domingo, 19 de janeiro de 2014

O MORALISMO SULISTA E VITORIANO DE D. W. GRIFFITH A PARTIR DE MARION FEEMONT

A casta Suzana (True heart Susie, 1919) pertence ao último período significativo da carreira do "pai do cinema" David Wark Griffith, que se estende de Intolerância (Intolerance, 1916) até aproximadamente 1925. É uma sinfonia pastoral bem sintonizada com a moral e o gosto do cineasta, na qual opõe os valores considerados puros e verdadeiros do campo ao artificialismo e desregramento da vida nas cidades. Conta a história de amor da aparentemente inocente Susie (Lillian Gish) por William (Robert Harron), jovem candidato a pastor. A narrativa simples é desenvolvida com alguma destreza pelo realizador. Interessante é perceber que Aurora (Sunrise, 1927), obra mestra de Friedrich Wilhelm Murnau, apresenta nítidas semelhanças com o argumento de True heart Susie. A apreciação é de 1985.






A casta Suzana
True heart Susie

Direção:
David Wark Griffith
Produção:
David Wark Griffith
Paramount, Artcraft, D.W. Griffith Productions
EUA — 1919
Elenco:
Lillian Gish, Robert Harron, Wilbur Higby, Clarine Seymour, George Fawcet, Kate Bruce, Loyola O'Connor, Carol Dempster, Raymond Cannon, Louise Emmons. 



David Wark Griffith entre as irmãs Lillian e Dorothy Gish - 1921


Após o baque financeiro decorrente do fracasso comercial de Intolerância (Intolerance, 1916), a carreira de David Wark Griffith declinou. Não obstante, pouco antes do começo dos anos 20 e por mais um curto período, o cineasta ainda realizaria produções de notável repercussão como Corações do mundo (Hearts of the world, 1918), A casta Suzana, Um romance do Vale Feliz (The romance of Happy Valley, 1919), A garota que esperou em casa (The girl who stayed at home, 1919), O lírio partido (Broken blossons, 1919), Horizonte sombrio (Way down East, 1920), Órfãs da tempestade (Orphans of the storm, 1922), A rosa branca (The withe rose, 1923) e Não é uma vida maravilhosa? (Isn't life wonderful?, 1924). Daí em diante, todas as suas realizações fracassaram, a ponto de nenhum estúdio demonstrar interesse pelo "pai do cinema" — como a história passaria a se referir a Griffith. Faleceu em 1948, praticamente esquecido, apesar de a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tê-lo agraciado com um Oscar Especial em 1935, reconhecendo-lhe tardiamente a importância como criador, sistematizador e consolidador do que se convencionou chamar "linguagem cinematográfica".



Acima e abaixo: Susie (Lillian Gish)


A casta Suzana é melodrama rural adaptado de novela de Marion Feemont. É perpassado de moralismo aristocrático, ao mesmo tempo sulista e vitoriano, bem ao gosto de Griffith. Como em várias outras de suas realizações, o diretor enaltece os valores do campo, que considera puros e verdadeiros, opondo-os ao artificialismo e à sofisticação "mentirosa" das cidades.



William (Robert Harron) e Susie (Lillian Gish)

  
Lillian Gish é Susie, camponesa enamorada do simplório William (Harron), cujo sonho é se tornar pastor. Logo no começo da história ela revela que sua ingenuidade é apenas aparente. Como deseja um marido bem posicionado socialmente, planeja, sem que William saiba, operação que permitirá a ele a continuidade dos estudos. Assim, o pretendente vai para a cidade e se forma. Mas é vitimado pelo canto da sereia: apaixona-se por Betina (Seymour), citadina fútil, calculista e gananciosa. Susie é abandonada. Mas o roteiro de Griffith não prevê reação alguma da parte da garota. Ela prefere dar tempo ao tempo, ou esperar os resultados advindos do curso natural das coisas. Dito de outra forma, Susie se revela também calculista à sua moda ou ao estilo da moral de Griffith. Sabe que chegará o momento em que a máscara de Betina cairá aos olhos de William, e este voltará arrependido aos braços do "verdadeiro" e "puro" amor. É o que acontece[1].


A aparentemente inocente Susie (Lillian Gish)

Susie (Lillian Gish) espera, pois, para ela o tempo é o melhor remédio


Em consequência da direção naturalizar excessivamente a ação, a narrativa segue ritmo arrastado por longos períodos. Mas Griffith conduz tudo com sobriedade e segurança, continuando seu trabalho pioneiro de sistematizador de uma gramática para o cinema. Quanto a isto, basta ver o que ele consegue em termos dramáticos a partir dos maravilhosos close-ups de Lillian Gish.


De partida para a cidade grande, William (Robert Harron) se despede de Susie (Lillian Gish)

Lilliam Gish em True heart Susie e aos 90 anos em 1983. Faleceu em 1993.




  
Direção de fotografia (preto e branco): G. W. Bitzer. Roteiro: David Wark Griffith, baseado na novela de Marion Feemont. Montagem: James Smith. Operador de câmera: Karl Brown. Tempo de exibição: 87 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1985)



[1] Aurora (Sunrise, 1927), de F. W. Murnau, conta história semelhante.

2 comentários:

  1. Ainda não vi nada de Griffith, tenho até vergonha de ler seus textos por desconhecer tanto do verdadeiro cinema.

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    1. Olá, Emerson!

      Não tenho certeza... Porém, acredito que há muita coisa do Griffith à disposição no Youtube. Quanto ao mais, saiba que ainda tenho muitos segredos para descobrir. Sempre estaremos em dívida com o cinema.

      Abraços

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