domingo, 22 de setembro de 2013

ABORDAGEM ALEGÓRICA DA DOMINAÇÃO CULTURAL E DE SUA SUPERAÇÃO NO TEMPO DA FRANÇA ANTÁRTICA

Desigual, mas bem humorado e descontraído, Como era gostoso o meu francês (1970), de Nelson Pereira dos Santos, mira os complexos relacionamentos entre europeus e índios no Brasil quinhentista. É a materialização de um projeto que o diretor vinha acalentando desde o começo dos anos 60. Apoiado em minuciosas e bem elaboradas pesquisas históricas, etnográficas e linguísticas, o filme é uma alegoria que põe em causa as dicotomias colonizador/colonizado e desenvolvimento/subdesenvolvimento, tão presentes no discurso político-social do momento da realização. Entender essas contradições e superá-las em prol de quem resiste à dominação estrangeira é o que interessa a Nélson Pereira dos Santos. A apreciação original é de 1974. Foi revista e ampliada em 1978.







Como era gostoso o meu francês


Direção:
Nelson Pereira dos Santos
Produção:
Nelson Pereira dos Santos, Luiz Carlos Barreto, K. M. Eckstein, César Thedim
LCB Produções Cinematográficas, Condor Filmes, Difilm
Brasil — 1970
Elenco:
Ana Maria Magalhães, Arduino Colasanti, Eduardo Imbassahy Filho, Manfredo Colasanti, José Kleber, Gabriel Arcanjo, Luiz Carlos Lacerda de Freitas, Janira Santiago, Ana Maria Miranda, José Soares, Josué Amaral Batista, Maria de Sousa Lima, Jorge Rodrigues da Silva, Erley J. Freitas, Marlete Ribeiro Barbosa, Ilde Miranda da Silva, Lídia Maia Santos, Rose de Carvalho, Heloísa de Carvalho, Gildete dos Santos, Ana Batista, Ital Natur, Wilson Manli, Hélio Fernando.




O diretor Nelson Pereira dos Santos



Trata-se de projeto antigo de Nelson Pereira dos Santos: realizar um filme ambientado nas costas brasileiras durante os primeiros anos do "descobrimento", centrado nas complexas relações dos indígenas com o colonizador. Estes são representados por protestantes franceses (huguenotes) e católicos portugueses no bojo do conflito desencadeado com a edificação, na Baía da Guanabara, do projeto da França Antártica. Entre franceses e portugueses estão os Tamoios, aliados dos primeiros.


Localizam-se nos primeiros anos da década de 60 as origens mais remotas de Como era gostoso o meu francês. Durante os trabalhos de pré-produção de Vidas secas (1963), Nelson entrou em contato com tribos do Nordeste. Impressionou-se com a degradação física e cultural em que se encontravam. Começou a se questionar sobre as causas de tanta indigência. As ideias estavam amadurecidas em 1970. Após cinco anos de longo e rigoroso planejamento — que demandou minuciosas e bem elaboradas pesquisas históricas e etnográficas em fontes como Civilização tupinambá, de Alfred Metraux; Viagem ao Brasil, de Hans Staden; Tupinambá, de Jean de Lery; A organização social dos Tupinambás, de Florestan Fernandes e, desse mesmo autor, A função social da guerra na sociedade Tupinambá   o diretor concentrou equipe, atores e cerca de 500 figurantes em Parati, iniciando as filmagens a partir de argumento e roteiro de sua autoria.


O francês (Arduino Colassanti) aprisionado pelos Tamoios


O rigor na reconstituição do passado exigiu atenção a detalhes sumamente importantes, como os diálogos. Afinal, a ação de Como era gostoso o meu francês transcorre em momento no qual o português era minimamente falado no território brasileiro. O contrário se dava com o idioma tupi. O cineasta Humberto Mauro, estudioso da língua indígena, cuidou dessa parte. Em outro polo, linguistas franceses reconstituíram o francês do período. Basicamente, o filme é todo falado em tupi, com a consequente utilização de legendas. O tratamento cenográfico, a cargo de Regys Monteiro, buscou o máximo de fidelidade aos resultados da pesquisa etnográfica de Luiz Carlos Ripper. As tabas foram edificadas segundo modelos originais. Tomaram-se idênticos cuidados acerca do guarda-roupa europeu.


O personagem do título (Arduino Colasanti), membro da expedição de Villegaignon, é banido do grupo sob a acusação de desvio de conduta no trato com os nativos. Em seguida, é aprisionado por Tamoios ao ser confundido com português. Aguarda-o idêntico destino de Dom Pero Fernandes Sardinha — bispo lusitano capturado pelos Caetés após sobreviver a naufrágio nas proximidades da costa: ser devorado em banquete ritual. Não era por simples prazer que algumas tribos praticavam a antropofagia. O ato possuía significado regenerador e assimilador. Permitia, segundo a crença, a incorporação das melhores qualidades do inimigo, como coragem e conhecimento. Enquanto aguarda o fim, o francês se apaixona pela índia viúva Seboipepe (Magalhães), encarregada de guardá-lo. Em interesse próprio, ministra à tribo vários ensinamentos, principalmente no campo da guerra.



Acima e abaixo: o francês (Arduino Colassanti) e Seboipepe (Ana Maria Magalhães)


Os Tamoios e o prisioneiro são mutuamente afetados pelo convívio. Compartilham línguas, valores e costumes. Mas a relação desigual está sempre presente. O francês representa uma civilização tecnologicamente superior. Porém, os fios do seu destino são manejados pelos supostamente inferiores. Ele é devorado ao final. No entanto, o significado do cerimonial antropofágico, em Nelson Pereira dos Santos, transcende a leitura antropológica. Adquire evidente conotação política: a emancipação do nativo do incômodo convívio com o invasor estrangeiro.


Ao enfocar a vida no Brasil recentemente "descoberto", Nelson Pereira dos Santos elabora interpretação muito pessoal de aspectos da nossa história. Vai ao passado pouco conhecido, quase mítico, para fazer uma leitura do presente segundo o viés explicativo que tenta compreender o país, na época da realização, pela dicotomia desenvolvimento/subdesenvolvimento. Como era gostoso o meu francês se engaja no esforço de recuperação da cultura dominada, de ontem e hoje, valendo-se da alegoria do embate do índio com o colonizador. É um filme sobre a resistência nacional à dominação estrangeira. Por outro lado, a interpretação pessoal da história também advém da dificuldade para reconstruir, com o máximo de fidelidade, o passado muito remoto, apesar de todos os esforços empregados na pesquisa de relatos e documentos.



Apesar de toda a dificuldade para a reconstituição do Brasil dos primórdios com o máximo de fidelidade, empregaram-se todos os esforços a partir da pesquisa de relatos e documentos os mais diversos


Dificuldades mais concretas, comuns a quase todos que fazem cinema no Brasil, Nelson sentiu no bolso. Apesar do esquema de superprodução que envolveu as filmagens e do polpudo adiantamento — para os padrões nacionais — concedido pela Condor Filmes, o diretor teve que se desfazer do terreno no qual pretendia construir a casa da família para arcar com os custos finais do empreendimento.


A narrativa é desigual — apesar de controlada — mas sempre instigante, bem humorada e descontraída. As imagens estão envolvidas por uma rústica beleza plástica, para a qual muito contribuíram a câmera e a iluminação de Dib Lutfi. Os atores, constantemente nus — com exceção dos intérpretes dos europeus —, estão à vontade. Para isso foi essencial o clima de desinibição que cercou a produção. As roupas foram abolidas nas locações, convertidas em comunidades ao natural mesmo quando câmeras e refletores estavam desligados. Porém, nem tudo foi tranquilo e idílico. A polícia, alertada por vizinhos desconfiados com "aquela sacanagem toda", prendeu equipe e atores por atentado coletivo ao pudor e aos bons costumes. Muitas explicações foram necessárias até a situação se normalizar.


Com o filme concluído, vieram os problemas com a censura interna e externa. No Brasil, houve primeiro a ameaça de total interdição, devido ao excesso de nudez frontal. Nelson, tarimbado nos problemas com a censura desde Rio 40 graus (1955), argumentou com didatismo e paciência que os nativos não usavam roupas. As justificativas foram aceitas, em parte. A Divisão de Censura da Polícia Federal resolveu proibir Como era gosto o meu francês em todo o território nacional e liberá-lo para o exterior. Por sorte houve mudanças da direção do órgão e, para espanto geral, veio a liberação com certificado de "Censura Livre".



Por causa da constante nudez dos personagens indígenas e do francês (Arduino Colassanti), o serviço de censura da Polícia Federal esteve para interditar o filme em todo o território brasileiro
Terminou liberado para todas as idades


Externamente, o filme quase foi barrado pelos membros da Seleção Oficial da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, pelos mesmos incríveis problemas enfrentados no Brasil: nudez dos atores — isso na França de Brigitte Bardot e das praias de nudismo. Tal fato demonstra que estupidez e ignorância estão, em muitos casos, igualmente distribuídas nos dois lados do oceano e da Linha do Equador. Após liberação em Cannes, Como era gostoso o meu Francês participou dos Festivais de Berlim e Londres. Neste, abriu oficialmente a competição. No Festival de Brasília ganhou o Troféu Carmen Santos e o prêmio de Melhor Filme do Júri Popular. Nélson foi consagrado Melhor Diretor pela comissão encarregada de atribuir os prêmios Air France de Cinema.


Na apreciação da imprensa, veio a malhação da dita crítica especializada. Houve a honrosa exceção de um José Carlos Monteiro, de O Globo — que incluiu Como era gostoso o meu francês entre as melhores realizações do cinema brasileiro. Já o paulista Rubens Ewald Filho, de O Estado de São Paulo, ficou a perguntar "Qual era a de Nelson Pereira dos Santos?", para classificar o filme como "curtição sob o sol de Parati", arrematando que o mesmo nada representava; que apenas fora feito para proporcionar a seus participantes o prazer de andar pelado.





Acima, ao centro e abaixo: O francês (Arduino Colassanti) e Seboipepe (Ana Maria Magalhães) nos rituais que antecedem ao banquete final


Os críticos estadunidenses — geralmente mais moralistas e puritanos — foram mais sensíveis que Ewald Filho. Roger Greenspun, do The New York Times, ofereceu comentário no qual empatava com a visão pretendida pelo diretor: compreendeu o filme como uma meditação sobre o passado e o futuro do Brasil. Mesmo considerando — acertadamente, ao meu ver — a narrativa desigual, elogiou todo o trabalho de reconstituição e, no conjunto, enquadrou a obra ao espírito do "cinema clássico".


Como era gostoso o meu Francês desencadeou uma onda de filmes relacionados à questão indígena: A lenda de Ubirajara (1975), de André Luiz de Oliveira; Uirá, um índio à procura de Deus (1972), de Gustavo Dahl; Ajuricaba, o rebelde da Amazônia (1977), de Oswaldo Caldeira etc. A realização de Nelson Pereira dos Santos fez boa carreira junto ao público, se bem que o interesse deste se justificava pelos mesmos motivos que geraram as polêmicas com a censura: a nudez dos atores.


O francês (Arduíno Colassanti) ou "A comida que pula"


Quanto aos mais, o realizador se queixou da "postura colonizada" dos espectadores em geral. Segundo ele, compreenderam o filme pela ótica do simplismo maniqueísta, que divide o mundo entre bandidos e mocinhos. Percorreram caminho contrário ao pretendido pela realização. Não se identificaram com os índios e lamentaram o destino do francês. Em se tratando do grande público, Nelson Pereira dos Santos, meio que ingenuamente, pareceu esperar demais no tocante ao juízo crítico.






Argumento e Roteiro: Nelson Pereira dos Santos. Diálogos: Humberto Mauro. Direção de fotografia (Eastmancolor) e câmera: Dib Lutfi. Cenografia: Regys Monteiro, Luiz Carlos Ripper. Pesquisa etnográfica e histórica: Luiz Carlos Ripper. Assistente de cenografia: Marco Antônio Mello, Nilde Goebel. Montagem: Carlos Alberto Camuyrano. Assistente de montagem: Jayme Soares Justo. Som: Nélson Ribeiro. Efeitos sonoros: Geraldo José, Walter Goulart, Antônio César. Música e intérprete: José Rodrix. Assistentes de direção: Luiz Carlos Lacerda de Freitas, Carlos Alberto Camuyrano. Assistente de câmera: Ronaldo Nunes. Continuidade: Raimundo Bandeira de Mello. Vestuário: Mara Chaves. Maquiagem: Janira Santiago, José Soares, René Boechat, Nilde Goebel, Hélio Fernando, Diva Correia da Silva, Josué Amaral Batista. Fotografia de cena: Rogério Noel. Eletricistas: Sandoval Dórea, Jorge Rodrigues da Silva, Ruy Medeiros. Letreiros: Waldir Surtan. Equipe de produção: Carlos Alberto Diniz, Antônio Mendes Soares, Raimundo B. de Mello, Nelson Pereira dos Santos Filho, Pedro Jaconi Quirino, Mário Soares Filho, Francisco Vieira Nunes. Gerente de produção: Marques Irânio. Assistente de gerente de produção: Carlos Alberto Diniz. Assistente de produção: Pedro Aurélio Gentil. Narrador: Célio Moreira. Tempo de exibição: 84 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974; revisto e ampliado em 1978)


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