domingo, 1 de março de 2015

PHIL KARLSON DEMONSTRA VIGOR E COMPETÊNCIA NO 'B' "RATOS HUMANOS"

O promotor Lloyd Hallett (Edward G. Robinson) tenta tirar de circulação o gângster Benjamin Costain (Greene). Seu último trunfo é o testemunho da presidiária Sherry Conley (Ginger Rogers). Em torno dela se desenrolam os acontecimentos de Ratos humanos (Tight spot, 1955). É realização de pegada noir, intensamente dialogada e praticamente ambientada nos reduzidos espaços de um quarto de hotel. O tom claustrofóbico obriga os atores a intensa interação. Este é o ponto alto deste filme de baixo orçamento que nada fica a dever em vigor e dinamismo aos congêneres desenvolvidos com aportes financeiros mais generosos. O diretor Phil Karlson sempre transitou nas produções 'B', geralmente westerns, criminais e suspense. Preferia as temáticas cruas, levadas a termo com a rapidez e fluência do melhor jornalismo policial, como Ratos humanos. Pena que filmes assim — econômicos, dinâmicos e sem firulas — não sejam mais realizados. Duro é acreditar que a personagem interpretada por Ginger Rogers seja uma jovem com a metade da idade que tinha a atriz no momento da realização. Mas Billy Wilder já a deixou em situação parecida com A incrível Suzana (The major and the minor), realizado 13 anos antes.






Ratos humanos
Tight spot

Direção:
Phil Karlson
Produção:
Lewis J. Rachmil
Columbia Pictures
EUA — 1955
Elenco:
Ginger Rogers, Edward G. Robinson, Brian Keith, Lucy Marlow, Lorne Greene, Katherine Anderson, Allen Nourse, Peter Leeds, Doye O'Dell, Eve McVeagh e os não creditados Dean Cromer, Tom De Graffenreid, Kevin Enright, Frank Gerstle, Kathryn Grant, Tom Greenway, Joseph Hamilton, Ed Hinton, Bob Hopkins, Norman Keats, John Larch, Alfred Linder, John Marshall, Ken Mayer, Edward McNally, Patrick Miller, Robert Nichols, Erik Page, Bill Raisch, Alan Reynolds, Robert Shield, Gloria Ann Simpson, Helen Wallace, Will J. White, John Zaremba.



O diretor Phil Karlson (à esquerda) - com os atores Dean Martin e Sharon Tate - nos bastidores de seu Arma secreta contra Matt Helm (The wrecking crew, 1968)


Ratos humanos é filme ‘B’ de padrão ‘A’ dirigido por um especialista. Alguns o consideram a melhor realização de Phil Karlson, também lembrado pela categoria que imprimiu a outros trabalhos menores como Pista cruenta (The Iroquois trail, 1950), O manto da morte (The Texas Ranger, 1951), Os quatro desconhecidos (Kansas City confidential, 1952), Traição heróica (They rode West, 1954), Cidade do vício (The Phoenix City story, 1955), Talhado para campeão (Kid Galahad, 1962), Fibra de valente (Walking tall, 1973) e Madrugada da vingança (Framed, 1975).
                                             

Karlson começou carreira cinematográfica na Universal, nos anos 30, fazendo de tudo um pouco. Envolveu-se tão seriamente com a atividade a ponto de esquecer o curso de Direito. Antes de se tornar diretor foi montador, criador de piadas para Buster Keaton, assistente de direção nas comédias de Abbott & Costello e nos westerns em série estrelados por Tom Mix em fim de carreira. A estreia na direção aconteceu em 1944, na diminuta Monogram, com a comédia A wave, a WAC and a marine. Realizou outros 13 filmes para a companhia. Daí em diante se consolidou nos B movies, de preferência em westerns, policiais e filmes de suspense. Segundo afirmou, preferia as temáticas cruas, que frequentavam as páginas de crime dos jornais. Conheceu o auge nos anos 50. Na década seguinte dirigiu Dean Martin em O agente secreto Matt Helm (The silencers, 1966) e Arma secreta contra Matt Helm (The wrecking crew, 1968), tentativas mal sucedidas de aproveitar o sucesso de James Bond.



O policial Vince Striker (Brian Keith) e o promotor  Lloyd Hallett (Edward G. Robinson)


Ginger Rogers, 44 anos, distante do período em que conheceu o sucesso nos musicais em parceira com Fred Astaire, interpreta Sherry Conley em Ratos humanos. Em torno dela se desenrolam os acontecimentos nesse filme de pegada noir, intensamente dialogado e praticamente ambientado em interiores, principalmente nos reduzidos espaços de um quarto de hotel. O tom claustrofóbico obriga os atores a uma intensa interação. Nesse jogo, Ratos humanos apresenta o que tem de melhor, mesmo sendo difícil fazer de conta que a personagem de Rogers tenha 20 anos menos que a idade declarada da atriz.


Ginger Rogers é a jovem presidiária e testemunha Sherry Conley


Sherry (Ginger Rogers) escoltada por Willoughby (Katherine Anderson) e  Vince (Brian Keith)

 Sherry Conley (Ginger Rogers) e Lloyd Hallett (Edward G. Robinson)

  
Apesar de jovem, Sherry Conley acumula experiência. Segundo conta, aprendeu cedo a conhecer a vida: aos 16 anos, como modelo. Não tardou a dar o mau passo e se perder, envolvendo-se com a gang do mafioso Benjamin Costain (Greene), alvo da investigação do promotor Lloyd Hallett (Robinson), que pretende deportá-lo. Difícil é reunir testemunhos. O último, Pete Tonelli (Alfred Linder – não creditado), sob proteção policial, foi assassinado ao entrar no tribunal. Com essa morte, precedida de rápidas explicações, o filme começa de maneira eficaz e vibrante. É exemplo do que se pode fazer com poucas tomadas à base de planos condensados encadeados com rapidez.


Sem Tonelli, Hallett apela para a presidiária Sherry Conley. Sob escolta policial, é retirada da prisão e levada a um quarto de hotel no qual terá a companhia de Willoughby (Anderson) — agente penitenciária boa praça e mãe dedicada, que goza da estima de Sherry — e Vince Striker (Keith) — detetive de traços duros, poucas palavras e dúbio segundo a boa cartilha do noir. Rolará, evidentemente, uma atração entre a irrequieta e “faminta” personagem de Rogers e Striker.



 Vince Striker (Brian Keith) e Sherry Conley (Ginger Rogers)


Inutilmente, Hallett tenta convencê-la a depor contra o gângster. Apelos ao civismo e à boa consciência da jovem não funcionam, nem benefícios como a redução da pena. Sherry se mantém fiel ao próprio lema: “Não seja voluntária, para nada!”. Ainda mais com o risco de ser assassinada.


Edward G. Robinson (à direita) como o promotor Lloyd Hallett


Mas Costain conta com ampla rede de informações, inclusive na polícia. Sabe que seguro morreu de velho. Prefere não se arriscar com Sherry. Tenta eliminá-la quando estava a caminho do hotel. A segunda tentativa também falha, graças à intervenção de Striker. Na troca de tiros Sherry sai ferida superficialmente. Mas a generosa Willoughby é mortalmente atingida.



Sherry (Ginger Rogers), Willoughby (Katherine Anderson) e  Vince (Brian Keith)


A morte de Willoughby abala as convicções de Sherry. Mas será um “golpe” de Hallett que a convencerá terminantemente a depor: a visita da irmã Laura (McVeagh). Procura-a por motivos inteiramente egoístas. Em nome deles, tenta convencê-la a não testemunhar. É a gota que faltava! A sequência do diálogo áspero entre as irmãs é um dos trunfos de Ratos humanos. Outro bom momento é a dança da carente Sherry com Striker. Mais adiante, a dubiedade do detetive fica clara. Está na folha de pagamento de Costain. Se não pode colaborar de pronto na eliminação da testemunha, foi por falta de condições que não o incriminassem. Nos momentos finais, aturdido pela crise de consciência, morre ao salvar Sherry de mais um atentado. Striker cumpre, dessa forma, a trajetória moral que o conduz do pecado à redenção, mesmo pagando preço alto.


Brian Keith é o policial Vince Striker

  
Ratos humanos permite boa fruição. É bem conduzido. A direção soube aproveitar, inclusive com humor, a tensão que emana do embate de personagens confinados em espaços reduzidos. As interpretações são afinadas, mesmo com Ginger Rogers não conseguindo disfarçar que é muito mais velha que sua personagem. Mas a narrativa poderia conter menos previsibilidade. O espectador atento, habituado aos clichês, reconhece o andamento no qual uma sequência ou uma fala permitem antecipar os movimentos seguintes. Apesar disso, cabe lamentar que filmes assim — econômicos, dinâmicos e sem enfeites — não sejam mais produzidos. 






Roteiro: William Bowers, com base na peça Dead pigeon, de Leonard Kantor. Música: George Duning. Direção de fotografia (preto-e-branco): Burnett Guffey. Montagem: Viola Lawrence. Direção de arte: Carl Anderson. Decoração: Louis Diage. Figurinos: Jean Louis. Maquiagem: Clay Campbell. Penteados: Helen Hunt. Assistente de direção: Milton Feldman. Som: Lambert E. Day. Supervisão de regravação de som: John P. Livadary. Orquestração: Arthur Morton. Direção musical: Morris Stoloff. Sistema de mixagem de som: RCA Sound Recording. Tempo de exibição: 97 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2012)

4 comentários:

  1. Eugenio,

    Assisti a muitas fitas sob o comando do Karlson.
    Que me recorde a primeira delas foi Sangue de Pistoleiro/58, com o Van Heflin e o Tab Hunter como seu filho desajustado e que termina morto pelo próprio pai.

    Um bom western, como foram satisfatórios dois outros trabalhos do mesmo; Fibra de Valente/73, acredito que este uma fita policial, com um xerife durão e, se não me engano, era o jovem Joe Don Baker no papel principal, e Talhado para Campeão/62, com o Presley.

    Foi um criador de um nivel bem médio. Mas, como dizes na postagem, sempre trabalhando com parcos recursos e, ainda assim, criando sempre peliculas que quase nunca desapontavam.

    Não vi ao filme do Phil com o Robinson e o Keith. Porém, como citas, ele criou uma fita B com qualidade profissional de uma A.
    Normalmente diretores como o Karlson são daqueles que conseguem ou ajeitar um roteiro sem qualidade ou uma falta de verbas necessária para criar um bom cinema, mas que, com seu status de bom realizador, sempre conseguia superar estas dificuldades.

    E fitas feitas quase que somente dentro de um ambiente são, regra geral, de dificil condução e que precisa se ter muito jogo de cintura para não deixa-la monotear.

    E assim como o Karlson conseguiu esta proeza, o William Willer também a conseguiu, e com louvor máximo, realizar a Chaga de Fogo quase que apenas no ambiente mórbido de uma delegacia.

    Não sei se outro diretor conseguiria a façanha do Wyler, que foi construir uma fita como aquela quase que 100% num único ambiente. Ato que repetiria em 1955, mesmo ano que o Karlson no seu Ratos Humanos, fazer mais uma vez uma fita alocada quase que somente com um set, que foi Horas de Desespero.

    Acredito muito que quando um diretor cria algo perfeito assim dentro de tantas dificuldade, que o elenco aportado para a criação do filme é de alta qualidade e que lhe deu muito suporte, como todos os filmes citados.

    Um tanto quanto diferente da alta potencialidade do Wyler, o Karlson, na sua moderada competencia sempre conseguiu nos entregar filmes que sempre nos enchiam de alegria pelo vigor de sua composição.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Caro Jurandir,

      Registrou muito bem o que há a dizer sobre o modesto mas competente Phil Karlson. Creio que cineastas assim, que conheciam bem os limites de suas capacidades, fazem falta ao cinema de hoje. Era um bom contador de histórias. Encenava bem as narrativas. Dirigiu 61 filmes desde que se lançou na carreira, em 1944, até concluí-la, em 1975. De certa forma, sabia dar conta de tudo que lhe caía em mãos. Dele, vi apenas os títulos aos quais faço referência na postagem. É pouco para dar conta da carreira de um cineasta. Está praticamente esquecido, o Karlson, infelizmente. Antes, tínhamos a televisão para ver os seus filmes. Agora, nem isso, diante da ruína geral, mediocridade mesmo, que tomou conta das programações de nossas emissoras, ainda mais da rede Net/Sky, reduzida ao nível de lixo. Nem os filmes de um cineasta de maior porte, como o Willyam Wyller que bem lembrou, são mais exibidos. Algo a lamentar.

      Abraços.

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  2. Eugenio,

    Somente a lamentar mesmo, nada mais

    jurandir_lima@bol.com.br

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