domingo, 13 de maio de 2018

ENZO G. CASTELLARI PÕE CHUCK CONNORS NA RETAGUARDA DA GUERRA DE SECESSÃO

É muita ação, quase ininterrupta. O diretor Enzo G. Castellari está entre os muitos realizadores revelados pelo cinema popular italiano ao longo dos anos 60. Começou nos westerns europeus e logo diversificou as preferências por aventuras de guerra, thrillers, comédias eróticas e dramas policiais. É uma das referências básicas do reciclador Quentin Tarantino, para o qual atuou em Bastardos inglórios (Inglourious Basterds, 2009). Seu verdadeiro nome é Enzo Girolami. Usou a alcunha E. G. Rowland ao dirigir, ainda no início da carreira, Texas 1867 (7 winchester per un massacro, 1967). Infelizmente, ainda desconheço um dos seus trabalhos mais festejados: o spaghetti western Keoma (Keoma), de 1976. Mate todos eles e volte só (Ammazzali tutti e torna solo/Mátalos y vuelve, 1968), coprodução entre Itália e Espanha, é aventura espalhafatosa desenrolada nos bastidores da Guerra de Secessão. As tropas confederadas estão à míngua. Por insistência do Capitão Lynch (Frank Wolf) o agente especial Clyde McKay (Chuck Connors) é contratado para uma missão praticamente impossível: apoderar-se de considerável quantidade em ouro das forças da União. Será apoiado por cinco especialistas cheios de disposição. Porém, nem tudo será tão simples. Para espectadores pouco exigentes, a realização é um prato cheio. Enzo G. Castellari domina o artesanato e tem perfeito controle dos elementos cênicos. Há boa utilização das locações no Desierto de Tabernas em Almeria, Espanha. Para registrar os mais intensos momentos da ação por ângulos os mais diversos, o trabalho de câmera não decepciona. Porém, convenhamos! Segue apreciação escrita em 1976.





Mate todos eles e volte só

Ammazzali tutti e torna solo/Mátalos y vuelve

Direção:
Enzo G. Castellari
Produção:
Edmondo Amati
Fida Cinematografica (Roma), Centauro Films (Madri)
Espanha, Itália — 1968
Elenco:
Chuck Connors, Frank Wolff, Franco Citti, Giovanni “Ken Wood” Cianfriglia, Leo Anchóriz, Alberto Dell'Acqua, Hércules Cortés, Antonio Molino Rojo, Furio “Men Fury” Meniconi, Alfonso Rojas, Ugo Adinolfi, John Bartha e os não creditados Nestore Cavaricci, Sergio Citti, Vincenzo Maggio, Osiride Pevarello, Pietro Torrisi.



O diretor Enzo G. Castellari


Aos apreciadores de filmes repletos de ação física quase ininterrupta, que não se valem de maiores e melhores considerações, Mate todos eles e volte só é excelente pedida. O que sobra de tiros, socos, pauladas, emboscadas, acrobacias e explosões não está no gibi. Mal há tempo para o espectador pouco exigente perceber o quanto é ruim, apesar do bom domínio dos elementos cênicos pelo diretor Enzo G. Castellari. É, acredito, a única experiência do ator estadunidense Chuck Connors no western europeu.


Chuck Connors vive Clyde McKay

Frank Wolf no papel do Capitão Lynch

                                                                            
Pouco expressivo, Connors acumula longa trajetória no cinema estadunidense desde a estreia como oficial da polícia no divertido A mulher absoluta (Pat and Mike, 1952), de George Cukor. Marcou presença em outras realizações para a tela grande durante os anos 50, quando a TV praticamente o absorveu em diversas telesséries. Teve papéis secundários e participações especiais em Gunsmoke, Climax!, Caravana (Wagon train), Hey, Jeannie!... Ganhou notoriedade ao protagonizar, de 1958 a 1963, os 168 episódios das cinco temporadas de O homem do rifle (The rifleman), criação de Arnold Laven com produção da Levy-Gardner-Laven para a Four Star Productions.


Para o cinema, as realizações mais destacadas que contaram com Connors, geralmente como coadjuvante, foram até o momento: O ocaso de uma alma (Good morning, Miss Dove, 1955), de Henry Koster; Ódio e ternura (Three stripes in the Sun, 1955), de Richard Murphy; Teu nome é mulher (Designing woman, 1957), de Vincente Minnelli; O meu melhor companheiro (Old yeller, 1957), de Robert Stevenson; Da terra nascem os homens (The big country, 1958), de William Wyler; Eu, ela e a outra (Move over, Darling, 1963), de Michael Gordon; e No mundo de 2020 (Soylent Green, 1973), de Richard Fleischer.


A ação se desenrola na retaguarda da Guerra Civil Americana

Clyde McKay (Chuck Connors)




Mate todos eles e volte só é o sexto filme do diretor Enzo G. Castellari, conhecido como ator pelo nome real de Enzo Girolami. Estreou na realização em 1966, sem levar crédito: Poucos dólares para Django (Pochi dollari per Django), de León Klimovsky. Sob a alcunha de E. G. Rowland fez Texas 1867 (7 winchester per un massacro, 1967). Logo vieram Vou, mato e volto (Vado... l’ammazzo e torno, 1967), Deus criou o homem e o homem criou o colt (Quell sporca storia nel West, 1968) e Vou, vejo e disparo (I ter che sconvolsero Il West (Vado, vedo e sparo), 1968). Após Mate todos eles e volte só, Castellari diversificou os interesses por outros gêneros populares: aventuras de guerra, thrillers, comédias eróticas e dramas policiais. Aguarda-se para breve, nos cinemas brasileiros, a estreia de Keoma (1976), apontado pela impressa estrangeira como promissor retorno ao western made in Europa.


Mate todos eles e volte só tem desenvolvimento trivial. Chuck Connors faz Clyde McKay, espécie de agente secreto contratado pelas falidas forças confederadas. Lidera um grupo de cinco especialistas dispostos a tudo: Hoagy (o pasoliniano Franco Citti), certeiro laçador e atirador de pesos; Deker (Anchóriz), tarimbado no uso de explosivos; o mestiço Blade (Cianfriglia), perito no manuseio de facas; o musculoso Bogart (Cortés); e o acrobata e pistoleiro Kid (Dell'Acqua). A história começa com a equipe oferecendo surpreendente demonstração de competência ao capturar o quartel comandado pelo General Hood (ator não creditado e não identificado). Foi contratada pelo Capitão Lynch (Wolf), planejador de arriscada missão a ser executada na retaguarda das linhas inimigas: dominar um comando nortista e se apossar da fortuna em ouro escondida em embalagens de dinamite. Entre marchas e contramarchas a empreitada é executada com sucesso. No entanto, McKay terá problemas mais complicados. Um é comunicado pelo título: eliminar os auxiliares e retornar sozinho com o ouro. O outro exige escapar de uma prisão controlada pelas forças do Norte e, com isso, também se livrar da traição preparada por Lynch.


O musculoso Bogart (Hércules Cortés)

Clyde McKay (Chuck Connors) na prisão das forças da União


Mate todos eles e volte só é produção rápida de baixíssimo orçamento. Os personagens chapados reúnem um conjunto de surrados e estúpidos estereótipos. O roteiro extraído de história de Tito Carpi e Enzo G. Castellari nada aprofunda ou humaniza. Apenas apresenta robôs programados a executar um trabalho. As filmagens tiveram lugar na Espanha, nas locações do Desierto de Tabernas, em Almeria, Andaluzia. Entre as poucas qualidades estão o bom uso das locações e o ritmo acelerado e ríspido da narrativa — o que exigiu atenta operação de câmeras e tomadas de diversos ângulos. Como não poderia deixar de ser em se tratando de westerns europeus, a trilha musical de Francesco De Masi garante parte do interesse.


Chuck Connors como Clyde McKay

O campo de trabalhos forçados da prisão nortista


No balanço final sobra pouquíssimo de quase nada.





Roteiro: Tito Carpi, Enzo G. Castellari, Joaquín Romero Hernández, Francesco Scardamaglia, a partir de história de Tito Carpi e Enzo G. Castellari. Direção de fotografia (Technicolor, Techniscope): Alejandro Ulloa. Música: Francesco De Masi. Montagem: Tatiana Casini Morigi. Produção de linha: Maurizio Amati. Continuidade: Maria Luisa Merci. Figurinos: Enzo Bulgarelli. Assistente de maquiagem: Cesare Paciotti. Penteados: Ada Palombi. Chefe do departamento de maquiagem: Euclide Santoli. Supervisão de produção: Ricardo Bonilla (Espanha), Vittorio Noia. Gerente de produção: Mario Mariani. Assistente de gerente de produção: Roberto Onorati. Assistentes de direção: Mariano Canales (Espanha), Carlo Moscovini. Assistente de decoração: Lorenzo Baraldi. Decoração: Enzo Bulgarelli (Itália), Jaime Pérez Cubero (Espanha). Operador de boom: Giovanni Fratarcangeli. Mixagem de som: Mario Morigi. Engenharia de som: Pietro Vesperini. Efeitos especiais: Eugenio Ascani, Pablo Pérez. Efeitos visuais: Emilio Ruiz del Rio. Dublê: Miguel Pedregosa. Fotografia de cena: Antonio Benetti. Operador de câmera: Giovanni Bergamini. Assistente de câmera: Salvatore Caruso. Assistente de figurinos: Stefano Bulgarelli. Interpretação da canção-tema: Raul Lovecchio. Diálogos em inglês: Leonardo Scavino. Instrutor de acrobacias: Giorgio Ubaldi. Tempo de exibição: 100 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1976)

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