot)

Janice (Phyllis Coates) e John Cord (Joel McCrea)


Quanto ao filme, o que sobra? O western vibrante — prometido pelas imagens iniciais — não se confirma. É inegável que Homens sem lei, apesar de aprisionado no magro orçamento do filme B, é muito bem filmado. Mas a história flui apressadamente, sem tempo para desenvolver a contento os conflitos coletivos e individuais explicitados no decorrer da jornada. Diante disso, os personagens se apresentam chapados, unidimensionais. O próprio John Cord, na tentativa de conter a fúria e o desejo de vingança, age mecanicamente, inclusive diante das promessas românticas a ele apresentadas. Chegou a dividir o saco de dormir com Janice. Ela própria foi responsável pelo adultério, à noite, em um acampamento. Mas o ato, apenas sugerido, não tem maiores desdobramentos. Não há espaço sequer para os interregnos cômicos, característicos de produções do tipo, e que poderiam contar com a participação dos irmãos Jeffrey, tão subutilizados. Mas, praticamente, não há momentos carregados a necessitar de cenas de alívio. Homens sem lei tem pouca poeira e movimentação para muita rotina. Chega a ser um desperdício, principalmente para o experiente Joel McCrea, originariamente um cowboy de verdade antes de ter a atenção atraída por Hollywood. O ator estava no fim de sua trajetória profissional quando personificou John Cord. Faltavam apenas quatro anos para protagonizar com brilho, ao lado de Randolph Scott, um dos mais belos e significativos westerns crepusculares: Pistoleiros do entardecer (Ride the high country, 1962), de Sam Peckinpah. Poderia ter parado aí. Mas ainda emprestaria a estampa a quatro produções obscuras, pelo visto inéditas no Brasil, com exceção da última: The young rounders (1966), de Casey Tibbs; Cry blood, apache (1970), de Jack Starret; Sioux nation (1970), do qual não há sequer informações sobre a realização; e Mustang selvagem (Mustan country, 1976), de John C. Champion.





Roteiro: Endre Bohem, Eric Norden, Charles Marquis Warren (não creditado), com base em história de Daniel B. Ullman. Música: Paul Sawtell, Bert Shefter. Direção de fotografia (CinemaScope, DeLuxe Color): Brydon Baker. Montagem: Leslie Vidor. Direção de arte: James W. Sullivan. Decoração: Raymond Boltz Jr. Maquiagem: Jack Dusick. Penteados: Louise Miehle. Gerente de produção e assistente de direção: Nathan R. Barragar. Contrarregra: Eugene C. Stone. Som: Frank McKenzie. Guarda-roupa: Vou Lee Giokaris; Byron Munson. Supervisão da montagem: Fred W. Berger. Continuidade: Eleanor H. Donahoe. Lentes de CinemaScope: Bausch & Lomb. Facilidades sonoras: Roderick Sound. Sistema de mixagem sonora: Stereo em 4 pistas pela Westrex Recording. Tempo de exibição: 83 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1995)



[1] Duzentos e dezessete episódios originalmente levados ao ar pela Columbia Broadcasting System (CBS), de 9 de janeiro de 1959 a 4 de janeiro de 1966.
[2] Duzentos e trinta e três episódios originalmente levados ao ar pela Columbia Broadcasting System (CBS), de 10 de setembro de 1955 a 1 de setembro de 1975.
[3] Duzentos e quarenta e nove episódios produzidos por Revue Studios (1962-1963) e Universal Television (1963-1971), originalmente levados ao ar pela National Broadcasting Company (NBC), de 19 de setembro de 1962 a 24 de março de 1971.
[4] Doze episódios originalmente levados ao ar pela Columbia Broadcasting System (CBS), de 9 de fevereiro de 1961 a 3 de junho de 1961.

2 comentários:

  1. Eugenio,

    Citaste que Pistoleiros do Entardecer é o mais significante trabalho do Crea. Não discordo, mas não sei se amo tanto esta fita na mesma proporção de quanto muitos que a idolatram. Apenas gosto dela, embora reconheça que o intragável McCrea tem, depois de Aliança de Aço/36, do De Mille, verdadeiramente sua melhor interpretação.

    Homens Sem Lei eu vi há muitos anos no seu lançamento em SSA (imagine que eu deveria ter pouco mais de 13 anos) e o revi há pouco menos tempo na TV.

    Apesar do esforço do Marquis, o filme não tem carga para se por elogios, isso também embora não recorde de muitas passagens citadas pelo amigo, muito mais porque a fita não desperta nada de extra.

    No meu parecer ele entrou no rosário das dezenas e dezenas de faroestes criados na década de 1950, onde dele nada se arranca que mereça uma revista ou qualquer elogio.

    Gosto mais do que este de Choque de Ódios, que muitos exibidores chamam de Rhonda de Sangue, do JacquesTourneur/55, com ele no papel do Wyatt Earp.

    Em verdade sempre achei o McCrea um ator de porte pequeno com ares de durão para encobrir sua debilidade profissional.

    Tenho nos meus anotamentos 17 fitas vista com o mesmo. Mas apenas os citados justificam alguma coisa.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Agora, pelo que lembro, Jurandir, gosto muito do Joel McCrea em um magnífico western de Raoul Walsh: GOLPE DE MISERICÓRDIA ("Colorado Territory", 1949), com a Virginia Mayo. É uma transposição ao velho Oeste da história contada pelo mesmo Walsh no magnífico SEU ÚLTIMO REFÚGIO ("High Sierra"), de 1941. Sou mais generoso com o ator. De fato, não era bom. Mas tudo dependia de quem estava atrás das câmeras.

      Abraços.

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