domingo, 17 de fevereiro de 2013

O WESTERN AO ‘DEUS DARÁ’ DE J. LEE THOMPSON

Lógica alguma decide a apreciação da vez neste blog, que não a ilogicidade do sorteio. Números dispersos ‘pelo tabuleiro’ organizam a escolha. Até o momento, a boa sorte indicou textos acerca de filmes no mínimo aceitáveis e instigantes. Agora, o azar elegeu uma das mais vagabundas produções: O ouro de Mackenna (Mackenna’s gold, 1969), de J. Lee Thompson. Então, está bom! Assim seja! Espero manter o padrão do acaso quando o eleito versar sobre alguma aventura de Maciste, um western spaghetti de fundo de quintal ou seu similar feijoada, uma comédia com Lando Buzzanca, até um Jesse James contra Drácula, coisas às quais assistimos somente na inocência da infância ou quando tomamos a estúpida decisão racional de vê-las com o objetivo de criticar com base.








O ouro de Mackenna
Mackenna's Gold

Direção:
J. Lee Thompson
Produção:
Carl Foreman, Dimitri Tiomkin
Columbia Pictures Corporation, Highroad Productions
EUA - 1969
Elenco:
Gregory Peck, Omar Sharif, Telly Savalas, Camilla Sparv, Keenan Wynn, Julie Newmar, Ted Cassidy, Lee J. Cobb, Raymond Massey, Burgess Meredith, Anthony Quayle, Edward G. Robinson, Eli Wallach, Eduardo Ciannelli, Dick Peabody, Rudy Diaz, Robert Phillips, Shelley Morrison, Robert Porter, John Garfield Jr., Pépe Callahan, Madeleine Taylor Holmes, Duke Hobbie, Victor Jory e o não creditado Trevor Bardette.



O diretor J. Lee Thompson



J. Lee Thompson me forneceu inesquecíveis momentos de prazer durante a infância. Deliciou-me, dos 8 aos 12 anos, com a aventura Taras Bulba, o cossaco (Taras Bulba, 1962), a comédia A guerra no harém (John Golfarb, please come home, 1964) e o drama bélico Os canhões de Navarone (The guns of Navarone, 1961). Dele ainda vi, em 1971, mal entrando na adolescência, o assustador — ao menos para a época — Círculo do medo[1] (Cape fear, 1961).


Jamais revi algum desses filmes. Aliás, para evitar decepções é melhor não revê-los. Não depois de ser tardiamente exposto às imagens de O ouro de Mackenna, western tão ambicioso como malfadado, rodado em esplendorosos cenários naturais dos EUA: Grand Canyon, Chelly National Monument, Glen Canyon National Recreational Area, Mesas Hopi, Kanab, Flagstaff, Snow Canyon, Johnson Cayon, Rogue River e — sacrilégio dos sacrilégios — o fordiano[2] Monument Valley.



Poucos filmes conseguem ser tão ruins. O ouro de Mackenna é, em tudo, deplorável. As interpretações são constrangedoras; os diálogos, risíveis; os efeitos especiais, primários; o roteiro, equivocado; a montagem, desastrosa; as backprojections, abomináveis; a direção, inexistente. Até o Sol lança sombras impossíveis no meio de tanta catástrofe. De uma hora para outra a história fica entulhada de gente, interpretada, inclusive, por atores famosos e respeitáveis como Keenan Wynn, Lee J. Cobb, Raymond Massey, Burgess Meredith, Anthony Quayle, Edward G. Robinson e Eli Wallach. O espectador, abestalhado, chega a pensar que vai assistir a uma gigantesca cavalgada, capaz de levantar toda a poeira do Oeste. Ledo engano. A multidão logo desaparece. Sequer teve tempo para esquentar os assentos tomados no chão. É abatida por Apaches ciosos na guarda de seu cobiçado e sagrado patrimônio, por ambiciosos soldados da cavalaria, pelos companheiros ou tragada pelos muitos acidentes geográficos espalhados pelo caminho. Sobrevivem o bandido Colorado (Sharif), o xerife Mackenna (Peck), o sargento Tibbs (Savalas), a perigosa e enciumada índia Hesh-Ke (Newmar[3]), a insossa mocinha Inga (Sparv) e o guerreiro Hachita (Cassidy). Somente estes bastam para pagar, em tempo quase integral, um dos maiores “micos” de toda a história do cinema, se bem que somente três chegam vivos ao final da história. J. Lee Thompson, pelo visto, matou mais gente que o terremoto bolado por Janet Clair para aliviar a confusão que tomou conta da trama da novela Anastásia, a mulher sem destino, escrita por Emiliano Queiroz e exibida pela TV Globo em 1967.



Mackenna (Gregory Peck)

Colorado (Omar Sharif)

Mackenna (Gregory Peck) e Colorado (Omar Sharif)


A Columbia Pictures arriscou perto de 100 milhões de dólares na produção de O ouro de Mackenna. Recuperou, quando do lançamento, apenas a quinta parte disso. Pretendia um filme com três horas de duração e exibição em Cinerama. A produção ficou por conta do blacklisted[4] Carl Foreman, também roteirista, e de Dimitri Tionkim — um dos mais renomados compositores do cinema estadunidense, que deve ter amargado, até o fim dos seus dias, o desvio de função a que se submeteu. As filmagens aconteceram em 1967, mas o filme só ficou pronto para lançamento dois anos depois. Nesse meio tempo a Columbia pisou no freio. Substituiu o Cinerama pelo Super Panavision 70 mm e deixou o tempo de exibição em 128 minutos. Para o público não se perder, devido aos furos deixados pela brutal abreviação da trama, apelou ao recurso da narração explicativa na voz do ator Victor Jory.


Mackenna (Gregory Peck) e Cão da Pradaria (Eduardo Ciannelli)


A história se passa em 1874, no Arizona. O xerife Mackenna, ex-garimpeiro que passou anos procurando inutilmente uma mítica montanha de ouro situada em terras apaches, depara-se com o mapa indicativo do local, protegido por velho e moribundo índio Cão da Pradaria (Ciannelli). Colorado e seu bando também procuram o tesouro. Ao saber que Mackenna memorizou o mapa antes de queimá-lo, o bandido toma-o como guia. Integra o grupo a refém Ingá. A jornada é demorada, pontuada de percalços. Ao acompanhá-la, o espectador é submetido a um show de péssimas interpretações. Gregory Peck, visivelmente contrariado, lembra o personagem do Capitão Ahab, que incorporou em Moby Dick (Moby Dick, 1956), de John Huston. Omar Sharif, excessivamente histriônico, parece uma imitação barata do bandido Joe Erin, vivido por Burt Lancaster em Vera Cruz (Vera Cruz, 1954), de Robert Aldrich. Camila Sparv é um peso morto. Salvam-se, de certo modo, Telly Savalas e Julie Newmar.


Sargento Tibbs (Telly Savallas), Mackenna (Gregory Peck)  e Colorado (Omar Sharif)


Para localizar a posição correta da montanha de ouro, é fundamental a ajuda do Sol. Assim que nasce, o astro-rei comete o despautério de projetar, a partir de um pináculo rochoso, uma sombra sem tamanho, que se alonga com rapidez impressionante. De repente, o espectro para, inexplicavelmente. Até parece que o planeta deixou de girar ou o Sol pensou que havia algo de errado. Afinal, sombra DAQUELE tamanho e NAQUELA direção só poderia ser projetada no meio da tarde, nunca pela manhã.


Sargento Tibbs (Telly Savallas)

Inga Bergerman (Camilla Sparv)


O tesouro é encontrado. O brilho do ouro é tão intenso a ponto de fazer crer que foi usada tinta dourada das mais reluzentes para tingir a parte da montanha que exibe os veios. Mas alegria de pobre dura pouco. Os apaches entram em cena. Cavalgam aceleradamente em volta do vale, provocando um terremoto que sepulta, sob toneladas de rocha, a riqueza tão cobiçada. Com exceção do Sargento Tibbs e de Hachita, morto a flechas, o primeiro, e a tiros, o segundo, aos demais só resta a opção da fuga desesperada para evitar o fatal soterramento. Apresentam-se, então, sequências de humor involuntário, provocadas pela ruindade dos efeitos especiais e das backprojections. Nem no começo do cinema, quando os recursos técnicos ainda engatinhavam, viam-se momentos tão constrangedores. Os épicos italianos sobre os míticos Maciste, Hércules e Mongol — de tão triste memória — são menos risíveis. A movimentação de terra por conta do terremoto parece obra de um minhocuçu agitado por conta de seus movimentos peristálticos. Na fuga, Hesh-Ke morre. Vai ver, foi punida pela ousadia de nudez (insólita para um western) que apresentou num breve momento bucólico da história. Sofreu morte injusta e machista, pois Omar Sharif também se deixou mostrar parcialmente nu na mesma sequência e acabou poupado.


Hesh-Ke (Julie Newmar)


Clint Eastwood foi cogitado para o papel de Mackenna. Por sorte, estava comprometido com as filmagens de A marca da forca (Hang ‘em high, 1968), de Ted Post. Azar de Gregory Peck, que serviu de piloto à nau frágil e desgovernada de O ouro de Mackenna.


Salvam-se, incólumes, a direção de fotografia de Joseph MacDonald e a trilha musical de Quincy Jones, indicada ao Grammy da categoria em 1970.





Roteiro: Carl Foreman, baseado na novela de Will Henry. Música: Quincy Jones. Canção-tema: Old Turkey Buzzard, de Quincy Jones, interpretada por José Felciano. Direção de fotografia (Technicolor, Panavision): Joseph MacDonald. Montagem: Bill Lenny. Desenho de produção: Geoffrey Drake. Direção de arte: Geoffrey Drake, Cary Odell. Decoração: Alfred E. Spencer. Figurinos: Norma Koch. Penteados: Virginia Jones. Gerente de produção: Ralph E. Black. Assistente de direção: David Salven. Segundo assistente de direção: Tom Shaw. Carpintaria: Eugene J. Reed (não creditado). Combinação estereofônica de sons: John Blunt, pela Cine Tele Sound; Bob Jones, por Shepperton Studios. Assistente de edição de som: Peter Bond. Supervisão de som: Derek Frye. Edição de som: Jeanne Henderson, Bill Taylor (não creditado). Unidade de gravação de som: William Randall Jr. Som: John Blunt (não creditado), Bob Jones (não creditado). Gravação de ruídos: Tony Dawe (não creditado). Efeitos especiais: Daniel Hays (não creditado). Efeitos especiais visuais: Lawrence W. Butler, Geoffrey Drake, John Mackey, Willis Cook e Bob Cuff, pela Abacus Productions Ltd. Pintura matte: Joy Cuff (não creditado). Coordenação de dublês: Robert 'Buzz' Henry. Dublês (não creditados): May Boss, Buff Brady, Jim Burk, Steven Burnett, Joe Canutt, Fred Dale, Pete Dunn, Jeannie Epper, Bob Herron, Terry Leonard, Neil Summers, Buddy Van Horn, Jack Williams. Fotografia adicional: Donald C. Glouner, John Mackey, Richard Moore. Fotografia da segunda unidade: Harold E. Wellman. Operador de câmera: Emil Oster (não creditado). Associados à montagem: Donald Deacon, John F. Link, Raymond Poulton. Primeiro assistente de montagem: Lois Gray. Orquestração: Jack Hayes, Leo Shuken, Leo Arnaud (não creditado), Gus Levene (não creditado). Motoristas (não creditados): Gene Clinesmith, Frank Khoury. Instrutor de diálogos: Bobby Hoffman (não creditado). Companhia de efeitos especiais: Abacus Productions Ltd. Companhias de combinação estereofônica de som: Cine Tele Sound, Shepperton Studios. Agradecimentos à: International Alliance of Theatrical Stage Employees, The United States Department of Interior, National Park Service. Palco de som: Sunset Gower (não creditado). Tempo de exibição: 128 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2013)



[1] Cape fear foi refilmado por Martin Scorsese em 1991. Foi intitulado como Cabo do medo no Brasil.
[2] Alusão ao diretor John Ford, a quem se devem os melhores registros cinematográficos do Monument Valley.
[3] Julie Newmar é a mais famosa intérprete da Mulher Gato no seriado de TV dos anos 60 Batman, o homem morcego, estrelado por Adam West (Batman/Bruce Wayne) e Burt Ward (Robin/Dick Grayson). Ela dividia o papel com as atrizes Eartha Kitt e Lee Meriwether.
[4] Carl Foreman, roteirista de Matar ou morrer (High noon, 1952), de Fred Zinnamann, foi perseguido pelo Comitê de Investigação de Atividades Anti-Americanas no começo dos anos 50. Acusado de simpatizante do comunismo, foi posto na lista negra dos estúdios e impedido de trabalhar. Buscou exílio na Inglaterra.




9 comentários:

  1. Realmente foi um grande desperdício de elenco e cenários. Filme facilmente esquecível, que eu tenho na minha coleção de faroestes somente pelos atores. Nem lembrava que Julie Newmar (Catwoman) participava. hehehe

    Ary Ximendes

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    1. De fato, Ary Ximendes.

      O pior, no meu caso, foi que me preparei todo para ver este filme tão tardiamente. Quebrei a cara em grande estilo.

      Abraços.

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  2. O ator mais à vontade no filme foi o urubu-rei (turkey-buzzard, da música cantada por José Feliciano) que apareceu na primeira cena. Taras Bulba foi agradável de ver, novamente, e bem assim os Canhões de Navarone - com roteiro de Foreman, e boas interpretações de Peck, Anthony Quinn, Anthony Quayle e Irene Papas. Foreman costumava ser um bom roteirista. Dir-se-ia que, com este filme, ele e Thompson talvez tivessem embarcado numa bebedeira...

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    1. Ricardo,

      A visão tardia que lancei sobre "O ouro de Mackenna", fez-me temer qualquer revisão de J. Lee Thompson. Aliás, acredito que explicitei esse temor no comentário. Sei que não pode ser assim, ainda mais porque gostei muito de alguns títulos dirigidos por ele, dentre os quais os listados por você. Vibrei com "Os canhões de Navarone" e "Taras Bulba", apavorei-me com "O círculo do medo". Mas "O ouro de Mackenna" é um porre descontrolado do início ao fim.

      Abraços.

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  3. Não conheço o filme, mas vou procurar assistir para saber o que eu acho dele, curti seu blog, parabéns.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

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    1. Olá, Arthur Claro.

      Grato por sua participação. Desculpe-me pela demora da resposta. Nem sempre a gente se vê diante de tempo hábil. Espero que tenha encontrado o filme. Gostaria de saber o seu parecer. O meu blog é simples e destina-se quase exclusivamente à exposição de minhas relações com os filmes que assisti e venho assistindo.

      Forte abraço.

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  4. Olá, José!

    Ainda não assisti (e nem sei se tenho coragem, depois de tantas críticas negativas em torno dele). Mas seu comentário que me arrancou boas risadas. Pelo menos para isso esse filme serve, rs...

    Um abraço!

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    1. Olá, Thomaz;

      O filme é ruim demais da conta! Também me arrancou muitas risadas involuntárias. Por causa disso, procurei elaborar uma apreciação bem humorada. Ao menos para isso essa porcaria de "O ouro de Mackenna" deve servir. Mas não fique preso ao que escrevi. Faça a sua própria avaliação após assistir, também, ao filme de Thompson. Participe desta ruindade. Coragem, vamos!

      Abraços.

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  5. Olá
    Assisti várias vezes este filme
    Sempre achei que G.Peck não vestiu a pele do personagem .
    Lendo seu comentário cheguei a conclusão que o roteiro não vestiria nem Clint .
    Obrigadooo
    Excelente publicação

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