domingo, 7 de junho de 2015

DEPOIS DO OSCAR JOHN WAYNE VAI À GUERRA NO CONDADO DE LINCOLN

Chisum (Chisum, 1970) é o primeiro filme estrelado por John Wayne após Bravura Indômita (True grit, 1969), de Henry Hathaway, pelo qual conquistou o Oscar de Melhor Ator. É a quarta das cinco parcerias entre o mais famoso cowboy das telas e o irregular e pouco talentoso diretor Andrew Victor McLaglen, equivocadamente considerado por expressiva parcela da crítica, durante longo tempo, como herdeiro espiritual de John Ford. Apoiado em roteiro frouxo do produtor Andrew J. Fenady, que simplifica e falseia fatos em demasia, Chisum aborda um famoso episódio da consolidação da conquista do Oeste: a Guerra do Condado de Lincoln, Novo México, que teve entre seus protagonistas William "Billy the Kid" Bonney, Pat Garret e o potentado rural John Simpson Chisum. No filme, as causas da contenda foram resumidas ao jogo de interesses que opôs grandes proprietários e sitiantes ao especulador fundiário e usurário Lawrence Murphy (Forrest Tucker). Com bonomia e certa displicência John Wayne interpreta o personagem-título apoiado pela boa presença de Ben Johnson, como seu braço direito James Pepper. A direção de fotografia a cargo do veterano William H. Clothier é um dos trunfos de Chisum. Na parte não creditada do elenco merece destaque a participação de um herdeiro direto de renomado herói nacional mexicano, que também atuou como dublê de Wayne. A apreciação a seguir, de 1976, passou por revisão e atualização em 2009.






Chisum
Chisum

Direção:
Andrew Victor McLaglen
Produção:
Andrew J. Fenady
Warner Brothers, Batjac Productions
EUA — 1970
Elenco:
John Wayne, Forrest Tucker, Christopher George, Ben Johnson, Glenn Corbett, Bruce Cabot, Patric Knowles, Andrew Prine, Richard Jaeckel, Linda Day, Geoffrey Deuel, Pamela McMyler, John Agar, Lloyd Battista, Robert Donner, Ray Teal, Edward Faulkner, John Mitchum, Ron Soble, Glenn Langan, Alan Baxter, Alberto Morin, William Bryant, Pedro Armendáriz Jr., Christopher Mitchum, John Pickard, Abraham Sofaer, Gregg Palmer, Hank Worden, Pedro Gonzalez-Gonzalez, Jim Burk, Eddy Donno, Bob Morgan e os não creditados William Conrad, José Ángel Espinosa 'Ferrusquilla', Ron Fletcher, 'Chico' Hernandez, John Kelly, Cliff Lyons, Josh McLaglen, Mary McLaglen, Chuck Roberson, José Torvay, Trinidad Villa, Ralph Volkie, Henry Wills.



O diretor Andrew V. McLaglen, filho do ator Victor McLaglen e pupilo de John Ford


Chisum[1], título de número 201 da carreira de John Wayne é o primeiro que estrela após conquistar o Oscar de Melhor Ator por Bravura indômita (True grit, 1969), de Henry Hathaway. É a quarta parceria, de um total de cinco, entre o mais famoso cowboy das telas com o diretor Andrew V. McLaglen, filho do lendário e excelente ator fordiano Victor McLaglen. As demais são: Quando um homem é homem (McLintock, 1963); Heróis do inferno (Hell fighters, 1968); Jamais foram vencidos (The undefeated, 1969); e Cahill, o xerife do Oeste (Cahill, United States Marshall, 1973). Apenas Heróis do inferno não é western. Em geral, todos esses filmes primam pela irregularidade. O mais agradável e consistente é Quando um homem é homem.


A trajetória de Andrew V. McLaglen prova: nome e relações representam concretamente muito pouco para o sucesso de alguém. Principalmente se for desprovido de talento, qualidade não herdada e/ou aprendida na associação com os mestres do cinema. Andrew é apenas filho de Victor. De nada lhe adiantou conviver com John Ford e William Wellman, dos quais foi assistente de direção em Depois do vendaval (The quiet man, 1952) e Um fio de esperança (The high and the mighty, 1952), respectivamente.


Por causa da paternidade e da estreita convivência que sempre desfrutou junto ao clã cinematográfico de Ford, os críticos, a princípio, acompanharam com expectativa a trajetória de Andrew V. McLaglen na direção, desde o ingresso na função em 1956 com Domínio de homens sem lei (Man in the vault). Imprudentes, inflaram-lhe o balão em demasia. Acreditaram piamente que se tratava de uma espécie de sucessor espiritual de John Ford. Era tarde para choros e remorsos quando se perceberam enganados. Andrew V. McLaglen bem que tentou. Mas seus esforços morreram com as boas intenções. Ligar seus filmes aos de John Ford é, mais que uma temeridade, total desconhecimento do significado do adjetivo fordiano. É preciso muito mais que a exaltação da camaradagem, do bom humor, do sentido de honra, da virilidade e do senso de comunidade para guindar alguém ao posto de herdeiro de Ford. Basta assistir a qualquer um dos filmes de McLaglen. Não procede estabelecer qualquer vínculo de similaridade ou continuidade entre ele e o diretor de No tempo das diligências (Stagecoach, 1939). Insistir nisso equivale a cair em pecado; é — com algum exagero — anatematizar John Ford.


John Wayne interpreta o potentado rural John Simpson Chisum


Chisum, nono western de Andrew V. McLaglen, rodado em Durango, Novo México, aborda com aparente desleixo e simplismo um dos mais famosos acontecimentos da consolidação da conquista do Oeste: o conflito de seis meses entre criadores de gado ocorrido em 1878, no Novo México, passado à história como a Guerra do Condado de Lincoln. Entre os personagens de vulto envolvidos estavam John Simpson Chisum, o maior potentado rural daquelas bandas, denominado o "rei de Pecos"; o rancheiro de procedência inglesa J. Henry Tunstall; o fora-da-lei William "Billy the Kid" Bonney e o controvertido xerife Pat Garrett.


Além da simplificação, o filme falseia os fatos ao extremo. John Chisum, que na verdade não era flor que se cheirasse, aparece como o bonzinho da história. Wayne o interpreta com certa displicência. É apresentado pelo roteiro pouco crítico de Andrew J. Fenady como o grande e único desbravador das terras da região. Enfrentou os índios de Búfalo Branco (Sofaer), inimigo que aprendeu a admirar e respeitar. Visita-o periodicamente, em sinal de cortesia, na reserva que o governo estadunidense impôs aos peles-vermelhas.


Chisum sempre esteve em paz com seus vizinhos: rancheiros amigos como Tunstall (Knowless); pequenos sitiantes, geralmente de origem mexicana a quem fornece proteção; e os moradores de Lincoln. Mas as coisas mudam quando o especulador e criador de gado Lawrence Murphy (Tucker) se estabelece no lugar. Apossa-se de vários domínios e negócios; aterroriza e expulsa sitiantes; privatiza o acesso às fontes de água. Murphy manipula o governador Axtell (Baxter) e controla a ação do xerife Brady (Cabot), praticamente um empregado seu.


Chisum e Tunstall reagem. Abrem loja e banco para competir com Murphy e forçar a baixa dos preços e juros. Alex McSween (Prine), advogado de Murphy, desgostoso com as falcatruas e desmandos, abandona o patrão e se alia a Chisum. Sobrevém reação violenta. Preocupado com a crescente tensão em Lincoln, Tunstall viaja em busca de solução com o governador. É morto pelos auxiliares de Brady. O impulsivo Billy the Kid (Deuel) — protegido de Tunstall, que tudo fazia para regenerá-lo  procura vingança. Mata os assassinos quando estes já eram prisioneiros de Pat Garrett (Corbett), servidor de Chisum. A seguir, faz o mesmo com o xerife Brady, em plena rua de Lincoln, e jura acertar contas com Murphy.


A reação contra as atitudes destemperadas de Billy partem de todos os lados. Chisum o obriga a sair da região — alívio para o potentado, que observava com reservas o idílio da sobrinha Sally (McMyller) com o perigoso e mal afamado rapaz. Ato contínuo, ela passa a se interessar por Pat Garrett, algoz de Billy na história real. O filme não avança até aí. No caso, o melhor é recorrer a Um dos nós morrerá (The left handed gun, 1958), de Arthur Penn, ou a Pat Garrett e Billy the Kid (Pat Garret and Billy the Kid, 1973), de Sam Peckinpah.



Pat Garrettt (Glenn Corbett) e Billy the Kid (Geoffrey Deuel)


Murphy, por sua vez, convence o Governador a desautorizar a ação do Juiz Wilson (Teal), amigo de Chisum chamado para ordenar Lincoln. O especulador também nomeia xerife o caçador de recompensas Dan Nodeen (George), desafeto de Billy que parte em sua caçada auxiliado pelos celerados de Jess Evans (Jaeckel).


A situação se encaminha para o desfecho quando Billy e seguidores tentam roubar dinamite na loja de Chisum com a pretensão de assaltar o banco de Murphy. São descobertos e encurralados por Nodeen. Segue-se violento tiroteio com duração real de três dias — reduzida para cerca de 24 horas no filme. Alex McSween e esposa Sue (Day), surpreendidos por Billy no interior da loja, tentam negociar saída pacífica com Murphy e Nodeen. Nada conseguem. Porém, ela escapa e parte em socorro de Chisum. Quanto ao desafortunado marido, é assassinado covardemente pelo xerife.


 John Simpson Chisum (John Wayne) e Pat Garrett (Glenn Corbett)


Temendo a chegada intempestiva de Chisum, Murphy e Nodeen ordenam o bloqueio das ruas de Lincoln. Mas o potentado estoura uma boiada para desimpedi-las. Por fim, chega à frente de amigos e aliados, disposto de uma vez por todas a reorganizar a comunidade. Atraca-se aos punhos com Murphy, em briga que arrebenta batentes, janelas, paredes e termina na morte do especulador. Nodeen escapa para ser perseguido por Billy. Pat Garrett é feito xerife de Lincoln. Tudo volta à santa paz, pelo menos no filme, encerrado com Chisum no alto de uma colina, impoluto sobre o cavalo, admirando o império construído.



J. S. Chisum (John Wayne) e seu braço direito James Pepper (Ben Johnson) após a briga pela redenção do Condado de Lincoln

J. S. Chisum (John Wayne) e  James Pepper (Ben Johnson)


Chisum tem de positivo o elenco, no qual, além de Wayne, podem-se divisar vários veteranos de westerns. É o caso de Ben Johnson, que vive o resmungão James Pepper, braço direito de Chisum. O ator foi corneteiro, batedor e aventureiro em filmes de John Ford. Com Ford também cavalgaram John Agar e Hank Worden. Desempenham papéis pequenos, quase microscópicos em Chisum. Em aparição rápida, sofrendo nas mãos do xerife Nodeen, está Pedro Gonzalez-Gonzalez no papel de um rancheiro mexicano. Ele fez o dono do hotel que hospeda o xerife John T. Chance (John Wayne) e a jogadora Dalas (Angie Dickinson) em Onde começa o inferno (Rio Bravo, 1959), de Howard Hawks.


A fotografia do veteraníssimo William H. Clothier é outro trunfo, provavelmente o maior de Chisum. São merecedores de nota os créditos de abertura, exibidos sobre gravuras de Russ Vickers. O retrato pouco estereotipado de Billy the Kid também merece elogios. Assemelha-se mais a um anjo vingador que ao pistoleiro louco e afetado tantas vezes mostrado no cinema. Mas o perfil do ator Geoffrey Deuel não é dos mais apropriados. Remete aos manequins da década de 70 e não a um homem contemporâneo da conquista do Oeste.


No geral, o filme é frouxo. Não amarra a contento, num conjunto coerente, tudo o que mostra. Assim, a sequência da visita de Chisum a Búfalo Branco parece fora de lugar. Não diz a que veio. Também fica mal parado o encontro de Murphy com o oficial de cavalaria responsável pela guarda dos índios. Depreende-se que o especulador tentava controlar a remessa de alimentos para os peles-vermelhas, uma responsabilidade de Chisum. Mas isso não fica claro.



A imagem imponente de John Chisum (John Wayne) abre e encerra o filme de Andrew V. McLaglen


James Pepper (Ben Johnson)


A parte feminina do elenco, a cargo de Linda Day e Pamela McMyller, é frágil, apesar de pouco exigida. Glenn Corbett, na pele de Pat Garrett, é outro equívoco.


Herdeiros de gente famosa mostram a cara em Chisum: Chris Mitchum e Pedro Armendáriz Jr. são, respectivamente, filhos de Robert Mitchum e Pedro Armendáriz. Mas a maior curiosidade é Trinidad Villa (não creditado), dublê de John Wayne e figurante como ferreiro mexicano: é filho do líder revolucionário Pancho Villa, herói nacional do México.



J. S. Chisum (John Wayne) e  James Pepper (Ben Johnson)


Os intérpretes das duas crianças são os irmão Josh e Mary McLaglen, filhos do diretor. Não foram creditados.




Roteiro: Andrew J. Fenady, com base em história não creditada de sua autoria, Chisum and the Lincoln County Cattle War. Produção executiva: Michael A. Wayne. Direção de fotografia (Panavision, Technicolor): William H. Clothier. Direção de arte: Carl Anderson. Gerente de unidade de produção: Joseph C. Behm. Decoração: Ray Moyer, Irwin 'Eppy' Epstein (não creditado). Assistentes de direção: Fred R. Simpson, Harry S. Franklin (não creditado), Joe Nayfack (não creditado). Contrarregra: Ray Thompson. Efeitos especiais: Howard Jensen. Coordenador de transportes: George Coleman. Supervisão musical: Sonny Burke. Montagem: Robert L. Simpson. Maquiagem: Dave Grayson. Guarda-roupa: Michael J. Harte, Luster Bayless. Supervisão de script: Marshall J. Wolins. Fotografia fixa: Dave Sutton. Títulos: Larry Bees, Art Shinbo. Gravuras dos créditos: Russ Vickers. Música: Dominic Frontiere. Canções: Turn me around, de Dominic Frontiere (música) e Norman Gimbell (letra); Ballad of John Chisum, de Andrew J. Fenady (letra) e Dominic Frontiere (música). Intérprete das canções: Merle Haggard. Mixagem da trilha musical: Dan Wallin. Executivo no cargo de produtor: Joel Chernoff (não creditado). Diretor de segunda unidade: Emilio Fernández (não creditado). Som: John Ferguson (não creditado). Coordenação de dublês: Cliff Lyons (não creditado). Dublês (não creditado): Dick Bullock, Jim Burk, Joe Canutt, Tap Canutt, Eddy Donno, Jim Feazell, Chuck Hayward, Cliff Lyons, Gary McLarty, Hal Needham, Bob Orrison, Chuck Roberson, Henry Wills. Assistentes de câmera (não creditados): Richard Barth, Frederic J. Smith, Carl Gibson. Operador de câmera: George Gordon Nogle (não creditado). Eletricista-chefe: James V. Vajana (não creditado). Músico: Tommy Morgan (gaita/não creditado). Mixagem da trilha musical: Dan Wallin (não creditado). Coordenação do gado: 'Chema' Hernandez (não creditado). Tempo de exibição: 111 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1976; revisado em 2009)



[1] Atualmente, no Brasil, é conhecido como Chisum, uma lenda americana. Mas se chamou simplesmente Chisum quando estreou nos cinemas do país (nota da revisão de 2009).

4 comentários:

  1. Eugenio,

    Ano passado mandei buscar em SP uma copia do DVD Chisun, fita que havia visto há muito tempo e que gostara muito. Porém, a copia chegou quase que invisivel de imagens, o que me induziu a destrui-la de tanta ira.

    Não posso dizer muito desta fita diante de tudo o que diz, assim como da carreira do diretor, já que somente o vi trabalhando em faroestes.

    Mas concordo contigo em muitos aspectos sobre ele e seu trabalho, já que eu gostava dos filmes que ele fazia, claro que sem negar que o mesmo tentava muito imitar o Ford, principalmente naquelas brigas coletivas sempre promovidas por Ford nos filmes deste "grande criador de westerns" e que o Vitor tentava armar nos seus os mesmos movimentos. Só que era uma imitação pequena demais!

    Precisamos pontuar alguns defeitos do Andrew, isso não se pode evitar. No entanto precisamos também valorizar boas coisas que fez, como os westerns Desbravando o Oeste/67, Shenandoah/65 e O Preço de Um Covarde/68. estes foram sim bons westerns com interpretações perfeitas dos atores que os interpretaram. (Mitchum, Douglas, Stewart - em 2 deles)

    jurandir_lima@bol.com.br

    PS; o amigo sabia quem era o Governador do Novo Mexico na época de Bill Kid, e que até prometeu anistia ampla a Bill caso ele atendesse às condições do seu rendimento, mas que não cumpriu o prometido? Ele era o General Lew Wallace, o criador do famosissimo livro BEN HUR, que em 1959 o William Wyler transformou no maior espetáculo do cinema, fora outras versões anteriores..
    HUR.

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    1. Jurandir, caro;

      Bom dia.

      Começando pelo seu P.S.: não sabia dessa informação acerca do General Lee Wallace. Tinha-o apenas na conta de "megalomaníaco", segundo seus biógrafos. Mas nunca me aprofundei a respeito do personagem.Sabia também, claro, da autoria de "Ben-Hur". Agradeço pela informação.

      Em geral, aprecio esses westerns dirigidos pelo AVM, mencionados por você. Faz tempo que não os revisito. "Shenandoah" é, certamente, o melhor.

      Abraços.

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  2. Grande John Wayne, un gran actor, icono del cine. Se dice que siempre hacía de vaquero, pero cada uno de sus papeles presenta personalidades distintas. No es el mismo personaje en Centauros del desierto que en El dorado, por ejemplo.

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    1. De pleno acuerdo con usted, caro David Rubio. Wayne, cuando bien dirigido, era excelente. Usted se refirió a CENTAUROS DEL DESIERTO (el nombre de esta película en Brasil es RASTROS DE ODIO), en el cual él está excelente, en su mejor papel. Caben también acordar el despótico Thomas Dunson de RED RIVER, otro gande momento del actor. Faltan a muchos críticos por encima de todo generosidade y buena gana para ver los momentos en los cuales Wayne podría superarse.

      Abrszos, saudos e tudo de bom.

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