domingo, 4 de março de 2018

A SEGUNDA E — INFELIZMENTE — ÚLTIMA INCURSÃO DE KIRK DOUGLAS NA DIREÇÃO

Apoiado no prestígio de gêneros de forte apelo popular, há muito consolidados, o ator Kirk Douglas resolveu passar à direção na primeira metade dos anos 70. Infelizmente, fez apenas dois filmes. O primeiro, de 1973, resultou em malfadada tentativa de revisitar com bom humor as boas e velhas sagas de piratas com As aventuras de um velhaco (Scalawag). O segundo rendeu o sólido e promissor western Ambição acima da lei (Posse, 1975). Não é realização a merecer lugar entre os grande filmes ambientados no cenário de um Velho Oeste pronto a ser engolfado pelos valores modernos e civilizados, principalmente no que representam de pior. A direção às vezes é frouxa; o desenvolvimento, previsível. Ainda assim, há marca autoral de sobra e passagens particularmente vigorosas. Provavelmente, as melhores qualidades de Ambição acima da lei são devidas ao coeso roteiro de William Roberts e Christopher Knopf. A peça possibilitou a construção de uma narrativa seca e convenientemente estruturada, sem concessões aos tempos mortos. De outro lado, conta história viva e dinâmica, alimentada não somente pelos valores da fronteira. É um filme político, propositalmente contaminado por elementos que marcaram a vida pública estadunidense no momento da realização: o cínico personalismo temperado por corrupção e demagogia. A narrativa — perpassada por desencantamento, desesperança, instrumentalização, amoralismo e frustração — acompanha a espalhafatosa campanha política do delegado federal Howard Nightingale (Kirk Douglas), candidato ao senado pelo Texas. A caça aos votos mobiliza a orgânica integração de recursos os mais diversos na espetacular perseguição ao notório assaltante de trens Jack Strawnhorn (Bruce Dern). Interesses particulares de monopólios privados estão diretamente envolvidos no esforço e, evidentemente, são sobrepostos aos públicos. A imprensa, ainda desinteressada, tenta atuar com independência no afã de divulgar a “verdade” aos leitores. No entanto, os indivíduos logo se tornam prisioneiros de circunstâncias desprovidas de controle e os mais elementares princípios éticos deixam de nortear as ações. Céu e inferno misturados em turbilhão concedem poucas margens de manobra e autonomia ao antes tão confiante e racional Howard Nightingale. Segue apreciação escrita em 1994.






Ambição acima da lei

Posse

Direção:
Kirk Douglas, Anne Douglas (não creditada)
Produção:
Kirk Douglas
Bryna Productions, Zeeuwse Maatschappij N. V., Paramont Pictures
EUA — 1975
Elenco:
Kirk Douglas, Bo Hopkins, Bruce Dern, James Stacy, Luke Askew, Alfonso Arau, David Canary, Katherine Woodville, Mark Roberts, Dick O'Neill, Louie Elias, Beth Brickell, William H. Burton Jr., Gus Greymountain, Allan Warnick, Jess Riggle, Larry Finley, Roger Behrstock, Dick Armstrong, Pat Tobin, Stephanie Steele, Melody Thomas Scott.



O diretor de Ambição acima da lei, Kirk Douglas, no papel do delegado federal Howard Nightingale



Ambição acima da lei é a segunda incursão de Kirk Douglas na realização. A primeira, dois anos antes, resultou na saudável e infelizmente frustrada tentativa de retomar as velhas e boas sagas de piratas: As aventuras de um velhaco (Scalawag, 1973), com o ator e diretor no papel do bucaneiro Peg. Literalmente, é uma produção que deu com os burros n’água.


Em Ambição acima da lei Douglas retorna a um gênero tradicional: o western, no qual consolidou notável experiência como protagonista de títulos vigorosos: Duelo de titãs (Last train from Gun Hill, 1958), de John Sturges; Homem sem rumo (Man without a star, 1955), de King Vidor; O último por-do-sol (The last sunset, 1961), de Robert Aldrich; Sem lei e sem alma (Gunfight at the O.K. Corral, 1957), de John Sturges; O rio da aventura (The big sky, 1952), de Howard Hawks; e, entre outros, o desmistificador Ninho de cobras (There was a crooked man..., 1970), de Joseph L. Mankiewicz.



Acima e abaixo: Kirk Douglas como o ambicioso delegado federal Howard Nightingale


Agora, a direção de Douglas alcança resultados surpreendentes. De Ambição acima da lei se pode até lamentar a condução burocrática, prisioneira da previsibilidade. Porém, assisti-la é uma experiência prazerosa — principalmente nesta época de westerns escassos. O roteiro de William Roberts e Christopher Knopf é coeso, sem brechas para tempos mortos. Tudo faz sentido. A ação, conduzida com segurança, sempre prende a atenção.


Howard Nightingale (Kirk Douglas) e Jack Strawhorn (Bruce Dern)

  
O título original — Posse — remete a uma tradição, praticamente uma instituição do Velho Oeste: um grupo armado é revestido de autoridade legal para levar adiante a caça e, se possível, o aprisionamento de procurados pela Justiça. O delegado federal Howard Nightingale (Douglas), à frente de cinco atiradores de elite, promete revirar céu e terra para capturar Jack Strawnhorn (Dern) — notório e sagaz assaltante de trens considerado perigoso e covarde. Na verdade, a missão é um trampolim para as pretensões políticas de Nightingale: conseguir votos para se eleger senador. O ambicioso e cínico agente da lei também é friamente calculista. Impede a todo custo a interposição de fatores que podem lhe prejudicar os objetivos imediatos. Assim, sem maiores considerações éticas, instrumentaliza do jeito que puder os recursos materiais e humanos ao seu alcance. Capturar Strawnhorn é somente uma espetacular estratégia de campanha que lança mão de transporte ferroviário específico — cedido pela companhia sempre assaltada — transformado em quartel-general da caçada e comitê eleitoral volante. Se bem que, propriamente, não há delimitação rígida entre essas instâncias. O expresso é equipado com escritórios, alojamentos, estábulo, sala de imprensa, restaurante, laboratório fotográfico, acomodações para auxiliares, prisão para Strawnhorn etc.


Kirk Douglas como Howard Nightingale


Os auxiliares do delegados federal Howard Nightingale (Kirk Douglas)


Bruce Dern como o assaltante de trens Jack Strawhorn


Mesmo que não passe à história como filme de primeira linha, Ambição acima da lei possui algo mais: a temática transpõe para o passado estadunidense situações de um presente muito atual: o cínico personalismo político acompanhado de corrupção e demagogia. Sem esquecer que a narrativa avança pela tênue linha que separa — e une — os interesses eleitoreiros de Nightingale e a esfera privada dos negócios escusos da estrada de ferro — a ajuda prestada ao candidato não é desinteressada, em absoluto. Ambição acima da lei também enfoca criticamente um momento de transição, quando o Oeste firmado na aventura de indivíduos que se bastavam cede a vez aos valores civilizados: estabilidade legal, econômica e social; urbanidade; trabalho racionalizado. Apagam-se as colorações do tempo que legitimava tipos como Strawnhorn; inicia-se o flerte com a dubiedade de gente pragmática, sempre disposta a negociar valores e particularismos — inclusive os mais arraigados ideais, como faz Nightingale. O séquito que lidera sequer encontrará espaço de recomposição nos novos tempos: é formado por personalidades destituídas de mérito, facilmente descartáveis, fadadas à marginalidade nas novas configurações do Oeste modernizado. Essa transição também capta o período no qual as comunidades urbanas, assediadas por marginais sem rumo, tornam-se, grosso modo, prisioneiras de outros personagens igualmente erráticos: os aspirantes à representação política na caça aos votos.



Acima e abaixo: Kirk Douglas como Howard Nightingale


O revelador embate frente a frente entre Nightingale e Strawnhorn merece lugar na antologia dos epílogos cinematográficos.





Desenho de produção: Lyle R. Wheeler. Montagem: John W. Wheeler. Direção de fotografia (Technicolor, Panavision): Fred J. Koenekamp. Fotografia adicional: Jules Brenner. Música e direção musical: Maurice Jarre. Produção executiva: Phil Feldman. Roteiro: William Roberts, Christopher Knopf, baseado em história de Christopher Knopf. Tratamento do roteiro: Larry Cohen (não creditado). Decoração: Fred Price, Lyle R. Wheeler. Penteados: Judith A. Cory. Maquiagem: Loren Cosand, Jack H. Young (não creditado). Supervisão da pós produção: Peter Douglas. Gerente de unidade de produção: Howard Pine. Executivo responsável pela produção na Paramount Pictures: Lindsley Parsons Jr. (não creditado). Segundo assistente de direção: Pat Kehoe. Primeiro assistente de direção: Jack Roe. Chefe de equipe no departamento de arte: Leonard Cross (não creditado). Assistente de contrarregra: Mike Ezzes (não creditado). Assistente da direção de arte: Frederick P. Hope (não creditado). Chefe de pintura: Johnny Lattanzio (não creditado). Contrarregra: Terry E. Lewis (não creditado). Responsável por áreas verdes: Roger MacKechnie (não creditado). Coordenação de construções: William Maldonado (não creditado). Assistente de pintura: Woody Willis (não creditado). Produção de mixagem de som: Tom Overton. Mixagem da regravação de som: Richard Portman. Edição de efeitos sonoros: Keith Stafford. Operador de boom: Dennis Jones (não creditado). Supervisão de efeitos especiais: Phil Cory. Capataz de efeitos especiais: Charles E. Dolan. Efeitos especiais: Phil Cory (não creditado). Dublê: William H. Burton Jr. (não creditado). Fotografia de cena: Orlando Suero. Operadores de câmera (não creditados): John Bailey, Joseph M. Wilcots. Assistentes de camera (não creditados): William Jay Gahret, Paul Jones, Chuck Morgan, Michael Nakamura, Andy Nelhams, Byron White. Eletricista-chefe: Doug Pentek (não creditado). Produção de elenco extra: Michael Kennedy. Supervisão de guarda-roupa: Lambert Marks (não creditado). Assistente de guarda-roupa: Willie Perez (não creditado). Gerente de locações: Jack N. Young (não creditado). Edição musical: George Brand. Músico: Tommy Tedesco (violão/não creditado). Capitão de transportes: Alan Falco (não creditado). Assistente para o produtor: Joel Douglas. Planejamento de créditos: Wayne Fitzgerald. Auditoria da produção: Justin Buehrlen (não creditado). Publicidade: Dave Davies (não creditado). Desenhos técnicos: John Dolan (não creditado). Médico: Ernie Fuentes (não creditado). Continuidade: Marshall Schlom (não creditado). Lutas: Rudy Ugland (não creditado). Secretaria da produção: Mary Winters (não creditado). Tempo de exibição: 92 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1994)

2 comentários:

  1. Hola Eugenio, a vueltas con los títulos, esta película se tradujo en España por inventado título de 'Los justicieros del oeste'. Es realmente una pena que Kirk Douglas solo dirigiera dos películas, pues era un hombre con el cine en la cabeza. Entiendo que la película de hoy tiene una narrativa correcta y nos habla de los valores éticos que pueden ser universales con el paso del tiempo. Un gran abrazo Eugenio y gracias por tan completa evaluación de la película.

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  2. Hola, nueva seguidora; felicitaciones por blogs y publicaciones; este es el último publicado por mí: http://ioamoilibrieleserietv.blogspot.com/2018/03/recensione-serie-la-principessa-degli_13.html

    Si quieres, te espero como lector permanente; gracias

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