domingo, 11 de setembro de 2016

APÓS "SUMMER OF '42" O RITO DE PASSAGEM CONTINUA NO OESTE DE DICK RICHARDS

Depois de experimentar, como Hermie, um rito de passagem pelas mãos de Dorothy (Jennifer O'Neil) em Houve uma vez um verão (Summer of '42, 1971), de Robert Mulligan — quando deixou muito adolescente tomado de espinhas se remoendo de inveja —, o jovem Gary Grimes permaneceu nas sagas sobre o crescimento. No papel de Ben Mockridge, com apenas 16 anos, foi para o velho Oeste incorporado à comitiva de Frank Culpepper (Billy "Green" Bush) em Assim nasce um homem (The Culpepper Cattle Co., 1972), de Dick Richards. É o primeiro dos sete filmes realizados pelo irregular diretor e, provavelmente, o melhor. Claramente inspirado em Rio Vermelho (Red River, 1948), de Howard Hawks, e também influenciado pela estética de Meu ódio será sua herança (The wild bunch, 1969), de Sam Peckinpah, acompanha os percalços de um empreendimento de condução de gado do Texas ao Colorado. A narrativa, violenta para os padrões da época, é compassada e marcada pelo viés ao mesmo tempo contemplativo e desmistificador. Assim nasce um homem tenta pintar um quadro considerado crível do velho Oeste, como um lugar de solidão, afirmação, egoísmo e perigo, contrariando as ilusões românticas de Ben, que tinha a região como espaço dominado por cavaleiros heróicos e desprendidos. O maior senão é a claudicante interpretação de Gary Grimes. A apreciação a seguir é de 1974.







Assim nasce um homem
The Culpepper Cattle Co.

Direção:
Dick Richards
Produção:
Paul A. Helmick, Jerry Bruckheimer
20th. Century-Fox
EUA — 1972
Elenco:
Gary Grimes, Billy "Green" Bush, Bo Hopkins, Luke Askew, Geoffrey Lewis, Wayne Sutherlin, John McLiam, Matt Clark, Raymond Guth, Antonhy James, Charlie Martin Smith, Larry Finley, Bob Morgan, Jan Burrell, Gregory Sierra, Hal Needham, Royal Dano, Ted Gehring, Lu Shoemaker, Jerry Gatlin, Walter Scott, Paul Harper, José Chávez, Arthur Malet, John Pearce, Dennis Fimple, William O'Connel, Patrick Campbell, Bob Orrison.



Dick Richards quando dirigia Assim nasce um homem



Desmistificador mas irregular, o filme procura pintar um quadro crível do velho Oeste em acordo com o que deveriam ser as cores da realidade: um lugar de solidão, afirmação, egoísmo e perigo. O registro é bem distanciado do romantismo que grassa em muitos exemplares do western. Acompanha a jornada de descoberta e crescimento do jovem Ben Mockridge (Grimes), de 16 anos. Filho de lavadeira viúva (Burrell), ajuda-a no recolhimento e entrega das roupas, atividade que o desagrada pela monotonia e por considerá-la indigna a um homem. Pretende ser cowboy, percorrer o Oeste de ponta a ponta e se impor pela força das armas.



Abaixo e acima: Gary Grimes como Ben Mockridge, perplexo e atrapalhado aprendiz de cowboy 


A grande chance aparece. Será auxiliar do cozinheiro (Guth) na companhia de Frank Culpepper (Bush). É o início de um rito de passagem para a vida adulta propriamente. Ben comprovará, dolorosamente, que o Oeste não é o que imaginava. Os cowboys idealizados como cavaleiros heróicos e desprendidos não existem. Sobressaem homens egoístas, que se batem única e exclusivamente na defesa de interesses imediatos. O companheirismo e a solidariedade imaginados resistem apenas em parcos e rápidos momentos: quando a conversa é jogada fora nos acampamentos, à beira das fogueiras, durante algum ocasional descanso. Nesses instantes, ganham relevo as provocações, fanfarronices e o tratamento de assuntos fadados ao rápido esquecimento. Em Assim nasce um homem é suja a imagem do Oeste e dos homens que o fazem. Não obstante, há espaço para cenas transbordantes de lirismo em meio à dureza das atividades e das paisagens.


O cozinheiro interpretado por Raymond Guth e  Ben Mockridge vivido por Gary Grimes


A companhia de Frank Culpepper conduz gado do Texas a Fort Lewis, Colorado. Tão logo se incorpora ao grupo, Ben se apavora com a realidade sangrenta ao testemunhar o assassinato de três companheiros por ladrões de gado. É quando recebe a primeira missão de responsabilidade: cavalgar até Castigo, cidade próxima, para contratar novos auxiliares: Russ Caldwell (Lewis), Luke (Askew), Dixie Brick (Hopkins) e Missoula (Sutherlin), aparentemente mais pistoleiros que vaqueiros. A independência dos novatos, apoiada na belicosidade armada, não demora a trazer problemas à caravana. Mesmo assim, Ben faz amizade com Luke, a quem toma como modelo de cowboy.


Frank Culpepper (Billy "Green" Bush) e Ben Mockridge (Gary Grimes)

A comitiva de Frank Culpepper ((Billy "Green" Bush) avança


Ben Mockridge (Gary Grimes) em dificuldades com a montaria


A chance de provar o próprio valor surge quando Culpepper o escala para guardar o gado durante a noite. Porém, o aprendiz cai na armadilha de ladrões de cavalos. Aborrecido com a inexperiência do jovem, o chefe resolve devolvê-lo à mãe na primeira diligência da cidade mais próxima. É onde os ladrões são reconhecidos. Segue-se ação rápida e violenta. Ben mata um dos bandidos e os animais são recuperados. Todos retornam ao acampamento. A caravana segue até encontrar as pastagens de Thornton Pierce (McLiam), especulador fundiário e chefe de quadrilha. Cobra uma exorbitância para deixar o gado descansar e se abastecer em suas terras. Escolhidos para negociar com o proprietário, Caldwell, Luke, Brick e Missoula são humilhados e desarmados. Disposto a evitar maiores complicações e pensando exclusivamente na segurança do rebanho, Culpepper prefere seguir em frente. A comitiva chega a um vale tranquilo ocupado por mórmons com anseios de ali recriarem a terra prometida. Pierce aparece e reclama a posse do local, ameaçando matar a todos. Novamente Culpepper se retira. Mas Ben resolve ficar, com a heróica disposição de proteger os desamparados peregrinos. Para sua surpresa, Caldwell retorna com Luke, Dixie Brick e Missoula. Mas a intenção primeira do grupo não é a de auxiliar Ben e os religiosos, mas reparar o orgulho ferido pelo bando de Pierce, que os obrigou a entregar as armas. Segue-se o tiroteio. Sobrevivem somente o personagem de Grimes e os assustados mórmons. Estes resolvem levantar acampamento, pois o vale, manchado de sangue, não lhes serve mais. Farisaicamente, pensam apenas na fé que os sustenta, pouco se importando com a sorte dos diferentes. Inconformado com tanto egoísmo, Ben os obriga a enterrar os companheiros mortos. Depois parte sozinho, ao som da clássica canção Amazing Grace, composta por John Newton em 1779. Quem a interpreta? A voz é parecidíssima com a de Joan Baez, mas os créditos não informam. A composição é belíssima, mas mal posicionada. Assim nasce um homem chega ao fim meio que fora do lugar.


Luke (Luke Askew) e Russ (Geoffrey Lewis)


O jovem Gary Grimes, revelado em Houve uma vez um verão (Summer of '42, 1971), de Robert Mulligan, infelizmente não apresenta desempenho convincente como aprendiz de cowboy. Parece mais aparvalhado do que deveria. Move-se catatonicamente, como se estivesse sem direção.


Ben Mockridge (Gary Grimes) diante da violência materializada do velho Oeste


O roteiro de Eric Bercovici e Gregory Prentiss é nitidamente influenciado por dois clássicos do western. Primeiramente, Rio Vermelho (Red River, 1948), de Howard Hawks, no qual uma caravana conduz gado do Texas ao Missouri e inaugura a lendária trilha Chisholm. Outra referência é Meu ódio será sua herança (The wild bunch, 1969), de Sam Peckinpah, com suas imagens de um Oeste fim de linha e sem espaços à exaltação de gestos largos, heróicos e românticos. Também há semelhanças com Os cowboys (The cowboys), de Mark Rydell, realizado no mesmo ano. Neste, o veterano rancheiro Will Anderson (John Wayne) conduz uma boiada auxiliado apenas por crianças que se tornam adultas em meio à paisagem rude e violenta.





Roteiro: Eric Bercovici, Greogory Prentiss. Argumento: Dick Richards. Direção de fotografia (Color DeLuxe): Lawrence Edward Williams, Ralph Woolsey. Direção de arte: Jack Martin Smith, Carl Anderson. Decoração: Walter M. Scott. Costumes e guarda-roupa: Ted Parvin. Produtor associado: Jerry Bruckheimer. Contrarregra: Douglas Sutubbs. Maquiagem: Del Armstrong. Supervisão de script: Terry Terrill. Mixagem de som: Richard Overton, Jesus Gancy. Gerente de locações: Octavio R. Elias. Auditoria de locações: Lucille Baumann. Fotografias de cena: Susan Weston Webb. Coordenação de construções: Joe DeSanto. Efeitos mecânicos especiais: Cliff Wenger. Montagem: John F. Burnett, Desmond Marquette (não creditado). Música: Tom Scott, Jerry Goldsmith. Coordenador de dublês: Hal Needham. Gerente de unidade de produção e assistente de direção: Terry Morse Jr. Mixagem da regravação de som: Don J. Bassman. Dublês (não creditados): Denny Arnold, William H. Burton Jr., James M. Halty. Operadores de câmera (não creditados): Sherman Kunkel, Lee Smith. Operador de câmera da segunda unidade: Rexford L. Metz (não creditado). Assistente de câmera: Roger L. Smith (não creditado). Produção de elenco extra nas locações: Frank Kennedy (não creditado). Coordenação de lutas: Pepe Cueto (não creditado). Secretárias de produção (não creditadas): Linda Hanna, Linda Rosenbaum. Assessoria de bem estar: George Pittman (não creditado). Serviços de mixagem de som: Westrex Recording System. Tempo de exibição: 92 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974)

4 comentários:

  1. Hola amigo Eugenio.
    Es un verdadero placer volver a reencontrarme con tus publicaciones tras un tiempo de descanso.
    Esta película que nos traes hoy la visione hace muchos años y no la recuerdo muy bien, pero me ha traído muy buenos recuerdos de cuando era un niño y jugábamos a los pistoleros del viejo oeste.
    En España ese filme se tradujo con el título de "Coraje, sudor y pólvora" si no recuerdo mal;bueno ya sabes que lo de las traducciones es un aspecto que daría para escribir un buen libro de humor.
    Es una película poco conocida y que algunos han calificado ya de culto enmarcada en el llamado western crepuscular, me gustaría volver a verla después de tu excelente texto.
    Comentas también que la película tiene influencias de Río Rojo una de mis preferidas en el género del western del maestro Howard Hawks.
    En conclusión te felicito por el excelente trabajo presentado con el que no dejo de aprender de muchos aspectos del mundo del cine.
    Te mando un gran abrazo desde España.

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    1. Hola, Miguel!

      antes de todo, pido perdón pela tarda para responder a su comentario, pero estuve con poco tiempo disponible para eso, pues mis atenciones estaban casi que todas vueltas a mi actividad profesional.

      Vi está película hay muchos años, el tiempo en que trabajaba en un cine en la ciudad donde vivía con mis padres. Fue cuando también escribí la apreciación que fue aquí publicada. Infelizmente, no tuve oportunidades de volver a verla. Bien que me gustaría. Sería muy bueno, inclusive para intentar una visión más matizada por el tiempo. Un día, espero tener la oportunidad, principalmente ahora, cuando dedico la mayor parte de mi vida de cinéfilo al repaso. Sí, hay muchos elementos de "Río Rojo" en la película.

      Muchas gracias por su cariñosa atención y comentario. Abrazos y saludos.

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  2. Eugenio,

    Fizeste esta apreciação em 1974. Então deves ter assistido a este western por esta época. Eu vi este filme na TV, mas lá pelo final da cécada de 1980 ou já em 1990. Portanto já se passaram muitos anos para fazer uma análise com mais profundidade.

    Sobre o diretor eu nem o conhecia, chamando-o agora no Google e captando que somente vi dele a fita da postagem.

    Este filme, pelo seu rítimo muito diferente dos westerns que assistia, vivia flutuando em minha mente. Mas eu não sabia seu titulo direito.

    O assisti por dois motivos; um por ser amante de faroestes e depois por ter visto o Grimes no muito bom filme do Mulligan/71 e ter amado tudo o que na pelicula aconteceu, inclusive ter ficado fã do Gary, com quem já vi muitos filmes e todos de faroeste.

    Hoje este titulo vai para meus alfarrábios graças a este espaço.

    Recordava que era um faroeste vigoroso, com um desenrolar mais agressivo e com o Grimes em mais um bom papel e com muitos bons momentos.

    Adorei o filme, mas não sabia nada mais dele e nem mesmo o titulo, como já falei, confundindo-o com o Quando um Homem é Homem. Porém, quando vi que este titulo pertencia a um filme do McLaglen, e com o Duke, me perdi e fiquei sem anota-lo.

    Muitos filmes de faroeste feitos a partir de 1970, ganharam um contorno de violencia mais acurado, forte, com ares muito alternados aos filmes feitos na década de 1950/60.

    A começar pelo titulo Mato Em Nome Da Lei/71, fita com violência escrachada, com mortes anormais às mortes dos faroestes que costumávamos ver e fita muito comentada à época por sua violência explicita demais. E este filme com o Grimes é um outro.

    Precisaria reve-lo para um comentário mais firme. Porém, não sei como fazer para ve-lo.

    Realmente, pelo que recordo dele, tem mesmo muito a ver com os 3 titulos que enumeras.

    Muita gente acha muito filme no computador. Mas eu não tenho este hábito de ver filmes assim e por isso deixo de ver muitos filmes que precisaria ver até mesmo para comentar com mais atualização, como é este.
    Mas acho que com este vou fazer uma exceção.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. De fato, Jurandir, vi este filme em 1974, no finado Cine Odeon de Viçosa/MG, onde morei durante muitos anos. Também só o vi uma vez. Conforme respondi ao Miguel, em comentário logo acima do seu, tenho vontade de revê-lo, pois me deixou alguma boa impressão, apesar de alguns senões, um das quais a que considero fraca atuação do Gary Grimes. Porém, como até hoje guardo vivas muitas imagens da época em que o vi, é sinal de que me marcou.

      Muitos westerns desta época foram nitidamente influenciados por MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA. ASSIM NASCE UM HOMEM é um deles. Inclusive esse MATO EM NOME DA LEI, no original "Lawman", com direção de Michael Winner e protagonizado por Burt Lancaster. ASSIM NASCE UM HOMEM está disponível no Youtube, mas sem legendas.

      Abraços.

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