domingo, 25 de novembro de 2018

PERSONAGENS CARENTES E SOLITÁRIOS, INCLUSIVE O CÃO BIG RED

Dentre as produções marcantes de minha infância está Astúcia de um rebelde (Big Red, 1962), dirigido por Norman Tokar para os Estúdios Disney. Antes de conhecê-la acompanhei, por volta de 1963-64, a adaptação publicada em quadrinhos no Suplemento Dominical do então vibrante jornal Correio da Manhã. Pude vê-la no cinema em 1966. Na oportunidade, o encanto manteve-se preservado e assim permaneceu durante anos. Infelizmente, tomei a decisão de revê-la na entrada da vida adulta e toda a magia se esboroou. Astúcia de um rebelde é o primeiro trabalho do confiável e rotineiro Norman Tokar para o cinema e a Disney. Na empresa, sempre bateu ponto no setor das produções live action. O roteiro de Louis Pelletier, extraído de novela de Jim Kjelgaard, conta história ambientada e filmada nas áreas verdes vizinhas à cidade de Quebec, Canadá. Big Red é um Setter Irlandês treinado para brilhar em exposições. Torna-se o centro da discórdia entre o indiferente e solitário proprietário James Haggin (Walter Pidgeon) e René Dumont (Gilles Payant), garoto órfão e carente contratado como tratador. As contradições evoluem para a quase tragédia e culminam em operação de busca e salvamento por áreas remotas, acidentadas e selvagens das matas próximas. O desenvolvimento é pedestre. Os melhores valores residem nos desempenhos dos personagens centrais e no sóbrio acompanhamento musical a cargo de Oliver G. Wallace e da afamada dupla Richard e Robert M. Sherman. Segue apreciação escrita em 1975.






Astúcia de um rebelde

Big Red

Direção:
Norman Tokar
Produção:
Walt Disney (não creditado)
Walt Disney Productions
EUA, Canadá — 1962
Elenco:
Walter Pidgeon, Gilles Payant, Émile Genest, Janette Bertrand, Georges Bouvier, Doris Lussier, Rolland Bédard, Teddy Burns Goulet.



O diretor Norman Tokar


Certamente, com respeito aos cães, a Walt Disney Productions merece a palma pela divulgação que lhes proporcionou no cinema. Caninos das mais variadas raças ganharam o conhecimento do grande público graças aos desenhos animados e filmes de ação viva da companhia. Alguns conseguiram ampla popularização por conta desse empenho: o Cocker Spaniel — A dama e o vagabundo (Lady and the tramp, 1955), de Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske; Labrador Retriever — O meu melhor companheiro (Old Yeller, 1957), de Robert Stevenson; Sheepdog — Felpudo, o cão feiticeiro (The shaggy dog, 1959), de Charles Barton; Skye Terrier — Meu leal companheiro (Greyfriars Bobby: the true story of a dog, 1961), de Don Chaffey; Dálmata — A guerra dos Dálmatas (One hundred and one Dalmatians, 1961), de Clyde Geronimi, Hamilton Luske e Wolfgang Reitherman; mestiços — Nikki, o valente indomável (Nikki, wild dog of the North, 1961), de Jack Couffer e Don Haldane; Bluetick Coonhound — Na trilha dos Apaches (Savage Sam, 1963), de Norman Tokar; e os Dachshund e Dogue Alemão — Um amor de companheiro (The ugly Dachshund, 1966), de Norman Tokar.


Walt Disney com o Setter Irlandês Champion Red Aye Scraps, "intérprete" de Big Red

Gilles Payant, intérprete de René Dumont

Foto promocional: Gilles Payant, Champion Red Aye Scraps e Walter Pidgeon, intérprete de James Haggin


Um dos mais carismáticos exemplares dessa leva é o Setter Irlandês batizado de Big Red (o nome real é Champion Red Aye Scraps) em Astúcia de um rebelde. É o título de estreia do rotineiro e confiável Noman Tokar na direção cinematográfica e no quadro de funcionários dos Estúdios Disney. Amparava-o uma experiência de dez anos (1952-1962), quando garantiu o suprimento de episódios para as mais diversas séries da nascente televisão.


Astúcia de um rebelde está preso às limitações do realizador. É obra corriqueira, centrada no carisma do cão e nos desempenhos corretos do reduzido elenco. Se alguma potencialidade havia no roteiro de Louis Pelletier — adaptado do romance Big Red, de Jim Kjelgaard — não se converteu em ato pela direção. Nem os maravilhosos cenários naturais canadenses do entorno de Quebec foram adequadamente aproveitados pela convencional direção de fotografia, em vivo Technicolor, a cargo de Edward Colman. O resultado final é frio, apesar da boa embalagem. Dramaticamente, conta história sobre carências afetivas e personalidades incompreendidas dos solitários James Haggin (Pidgeon), René Dumont (Payant) e, até certo ponto, do próprio Big Red.


O milionário Haggin, criador de cães, pagou vultosa quantia de cinco mil dólares por Big Red. No entanto, não nutre especial afeto por eles. Interessa-se somente nos ganhos financeiros que poderá auferir em exposições e feiras. É viúvo solitário e lacônico, amargurado pela perda do filho durante a guerra. Terá a vida lentamente redirecionada ao contratar o jovem René para auxiliar o veterinário Emile Fornet (Genest) nos cuidados mais básicos exigidos pelo canil.



Acima e abaixo: René Dumont (Gilles Payant) nas brincadeiras com Big Red


Órfão, praticamente só no mundo, René tem forte personalidade e muito poder de decisão. Carente, afeiçoa-se aos animais e é plenamente correspondido — principalmente por Big Red. Esta relação, aos olhos e interesses do imediatista Haggin, revela-se perniciosa. Afinal, o cão é submetido a distrações pouco condizentes com o comportamento centrado exigido pelas rigorosas normas que regem as exposições. Por isso, resolve afastá-los. Os resultados dessa decisão desencadeiam uma quase tragédia de efeitos danosos ao animal. Contra todas as circunstâncias, René assume a pronta determinação de salvá-lo do sacrifício definitivo.


Big Red serve como ponto de intersecção do embate de personalidades entre René e Haggin. Apesar da aparência de homem indiferente, preocupado apenas com dinheiro, o personagem defendido por Walter Pidgeon não deixa de se preocupar com o futuro do garoto — principalmente quanto aos estudos negligenciados. Este, por sua vez, não teme recriminar o patrão pela falta de afeto aos cães — o que não deixa de ser uma forma de extravasamento da própria carência. Para evitar novos problemas e contra a vontade de Haggin, deixa o trabalho. Consegue nova ocupação na propriedade vizinha. Descobre, após breve e áspero contato com o antigo chefe, que Big Red e a companheira Molly foram vendidos e se encontram perdidos em região erma e acidentada após fugirem do trem que os transportava ao novo proprietário.



Acima e abaixo: René Dumont (Gilles Payant) nas brincadeiras com Big Red


Evidentemente, René abre mão de tudo e parte em operação de busca e salvamento. Atrás dele segue James Haggin, vivamente interessado no bem estar do garoto. A partir daí a narrativa é encaminhada para o clímax dramático e da ação. René localiza os cães, acrescidos dos respectivos filhotes. Com a providencial intervenção de Big Red, também encontra e salva o acidentado, ferido e imobilizado ex-patrão ameaçado por um leão da montanha. Juntos, partem para formar uma nova família. O epílogo, cessados todos os conflitos, é tipicamente disneyano.


Apesar das limitações, principalmente do ralo tratamento dramático com respeito aos perfis dos personagens principais, Astúcia de um rebelde conta com excelentes desempenhos do veterano Walter Pidgeon e do novato Gilles Payant em seu único trabalho para o cinema. Quanto a isto, ponto para a produção: não é apenas um filme animado pelas peripécias e olhares carentes de um cachorro esperto e carismático. O elenco de apoio, centrado basicamente em Émile Genest e Janette Bertrand, dá conta do recado apesar de pouco exigido.


René Dumont (Gilles Payant) com Big Red e prole


Por fim, merece destaque a sóbria e pouco invasiva trilha musical de Oliver G. Wallace acrescida da canção Mon amour perdu — também conhecida como Big Red’s Theme — de Richard M. Sherman e Robert B. Sherman.



  
Direção de fotografia (Technicolor, Panavision): Edward Colman. Roteiro: Louis Pelletier, com base em novela de Jim Kjelgaard. Música: Oliver G. Wallace. Figurinos: Chuck Keehne. Montagem: Grant K. Smith. Coprodução: Winston Hibler. Produção associada: Erwin L. Verity. Direção de arte: Carroll Clark, Marvin Aubrey Davis. Som: Robert O. Cook. Decoração: Hal Gausman, Emile Kuri. Operador de câmera: Travers Hill (não creditado). Edição musical: Evelyn Kennedy. Treinador do Setter Irlandês: William R. Koehler. Maquiagem: Pat McNalley. Orquestração: Walter Sheets. Mixagem de som: Dean Thomas. Assistente de direção: Arthur J. Vitarelli. Direção de segunda unidade: Jack Couffer (não creditado). Operador de câmera da segunda unidade: Lorne C. Batchelor. Canções (letra e música): Richard M. Sherman, Robert B. Sherman. Sistema de mixagem de som: RCA Sound Recording. Tempo de exibição: 89 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1975)

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