domingo, 1 de novembro de 2015

SPIELBERG CONTINUA NA ESTRADA EM SEU PRIMEIRO FILME PARA O CINEMA

O telefilme de sucesso Encurralado (Duel, 1971), da Universal Television, mereceu lançamento nas salas de exibição e chamou a atenção dos produtores estadunidenses para Steven Spielberg. Dentro de três anos ganhou a oportunidade de realizar seu primeiro trabalho para a tela grande: Louca escapada (The Sugarland express). Encurralado é história simples, de mistério e terror: um pacato motorista de automóvel é gratuitamente perseguido por possante caminhão ao longo de uma rodovia. O fascínio provocado pela autoestrada com veículos em movimento permanece em Louca escapada: centenas de viaturas da polícia, em ritmo frenético, afrontam os princípios da racionalidade na perseguição aos fugitivos Lou Jean (Goldie Hawn) e Clovis Poplin (William Atherton). É a dramatização de caso real acontecido no Texas, em 1969. A rodovia serve de palco para a observação crítica dos Estados Unidos em seu rígido apego às normas do maniqueísmo puritano. A partir desse filme, simples e eficaz, Spielberg se tornará, para o bem e para o mal, manipulador e prisioneiro das realizações dependentes de grandes orçamentos. A apreciação a seguir é de 1985. 







Louca escapada
The Sugarland express

Direção:
Steven Spielberg
Produção:
Richard D. Zanuck, David Brown
Zanuck/Brown Production, Universal
EUA — 1974
Elenco:
Goldie Hawn, Michael Sacks, William Atherton, Ben Johnson, Gregory Walcott, Steve Kanaly, Louise Latham, Harrison Zanuck, A. L. Camp, Jessie Lee Fulton, Dean Smith, Ted Grossman, Bill Thurman, Kenneth Hudgins, Buster Daniels, James N. Harrell, Frank Steggall, Roger Ernest, Guich Koock, Merrill L. Connally, Gene Rader, Gordon Hurst, George Hagy, Big John Hamilton, Kenneth Crone, Peter Curry Judge Peter Michael Curry, Charles Conaway, Robert Golden, Rudy Robbins, Charlie Dobbs, Gene Lively, John L. Quinlan III, William Scott, Ralph E. Horwedel, Edwin 'Frog' Isbell e os não creditados James Robert Allen, Marianna Clore Blase, David Bowen, Richard Bright, B.M. Burch, Charly, Harvey Christiansen, Michael J. Croshaw, Maria De Lange, Al Evans, James R. Gough, Charles Gunn, Dean Jones, Sam Kindrick, Myles R. Kuykendall, Robert Lee Loper, Rafael López, Maury Maverick, Lorraine Meeks, Lucky Mosley, Darrell Murphy, Carol W. Nell, Darrell Newman, Harold Offer, Karen Olenick, Bill Pattie, Don Peck, Patrick Reagan, Michael Santiago, Adolfo E. Urrutia, Robert C. Willey.



Steven Spielberg - à direita - e William Atherton, intérprete de Clovis Michael Poplin


Insanidade, truculência, covardia, imbecilidade, inocência, comédia e tragédia: tudo isso é Louca escapada, Palma de Ouro de Melhor Roteiro no Festival de Cannes e estreia de Steven Spielberg no cinema. A realização anterior, Encurralado (Duel, 1971), foi originalmente produzida para a televisão — apesar de ter merecido exibição pela tela grande.



O fato — ponto de partida ao argumento escrito pelo diretor em parceria com os roteiristas Hal Barwood e Mathew Robbins — aconteceu no Texas, em 1969: Lou Jean Sparrow Poplin (Hawn) — ex-presidiária condenada por furto e cabeleireira desempregada — força a fuga do marido, Clovis Michael Poplin (Atherton), de instituição correcional, apesar da proximidade da libertação. Deseja, a todo custo, recuperar a posse do filho de dois anos, cuja guarda lhe foi tirada e confiada a um casal metodista da cidade de Sugarland. O serviço de assistência social a julgou irresponsável para cuidar da criança.


Goldie Hawn como Lou Jean Sparrow Poplin



Acima e abaixo: Clovis Michael Poplin (William Atherton), Lou Jean Sparrow Poplin (Goldie Hawn) e Maxwell Slide (Michael Sacks)

  
Após a evasão, tomam por refém o patrulheiro rodoviário Maxwell Slide (Sacks). Não demora e são perseguidos por comboio policial com aproximadamente duzentos carros, comandado pelo Capitão Harlan Tanner (Johnson). O acontecimento e as motivações do casal chegam ao público e mobilizam a imprensa. A população das cidades próximas sai às ruas em apoio a Lou Jean e Clovis. Passam do anonimato a heróis nacionais em poucas horas. Derrotados, convertem-se em símbolos da liberdade e defensores dos mais caros valores americanos: a família e o direito à autodeterminação.


Encurralado conta história de mistério e terror. Louca escapada é uma comédia de erros. Diferentes no gênero e tema, encontram similaridade pela importância dramática conferida à estrada e aos veículos — mitos incontestes da cultura dos Estados Unidos e fartamente explorados pelo cinema da terra. Não para menos formam a base de um subgênero: o road movie. À categoria pertencem ambos os títulos.


Capitão Harlan Tanner (Ben Johnson)


Os chapéus dos policiais identificam o ambiente da ação: o Texas
À esquerda, Ben Johnson como o Capitão Harlan Tanner

  
Em Louca escapada Spielberg coreografa a rodovia e os carros para observar e criticar os Estados Unidos. A estrada simboliza o país na forma de uma linha, reta em alguns pontos, sinuosa em outros. Entretanto, deve ser seguida por todos que se consideram parte do sistema. Os veículos substituem as pessoas e, como tais, devem trafegar corretamente. O descontrole ou a derrapada de algum (ou alguém) gera o caos; desestabiliza a maniqueísta concepção de mundo que não admite meio termo e apenas conhece dois polos antagônicos: certo e errado, preto e branco, normal e patológico. Lou Jean e Clovis Poplin afrontam as regras tão impessoais quanto mecânicas desse universo. Elevam seus sentimentos paternos acima de tudo. Como loucos, se apoderam de um veículo do sistema e fazem refém o vigilante que supostamente contribui para controlá-lo. Desequilibram o mundo com seu desatino.


 Maxwell Slide (Michael Sacks) e Clovis Michael Poplin (William Atherton)


Policiais enfurecidos ou em busca de diversão gratuita saem à caça dos fugitivos. O pretexto é convite à direção desgovernada, explosões, capotagens e colisões. Mas não são apenas os homens da lei que decretam a suspensão do senso de racionalidade. Uma população de horizontes limitados transforma o desatino do casal em ocasião de celebração catártica. Confunde com heroísmo um ato que poderia ser classificado, no mínimo, de irresponsabilidade pueril.


A infantilidade de Lou Jean e Clovis Poplin encontra correspondência na insanidade dos perseguidores. As noções de autocontrole — básicas a uma civilização — são suspensas, substituídas pela mecanicidade desgovernada das máquinas. O Capitão Tanner — único sensato em meio à loucura — também perde o equilíbrio. Deixa de lado 18 anos de atividade regrada, nos quais não provocou mortes, e ordena a ação que culminará no trágico desfecho: Poplin é morto — previu o fim ao assistir à inocente desenho animado durante uma parada. A sensação do que viria foi transmitida pela câmera ao se aproximar do rosto do personagem, até fixar um primeiro plano angustiante. Lou Jean é tomada pela catatonia; Slide afunda na perplexidade diante da brutal irracionalidade de seus pares.


Lou Jean Sparrow Poplin (Goldie Hawn)


Na instituição correcional, Clovis Michael Poplin (William Atherton) recebe visita da esposa Lou Jean Sparrow Poplin (Goldie Hawn)


Spielberg mostra-se um cineasta com pleno domínio do métier. Imprime ritmo vertiginoso à narrativa. Sabe que lida com emoções humanas, extravasadas na truculência e mais sacrossanta ingenuidade. Não é a toa que o filme e o fato que lhe deu origem se passam no Texas. Tudo é comunicado pela montagem, câmera palpitante de tensão, música de John Williams e, principalmente, pela fotografia de Vilmos Zsigmond. Esta, na falta de termo melhor, só pode ser classificada de magistral.






Roteiro: Hal Barwood, Mathew Robbins. Argumento: Steven Spielberg, Hal Barwood, Mathew Robbins. Direção de fotografia (Panavision, Technicolor): Vilmos Zsigmond. Desenho de produção: William S. Gilmore. Música: John Williams. Efeitos especiais: Frank Brendel. Montagem: Edward M. Abrams, Verna Fields. Produção de elenco (não creditada): Mike Fenton, Shari Rhodes. Direção de arte: Joseph Alves Jr. Maquiagem: Del Armstrong (não creditado). Penteados: Susan Germaine (não creditada). Gerente de unidade de produção: William S. Gilmore Jr. Primeiro assistente de direção: James Fargo. Segundo assistente de direção: Thomas Joyner. Contrarregra: Bill Dietz (não creditado). Carpintaria: Mike Fenton (não creditado). Som: John R. Carter, Robert L. Hoyt. Operador de rádio: William Griffith (não creditado). Operador de microfone: John McDonald (não creditado). Gravação de som ótico: Dennis C. Salcedo (não creditado). Coordenação de dublês: Carey Loftin. Dublês (não creditados): Max Balchowsky, Ted Duncan, Patty Elder, Ted Grossman, Bob Harris, Carey Loftin, Rudy Robbins, Dean Smith, Dale Van Sickel. Eletricista-chefe: James O. Blair (não creditado). Assistentes de câmera (não creditados): Bobby Burton, Nick McLean, John J. Connor, Robert Moore, Aaron Pazanti, Steve Rez, Steve Rez. Fotografia de cena: Jim Coe (não creditado). Operador geral: Al Perry (não creditado). Operadores de câmera (não creditados): Jack L. Richards, Sven Walnum. Operador da crane: George Triandos (não creditado). Secretário de produção de elenco: Liz Owen (não creditado). Guarda-roupa (não creditado): Robert Ellsworth, James Gilmore. Assistente de montagem: Jeff Gourson (não creditado). Direção musical (não creditada): John Williams. Músico (não creditado): Toots Thielemans (não creditado/gaita). Mecânico de transportes: John Lackey (não creditado). Gerente de transportes: Alby Thomas. Produção executiva: William S. Gilmore Jr. Secretária para os produtores: Lucy Ballentine (não creditado). Continuidade: Ulla Bourne (não creditado). Publicidade: Roy D. Smith (não creditado). Secretária para o diretor: Nona Tyson (não creditada). Fornecimento de cosméticos: Cinematique. Equipamentos de câmera: Panavision. Títulos e efeitos óticos: Universal Title. Sistema de mixagem de som: mono pela Westrex Recording System. Tempo de exibição: 110 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1985)

4 comentários:

  1. Eugenio,

    Se algum diretor pode se gabar de ter um fã incondicional dele, este é o Spielberg e este fã sou eu.
    Vi todos os seus filmes e me encanto mais a cada nova película que o grande cineasta atira na praça.

    Porém, no caso de Louca Escapada/74, minha mente chama o filme, chego a captar seu aspecto de enredo, mas não me vêm à cabeça uma cena sequer da película.

    O que não ocorre, por exemplo, com Encurralado/71, feito tres anos antes e que até de alguns diálogos eu me lembro. Mas Louca Escapada...lamentavelmente!!!

    E dentro do que apanho do teor de uma fita e de outra ocorre exatamente como dizes; são filmes dentro de um gênero paralelo, ou seja, uma espécie de abertura aos demais road movem que vieram, como Thelma e Louise e muitos outros mais. Até mesmo daquele que tem a musica tema do programa Globo Repórter, que não lembro o titulo, e que é um film muito bacana.

    Apesar de não recordar das passagens físicas da película, sua resenha mostra tudo o que ele foi. E até me recordo da população os apoiando e tudo o mais. No entanto, não vejo, de forma alguma, a face do bom Ben Johnson.

    De qualquer forma nada sobre a falta de minhas lembranças interfere em sua matéria, que é muito boa, assim como do filme, que é bem feito e tem o nome de Spielberg no seu comando, já ali dizendo para que estava chegando.

    Apenas isso já pode se dizer o que foi o seu segundo trabalho na Sétima Arte e o seguimento da carreira do jovem diretor que logo a seguir nos deu o clássico e imortal Tubarão/75.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Olá, Jurandir!

      Creio que preciso ver este filme novamente, para saber se a minha avaliação de 1985 continua valendo. O que gostei nele, mesmo, foi o retrato da América que ela passou.

      Quanto ao Spielberg, que se tornou prisioneiro das grandes produções, gosto com ressalvas. Meus filmes preferidos que ele dirigiu são CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU, TUBARÃO, o primeiro e o terceiro INDIANA JONES e ET. LINCOLN, A LISTA DE SCHLINDLER e O RESGATE DO SOLDADO RYAN também estão no topo. Não consigo trazer todos os títulos à memória. Mas ele também fez coisas insuportáveis e sofríveis: CAVALO DE GUERRA, MUNIQUE, GUERRA DOS MUNDOS, AMISTAD, HOOK, ALÉM DA ETERNIDADE e mais um tanto. Reconheço que é bom diretor, entende e gosta de cinema. Mas é, também, muito manipulador.

      Abraços.

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  2. Eugenio,

    Existe muita concordancia comigo no atinente às suas preferencias do Spielberg, como às suas observações a respeito de alguns de seus filmes que, de verdade, carecem ressalvas pelo cunhos negativos. Claro, todo diretor tem seus altos e baixos. Sabemos disso.

    Entretanto, me abriste os olhos para um particular do diretor que eu desconhecia; que o homem é manipulador. Não sabia disso e o ditado que é sempre bom saber mais sobre algo é de positividade.

    Ótima informação.

    Grande abraço do bahiano

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Jurandir,

      Veja bem como ele consegue estragar alguns de seus melhores filmes com a inserção de cenas ou sequências inteiras que somente se prestam a mexer com o emocional ou o sentimentalismo das plateias. Chega a ser um golpe baixo com os mais chorões ou impressionáveis. Alguns momentos de "Resgate do Soldado Ryan" e de "A lista de Schlinder" são particularmente abomináveis por causa da utilização desse expediente totalmente desnecessário. Mas os americanos, pelo visto, adoram uma manipulação. Eu acho execrável.

      Abraços.

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