domingo, 7 de outubro de 2018

SEXO, EROTISMO, CIÊNCIA DE ALMANAQUE E MUITO MORALISMO NO CANADENSE “L’INITIATION”

Por causa das particularidades da praça cinematográfica de Viçosa/MG e dos círculos cultivados por meu pai, enfrentei poucas dificuldades, na adolescência, para vencer os limites da censura diante de filmes vedados a menores. No caso de interdição até os 18 anos, tinha entrada franqueada se os títulos não exibissem “conteúdo picante” — segundo a subjetividade de porteiros, operadores e gerentes —, nudez e sexo. Assim, por tais critérios, somente em 1974 — já alistado para o serviço militar e apto a votar — fui apresentado ao erotismo cinematográfico. Com os hormônios à flor da pele, foi uma festa. O canadense A primeira noite de uma mulher (L’initiation, 1969), de Denis Héroux, abriu a temporada. Segundo os valores e conveniências da época, trazia generosa exposição de belos corpos femininos ao natural e muita lascívia. Diante da ação do tempo e de mudanças no campo dos costumes, tais encenações tidas como ousadas ou escandalosas se tornaram pudicas e evangelicamente recatadas. Entretanto, lá estava a então lendária atriz franco-canadense Danielle Ouimet incendiando os olhos e o imaginário da curiosa juventude carente há pouco emancipada. Apesar de tanta carnalidade e explosão de sensualidade, algo chamava a atenção. Era época de atenta vigilância da Divisão de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal. O instituto mutilava ou proibia integralmente produtos os mais ousados no âmbito das artes e do entretenimento de massas. Como A primeira noite de uma mulher passou praticamente incólume pela avaliação dos censores? Provavelmente, por ser obra das mais conservadoras e moralistas — apesar de revestida pela ousada e vistosa embalagem erótica de então. A apreciação a seguir é de 1974.






A primeira noite de uma mulher

L'initiation

Direção:
Denis Héroux
Produção:
John Dunning, André Link
Cinépix
Canadá — 1970
Elenco:
Chantal Renaud, Danielle Ouimet, Jacques Riberolles, Gilles Chartrand, Serge Laprade, Céline Lomez, Louise Turcot, France Dionne, Daniel Gadouas, Michel Girouard, Jean-Pierre Payette, Béatrice Picard, Janine Sutto, Jacques Zouvi, Pierre Labelle. 



Denis Héroux dirige Samantha Eggar no episódico Trama sinistra (The uncanny, 1977)



Final dos anos 60: no rastro da liberação de costumes propiciada pela “revolução sexual”, o Canadá — via polo de produção de Quebec — experimentou dinâmica e ambiciosa efervescência cinematográfica. Uma das pontas de lança do movimento, o diretor Denis Héroux, realizou em 1969 os aparentemente ousados Valérie e A primeira noite de uma mulher (L’initiation). Repletos de erotismo e generosas exibições de corpos femininos ao natural, tais títulos angariaram relativo sucesso na praça de origem e mereceram exibição nos mercados da Europa ocidental e Estados Unidos. O filão erótico não demorou a se esvair. Porém, projetou a desinibida atriz franco-canadense Danielle Ouimet e confirmou o vigor da cinematografia canadense — logo aberta a outras possibilidades.


Nadine (Danielle Ouimet)

Louise Turcot no papel de Judith


Em Valérie, Ouimet interpreta a personagem-título. Segundo as depreciativas avaliações moralistas tão em voga — inclusive nos países mais arejados no campo dos costumes —, é a libertina mulher emancipada pela “revolução sexual”. Estudante católica, narcisista e exibicionista, vive em Montreal e experimenta de tudo em relacionamentos. Protagoniza inúmeras aventuras com múltiplos parceiros, apresenta-se em clubes de strip-tease e segue carreira como garota de programa. Um dia encontra o amor verdadeiro, o tal homem dos sonhos. Chegou o momento de se estabilizar emocionalmente, acredita! Ledo engano! A vida plena e feliz é frustrada pelos ecos das opções passadas. Valérie é punida pela consciência e pelos rescaldos do “irrecuperável” vício no sexo sem barreiras. Dificilmente haveria mensagem mais reacionária e tão carregada de moralismo barato.


Danielle Ouimet retorna em A primeira noite de uma mulher. O título padece de idêntico mal. Agora é coadjuvante. Interpreta Nadine, amiga da quase universitária Victoire — protagonista vivida com correção pela também cantora Chantal Renaud. Tal qual em Valérie, Montreal é o cenário da história. Pobre Victoire! Deseja ardentemente uma vida sexual sadia e estável. Porém, é constantemente tentada pelo comportamento desregrado de Nadine e demais companheiras partidárias do prazer sem barreiras à medida que surgem as oportunidades. A realização mira o despertar da garota para o sexo saudável, sem a instrumentalização do prazer e dos relacionamentos. Parece ótimo! Entretanto, o vil puritanismo continua à espreita — mais indiscreto que nunca.



Acima e abaixo: Danielle Ouimet no papel de Nadine

A protagonista Victoire, interpretada por Chantal Renaud


Enquanto Nadine carrega nas tintas em viscerais aventuras sexuais com exposições fartas de nudez, a sardenta e delicada Victoire é mais centrada e racional na busca pela felicidade. Está insatisfeita com os envolvimentos casuais completados por parceiros poucos interessados em algo sólido e duradouro. Tudo muda após conhecer o livro erótico-científico L’initiation, do francês Gervais Messiambre (Riberolles). Para melhorar, o próprio autor vem ao Canadá para apresentar suas pesquisas na universidade de Montreal. A interessada Victoire aproveita o ensejo para conhecê-lo pessoalmente e encontrar as benfazejas respostas para muitas dúvidas e questionamentos. Segundo os manuais da previsibilidade, tudo se completa com lições práticas ministradas pelo solícito Gervais. Ele logo volta à França. No entanto, cumpriu a missão. Para trás deixou Victoire, mais segura acerca das matérias relacionadas ao sexo, amor, prazer e desejo. Poucas vezes alguém amadureceu tão rapidamente nos planos físicos e intelectuais. Bastou somente uma noite, integralmente dedicada ao conhecimento empírico das interações satisfatórias de mente-corpo em prol da plenitude da existência diária. Aliás, a relação entre Chantal Renaud e Jacques Riberolles ultrapassou os limites profissionais. Segundo o folheto publicitário da distribuidora, engrenaram um caso durante as filmagens. Voaram juntos para a França — terra de origem do ator — ao término do trabalho.


Victoire (Chantal Renaud) e a mãe de Nadine (Janine Sutto)


Cinematograficamente, a produção é bem embalada. Os valores visuais são plenamente aceitáveis; as atrizes, belas e desinibidas. Infelizmente, por trás de tanta ousadia no tratamento supostamente livre e descontraído da sexualidade, há uma terrível mistura de pretensão e vazio. A primeira noite de uma mulher — título nacional dos mais apelativos e oportunistas[1] — é colagem de imagens ousadas logo banalizadas. Faz referências a uma ciência de almanaque. O epílogo não deixa dúvidas: após aprender o melhor do sexo e do amor na companhia de Gervais, Victoire tem apenas uma saída para os próximos capítulos da vida de mulher feliz e realizada: abandona as amigas libertinas, cada vez mais compenetradas em noitadas orgiásticas, e busca abrigo na Associação Cristã de Moças. Meu Deus! Puxa vida! Homessa!


Nadine (Danielle Ouimet)  com a mãe (Janine Sutto)

Victoire (Chantal Renaud)


Apesar de ter a profundidade de um pires, A primeira noite de uma mulher apresenta performances sinceras e envolventes. A arrojada Danielle Ouimet pode ser classificada como força da natureza pela carga erótica de Nadine. Chantal Renaud exala ternura e demonstra possuir talento para voos mais altos. Infelizmente, o empenho das atrizes não basta. Falta ao filme um essencial estágio de amadurecimento ou desenvolvimento das personagens. São apresentadas como seres sem história ou recheio. No entanto, roteirista e diretor não merecem reparos acerca desse pormenor. Afinal, o pouco exigente público-alvo de produções assim pouco interesse tem na coerente progressão das personalidades. O desenho de produção, os figurinos e a música são afinados com a moda e as tendências culturais do final da década de 60.





Roteiro: Yves Thériault. Direção de fotografia (Eastmancolor): René Verzier. Música: François Cousineau. Tempo de exibição: 94 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974)


[1] O título brasileiro tem a clara e desonesta intenção de se aproveitar do sucesso de A primeira noite de um homem (The gratuate, 1967), de Mike Nichols.

domingo, 30 de setembro de 2018

EM LIVRE ADAPTAÇÃO, CHARLTON HESTON ENCARNA A LENDA DE RICHARD MATHESON

Após quase três meses sem atualizações e cinco dias após completar o sexto aniversário, Eugenio em Filmes retorna. Por muito pouco não chegou ao fim em decorrência do desânimo e pessimismo do editor com o processo político brasileiro. A eleição de um fascista para a Presidência da República se concretizou em 28 de outubro. Os próximos anos anunciam o desmonte do Estado, o aviltamento das instituições republicanas, a desvalorização da democracia, o desvirtuamento da educação pública, a subtração dos direitos trabalhistas, o sucateamento das universidades, a rendição da economia ao capital estrangeiro, o frontal desrespeito aos direitos humanos e o estrangulamento das minorias — principalmente das descendências dos povos originários, já submetidos ao implacável e violento cerco de especuladores fundiários e do agronegócio. Diante de sinais tão avassaladores de degradação política, social, cultural e ambiental — inclusive com o emprego de métodos criminosos e do cerco ao conhecimento formal e saber intelectual —, Eugenio em Filmes resolveu continuar. Poderá ser uma trincheira de resistência, ainda que relativamente insignificante. Hoje, 18 de dezembro, publica o texto que iria ao ar em 30 de setembro. Esta data será mantida. Também há o compromisso de recuperar o tempo perdido ao longo de quase 90 dias de inatividade. O reinício traz a apreciação de A última esperança da Terra (The Omega man, 1971). O roteiro é livremente baseado no livro I am legend, de Richard Matheson. O astro Charlton Heston não mediu esforços para viabilizar o projeto da melhor maneira. Mais uma vez se associou ao confiável produtor Walter Seltzer e até sondou Orson Welles para a direção. Infelizmente, o responsável por Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941) e A marca da maldade (Touch of evil, 1958) — protagonizado por Heston — já estava envolvido com O outro lado do vento (The other side of the wind), filmado ao longo de lento e complicado processo entre 1970 a 1976 e com muitos acidentes de percurso pela frente. Assim, o pouco criativo Boris Sagal, perito em realizações para a TV, assumiu a batuta. O título tem qualidades, mas no todo deixa a desejar. O início promete uma história repleta de atmosfera e inquietação. Infelizmente, logo descamba para o convencional jogo de gato e rato com muitas situações esticadas além da medida. A apreciação a seguir foi originalmente escrita em 1984. Passou por revisão e atualização (mediante notas de pé de página) em 2018.






A última esperança da Terra

The omega man

Direção:
Boris Sagal
Produção:
Walter Seltzer
Walter Seltzer Productions, Universal
EUA — 1971
Elenco:
Charlton Heston, Rosalind Cash, Anthony Zerbe, Paul Koslo, Lincoln Kilpatrick, Eric Laneuville, Jill Geraldi, Anna Áries, Brian Tochi, De Veren Bookwalter, John Dierkes, Monika Henreid, Linda Redfearn, Forrest Wood e o não creditado Steve Goldstein.



Boris Sagal, o diretor


Esta segunda adaptação cinematográfica do romance I am legend — escrito por Richard Matheson em 1954 — se deve inicialmente ao interesse de Charlton Heston, intérprete de Neville. À primeira vista é o único humano que resistiu incólume aos efeitos colaterais da guerra entre China e URSS no começo dos anos 70. Armas bacteriológicas utilizadas descontroladamente disseminaram germes mundo afora. Populações foram infestadas e praticamente dizimadas. Os sobreviventes evoluíram para mutações, algo como cruzamentos de zumbis com vampiros. São albinos, fotofóbicos e perambulam em bandos às noites. Neville — oficial das forças armadas estadunidenses e biólogo — preserva, ao menos aparentemente, as características originais graças à vacina que tardiamente processou. Porém, a imunização também lhe confere características de mutante. Afinal, teve a constituição genética modificada. É elemento não desejável aos notívagos que o caçam sem quartel. Protege-se em cobertura fortificada e, durante o dia, tenta exterminar as ameaças recolhidas — ferozmente refratárias ao tratamento — enquanto busca provisões e artigos necessários à sobrevivência nos vários estabelecimentos comerciais abandonados e ainda repletos de estoques: roupas, alimentos, automóveis, armas, peças de reposição etc. Los Angeles é o palco dos acontecimentos.


A depender das pistas discretamente oferecidas no decorrer da trama, a narrativa tem lugar em 1977 — aproximadamente três anos após a devastação da humanidade. Como último homem vivo, Neville se vê na situação paradoxal de preservar as características fundamentais de animal social: fala sozinho, dialoga com as coisas, ouve músicas e gravações variadas, assiste aos filmes preservados. Às vezes, no desespero da solidão, é acuado por sons imaginários. Em um dos melhores momentos, ainda no início da história, é surpreendido no centro comercial da metrópole pelo devaneio que o leva a ouvir simultâneas chamadas de vários telefones públicos. Curiosa é a atividade reservada para todos os dias: comparecer ao cinema local — perigoso ambiente escuro — para rever o lá abandonado Woodstock — 3 dias de paz, amor e música (Woodstock, 1970). Por que logo esse documentário de Michael Wadleigh, do qual memorizou diálogos e canções? Não haveria mais salas em Los Angeles, com outros títulos disponíveis?


Charlton Heston como o sobrevivente Neville

Neville (Charlton Heston) no vazio de Los Angeles


Woodstock opera como catarse. Apresenta a juventude em interação na celebração do prazer de viver, confraternizando-se ao som das apresentações musicais e de um ideal de liberdade. Porém, é com um misto de desconforto e desdém que Neville se entrega às imagens dedicadas ao ainda recente evento da contracultura e que podem estar associadas às ameaças noturnas. Os jovens presentes ao festival desfraldavam a bandeira alternativa da vida comunitária em oposição ao individualismo urbano do mundo capitalista e consumista. Opunham-se às guerras e todas as formas de exploração. Os inimigos do protagonista se estruturam comunitariamente em torno de princípios idênticos, valorizadores da simplicidade e do básico para sobreviver. Reconhecem-se como Família — alusão aos assassinos de Sharon Tate, liderados por Charles Manson?[1] — e odeiam ciência, cultura, tecnologia e militarismo — considerados responsáveis pela devastação do planeta. Não para menos o ilustrado Neville, militar e cientista, deve ser eliminado. É a representação de um tempo, lugar e valores perdidos. Lideram os mutantes o racional Matthias (Zerbe) e o mais aguerrido Zachary (Kilpatrick). Defendem um coletivismo pré-capitalista. Todos os membros trajam capuzes e hábitos negros. Assemelham-se aos monges medievais e creem piamente no definitivo poder purificador do fogo, qual a Santa Inquisição.



Acima: Matthias (Anthony Zerbe) ainda com as feições humanas normais
Abaixo: Matthias transformado em mutante

O mutante Zachary (Lincoln Kilpatrick), lugar tenente de Matthias


Neville — solitário contra todos ou um pária entre os eleitos destinados a herdar um mundo reordenado pela hecatombe que varreu qualquer vestígio de humanidade como era conhecida — lembra, de certo modo, o astronauta George Taylor (Charlton Heston) surpreendido na volta à Terra dominada pelos símios em O planeta dos macacos (Planet of the apes, 1968), de Franklin J. Schaffner. Em ambos os títulos sobra a memória incômoda de uma civilização decaída que não soube evitar a destruição e, portanto, não merece deixar vestígios.


A última esperança da Terra tem começo envolvente, marcado pela inquietação. Pela manhã, Neville dirige pela Los Angeles deserta. A produção não usou maquetes ou efeitos de estúdios. Construções inviabilizariam o empreendimento pela elevação exorbitante dos custos. A solução foi a utilização, ao alvorecer, de setores ainda desertos e silenciosos da megalópole durante os fins de semana, o que exigiu inegável esforço da equipe responsável pela pesquisa de locações. Infelizmente, um filme não é feito apenas de atmosferas — logo tornadas rarefeitas. O romance de Richard Matheson, transformado pelo roteiro de John William Corrington e Joyce Hooper Corrington — segundo sugestões de Heston — evolui rapidamente para um pouco interessante jogo de gato e rato carregado de repetições e situações prolongadas além da medida. O original foi de tal modo descaracterizado para atender às exigências do protagonista a ponto de o autor sequer reconhecer a própria obra como fonte inspiradora. A entrada em cena de uma comunidade de sobreviventes liderada pelos aguerridos Lisa (Cash) e Dutch (Koslo) provoca um reaquecimento dos mais convencionais. Exclui-se, logicamente, a deixa para a introdução de uma ainda ousada relação interracial de Neville com a negra Lisa, numa época em que os conservadores EUA conheceram inúmeras mudanças comportamentais. No final das contas, as cenas de intimidade entre ambos não provocaram grandes controvérsias. Inseriam-se numa produção de ficção científica ambientada em época na qual a humanidade estava reduzida a quase nada.


Lisa (Rosalind Cash)


O final é dos mais conservadores. Resgata uma mensagem de redenção cristã. Neville se apresenta como cordeiro imolado em prol da existência dos demais. Encarna a própria imagem do crucificado lancetado e exanguinado. Os notívagos atingiram o objetivo tão perseguido. O personagem é sacrificado para prover vida e esperança. Antes do trágico ato final — encenado de forma um tanto exagerada, até grotesca — Neville finalizou, valendo-se do próprio sangue imunizado, a produção de vacinas para garantir a preservação dos atributos humanos aos amigos que lhe deram nova razão para viver. O último homem é também o ponto de partida ao recomeço da humanidade, cujos representantes partem da devastada Los Angeles ao encontro de paragens mais acolhedoras ao renascimento social.


Em 1964, I am legend foi filmado em esforço conjunto de produtores italianos e estadunidenses, com o protagonismo de Vincent Price no papel do sobrevivente Robert Morgan. A realização Mortos que matam (The last man on Earth) teve a direção de Sidney Salkow (EUA) e Ubaldo Ragona (Itália). O próprio Richard Matheson escreveu o roteiro original sob o pseudônimo de Logan Swanson. A peça recebeu contribuições de William F. Leicester para a parte estadunidense e de Furio M. Monetti e Ubaldo Ragona no que concerne ao setor italiano. De um lado e de outro, Matheson ficou insatisfeito — inclusive com a escolha que julgou equivocada de Price para o papel principal. Comparado ao sorumbático e enlutado Robert Morgan, o Neville de Charlton Heston é muito expansivo e disposto aos monólogos que nem sempre cumprem função adequada. Na maioria das vezes provocam estranhamento, até fastio[2].


Neville (Charlton Heston) e Lisa (Rosalind Cash)


Provavelmente, A última esperança da Terra teria melhor desenvolvimento se Heston tivesse Orson Welles na direção — conforme o inicialmente pretendido. Porém, o pai de Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941) — que dirigiu o ator em A marca da maldade (Touch of evil, 1958) — já estava envolvido com a complicada realização de The other side of the wind, filmado com muita dificuldade entre 1970 e 1976 e ainda não concluído por uma série de problemas financeiros e judiciais[3].


Infelizmente, a direção ficou com o rotineiro Boris Sagal — mais habituado aos filmes e séries para a televisão. No cinema, fez muito pouco: onze títulos. Os melhores são o policial As duas faces de Caim (The crimebusters, 1962), a comédia A moeda da sorte (Dime with a halo, 1963) e A última esperança da Terra. Os demais são os pouco interessantes As armas do diabo (Guns of diablo, 1965), Loucos por garotas (Girl happy, 1965), Feita em Paris (Made in Paris, 1966), Os espiões do helicóptero (The helicopter spies, 1968), O ataque dos mil aviões (The thousand plane raid, 1969), Esquadrão Mosquito (Mosquito Squadron, 1969) e Ângela (Angela, 1977).


A última esperança da Terra é a quarta das sete associações de Charlton Heston com o produtor Walter Seltzer. Reuniram-se pela primeira vez em 1965 com O senhor da guerra (The war lord), de Franklin J. Schaffner. Na sequência vieram ...E o bravo ficou só (Will Penny, 1967), de Tom Gries; Number one (1968), de Tom Gries; Voo 502: em perigo (Skyjacked, 1972), de John Guillermin; No mundo de 2020 (Soylent green, 1973), de Richard Fleischer; e Os últimos machões (The last hard men, 1976), de Andrew V. McLaglen.


Charlton Heston no papel de Neville


Dentre os valores da produção, merecem destaque as atuações de Rosalind Cash e Anthony Zerbe. A intérprete de Lisa é dinâmica. Faz valer o pouco tempo em cena com uma personagem forte e cínica que esbanja esperança e, ao mesmo tempo, desconfiança com as novidades reveladas pelo conhecimento de Neville. Lisa é cheia de si. Ocupa a cena com orgulho, como se estivesse louvando os esforços dos negros estadunidenses em busca de afirmação durante os anos anteriores à produção — dedicados à causa dos direitos civis. Já a composição de Zerbe para Mathias é um achado. Apesar de irreconhecível sob a pesada caracterização do mutante, o ator soube se impor com discrição e veraz intensidade, como se fosse um racional e cioso dirigente de um tribunal do Santo Ofício.


A primorosa direção de fotografia de Russell Metty responde pelas principais qualidades da história. É atmosférica e vibrante. Transforma as tomadas obtidas da real Los Angeles em algo fantasmagórico, inclusive apocalíptico. Afinal, veem-se criações humanas por todos os lados, porém os criadores não se fazem presentes — a não ser o solitário e vigilante Neville, mais parecido com uma assombração a velar pelo sono da metrópole deserta. A trilha musical de Ron Grainer é funcional e perfeitamente adequada aos cenários. Estes dão a impressão de ocultar um perigo sempre pronto a emergir, inclusive quando exercem o burocrático papel de ilustração incidental.


Neville (Charlton Heston), a última esperança da Terra


Acerca de guerra entre China e URSS, de consequências funestas para a humanidade, cabe lembrar que a ficção de A última esperança da Terra não estava tão distante do factual. Em 1969 e pelos anos seguintes a temperatura decorrente do tenso relacionamento entre os dois países esteve elevada e pronta a explodir, principalmente nas áreas fronteiriças. Houve mesmo o temor real de uma séria e fatal conflagração entre as duas potências nucleares.





Roteiro: John William Corrington, Joyce Hooper Corrington, com base na novela I am legend, de Richard Matheson. Música: Ron Grainer. Direção de fotografia (Technicolor, Panavision): Russell Metty. Montagem: William H. Ziegler. Assistente de montagem: Ralph H. Martin (não creditado). Produção de elenco: Jack Roberts (não creditado). Direção de arte: Arthur Loel, Walter M. Simonds. Decoração: William L. Kuehl. Supervisão de maquiagem: Gordon Bau. Supervisão de penteados: Jean Burt Reilly. Maquiagem: Michael Hancock (não creditado). Penteados: Sherry Wilson (não creditada). Gerente de unidade de produção: Frank Baur. Supervisão de produção: Hal Klein (não creditado). Assistentes da supervisão de produção (não creditados): Don Roberts, Ted Swanson. Assistente da direção: Donald Roberts. Aprendiz de assistente de direção: Barry Steinberg (não creditado). Segundo assistente da direção: Ted Swanson (não creditado). Camareiro: Frank L. Brown (não creditado). Assistente da contrarregra: Robert Lamb (não creditado). Contrarregra: Red Turner (não creditado). Liderança no departamento de arte: Ken Walker (não creditado). Som: Robert Martin. Cabos de som: Gene Lloyd (não creditado). Operador de boom: Norman Webster (não creditado). Efeitos especiais: A. Paul Pollard (não creditado). Coordenação de ação/dublês: Joe Canutt. Dublês (não creditados): Denny Arnold, Fred Brookfield, Joe Canutt, Tap Canutt, Chuck Courtney, Larry Duran, Bud Ekins, Gary Epper, Tony Epper, Richard Farnsworth, Buddy Joe Hooker, Whitey Hughes, Harold Jones, Kim Kahana, Wayne King Sr., Henry Kingi, Glenn Randall Jr., Roy N. Sickner, Jack Williams, Wanda Ann Yates. Fotografia de cena (não creditada): Bernie Abramson, Lydia Clarke. Assistência de câmera: Warren E. Boes (não creditado), William Classen (não creditado), Jack Morrow (não creditado), Gregory Nowak (não creditado), Henry Polito (não creditado). Operador de câmera: Alfred Cline (não creditado). Eletricista-chefe: Lee Wilson (não creditado). Confecção de costumes: Margo Baxley, Bucky Rous. Músicos (não creditados): Robert Bain (violão), George 'Red' Callender (baixo), Victor Feldman (vibrações), Clare Fischer (órgão), Milt Holland (Saxofone), Milton Kestenbaum (baixo), Virginia Majewski (viola), Raymond Turner (piano), Plas Johnson (percussão). Direção musical e orquestração: Ron Grainer (não creditado). Mixagem da trilha musical: Dan Wallin (não creditado). Capitão de transportes: Ed Dutton (não creditado). Assistente de produção: Shirley Cohen. Assistente para o produtor: Michael Rachmil (não creditado). Publicidade: Bill Stern (não creditado). Equipamentos especiais: Ray Tostado (não creditado). Continuidade: Marshall J. Wolins (não creditado). Créditos: Pacific Title. Tempo de exibição: 98 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1984; revisto e atualizado em 2018)



[1] O crime perpetrado pela Família Mason teve lugar em Los Angeles aos 9 de agosto de 1969.
[2] Em 2007, a novela de Richard Matheson deu origem ao filme Eu sou a lenda (I am legend), de Francis Lawrence. Will Smith vive o protagonista Robert Neville. A denominação rende homenagens aos personagens interpretados por Vincent Price e Charlton Heston.
[3] Orson Welles faleceu em 1985, aos 70 anos. Não pode concluir The other side of the wind. Tentou de todas as maneiras liberar os negativos apreendidos por ordem judicial e depositados em Paris em virtude de uma ação demandada pelos produtores. Em 2018, graças aos esforços dos diretores Wes Anderson e Noah Baumbach, o filme foi editado a partir de cópias guardadas pelo diretor de fotografia Gary Graver. Nesse mesmo ano The other side of the wind entrou em cartaz na rede de streaming Netflix. 

domingo, 23 de setembro de 2018

REVELAÇÕES MARCIANAS ABALAM O MUNDO E DERRUBAM A UNIÃO SOVIÉTICA

Manter um posicionamento crítico e independente nos Estados Unidos, durante os anos 50, não deveria ser fácil. Durou pouco a euforia democrática que tomou conta do país, em pleno desenvolvimento econômico, ao fim da Segunda Guerra Mundial. A extrema direita, sempre atenta, logo se reorganizou impulsionada pelo começo da guerra fria. Ganhou força com a “caça às bruxas” bancada pelo Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas. A paranoia se instalou com o FBI de John Edgar Hoover buscando inimigos internos: progressistas e comunistas declarados, geralmente dispersos no meio artístico-cultural. O cristianismo fundamentalista, francamente belicoso, revitalizou-se. Logo os Estados Unidos estariam envolvidos na contenção ao expansionismo vermelho com a Guerra da Coreia. Enquanto isso, os cidadãos comuns temiam ataques da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Nessa época, marcada por pavores e perseguições, a produção fílmica de ficção científica entrou em franco desenvolvimento. As contradições ideológicas entre Leste e Oeste eram transferidas para o espaço sideral. O vermelho planeta Marte incendiava o imaginário. Em 1952, o desenhista de produção Harry Horner estreou na direção com uma das mais bombásticas, inacreditáveis e apelativas realizações: Marte, o planeta vermelho (Red planet Mars). É produção ‘B’, hoje relegada à obscuridade e desenvolvida com competência nos planos formais. Dispensa viagens espaciais e alienígenas monstruosos. Toda a ação se passa na Terra. A trama envolve os esforços dos cientistas Chris Cronyn (Peter Graves) e Linda (Andrea King) para investigar o místico planeta por potentes ondas de rádio. As descobertas, em princípio, abalam os pilares da economia capitalista ocidental. Logo, novas e mirabolantes revelações provocam o renascimento do fervor religioso em escala global. O efeito imediato de tudo isso será a destruição do regime soviético e o descrédito de qualquer vestígio do ‘comunismo ateu’. Só vendo para crer! Marte, o planeta vermelho deixa o espectador boquiaberto e gera risos involuntários.







Marte, o planeta vermelho

Red planet Mars

Direção:
Harry Horner
Produção:
Donald Hyde, Anthony Veiller
Melaby Pictures Corporation
EUA — 1952
Elenco:
Peter Graves, Andrea King, Herbert Berghof, Walter Sande, Marvin Miller, Willis Bouchey, Morris Ankrum, Orley Lindgren, Bayard Veiller e os não creditados Ben Astar, Vince Barnett, Robert Carson, James Conaty, Wade Crosby, Claude Dunkin, Charles Evans, Franklyn Farnum, Sam Flint, Sam Harris, Ed Hinton, Tom Keene, Bill Kennedy, Colin Kenny, Henry Kulky, Grace Leonard, Dayton Lummis, George Magrill, Lewis Martin, Frank Mills, Leo Mostovoy, House Peters Jr., Joe Ploski, Gene Roth, Bert Stevens, Robert Stevenson, Brick Sullivan, John Topa.



O cenógrafo e diretor Harry Horner



O tcheco Heinrich Horner, renomeado para Harry Horner em Hollywood, firmou reputação como cenógrafo. Honrou a função ao longo de 37 anos, até encerrar a carreira em 1980. É responsável pelos desenhos de produção de Fatalidade (A double life, 1947), de George Cukor; Tarde demais (The heiress, 1949), de William Wyler; O mundo é o culpado (Outrage, 1950), de Ida Lupino; Nascida ontem (Born yesterday, 1950), de George Cukor; Por amor também se mata (He ran all the way, 1951), de John Berry; Vidas separadas (Separate tables, 1958), de Delbert Mann; Desafio à corrupção (The hustler, 1961), de Robert Rossen; e, entre outros, A noite dos desesperados (They shoot horses, don’t they?, 1969), de Sydney Pollack. Na direção cinematográfica é responsável pelos pouco vistos Escravo de si mesmo (Beware, my lovely, 1952); Vicki (1953); New face (1954), codirigido por John Beal; A noite conspira com a morte (A life in the balance, 1955), codirigido por Rafael Portillo; Blefando com a morte (Man from Del Rio, 1956); e Orgia sangrenta (The wild party, 1956). Porém, dentre os títulos que assinou o mais notório é a inacreditável ficção científica confessional Marte, o planeta vermelho.


Certamente, é realização sem paralelo na história do cinema; ousadia das mais completas. Aos olhos de hoje resiste como descarada apelação. O resultado, constrangedor, arranca risos involuntários — principalmente pelos tons de seriedade e reverência que a embalam. Nos planos formais não há queixas: é competentemente executada. Dispensa viagens espaciais e seres alienígenas. Os efeitos especiais são básicos. O planeta vermelho é somente um corpo distante alcançado por potentes ondas de rádio transmitidas dos EUA. Estas geram comunicações e descobrimentos no mínimo inquietantes.


Os abnegados cientistas Chris Cronyn (Peter Graves) e Linda Cronyn (Andrea King)

Franz Calder (Herbert Berghof) passa de cientista nazista a colaborador dos russos


Poucos filmes de ficção científica tiveram intenções políticas mais explícitas que Marte, o planeta vermelho. Chega ao cúmulo de instrumentalizar personagens legitimados pela religião e lança mão, acintosamente, de passagens bíblicas. A paranoia anticomunista alimentada pelo começo da guerra fria, as atividades do Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas, a Guerra da Coreia e o temor de um ataque da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) prepararam o cenário para o desencadeamento de uma espécie de tempestade perfeita nos Estados Unidos. Em meio a tudo isso desabrochava o fundamentalismo religioso: o cristianismo belicoso servia como ponta de lança na ofensiva direcionada contra russos e o “comunismo ateu”. Nesse contexto, Harry Horner estreou na direção.


Em um observatório na Califórnia, o astrônomo Mitchell (Lewis Martin) apresenta ao jovem casal cientista Chris Cronyn (Peter Graves) e Linda (Andrea King) recentes e instigantes imagens de Marte. Os famosos canais se apresentam claramente, inclusive as geleiras polares que os abastecem de água — provavelmente para irrigação de cultivos. Impressionado, Chris resolve intensificar as comunicações por ondas de rádio com o planeta. A esposa, sempre preocupada com os indesejáveis efeitos colaterais das descobertas científicas, mostra-se excessivamente cautelosa. Sinais aos marcianos são enviados por potente transmissor à base de válvula de hidrogênio. Trata-se de invenção confiscada dos alemães derrotados pelas forças aliadas ao fim da Segunda Grande Guerra. O inventor da peça é o criminoso nazista Franz Calder (Berghof). Aprisionado pelos russos, com eles colabora a contragosto. Está instalado em rústica estação secreta improvisada nos Andes, junto ao monumento do Cristo Redentor erguido na fronteira do Chile com a Argentina. Também tenta comunicação com o planeta vermelho, infrutiferamente. Afinal, não teve condições materiais para refazer a válvula de hidrogênio. Entretanto, capta todas as transmissões dos Cronyn.


 Chris Cronyn (Peter Graves) e Linda Cronyn (Andrea King) são recebidos pelo astrônomo Mitchell (Lewis Martin)

 Chris Cronyn (Peter Graves), Linda Cronyn (Andrea King) e Mitchell (Lewis Martin) examinam imagens dos canais de Marte


Tudo sugere que Marte recebeu as mensagens e as respondeu. O problema é interpretá-las. Para auxiliar na tarefa, o governo dos EUA põe à disposição dos Cronyn o Almirante Carey (Sande) — expert em decodificação. Porém, a solução surge de onde menos se esperava: o atento e perspicaz Stewart (Lindgren), filho mais velho do casal, sugere a utilização do número irracional PI como suporte para as transmissões e recepções. TUDO PARECE TÃO FÁCIL!!! Pronto! Questão resolvida! Os dois mundos podem se falar com perfeita e segura base de compreensão.


Os marcianos logo aliviam as primeiras curiosidades terrestres: vivem em média 300 anos; eliminaram doenças; dispensam minérios e combustíveis fósseis para obtenção de energia; lançam mão de práticas agrícolas altamente produtivas e com baixa exigência de solo. As assombrosas novidades abalam a estrutura da terrena economia capitalista. As ações nas bolsas de valores despencam; mineiros e petroleiros entram em greve; bancos, hospitais, transportadoras, firmas de comunicação, serviços energéticos e empreendimentos farmacêuticos abrem falência. É como se Marte, tão distante, pudesse se aproveitar — de uma hora para outra — das vantagens comparativas possibilitadas por um inexistente comércio interplanetário para fazer lucrativas transações com a Terra. Nosso planeta, coitado, ficaria reduzido à desconfortável posição de mero consumidor de produtos e serviços marcianos. Apesar do absurdo, eis o que acontece: os governos ocidentais perdem a iniciativa e quedam paralisados. Só conseguem responsabilizar os Cronyn pelo caos econômico e financeiro. Enquanto isso, os russos estão satisfeitos e animados. Pode ter chegado o momento de desferir a tão esperada ofensiva comunista geral.


Almirante Carey (Walter Sande),  Linda Cronyn (Andrea King) e Chris Cronyn (Peter Graves)

  
Afinal, toda a resposta enviada por Marte ao laboratório dos Cronyn decorre de invenção de Calder. Porém, o desafortunado e irascível colaborador dos soviéticos é supostamente varrido do mapa quando a isolada central andina é destruída por avalanche. Ninguém soube do ocorrido. Assim, cessam todas as comunicações. No entanto, a cúpula governamental estadunidense permanece apreensiva com a hecatombe econômica e continua a responsabilizar o casal cientista. Em represália, ordena o encerramento das operações.


Nesse ponto a história encontra o insólito ápice. Marte entra em cena para valer, por frequência radiofônica diferente. As novas transmissões trazem passagens do Sermão da Montanha, de Jesus Cristo. Então, além de cristãos os marcianos ainda se revelam mais superiores: são governados diretamente por Deus. INCRÍVEL!! O Presidente dos EUA (Bouchey) ordena o anúncio da boa nova para todo o mundo. A Voz da América, incansável, provoca um renascimento geral do fervor religioso. Templos são reabertos; cinemas e teatros se convertem em centros de adoração e oração. O povo russo — religiosamente reprimido desde a Revolução de Outubro de 1917 — se levanta contra o poder soviético e o derruba. O comunismo é eliminado. O Patriarca da Igreja Católica Ortodoxa de Moscou toma assento no Kremlyn e liberta todos os países subordinados à Cortina de Ferro.


Na Rússia, o povo recupera símbolos religiosos proscritos e se levanta contra o comunismo


Porém, nem tudo termina como Deus quer. Com o mundo tomado de contentamento pela confirmada existência do Todo Poderoso, o louco e ressentido Franz Calder aparece vivinho e furioso na casa dos Cronyn. Armado, toma Chris e Linda como reféns. Clama por vingança. Exige reparações pelo uso considerado indevido da invenção. Incontrolável, renega Deus e reivindica o heroísmo de Satanás. Para completar, novas comunicações marcianas e divinas chegam ao laboratório. Desesperado, Calder recusa as evidências. Dispara contra o sistema de comunicação e inflama o hidrogênio liberado no recinto. Todos morrem na explosão. O filme termina em clima de solene exaltação celestial. O Almirante Sander assume a guarda dos órfãos Cronyn. Para o mundo, alheio à intervenção de Calder, Chris e Linda pereceram acidentalmente.


Franz Calder (Herbert Berghof) acerta contas com Linda Cronyn (Andrea King) e Chris Cronyn (Peter Graves)

  
Durante toda a exibição a vida doméstica exemplar dos Cronyn é ressaltada. O lar organizado do casal e o carinho dispensado aos filhos remetem à imagem da família exemplar estadunidense em oposição aos desgarrados russos, ocupados apenas com a repressão interna para a manutenção do poder por vias autoritárias. Marte, o planeta vermelho deve ser o filme de ficção científica que mais exalta as supostas qualidades do American way of life.


O mais curioso de toda essa incrível história: o roteiro subverte as intenções da satírica peça Red panet, de John L. Balderston e John Hoare, encenada em 1932. Nesta, o misticismo religioso é alvo de críticas. As comunicações que abalam a Terra partem de um provocador situado nos Andes. O resultado da brincadeira, como no filme, é o revigoramento da fé. Porém, isso não acontece impunemente. Surgem falsos profetas em todo o globo. Aproveitam-se da ingenuidade popular e alimentam o fanatismo. Um dos espertalhões reúne poder para se tornar ditador global, como se fosse ungido pelo próprio Jesus Cristo. Apesar de tudo, a beata Linda Cronyn defende o novo advento. Por isso, explode o laboratório quando a verdade estava para ser revelada, com o objetivo de resguardar a crença — apesar de saber que é fundamentada numa falsidade.


Willis Bouchey, sósia de Dwight David Eisenhower, faz o presidente dos Estados Unidos



Merece atenção o perfil do presidente dos Estados Unidos, interpretado por Willis Bouchey. É praticamente um sósia do fervoroso crente Dwight David Eisenhower, eleito para dois mandatos consecutivos a partir de 1953. Governou o país até 1961.






Roteiro: John L. Balderston, Anthony Veiller, baseados na peça Red Planet, de John L. Balderston e John Hoare. Música: Mahlon Merrick. Direção de fotografia (preto e branco): Joseph F. Biroc. Montagem: Francis D. Lyon. Produção de elenco: Maurice Golden. Direção de arte: Charles D. Hall. Decoração: Murray Waite. Supervisão de maquiagem: Don L. Cash. Supervisão da produção: Joseph Paul. Assistente de direção: Emmett Emerson. Contrarregra: Clem Widrig. Engenheiro de som: Victor B. Appel. Supervisão musical: David Chudnow. Direção musical: Mahlon Merrick. Consultoria técnica em eletrônica: Vern E. Stineman. Assistente de produção: Robert H. Justman (não creditado). Sistema de mixagem de som: RCA Sound System. Tempo de exibição: 87 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2008)