domingo, 9 de dezembro de 2018

“MAROONED”, DE JOHN STURGES, ANTECIPA EM POUCOS MESES O DRAMA DA APOLLO 13

A transposição para o cinema do livro Marooned, do piloto Martin Caidin, teria Frank Capra na direção. Porém, abandonou a empreitada diante da impossibilidade de dar conta de exigências da companhia produtora, a Columbia Pictures. Foi substituído por John Sturges. Este, dadas as características dos filmes que fez, transformou Sem rumo no espaço (Marooned, 1969) em obra à altura do próprio talento — apesar das limitações do roteiro. Não demorou para o trabalho cair nas boas graças da NASA por causa de uma contingência trágica: antecipou em quatro meses após o lançamento o drama real dos astronautas da Apollo 13, quase condenados à sepultura em pleno éter quando tiveram a nave seriamente afetada por pane elétrica. Em Sem rumo no espaço há a nave Ironman One, tripulada por Jim Pruett (Richard Crenna), Clayton Stone (James Franciscus) e Buzz Lloyd (Gene Hackman). Após prolongado período acoplada a uma estação orbital, perdeu a capacidade de ignição fundamental ao retorno. O trio é largado à deriva, entre a vida e a morte, pressionado pela elevação da temperatura ambiente e diminuição crítica dos níveis de oxigênio. Na central de operações, em Houston, o responsável pela missão, Charles Keith (Gregory Peck), lida com as possibilidades de uma operação de resgate enquanto as esposas dos astronautas amargam a desconfortável situação de antecipar um provável estado de viuvez. Hoje, Sem rumo no espaço pertence à galeria dos filmes esquecidos. Foi superado pelo esfriamento da corrida espacial e progresso tecnológico da ficção científica cinematográfica. Apesar de tudo, tem desenvolvimento surpreendentemente racional e objetivo, com pouco apelo ao melodrama. Nos conturbados anos da guerra fria, também permitiu insólita e alvissareira cooperação entre potências adversárias na operação de salvamento. Segue apreciação escrita em 1974.






Sem rumo no espaço

Marooned

Direção:
John Sturges
Produção:
Mike J. Frankovich
Frankovich Productions, Columbia Pictures
EUA — 1969
Elenco:
James Franciscus, Gene Hackman, Gregory Peck, Richard Crenna, David Jansen, Lee Grant, Nancy Kovack, Mariette Hartley, Scott Brady, John Carter, Craig Huebing, Frank Marth, Vincent van Lynn, George Gaynes, Tom Stewart, Duke Hobbie, Walter Brooke, Dennis Robertson e os não creditados Bill Couch, Matt Emery, John Forsythe, Mauritz Hugo, Kenner G. Kemp, Mary Linda Rapelye, Bruce Rhodewalt, George R. Robertson, George Smith.



O diretor John Sturges e o ator Steve McQueen quando da realização de Fugindo do inferno (The great escape, 1963)



De início, Sem rumo no espaço teria Frank Capra na direção. Credenciou-se ao posto graças ao curta que produziu e realizou em 1964 para a Feira Mundial de Nova York: Rendezvous in space, com 19 minutos. Desistiu da tarefa durante a pré-produção, em maio de 1966, ao se perceber sem possibilidades de atender à principal exigência da Columbia Pictures: fixar os custos orçamentários em três milhões de dólares. Substituiu-o John Sturges, especializado em extrair tensão de interiores e ambientes exíguos como comprovam os westerns Sem lei e sem alma (Gunfight at the O.K. Corral, 1957) e Duelo de titãs (Last train from Gun Hill, 1959), o drama bélico Fugindo do inferno (The great escape, 1963) e a aventura de espionagem da guerra fria Estação Polar Zebra (Ice Station Zebra, 1968). Sem rumo no espaço concentra a ação no minguado compartimento de um módulo espacial — muito semelhante às naves do Projeto Apollo — e na central de controles em Houston. Detalhe: os custos da produção ultrapassaram em 5 milhões de dólares o montante demarcado para Capra.


Sem rumo no espaço é aventura de ficção científica sobre a complicada operação de resgate de três astronautas à deriva no espaço. É baseado no romance Marooned, escrito em 1964 pelo piloto Martin Caidin e vertido burocraticamente para o cinema pelo roteirista Mayo Simon. Lançado comercialmente nos Estados Unidos em 11 de dezembro de 1969, logo deixou de ser um drama corriqueiro sobre tensa missão de salvamento para se aproximar terrivelmente da realidade. Cerca de quatro meses depois, em 11 de abril de 1970, a NASA enviou ao espaço a Apollo 13 com os astronautas James Lovell, Fred Haise e John L. Swigert Jr. Era a sétima missão tripulada da conquista da Lua; a terceira destinada a pousar no satélite. A operação foi frustrada por pane elétrica seguida de explosão que danificou o veículo, impediu a alunissagem e gerou falência praticamente generalizada dos equipamentos. A temperatura ambiente se elevou além dos níveis críticos e comprometeu a renovação de oxigênio. O retorno à Terra ficou impossibilitado. Os astronautas ficaram ao léu por aproximados seis dias até o comando em Houston resolver o problema. Regressaram após muito stress em 17 de abril de 1970. Sem rumo no espaço ganhou, assim, a fama de obra profética e se converteu, na ocasião, em um dos filmes preferidos do pessoal da NASA.


A realização tem valores ancorados nos discretos, funcionais e simples efeitos visuais de Lawrence W. Butler, Donald C. Glouner e Robie Robinson — premiados com o Oscar da categoria — e no desempenho do elenco forçado a tirar veracidade de situações marcadas pela tensão que impregna toda a narrativa. Enquanto os astronautas Jim Pruett (Crenna), Clayton Stone (Franciscus) e Buzz Lloyd (Hackman) tentam preservar a confiança, o bom humor e a sanidade, sabendo que nada podem fazer no limitadíssimo ambiente da nave — proporcionalmente tão apertado como o interior de um ovo —, o chefe da operação em Houston, Charles Keith (Peck), esforça-se para equilibrar frieza e racionalidade com a urgência demandada pelo imprevisto. Além de tentar solução realista diante da série de fatores intervenientes a impossibilitar a operacionalização de urgente missão de salvamento, terá a responsabilidade extra de fornecer notícias nada tranquilizadoras ao trio quando os níveis de oxigênio se apresentam problemáticos à sobrevivência geral. Ainda há questões de ordem íntima, proporcionadas pelas esposas dos astronautas sempre presentes na central de comando: Celia Pruett (Grant), Teresa Stone (Kovack) e Betty Lloyd (Hartley). Elas conferem os elementos melodramáticos à história. Porém, mantiveram-se estoicas durante todo o tempo — como boas e compreensíveis heroínas estadunidenses moldadas em acordo com o figurino desenhado pelo cinema —, como se já estivessem antecipadamente preparadas para o pior. Certamente, avaliando-se a situação pelo prisma mais humano, estão demasiadamente contidas diante das possibilidades de uma tragédia que poderá enviuvá-las a qualquer momento.


A nave Ironman One antecipa em quatro meses o drama real da Apollo 13

Os astronautas Clayton Stone (James Franciscus), Buzz Lloyd (Gene Hackman) e Jim Pruett (Richard Crenna)

Ao centro, Gregory Peck como Charles Keith


A história é plausível, econômica e objetiva. Jim Pruett, Clayton Stone e Buzz Lloyd integram a missão Ironman One. Foram levados ao espaço para uma temporada de sete meses em estação espacial na órbita da Terra. Serão testados de forma geral, principalmente quanto aos fatores de ordem física e emocional — merecedores de fundamental consideração em permanências espaciais mais prolongadas. Passados cinco meses, estavam no limite da fadiga. Diante disso, a NASA interrompe a prova e prepara o retorno. Há energia suficiente para desacoplar a nave da estação espacial. Porém, falha a ignição fundamental ao retorno. Não há como regressar ao mais espaçoso e confortável ponto de origem. O trio fica no mato sem cachorro, preso na Ironman One, na delicada e desconfortável situação que separa a vida da morte.


Se inicialmente a operação de salvamento parecia impossível, Charles Keith é praticamente forçado a considerar alternativas após o próprio presidente dos Estados Unidos, identificado pelo codinome Olympus (voz de John Forsythe), entrar na parada. Depois de muitos contratempos, inclusive as péssimas condições meteorológicas, o astronauta Ted Dougherty (Jansen) é lançado para o resgate em veículo experimental da força aérea. Apesar do sacrifício de Jim Pruett, o final é otimista por permitir uma ação de boa vontade entre URSS e EUA.


As esposas dos astronautas: Celia Pruett (Lee Grant), Betty Lloyd (Mariette Hartley) e Teresa Stone (Nancy Kovack)

Gene Hackman no papel de Buzz Lloyd

A nave estadunidense de resgate é posicionada para o lançamento


Um cosmonauta soviético (Bill Couch/não creditado) chega à nave danificada momentos antes de Dougherty. Enquanto este cuida de Buzz Lloyd o outro ministra os primeiros socorros a Clayton Stone. Em tempos marcados pela corrida armamentista tão característica da guerra fria — quando os frágeis fios da paz mundial poderiam se romper a qualquer momento —, russos e estadunidenses se uniram para incrível, breve e promissor instante de solidariedade.



As naves estadunidense e russa a caminho do resgate


Dentre as qualidades de Sem rumo no espaço cabe destacar a opção de Sturges pelo realismo. Sequer há trilha musical. Apesar de o som não se propagar no vácuo, permitem-se temas incidentais para a identificação de naves e determinadas situações. O tom da abordagem é, via de regra, laborioso e facilita o tratamento clínico do empreendimento. Portanto, apesar dos aspectos dramáticos e da tensão, a realização está longe de gerar emoção. A descompensação psicológica do estressado e assustado Buzz Lloyd, manifestada ao se comunicar com a esposa na central de controles, ofereceu o momento afetivamente mais carregado. Ainda assim, não provoca frisson, desconforto e lágrimas. Em linhas gerais, a correção e o profissionalismo perpassam a narrativa do começo ao fim, inclusive nos apressados e descuidados momentos finais dedicados ao resgate.





Roteiro: Mayo Simon, baseado em novela de Martin Caidin. Direção de fotografia (Panavision, Eastmancolor): Daniel L. Fapp. Desenho de produção: Lyle R. Wheeler. Montagem: Walter Thompson. Produção associada: Frank Capra Jr. Confecção de figurinos: Seth Banks. Direção de segunda unidade: Ralph E. Black. Efeitos visuais especiais: Lawrence W. Butler, Donald C. Glouner, Robie Robinson. Consultores técnicos: Martin Caidin, George Smith. Supervisão de script: John Franco. Som: Les Fresholtz, Arthur Piantadosi. Fotografia de segunda unidade: W. Wallace Kelley. Supervisão de vídeo: Hal Landaker. Assistente de direção: Daniel J. McCauley. Gerente de produção executiva: William J. O'Sullivan. Direção de diálogos: Norman Stuart. Decoração: Frank Tuttle. Fotografia aérea: Nelson Tyler. Consultor fotográfico: William Widmayer. Direção de segunda unidade: Michael Daves (não creditado). Primeiro assistente de direção da segunda unidade: Mel Swope. Ilustrador da produção: Mentor Huebner (não creditado). Coordenação de efeitos especiais: Chuck Gaspar (não creditado). Miniaturas: Terence Saunders (não creditado). Dublês (não creditado): Bill M. Ryusaki, Buddy Van Horn. Operador de câmera: Val O'Malley (não creditado). Fornecimento de gruas: Chapman/Leonard Studio Equipment. Construção do centro de lançamento e da estação de controle: Philco-Ford. Estúdios de som: Sunset Gower Studios. Sistema de mixagem de som: mono (cópias em 35mm), stereo 6 pistas (cópias em 70mm). Tempo de exibição: 134 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974)

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