domingo, 20 de janeiro de 2013

DE JOHN A JOHN: ALAN LeMAY PÕE HUSTON EM CAMPO DE FORD

John Huston pretendia, com O passado não perdoa (The unforgiven, 1959), realizar um western atípico, que expusesse o racismo entranhado nas comunidades puritanas instaladas nas zonas fronteiriças dos Estados Unidos. Infelizmente, suas intenções foram sabotadas pelos produtores. Mesmo assim, merece ser visto. O passado não perdoa está apoiado em obra de Alan LeMay. É também o autor da história que deu origem ao roteiro de Rastros de ódio (The searchers, 1956), de John Ford. Há nítidos pontos de contato entre os dois filmes, como explicita a apreciação que segue.






O passado não perdoa
The unforgiven

Direção:
John Huston
Produção:
James Hill
United Artists, James Productions, Hetch-Hill-Lancaster
EUA - 1959
Elenco:
Burt Lancaster, Audrey Hepburn, Audie Murphy, Doug McClure, John Saxon, Lillian Gish, Albert Salmi, Charles Bickford, Joseph Wiseman, June Walker, Kipp Hamilton, Arnold Merritt, Carlos Rivas.



John Huston


O passado não perdoa, primeiro dos dois westerns[1] dirigidos por John Huston, pertence ao seu período mais problemático, marcado por obras frustradas em suas intenções, algumas em decorrência de desentendimentos com produtores. A temporada de baixa vai de 1958 ao início dos anos 70. Começa com a descaracterização, na montagem, de O bárbaro e a gueixa (The barbarian and the gueixa), perpetrada pela 20th Century-Fox e por John Wayne. Do mesmo ano, Raízes do céu (The roots of heaven) tem a produção conturbada por dificuldades logísticas e problemas físicos decorrentes dos esforços excessivos exigidos dos atores submetidos às altas temperaturas e enfermidades nas locações africanas. Após O passado não perdoa, Huston reencontra a boa forma com Os desajustados (The misfits, 1961), Freud além da alma (Freud, 1962) e A noite do iguana (Nigh of the iguana, 1966). Mas flerta perigosamente com o fracasso na comédia de mistério A lista de Adrian Messenger (The list of Adrian Messenger, 1963); na ambiciosa superprodução de Dino de Laurentiis, A Bíblia (The Bible... in the beggining, 1966); na enfadonha brincadeira com James Bond, Cassino Royale (Casino Royale, 1967)[2]; e no intrincado e irregular thriller de espionagem Carta ao Kremlin (The Kremlin letter, 1970). As demais realizações do período — Os pecados de todos nós (Reflections in a golden eye, 1967), O irresistível bandoleiro (Sinful Davey, 1968) e Caminhando com o amor e a morte (A walk with love and death, 1969) — contam com a simpatia do diretor, mas foram recebidas friamente quando lançadas.


Entretanto, dentre os filmes que considera insatisfatórios em sua carreira, somente O passado não perdoa é motivo de pleno arrependimento para Huston. Ele se agarrou ao projeto com unhas e dentes, principalmente pela possibilidade de novamente trabalhar com um roteiro de Ben Maddow, que fornecera a base a um de seus incontestáveis sucessos: O segredo das jóias (The asphalt jungle, 1950). Com o guião de O passado não perdoa, Maddow retorna à carreira, truncada pela inclusão de seu nome na lista negra do macarthismo.


Além das qualidades do roteiro, dando a Huston chances de maiores aprofundamentos, O passado não perdoa conta com os benefícios da dramática e inspirada trilha musical de Dimitri Tiomkin e da belíssima fotografia em Technicolor, realçada pelo formato Panavision 70mm, de Franz Planner. Enquadrando as locações no deserto mexicano de Durango, Planner soube, como poucos, explorar a vastidão celeste, o casamento do firmamento com a terra e a sensação de abandono e isolamento dos membros de uma comunidade fronteiriça texana, açoitados por tempestades de poeira e acuados por consideráveis distâncias a separá-los dos vizinhos e das benesses dos centros urbanos.






Infelizmente, para Huston, nada saiu conforme planejara. A produção foi tumultuada por imprevistos vitimando membros da equipe de realização e atores. Três técnicos pereceram na queda do avião que os conduzia às locações. Audrey Hepburn, iniciante em equitação, caiu do cavalo e ficou três semanas afastada, recuperando-se de fraturas nas costelas e da perda do bebê que esperava. Audie Murphy e Bill Pickens  amigo de Huston  por pouco não se afogaram durante uma caçada. Foram salvos pela pronta intervenção da fotógrafa Inge Morath[3].


No plano das intenções criativas, Huston reclama da intervenção dos produtores, que o impediram de explorar, com a devida ênfase, as potencialidades do roteiro, centradas na temática do preconceito racial em comunidades enclausuradas no exclusivismo branco das origens religiosas puritanas dos Estados Unidos. Alega que tentou imprimir suas intenções à produção, realizando um western franco e poderoso no tratamento de questões incômodas aos nervos da América. Queria expor as bases da intolerância racial, fincadas nos pequenos agrupamentos fronteiriços e revelar a “verdadeira índole” estruturada pela moral fechada e impermeável que os modela na conduta e nas relações sociais. Porém, os executivos da James Productions e da Hetch-Hill-Lancaster queriam somente, de acordo com Huston, uma fita tradicional de “mocinho”, esvaziada em suas ambições psicológicas, meramente centrada nas ações heróicas de um cowboy viril, decidido e estóico como o Ben Zachary interpretado por Burt Lancaster[4]. Devido a isso, o diretor, reenquadrado nas funções de simples profissional contratado, perdeu interesse pelo trabalho. Deixou as filmagens simplesmente fluírem segundo o cronograma de realização[5]. A montagem final, processada à revelia da direção, condenou — conforme Huston — O passado não perdoa ao patamar dos westerns corriqueiros: não foram dadas as devidas atenções à coerência narrativa e ao destino de personagens como o de Johnny Portugal (Saxon), o índio cowboy que desaparece sem mais nem menos quando tudo fazia supor que teria papel relevante na história.


Apesar da contrariedade mais que justificável e compreensível de John Huston com os resultados finais de O passado não perdoa  a ponto de praticamente repudiá-lo , o que sobra para o espectador? Impressão idêntica a do diretor? De forma alguma. O filme tem problemas evidentes, é certo. Porém, é formalmente muito bem concebido. Além das qualidades da trilha musical de Dimitri Tiomkin e da direção de fotografia de Franz Planer, beneficia-se também dos esforços que lhe atribuem autenticidade em seus aspectos mais tangíveis, manifestados pela direção de arte de Stephen Grimes e pelos figurinos de Dorothy Jeakins.


No tocante à credibilidade e coerência narrativas, há a lamentar o descaso com o inexplicável sumiço de Johnny Portugal, frente ao qual fica a incômoda pergunta: o que John Saxon fazia na história? Já os cerca de 30 minutos finais confirmam a tese, defendida por Huston, de que os produtores queriam apenas um western enquadrado nas fórmulas estabelecidas, com pleno domínio das ações heroicas e pouco críveis do personagem principal. Tanto que chega a constranger a determinada e triunfante resistência de quatro membros da família Zachary, acuados em sua rústica residência, contra o assédio de aproximadamente 40 kiowas feridos no orgulho tribal.


Um nome percebido nos créditos de abertura de O passado não perdoa salta de imediato aos olhos do espectador atento a tais detalhes  ainda mais em se tratando do apreciador empedernido do cinema de John Ford: Alan LeMay. É o autor da história na qual se baseou Ben Maddow para extrair o roteiro do filme. LeMay também escreveu a novela adaptada por Frank S. Nugent na elaboração do roteiro de Rastros de ódio (The searchers, 1956), uma das obras máximas de Ford. Ambos os títulos se aproximam no tratamento que concedem aos temas abordados: a intolerância racial, o temor ao sangue familiar conspurcado e a solidão do texano vivendo no limbo das regiões fronteiriças, comunicando-se apenas com os valores que moldam seus preconceitos, principalmente os de matriz puritana. Por causa da possibilidade de diálogo entre os dois filmes, decorrem os lamentos aos infortúnios e descaracterizações que se abateram sobre a realização de Huston. Faltam a O passado não perdoa, na comparação com Rastros de ódio, a complexidade psicológica de um personagem como Ethan Edwards (John Wayne) e os contornos dramáticos acentuadamente pessimistas que perpassam o filme de Ford.


Em Rastros de ódio acompanha-se a saga de Ethan, procurando, ao longo de cinco anos, a sobrinha Debbie (Lana Wood e Natalie Wood) raptada pelos comanches. À medida que o tempo passa, o personagem vai modificando os objetivos da busca. Pretendia, ao início da jornada, localizar e resgatar seu único familiar vivo. Ao final, cada vez mais obcecado e insano, deseja simplesmente matá-lo. Apavora-se com a imagem da sobrinha integrada à cultura indígena e, principalmente, violada em seu sangue branco. Felizmente, em termos, tudo termina bem para Debbie. Resgatada, retorna ao mundo dos brancos. Com o término do filme, porém, algumas questões martelam o espectador: ela teria plena reintegração? Seria aceita e compreendida pelos seus pares depois de tanto tempo convivendo com os índios? Ford, de certa forma, responde negativamente a esses questionamentos no seu western mais pessimista, sombrio e incompreendido: Terra bruta (Two rode together, 1961), no qual prolonga os efeitos de Rastros de ódio. Com O passado não perdoa, de 1960, Huston antecipa as respostas de Ford, valendo-se de uma mudança de perspectiva.



Ben Zachary (Burt Lancaster) e Zeb Rawlins (Charles Bickford)


Rachel (Hepburn), filha adotiva dos Zachary, é o centro das atenções no filme de Huston. Supostamente foi encontrada, ainda bebê, pelo falecido Will Zachary, entre os escombros de uma caravana massacrada pelos kiowas. Cresceu sob cuidados da “mãe” Mathilda (Gish) e na companhia dos “irmãos” Ben (Lancaster), Cash (Murphy) e Andy (McClure). Rachel, já em idade matrimonial, é cortejada por Charlie (Salmi), primogênito de Zeb Rawlins (Bickford), zeloso patriarca puritano e sócio dos Zachary na criação de gado. Mas ela também se deixa atrair pelas atenções que lhe dirige o pragmático Ben, praticamente o responsável pela segurança da família.



Acima e abaixo: Rachel Zachary (Audrey Hepburn), o pivô da discórdia
  

O surgimento de Abe Kelsey (Wiseman) — misto de soldado confederado, profeta armado de sabre e anjo vingador — tumultua e envenena as relações dos Zachary com a comunidade. Ele revela a todos a verdade sobre a origem de Rachel, tão ciosamente guardada por Mathilda: sua “filha” não é branca, mas kiowa. Foi poupada e recolhida por Will Zachary durante o massacre de um aldeamento. O segredo também é aberto aos kiowas, que pretendem o retorno de Rachel ao convívio tribal. A morte de Charlie Rawlins pelos índios piora a situação, principalmente quando Kelsey, pressionado por Zeb, confirma publicamente a história sobre as origens de Rachel.



Abe Kelsey (Joseph Wiseman)


Os brancos não aceitam uma índia partilhando de suas relações comunitárias. Huston alcança suas melhores intenções com a fria recepção aos Zachary no velório de Charlie, principalmente quando a matriarca Hagar Rawlins (Walker), inconformada e desabridamente apoiada no preconceito, dirige-se cheia de ódio para Rachel, chamando-a de “índia suja” e responsabilizando-a pela morte do filho. Cash  um racista convicto , descontrolado ao saber que é “irmão” de uma pele-vermelha, abandona o núcleo familiar. Ben, Andy e Mathilda não aceitam as pressões do grupo e se recusam a repudiar a perplexa Rachel. Ficam sozinhos contra os kiowas a reclamar a irmã de sangue.


Ben Zachary (Burt Lancaster) e Rachel Zachary (Audrey Hepburn)

  
Para o espectador, é difícil aceitar uma atriz com os traços e a compleição física de Audrey Hepburn se passando por índia. Mas ela está muito bem como Rachel. Jovial e integrada a princípio, torna-se insegura acerca de suas convicções e do lugar que ocupa no mundo. Pena que John Huston não teve abertura suficiente para explorar as ambiguidades da personagem após deixá-la sentir, direta e brutalmente, a exclusão do preconceito.



Rachel Zachary (Audrey Hepburn) e Cash (Audie Murphy) 


Audie Murphy, tão marcado por interpretações burocráticas e apáticas em incontáveis westerns, oferece forte atuação em O passado não perdoa. Confere credibilidade a Cash, racista assumidamente visceral, papel a princípio reservado a Tony Curtis. O descontrole que se apossa do personagem, no alto da casa, após tentar matar um índio, é dos mais convincentes. Murphy já tivera oportunidade de brilhar em A glória de um covarde (The red badge of courage, 1951), filme de Huston descaracterizado pela Metro-Goldwyn-Mayer durante a montagem.


Os irmãos Zachary: Andy (McClure), Ben (Lancaster), Cash (Murphy) e Rachel (Hepburn)


Lilian Gish, intérprete das heroínas juvenis nos filmes do pioneiro David Wark Griffith, defende com empenho Mathilda Zachary. A personagem, de arma em punho contra as investidas de Abe Kelsey, praticamente reedita a sua atuação como Rachel Cooper, mãe protetora dos órfãos em O mensageiro do diabo (The night of the hunter, 1955), de Charles Laughton. Pena que a sequência do piano, com Mathilda — convencida por Ben — opondo um tema clássico aos tambores e flautas dos índios, não tenha a devida consistência.


John Wiseman, como Abe Kelsey, consegue comunicar toda a insanidade do anunciador sedento de vingança, principalmente quando está para ser enforcado. Charles Bickford também passa convicção como o puritano Zebe Rawlins, tão apegado à Bíblia e às certezas que o alimentam sobre a superioridade branca.


Doug McClure  que ficaria relativamente famoso durante os anos 60 como um dos protagonistas da série O homem de Virgínia (The Virginian— recebe créditos pela primeira vez em O passado não perdoa, depois de passar cerca de quatro anos interpretando pequenos papéis na TV e no cinema.


Por fim, uma curiosidade decorrente de mais uma aproximação entre O passado não perdoa e Rastros de ódio: é nítida a semelhança entre a casa da família Edwards — destruída pelos comanches no filme de Ford — e a residência dos Zachary — que praticamente sucumbe ao ataque dos kiowas. Essa similaridade resulta de atitude intencional dos especialistas em construções a serviço de John Huston? Ou advém dos registros de Alan LeMay?




Momento raro: John Ford ladeado por Dennis Hopper e John Huston em 13 de setembro de 1971
Casa de Ford em Palm Springs, California
Fotografia de Victor Skrebneski


Roteiro: Ben Maddow, com base em novela de Alan LeMay. Co-produção: Harold Hecht (não creditado), Burt Lancaster (não creditado). Música: Dimitri Tiomkin. Direção de fotografia (Panavision 70mm, Technicolor): Franz Planer. Montagem: Russell Lloyd. Direção de arte: Stephen Grimes. Figurinos: Dorothy Jeakins. Maquiagem: Frank LaRue, Frank McCoy. Gerente de unidade de produção: Gilbert Kurland. Assistentes de direção: Tom Shaw, Carlos Villatoro (não creditado). Direção de segunda unidade: Emilio Fernández (não creditado). Assistente de direção de arte: Ramón Rodríguez Granada. Contra-regra: Ross C. Burke (não creditado). Gravação de som: Basil Fenton-Smith. Edição de som: Leslie Hodgson. Efeitos especiais: Dave Koehler (não creditado). Dublês: Jack Conner (não creditado), Bob Herron (não creditado), Bob Terhune (não creditado). Fotografia de cena: Inge Morath (não creditada). Adereços: Joan Joseff (não creditado). Direção musical: Dimitri Tiomkin (não creditado). Preparo de lutas: 'Chema' Hernandez (não creditado). Lentes: Panavision Inc. Execução musical: The Santa Cecilia Orchestra. Sistema de mixagem de som: Westrex Recording System. Tempo de exibição: 125 minutos.



(José Eugenio Guimarães, 1991)



[1] O segundo é Roy Bean, o homem da lei (The life and times of judge Roy Bean, 1973). O tesouro de Sierra Madre (The treasure of Sierra Madre, 1947), primeira realização de Huston após a Segunda Guerra Mundial, costuma ser classificada como western, mas foge às convenções estabelecidas para o gênero.
[2] Co-dirigido por Ken Hughes, Robert Parrish, Joe MacGrath e Val Guest.
[3] Sobre os imprevistos sofridos pela produção de O passado não perdoa, cf. MATTOS, A. C. Gomes de & LEEMANN, Sérgio. John Huston, Ernst Lubitsch, Fred Zinnemann. Rio de Janeiro: EBAL, 1985. p. 33 e HUSTON, John. Um livro aberto. Porto Alegre: L&PM, 1987. p. 319-320.
[4] Cf. HUSTON, John. Op. cit. p. 319.
[5] Cf. Ibidem.



15 comentários:

  1. Eugenio, tem alguma coisa errada aqui! Ou não estou reconhecendo você. Que houve, cara? Sei que a gente não se vê e não se fala há muitos anos. Mas pelo que sei de você, acho que não mudaria assim. Será que não?

    Cara, cadê o John Ford, seu cineasta preferido? Até agora você não falou de filme algum dele. Quando soube do seu blog pensei: 'Ih! O cara deve enfileirar uns dez filmes de John Ford para começar!' Até agora, nada! Quando os John Ford vão entrar?

    Alias, quantas vezes você viu No tempo das diligências, Rastros de ódio, O homem que matou o facínora, Depois do vendaval e Paixão dos Fortes? Quando nos conhecemos, você já havia visto No tempo das Diligências mais de cem vezes!!!!!

    Lembro de você, em BH, quando o filme passou no cinema... Você entrou na primeira sessão, das duas da tarde, e só saiu ao término da última, quase meia noite!!!

    Tá faltando John Ford aqui. Ou você não é o Eugenio que conheço.

    Antonio Carlos Alencar - Tunico

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    1. Olá, Antônio!

      Não se preocupe! Pelas suas lembranças e descrições, sou, sim, o Eugenio que você conheceu. Ainda continuo tendo John Ford como o número 1. Algumas coisas não mudam.

      Comentários dos filmes dele irão entrar, a depender da sorte. É que tomei a decisão, ao iniciar isto aqui, de inserir os comentários sem depender de critérios racionais, preestabelecidos. As escolhas serão puramente aleatórias. Então, fico na dependência dos dados ou dos números sorteados. Talvez, um dia, eu force a barra. Por ora, porém, não penso nisso.

      Sua memória está muito boa. A minha jornada por todas as sessões de "No tempo das diligências" aconteceu no finado Cine Roxy, em BH, na parte "escura" da Augusto de Lima. Foi em 1977. Nessa época, porém, eu contava tê-lo visto apenas 22 vezes. Durante algum tempo a conta parou nesse número. Hoje, superei em muito o Orson Welles. Vai ver, devo, mesmo, ter ultrapassado a centena de vezes. Mas parei de contar.

      Grande abraço!

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    2. Grande Eugenio!!!!!

      Quero ver até quando você vai levar esse sistema de "inserção aleatória" dos comentários... Sei que você é metódico, superorganizado (caiu o hífen? Nunca sei!)... Mas pelo que conheço de você, deve estar sentindo algum formigamento para furar o bloqueio da aleatoriedade e inserir resenhas que envolvam os cineastas de seu maior apreço.

      Pelo visto, você ainda continua fissurado em "No tempo das diligências". Mas pelas lembranças que tenho de nossas últimas conversas, em meados dos 80, o grande Ford, para você, estava se tornando "O homem que matou o fascínora". Aliás, tenho a revista com o artigo que você publicou sobre esse filme.

      E sua filha? Também gosta de cinema? Será filha de peixe?

      Antônio Carlos Alencar - Tunico

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  2. Eugenio,

    Desculpe-me pelo "fascínora". Fique com "facínora".

    Antônio Carlos Alencar - Tunico

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    1. Olá, Antônio!

      Nem havia reparado o "fascínora".

      Você não imagina a quantidade de "pressões" que venho recebendo, inclusive da minha filha, para adotar critérios, digamos, mais racionais na liberação dos comentários. Por ora, resisto! Afinal, se criei isso aqui também com a intenção de ter alguma "utilidade", o propósito principal foi o de me permitir uma brecha ao espairecimento.

      Quanto ao Ford, a tendência que você percebeu nos anos 80 acabou se cumprindo. Atualmente, "O homem que matou o facínora" é o meu filme preferido dele. Está alguns passos à frente de "Rastros de ódio". Mas o meu "especial de ano novo" continua sendo "Depois do vendaval", também do Ford.

      Sim, minha filha gosta de cinema! Gosta mutíssimo! Mas, felizmente, possui luz própria e não é facilmente influenciável pelas preferências paternas. Nesse campo, como em todos os outros, ela encontrou alternativas muito próprias para se afirmar. Fico feliz por isso.

      Abraços.

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  3. De qualquer modo, é um grande filme, que introduz, no universo do western, os próprios elementos da tragédia grega, já que Wiil Zachary, num certo sentido, não deixou de perpetrar a hybris quando, após participar de um massacre aos kiowas, poupa a vida da menina a que chamará Rachel, em substituição àquela que sua esposa vira morrer em tão tenra idade. E há uma bola que os puritaníssimos hollywoodianos deixaram passar por debaixo das pernas: se fosse uma mentira o que Kelsey havia narrado acerca de Rachel, o relacionamento dela com Ben desde o início do filme poderia ser considerado incestuoso (lembrar, inclusive, a fúria com que ele reagiu a um galanteio dirigido pelo mestiço Johnny Portugal - cujas duas funções são, na história, praticamente a de dirigir o galanteio e capturar Kelsey - a ela).

    Ricardo Antônio Lucas Monteiro

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    1. Olá, Ricardo Antônio Lucas Monteiro,

      Confesso que fiquei com a pulga atrás da orelha ao longo de todo o filme, temendo que a hipótese da relação incestuosa, tão bem assinalada por você, acabasse se confirmando. Em todo o caso, apesar da sabotagem sofrida por Huston da parte dos produtores, só o fato de ele ter sugerido essa hipótese já foi uma ousadia e tanto. Parece que essas relações perigosas marcam presença na obra de Alan LeMay, o autor do argumento: Em "Rastros de ódio" há a atração do 'irmão pródigo" Ethan pela cunhada, que termina violentada barbaramente por um comanche. Em "O passado não perdoa" há a atração de Will por Rachel, claramente manifestada antes de ficar claro que não eram irmãos de fato.

      Abraços.

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  4. Mais um brilhante texto de José Eugênio Guimarães tecendo uma analogia entre dois westerns clássicos: “O Passado não Perdoa” de John Huston e “Rastros de Ódio” de John Ford.
    Eu desconhecia que os roteiros tinham se baseado em livros do mesmo autor (Alan Lemay), mas já tinha identificado as semelhanças entre as duas histórias (a índia branca, Audrey Hepburn, e a branca índia, Natalie Wood) e os conflitos raciais que as duas tramas proporcionam.
    Lembro que assisti “O Passado não Perdoa” ainda na infância, e achei fantástica a cena das vacas pastando no teto do rancho, totalmente surreal. A fotografia, a trilha sonora, que já destacadas por Eugênio, são fenomenais. E o elenco é de primeira.
    Discordo de Huston, se ele disse que o filme se transformou em “apenas mais um faroeste, como outros da época”, pois por mais que os produtores tenham tentado descaracterizar a obra, o filme é ótimo e carrega a mão do diretor em cada cena.
    Claro que não teve a mesma repercussão de “Rastros...”, mas teve brilho próprio.
    Vale a pena ver o filme, e ler o ensaio do Eugênio!
    Ary Ximendes

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    1. Olá, Ary Ximendes!

      Não sei se você conhece a autobiografia de John Huston, "Um livro em aberto", da L&PM de Porto Alegre. Se tiver interesse, talvez possa encontrá-la em sebos ou na Estante Virtual. Vale a pena ler. O diretor é, às vezes, implacável na avaliação de alguns de seus filmes.

      Abraços.

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  5. Complicações de produção e com os produtores à parte comparar os filmes de Ford e Huston a partir de obras que tocam em pontos tão semelhantes e com resultados tão dissimilares são um bom exercício para se pensar o quanto a encenação pode se sobrepor ao texto escrito quando se trata de cinema. Um abraço e parabéns pelo texto!

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    1. Olá, Cid Vasconcelos.

      Uma pena o fato de Huston ter dirigido tão poucos westerns. Sempre pareceu um diretor talhado para o gênero. Chegou a alegar que se afastou desse cenário pois "John Ford já fizera westerns essenciais e maravilhosos". Um argumento que nunca me convenceu.

      Obrigado pelo elogio ao texto.

      Abraços.

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  6. ah sim, e parabéns pela foto genial que une Hooper, Huston e Ford. Não resisti e vou posta-la no meu blog...

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    1. Cid,

      É uma das fotos mais estranhas que já vi. Ford já estava praticamente recluso devido à doença.

      Abraços.

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