domingo, 16 de outubro de 2016

OS TRÁGICOS E JOVENS AMANTES VERONESES DE SHAKESPEARE, POR FRANCO ZEFFIRELLI

Antes de a coprodução anglo-italiana dirigida por Franco Zeffirelli, Romeu & Julieta (Romeo and Juliet/Romeo e Giulietta, 1968), se oferecer ao conhecimento no finado Cine Brasil de Viçosa/MG, em alguma tarde de domingo de 1970, havia a canção-tema A time for us, com música de Nino Rota e letra de Eugene Walter. Ganhou inúmeras versões e incontáveis gravações executadas à exaustão em qualquer emissora radiofônica captada na cidade e em sua única loja de discos à época, A Estrela de Ouro do Sr. João Cupertino, situada à Rua Artur Bernardes ainda muito distante do calçadão que a reordenaria. Foram praticamente dois anos de audição antes da apresentação às imagens. Certamente, ainda é o filme mais famoso do diretor. Conforme o balanço que acompanha a publicação, é a vigésima terceira transposição para o cinema da peça mais conhecida de William Shakespeare. A trágica história de amor dos jovens amantes de Verona, filhos de famílias mortalmente inimigas, conhece as telas desde 1900, pelas mãos do francês Clément Maurice. A realização zeffirelliana, se comparada às adaptações mais famosas até então, tem as vantagens do frescor juvenil, os rostos de intérpretes carismáticos, a agilidade narrativa mais a linguagem coloquial e objetiva, fatores que a converteram em imediato sucesso de público. Sem esquecer os prêmios conquistados em profusão, exageros decorrentes mais do caráter novidadeiro da transposição. Inflaram em demasia os estofos de uma obra no mais das vezes apenas correta e visualmente agradável. A apreciação a seguir é de 1974.





Romeu & Julieta
Romeo and Juliet/Romeo e Giulietta

Direção:
Franco Zeffirelli
Produção:
Anthony Havelock-Allan, John Brabourne
BHE Film (Londres), Verona Produzione & Dino de Laurentiis (Roma).
Itália, Inglaterra — 1968
Elenco:
Leonard Whiting, Olivia Hussey, John McEnery, Michael York, Milo O'Shea, Paul Hardwick, Antonio Pierfederici, Robert Stephens, Pat Heywood, Natasha Parry, Keith Skinner, Richard Warwick, Roberto Bisacco, Bruce Robinson, Dyson Lovell, Esmeralda Ruspoli, Roy Holder, Roberto Antonelli, Carlo Palmucci e os não creditados Ugo Barbone, Salvatore Billa, Andrés José Cruz Soublette, Claudio De Davide, Bruno Filippini, Maria Fracci, Aldo Miranda, Laurence Olivier, Dario Tanzini.



Bastidores: o diretor Franco Zeffirelli orienta Olivia Hussey, intérprete de Julieta


É vigésima terceira[1] adaptação cinematográfica da história de amor Romeu e Julieta — a mais famosa peça de William Shakespeare, longe, porém, de figurar entre as notáveis —, ambientada na ensolarada e italiana Verona. Também é considerada a melhor transposição do original e a mais ousada. Para desconsolo dos puristas, não guarda estrita fidelidade ao original.


Ao contrário de outras versões marcantes — as de 1936 e 1954, por exemplo, dirigidas respectivamente por George Cukor e Renato Castellani —, Zeffirelli acertou ao entregar os papéis principais a atores jovens, visivelmente adolescentes. Assim, firmou melhores relações com as intenções e características do texto-base, conhecido do cinema desde 1900: a produção francesa Romeo and Juliet, de Clément Maurice. Norma Shearer e Leslie Howard, protagonistas do Romeu e Julieta (Romeo and Julliet) de Cukor, seguidos 18 anos depois por Lawrence Harvey e Susan Shentall em Romeu e Julieta (Romeo and Juliet) de Castellani, jamais convenceram na representação de jovens apaixonados. Estavam em idades demasiado avançadas para interpretar uma história de amor adolescente, principalmente Howard com 43 anos e Shearer, 34. Leonard Whiting e Olivia Hussey contavam, respectivamente, 17 e 16 anos quando aturaram para Franco Zeffirelli, fazendo os filhos de duas famílias mortalmente inimigas: os Montecchio, da parte de Romeu, e os Capuleto, de Julieta.


Julieta Capuleto (Olivia Hussey)

Romeu Montecchio (Leonard Whiting)

  
Com sucesso, o diretor encenou a peça no palco, em 1960, pelo londrino Olv Vic Theatre, quando teve John Sride e Judi Denchi na interpretação dos trágicos amantes de Verona. A partir dessa fonte recriou livremente o texto para o cinema. Fez alterações substantivas. Simplificou a linguagem, deixando-a mais coloquial e objetiva. Além disso, alterou o contexto histórico: deslocou o tempo da ação original, o renascentista século XVI, para o XIV, medieval. Caracterizou os personagens jovens, não apenas os protagonistas, como correspondentes da juventude rebelde que irrompeu no ocidente na segunda metade dos anos 60, aproximando-os da cena contemporânea.


O resultado é, sem dúvida, envolvente. Zeffirelli caprichou no visual apurado, deixando-o agradável à média dos sentidos. As cores alegres, despojadas, claras e limpas do verão de Verona, apreendidas pelas lentes de Pasqualino De Santis, saltam aos olhos. Os planos de acurada beleza plástica remetem às pinturas de mestres italianos pré-renascentistas. A envolvente partitura de Nino Rota garante o melodioso toque romântico. A canção-tema What is youth? — mais conhecida como A time for us —, com letra de Eugene Walter e interpretação de Glen Weston, foi, infelizmente, pulverizada e vulgarizada em incontáveis versões ouvidas à exaustão em todas as emissoras radiofônicas e lojas de discos. Os carismáticos, inexperientes e esforçados Leonard Whiting e Olivia Hussey não comprometem o resultado final, apesar de tudo. Porém, é John McEnery, como Mercuccio, que oferece o personagem mais sedutor.


John McEnery no papel de Marcuccio

  
Zeffirelli procurava, sempre que as condições permitiam, guardar o máximo de fidelidade aos ambientes originais. Encontrou na Toscana e nos arredores de Roma locações convincentes à reprodução da Verona de Shakespeare. Em Pienza, utilizou o Palácio Piccolomini, construído sob Pio II no transcorrer do século XV. Também servem de cenário a histórica cidade de Gubbio e o Palácio Borghese, erguido no medieval vilarejo de Artena, para a recriação da famosa sequência do balcão.



Acima e abaixo: Julieta (Olivia Hussey) e Romeu (Leonard Whiting) na sequência do balcão


Em 1969, Pasqualino De Santis recebeu o Oscar pela Melhor Fotografia e o Silver Ribbon do Sindicato Italiano dos Cronistas de Cinema. No ano seguinte, ficou em terceiro lugar na competição ao Golden Laurel do Laurel Awards. Danilo Donati, oscarizado pelo Melhor Figurino, também mereceu o BAFTA Film Award do British Academy of Film and Television Arts daquele ano, ocasião na qual levantou o Silver Ribbon do Sindicato Italiano dos Cronistas de Cinema. Olivia Hussey e Leonard Whiting foram agraciados com o Globo de Ouro na categoria de Novos e Promissores Valores Incorporados ao Cinema e o Golden Plate das premiações David di Donatello em 1969, quando Franco Zeffirelli fez jus ao David di Donatello de Melhor Direção. Nesse ano, também recebeu o prêmio da categoria pelo Sindicato Italiano dos Cronistas de Cinema e o NBR Award do National Board of Review. Em 1968, no Festival de Cinema de Thessalonika, Grécia, ficou com o Prêmio Honorário. A Crítica de Nova York atribuiu à realização o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro em Língua Inglesa — um imerecido exagero. Romeu e Julieta é apenas uma produção correta, bonita e agradável aos olhos. Na corrida pelos Laurel Awards, de 1970, o filme ficou em segundo lugar ao Golden Laurel na categoria Drama. Nino Rota, pela Melhor Música, e Lorenzo Mongiardino, pelo Melhor Desenho de Produção, receberam o Silver Ribbon do Sindicato Italiano dos Cronistas de Cinema, 1969.


Pat Heywood com a ama de Julieta

Michael York no papel de Teobaldo

Romeu (Leonard Whiting) e Julieta (Olivia Hussey) no trágico fim


Nesse ano, indicações não convertidas em prêmios vieram da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para Melhor Filme e Melhor Diretor; do Globo de Ouro para Melhor Diretor e Melhor Trilha Musical; do BAFTA Awards para Nino Rota (prêmio Anthony Asquith para Música de Cinema), Franco Zeffirelli, Reginald Mills (montagem), John McEnery (ator coadjuvante) e Pat Heywood (atriz coadjuvante). Em 1970, por Novo Rosto Masculino, Michael York ficou em oitavo lugar na competição aos prêmios Golden Laurel do Laurel Awards, ao passo que Olivia Hussey ocupou a quarta posição na categoria feminina. Pelo Directors Guild of America, em 1969, Franco Zeffirelli foi nominado por Direção Extraordinária em Cinema.




Roteiro: Franco Zeffirelli, Masolino D'Amico, Franco Brusati, com base na peça homônima de William Shakespeare. Direção de fotografia (Technicolor) e iluminação: Pasqualino De Santis. Arquitetura e desenho de produção: Lorenzo "Renzo" Mongiardino. Direção de arte: Luciano Puccini, Emilio Carcano. Camareira: Christine Edzard. Mixagem de som: Sash Fisher. Música: Nino Rota. Canção (letra): A time for us, de Eugene Walter. Figurinos: Danilo Donati. Montagem: Reginald Mills. Assistentes de direção: Isa Bartalini, Anna Davini, Dyson Lovell, Carlos Barbieri, Bert Pearl, Rinaldo Ricci. Narrador original do prólogo e do epílogo: Laurence Olivier. Gerente de produção: Giuseppe Bordogni. Produtor associado: Richard B. Goodwin. Produção de elenco: Dyson Lovell (não creditado). Chefe de penteados: Olga Angelinetta. Maquiagem: Mauro Gavazzi. Penteados: Luciano Vito. Assistente de direção de arte: Alessandro Alberti. Planejamento do set: Italo Tomassi (não creditado). Assistente de ajustes sonoros: Pat Foster. Ajustes sonoros: Michael Hopkins. Mixagem da regravação de som: Maurice Askew (não creditado). Substituição de diálogos: Peter Maxwell (não creditado). Mixagem da regravação de som: Lionel Strutt (não creditado). Dublês: Nicolo Perno. Operadores de câmeras: David Harcourt, Dudley Lovell. Assistente de câmera: Geoff Glover (não creditado). Assistentes de montagem: John Rushton, Giorgio De Vincenzo (não creditado). Secretárias da produção: Gabriella Bernardi, Sue Huskisson, Liselotte Kloncka. Assistentes de produção: Anna Davini, Lamberto Pippia. Contabilidade da produção: Pio De Vito. Coreografia: Alberto Testa. Estúdios de filmagem: Cinecittá Studios. Tempo de projeção original: 152 minutos (138 minutos nas cópias exibidas no Brasil).


(José Eugenio Guimarães, 1974)




[1] As versões anteriores, contando apenas as realizadas para o cinema, são os curtas Romeo and Juliet (1900), de Clément Maurice; Romeo e Giulietta (1908), de Mario Caserini; Romeo and Juliet (1908), de diretor desconhecido; Romeo and Juliet (1908), de J. Stuart Blackton; Roméo se fait bandit (1909), de Romeo Bosetti; Romeo and Juliet (1911), de Barry O'Neill; Romeo e Giulietta (1912), de Ugo Falena; Romeo and Juliet (1916), de J. Gordon Edwards; Romeo and Juliet (1916), de Francis X. Bushman e John W. Noble; Romeo and Juliet (1924), de Reggie Morris e Harry Sweet; e os longas Romeu e Julieta (Romeu and Juliet, 1936), George Cukor; Julieta y Romeo (1940), de José María Castellví; Shuhaddaa el gharam (1942), de Kamal Selim; Romeu e Julieta (Romeo y Julieta, 1943), de Miguel M. Delgado; Anjuman (1948), de Akhtar Hussein; Romeo at Julieta (1951), de Ralph Brambles Jr. e Prudêncio Mariano; Romeo y Julita (1953), de Enrique Carreras; Romeu e Julieta (Romeo and Juliet, 1954), de Renato Castellani; Romeu e Julieta (Romeo i Dzhulyetta, 1955), de Lev Armstram e Leonid Lavrovsky; Amor, sublime amor (West side story, 1961), de Robert Wise e Jerome Robbins; Romeo e Giulietta (1964), de Ricardo Fredda; e Romeo and Juliet (1966), de Paul Czinner.

6 comentários:

  1. Eugenio,

    O Zeferelli já havia investido numa obra do Shekespeary um ano antes em A Megera Domada, se saindo até muito bem como, de um modo geral. Aliás, o diretor sempre consegue em suas investidas no cinema fazer bons trabalhos.

    Vou fazer como você, ao responder alguns de meus comentários; "concordo com tudo o que disse" ao citar os valores de uma obra de cunho muito simples e que apenas a qualidade que o Zeferelli investiu na fita, como fotografia, atores, cores lindas e captadas em locais bem ensolarados, dentre outras mexidas que deu como, inclusive, fazendo alterações no teor da obra do William e deslocando a historia para o século XIV, terminou por articular uma fita agradável e que lhe rendeu premios demais!

    E, também no meu ver, " presentearam-na com prêmios não tão merecidos assim".
    No entanto, como o cinema vive ou oferece privilégios a coisas bonitas e que sacia as ansiedades dos Lords, não direi aqui que abusaram em premiá-la desta forma, já que a fita tem lá seus alguns valores.

    Na realidade eu não consegui captar bem o porque desta alteração para outro século ter sido um bom trunfo do diretor, apesar de estar tudo transcrito no texto.
    Entretanto percebo claramente que não me inteirei bem da vantagem desta redução de 2 séculos.

    De qualquer forma não vem muito ao caso e o diretor conseguiu agradar a "gregos e brasileiros" com uma historia bem narrada e com a moçada no comando do espetáculo.

    Assim, ponto apenas para quem sabe criar o cinema agradável mesmo que instituindo neles ideais seus.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Jurandir,

      Sim, de fato, há o shakespeariano "A megera domada" na filmografia do diretor, título que só vi muito anos depois de "Romeu & Julieta" e, francamente, nunca foi do meu agrado. Para ser franco com o Franco, não gosto muito de Zeffirelli. Boas embalagens mas vazio na maioria das vezes. "Irmão Sol, irmão Lua" é bonitinho, mas, convenhamos, não passa disso. Evidentemente, o diretor é um bom encenador. Como diretor, foi deixando cada vez mais a desejar. Mas aprecio o seu "Jesus de Nazaré", uma boa humanização do Cristo, apesar de também apresentá-lo bonitinho demais para a realidade em que vivia. Isto numa época que já começava a abandonar os traços nórdicos do Messias por um perfil mais condizente com o fenótipo semita, ainda mais de quem era socialmente um pé rapado e obrigado a sobreviver do próprio esforço até sair em pregação.

      A alteração do tempo da ação do século XVI para o XIV... Não sei onde você leu que isso é um "trunfo do diretor". O texto apenas informa que o contexto histórico foi alterado. Quando a "trunfo", fica por sua conta. Foi apenas uma liberdade que ele tomou em relação ao original, coisa de somenos importância que em nada o descaracterizou.

      Saludos e abraços.

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  2. Hola Eugenio.
    En primer lugar felicitarte por el riguroso análisis y la descripción de la película.
    De Zeffirelli conozco parte de su obra, aparte de Jesús de Nazaret, he visto las referenciadas a William Shakespeare, incluida la desigual interpretada por Mel Gibson.
    Creo también acertada la elección de los protagonistas por su juventud y destacaría el trabajo de Michael York.
    Una buena película, pero en mi opinión sin llegar a la obra maestra.
    Muchas gracias por tu visión del cine y por traer al recuerdo un buen director y una historia tan romántica como Romeo y Julieta.
    Un gran abrazo.

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    1. Saludos, Miguel!

      Como usted ya debe haber percibido, este blog abarca diversos rangos de tiempo. Es una forma que encontré para socializar con quién juzgue interesante, mi relación afetiva con el cine, vía socialização de textos los más diferentes que escribí y vengo escribiendo acerca de las películas que pasaron por mis ojos desde la infancia. Esta apreciación que usted leyó sobre la película de Zeffirelli es de mi juventud. Fue elaborada en 1974. En la época, me gustó hasta demás. Infelizmente, después, con el crecimiento y el amadurecimento, mi relación con el director Franco Zeffirelli si estremeció. Formalmente, sus películas son muy bonitas, pero quedan sólo en esto. En general, no tengo muy apreço por las películas que hizo. Sin embargo, abro excepción para "Jesus de Nazaré", que él dirigió originalmente para la TELE y que fue lanzada en los cines, en dos partes, aquí en Brasil.

      Abrazos y saludos. Muchas gracias.

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  3. Esta gran película de Romeo y Julieta, fue quizás la que más fama le dio a su director, Franco Zeffirelli. Como muy bien comentas en tu esplendida reseña cinematográfica, uno de los hechos más significativos es el haber elegido a dos jovencísimos actores con la misma edad que Shakespeare creó a sus personajes, ya que Zeffirelli estaba muy interesado en llevar al cine esta inmortal obra y que representase también a la juventud rebelde de Occidente en la segunda mitad de los años 60, es decir la misma época de cuando se rodó la película.

    Este director también había trabajado en la ópera y el teatro, siendo amigo de María Calas, lo que también se reflejó en su película, con gran calidad artística, sonora y de fotografía.

    Efectivamente todo el plantel interpretativo, de realización, guión, diseño y vestuario, obtuvieron numerosos premios después de trabajar en esta película.

    ¡Felicidades! amigo y compañero bloguer, Eugenio, una vez más por tu gran recopilación de datos y presentación de esta gran coproducción cinematográfica.

    Un abrazo.

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    1. Gracias por seu aporte, Estrella Amaranto. "Romeu & Julieta" ainda é o melhor filme do Franco Zeffirelli.

      Um grande abraço.

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