domingo, 26 de abril de 2015

O DISCRETO E DOLOROSO DRAMA PREMONITÓRIO DE BERTRAND TAVERNIER

Praticamente 20 anos antes dos espalhafatosos O Show de Truman (The Truman Show, 1998), de Peter Weir, e Ed TV (Edtv, 1999), de Ron Howard, o cineasta francês Bertrand Tavernier antecipava, discreta e dolorosamente, um dos mais problemáticos descaminhos da contemporaneidade ocidental: a exposição sem peias de dimensões da esfera privada em programas televisivos denominados interativos, dos quais o Big Brother Brasil é apenas um dos tristes exemplos. A morte ao vivo (La mort en direct/Death watch/Death watch - Der gekaufte tod, 1980) é adaptação da novela de ficção científica The continuous Katherine Mortenhoe ou The unsleeping eye, de David Compton. A personagem interpretada por Romy Schneider é doente terminal. Terá seus últimos e dolorosos dias devassados por um programa de televisão. Paralelo ao problema da dissolução da privacidade, o diretor apresenta questões agudas da atualidade como a banalização da morte e, consequentemente, da vida, sem esquecer a falência de instituições herdadas da consolidação do mundo moderno por processos como secularização do mundo e das consciências, Filosofia do Iluminismo, adoção da objetividade científica e revoluções políticas que geraram o Estado Nacional: Indivíduo, Identidade, Cidadania, Lei Objetiva e Impessoal, Espaço Público etc. A apreciação a seguir é de 1991.






A morte ao vivo
La mort en direct/Death watch/Death watch - Der gekaufte tod

Direção:
Bertrand Tavernier
Produção:
Elia Kfouri, Janine Rubeiz (não creditado)
Société Française de Production (SFP), TV13 Filmproduktion, Selta Films, Little Bear Films, Sara Films, Gaumont International, Antenne 2, TV 15, Films A2
França, República Federal da Alemanha, Inglaterra — 1980
Elenco:
Romy Schneider, Harvey Keitel, Harry Dean Stanton, Max Von Sydow, Therese Liotard, Caroline Langrishe, William Russell, Vadim Glowna, Eva Maria Meineke, Freddie Boardley, Robbie Coltrane, Julian Hough, Peter Kelly, Boyd Nelson, Billy Riddoch, Derek Royle, Ida Schuster, John Sheddon, Vari Sylvester, Jimmy Yuill, Paul Young, Jake D'Arcy (não creditado), Maureen Jack (não creditado), Bernhard Wicki, Carey Wilson (não creditado).



O diretor Bertrand Tavernier, cineasta e crítico



Indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlin de 1980, a seis prêmios César em 1981 e laureado com o Sant Jordi de Melhor Filme Estrangeiro em 1982, A morte ao vivo é, justa e acertadamente, dedicado ao diretor Jacques Tourneur. Este, ao lado de outros que honraram a história da sétima arte, está atualmente relegado ao olvido pelas recentes ondas modernizadoras da narrativa cinematográfica, nem sempre dignas de louvor, ainda mais quando significam tão somente banalização embutida em efeitos mirabolantes permitidos por tecnologias gráficas e informatizadas de última geração.


Aliás, a morte abordada em A morte ao vivo, mais que o falecimento físico do indivíduo, relaciona-se à vulgarização crescente de temas, questões e construções históricas permitidas e consolidadas pelas revoluções nas esferas políticas e do conhecimento, trazidas pela secularização do mundo e das consciências, Filosofia do Iluminismo e adoção da objetividade na pesquisa científica. Tais movimentos estão na origem da Modernidade ocidental e nas criações do Estado Nacional, Indivíduo, Identidade, Cidadania, Privacidade, Lei Objetiva e Impessoal, Espaço Público etc. Pode-se dizer que essas criações também são feridas de morte na realização de Bertrand Tavernier, à medida que o espectador conhece e descortina o drama de Katherine Mortenhoe (Schneider).


Romy Schneider interpreta Katherine Mortenhoe


Harvey Keitel interpreta Roddy

  
Katherine, programadora de livros, recebe do Dr. Mason (Russell) a notícia de que é incurável a doença que a aflige. Restam-lhe poucos e dolorosos dias de vida. Não sabe que estão ocultos no consultório, testemunhando o atendimento, Vincent Ferriman (Stanton) e Roddy (Keitel). Ferriman é o ambicioso e amoral executivo da N.T.V. — rede de televisão prestes a estrear o programa A morte ao vivo, cuja proposta é acompanhar e exibir todo o cotidiano de gente prestes a falecer, carregando nos aspectos mais mórbidos e sórdidos. Personagem interessante, emblemático e paradoxal é Roddy: sofre de fobia à escuridão e ingere inibidores de sono. Em sua retina é implantada uma microcâmera. Será, de certa maneira, o algoz de Katherine. Registrará os últimos momentos da enferma.


Não demora para a vida privada de Katherine chegar ao conhecimento público de forma a mais acintosa. Seu drama pessoal mobiliza a mídia. Antes mesmo de assinar contrato com a N.T.V. — recebe 500 mil dólares pelos direitos de transmissão —, tem a imagem exposta em outdoors que anunciam por todo canto a estreia do programa. Depois de relutar, cede às pressões da emissora. Com planos próprios, repassa a quantia ao marido Harry Graves (Glowna). Disfarçada, desaparece da ostensiva vigília do canal, mas por pouco tempo. É encontrada por Roddy, oculta em albergue católico. De imediato recomeçam as transmissões. Longe dos aparelhos de TV, Katherine não percebe o que ocorre. Roddy se acerca. Passa por amigo. Acompanha-a numa peregrinação por locais significativos da infância e juventude, o que a levará, apesar dos contratempos, ao encontro do primeiro marido, o recluso professor e musicólogo Gerald Mortenhoe (Sydow).

Harvey Keitel interpreta Roddy, acompanhante e, de certo modo, algoz de Katherine

Roddy (Harvey Keitel) e Katherine (Romy Schneider)

Gerald Mortenhoe (Max Von Sydow) e Katherine (Romy Schneider)


A narrativa é entremeada por paradoxos. As imagens, principalmente as externas, são fortemente iluminadas, uma claridade de tons dissolventes, fantasmagóricos. Em oposição está o temor à escuridão: da morte, que envolverá Katherine; da ausência de luz, próxima à cegueira, que atormenta Roddy. Mas a iluminação intensa tem outro propósito: lembrar ao espectador as origens do filme: a novela de ficção científica The continuous Katherine Mortenhoe ou The unsleeping eye, de David Compton. Aliás, a peça, na transposição às telas, não se revela tão ficcional: os cenários, bem contemporâneos, são condizentes com a antevisão da banalização que envolve inúmeras dimensões da esfera vital, já evidenciadas por ocasião das filmagens. As primeiras imagens mostram uma criança brincando num cemitério praticamente abandonado, o que parece traduzir a perda das dimensões reverenciais e sagradas da morte, consequentemente, da própria vida.



Roddy (Harvey Keitel) e Katherine (Romy Schneider)

Gerald Mortenhoe (Max Von Sydow) e Katherine (Romy Schneider)


Outros paradoxos revelam o descaso crescente com a dimensão pública e organização político-social. Passam praticamente despercebidos os dizeres de um cartaz: “Mantenha com vida os professores”. A noção de indivíduo, expressada pela ideia de autoria, também se dissolve como revela o próprio trabalho de Katherine: é programadora de livros, atividade que a restringe a alimentar com temas de interesse comercial as máquinas que escrevem no lugar dos verdadeiros escritores. Enquanto se assiste, às expensas da personagem de Schneider, ao falecimento da política e do indivíduo, amplia-se o interesse por devassas tão impiedosas quanto despudoradas da vida privada. O drama descortinado pela TV mobiliza as audiências, não porque o sofrimento alheio provoque solidariedade e comiseração, mas por ser apresentado como espetáculo que apazigua os sentimentos das massas no que estas possuem de mais mesquinho. Assim admite a atendente de supermercado, ao afirmar a vontade de chorar com o drama de Katherine. Condizente com esta tendência, há a declaração de Vincent Ferriman, de que o programa não o repugna: “A morte é a nova pornografia; é real, pois nos intimida”. Portanto, completa: deve ser exposta e explorada sem meias verdades. Assim ditam as leis do mercado desprovido de limites. Estes se perdem frente à força da vulgarização que governa aspectos e dimensões antes considerados significativos do viver. Pouco importam Katherine, sua dor e sentimentos. Tornam-se objetos explorados para o consumo fácil e imediato, servem à produção de comoções alheias. À protagonista só restam os consolos de medicamentos que mitigam dores físicas, não as da alma. Por sua vez, desprovido de espiritualidade, Roddy também os consome para permanecer acordado, sempre alerta no acompanhamento de um processo de falecimento e degradação. Só a perda da visão o levará à recuperação da humanidade. Em seguida descobre — e admite — como é bom cerrar os olhos e se entregar à escuridão do sono. Renega Ferriman e reencontra o próximo e o amor em Tracey (Lyotard). No mundo exposto em A morte ao vivo, o melhor, talvez, é perder a visão, fechar-se à banalização e à superexposição para, paradoxalmente, voltar a enxergar.


Katherine Mortenhoe (Romy Schneider) e Roddy (Harvey Keitel)


Mas não há alternativas para Katherine. Mesmo descoberto o erro médico que a condenou, não terá mais controle sobre a própria vida depois de submetida ao experimento da N.T.V. Só recuperará a autonomia e resguardará a autoestima pelo recurso extremo da morte. Longe de tudo e todos, inclusive das devassadoras lentes televisivas, deixa-se morrer pela ingestão massiva dos medicamentos receitados. Por concessão do ex-marido, acompanha-a apenas o fundo musical que comenta seu último ato: a audição em alto som da peça medieval de Robert De Bauleac, recentemente recuperada e reconstituída. Desta forma, Tavernier parece informar que a contemporaneidade descarrilada precisa reencontrar seus fundamentos iluministas e libertários, atropelados pelas ondas de instrumentalização das esferas vitais. Mas, poderia perguntar o espectador — sabendo que Tavernier apresentaria a mesma interrogação: objetivamente, quais fundamentos? A resposta, provavelmente, reside na escolha da composição de De Bauleac — um personagem fictício, mas protagonista de um tempo que oculta as raízes descoladas do viver hodierno. A peça a ele atribuída é de Antoine Duhamel, autor da trilha musical de A morte ao vivo. Interessante é que muitos espectadores movidos pelo filme, mas desinformados, acorreram às lojas em busca de gravações de um certo Robert De Bauleac.






Roteiro: David Rayfiel, Bertrand Tavernier, baseados na novela The continuous Katherine Mortenhoe ou The unsleeping eye, de David Compton. Diálogos alemães: Géza Von Radvánvi. Direção de fotografia (Eastmancolor): Pierre-William Glenn. Música original: Antoine Duhamel. Desenho de produção: Anthony Pratt. Maquiagem: Paul Le Marinel. Penteados: Jean-Max Guérin. Figurinos: Judy Moorcroft. Montagem: Michael Ellis, Armand Psenny. Produção executiva: Jean-Serge Breton. Casting: Mary Selway. Co-produção: Bertrand Tavernier. Assistentes de direção: Jean Achache, Trudy von Trotha, David Haubenstock (não creditado). Segundo assistente de direção: Charlotte Trench. Estagiário de assistente de direção: Jean-Louis Ulan. Som: Michel Desrois. Direção de arte: Bernd Lepel. Gerente de produção: Louis Wipf. Delegado de produção: Gabriel Boustiani. Produção associada: Sigmund Graa, Georg M. Reuther, Renzo Rossellini (não creditado). Gerente de unidade de produção: Iain Smith. Contra-regra: Terry Dalzell. Assistente de direção de arte: John Hoesli. Edição de som: Catherine Kelber. Ruídos de sala: Jean-Pierre Lelong. Assistente de som: Dominique Levert. Pós sincronização de som: Catherine Leygonie, Jacqueline Porel. Mixagem de som: Claude Villand. Iluminação: Jacques Arhex. Ferramenteiro: Albert Bonomi. Segundo assistente de camera: Michael Coulter. Assistente de câmera: Pascal Lebègue. Eletricista-chefe: Rene Rochera. Operador de câmera: Jean-Claude Vicquery. Fotografia fixa: Georges Pierre (não creditado). Guarda-roupa: Nadia Arthur, Monique Dury. Assistente de figurinos: Inge Heer. Assistentes de montagem: Sophie Cornu, Luce Grunenwaldt. Composição da canção-título (For the love of the golden city): Roger Mason. Direção musical: Harry Rabinowitz. Secretaria de produção: Marianne Devis, Nicole Souchal. Administração: Anne-Marie Otte, Silvain Samama. Continuista: Alice Ziller. Equipamentos de câmera: Alga-Samuelson. Equipamentos elétricos: Transpalux. Tempo de exibição: 120 minutos (8 minutos eliminados pela distribuidora).


(José Eugenio Guimarães, 1991)

2 comentários:

  1. Eugenio,

    V muitos poucos filmes com a Romy, atriz que também não teve uma carreira pontuada de muitos trabalhos.

    No entanto, andei lendo algo sobre sua vida atribulada, como a perda de um filho, doenças, alcool e drogas, o que lhe arrastou deste mundo muito cedo.

    Era belissima, uma jovem com face angelical e que nasceu para o cinema com a trilogia Sissi, que vi ainda garoto e fiquei encantado com, não apenas somente sua lindeza pessoal, mas com a qualidade dos filmes, com uma fotografia a cores dentro dos naturais padrões dos filmes Europeus da época, do tipo de Angélica, A Marquesa dos Anjos, com a estonteante Michele Mercier.

    Andei vendo mais alguns filmes da "Sissi", como todos da época passou a conhece-la, como A piscina, do qual nada me lembro, a não ser que foi ao lado de sua eterna paixão, o Alain Delon.

    Infelizmente o filme da pauta eu não conheço, porém seu tema é por demais interessante e já fico imaginando a interpretação desta grande atriz, uma mulher sem muita felicidade e que nos deixou cedo demais, porém de fortes recursos diante das câmeras.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Jurandir,

      Caso tenha familiaridade com o processo de baixar filmes por computador, cole este link na sua barra de navegação e poderá fazer o download de "Morte ao vivo":

      La Mort en direct (1980)[BRRip.720p.x265-HEVC.AC3][Lektor PL][Eng].

      Abraços.

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